terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Diário de um foca - I: a frustração


Quando criei este blog, o primeiro intuito foi colocar o meu dia-a-dia de descobrimentos na imprensa e no jornalismo em si. A ideia era ajudar colegas da profissão a enfrentar os primeiros passos compartilhando minhas experiências pelos lugares onde fosse passando.

Hoje, 18 de fevereiro, resolvi tentar retomar um pouco desse objetivo inicial. Claro que com o tempo e com os interesses e estados de espírito, outros assuntos vão vindo à tona - músicas e até comerciais, vídeos que acho interessante e etc. Afinal o espaço é meu e de mais ninguém.

Uma coisa que acaba ficando no ar e geralmente os professores não respondem é até quando nós, jovens jornalistas, somos considerados focas em uma redação. Apesar de ver durante os quatro anos da graduação esse termo ser comentado e até, em alguns casos, usado como forma de aterrorizar pretendentes às redações dos jornais diários, a diferenciação entre os veteranos (ou dinossauros, no bom sentido) e os novatos (focas) é bem sutil.

O que me fez escrever, hoje, sobre como é ser um foca de uma redação foi um sentimento um tanto ruim, mas que logo passa: a frustração de ter a matéria cortada. Estou há dez meses no Jornal de Limeira e passo agora pelo segundo chefe de redação da empresa. Essa não foi a primeira vez que aconteceu isso, mas como estava há tempos sem escrever aqui no blog resolvi contar a situação.

Apurar, presenciar e acima de tudo isso escrever as notícias para o jornal tem se tornado as atividades mais prazerosas que faço ultimamente. Juntar as informações de diferentes fontes, organizá-las em uma ordem lógica para apresentar aos leitores do veículo é muito gostoso e fascinante. É uma responsabilidade grande saber levar essa informação até milhares de pessoas que não presenciaram o fato ou nem estão por dentro do assunto e se interessam a partir da notícia que você redigiu.

O problema é quando essa sensação boa de sentir os dedos no teclado e o texto da notícia sendo criada no computador fica empolgante demais. Um dos problemas que mais lido na minha rotina é justamente essa empolgação, o que acaba me fazendo escrever demais.

Maldito espaço que corta nosso barato
Quando o texto vem saindo todo ordenado, bonitinho, com algumas pausas para consultas no cardeno para averiguar a palavra que determinada fonte usou em sua declaração, não dá vontade de parar mais.

No Jornal onde trabalho costumamos contar as notícias através dos caracteres. Um programa que funciona na plataforma DOS chamado Ortos permite fazer essa contagem. Esse recurso também está disponível no Word, do Pacote Office, mas nesse programa, que tem cara de antiquado, é só apertar a tecla F4 que a informação está ali, na sua frente.

Em média, uma notícia usada como abre* de uma página tem cerca de dois mil caracteres - um pouco mais, um pouco menos. Claro que todo repórter tem que ter aquele poder de síntese. Escolher quais são as informações mais importantes e hierarquizá-las de forma que o leitor se intere do assunto da forma mais rápida e obetiva possível. Mas e a vontade de contar tudo o que aconteceu? Esse embalo do texto e da digitação me faz escrever matérias de quatro mil caracteres. Se não me engano meu récorde até hoje foi de oito mil - uma matéria sobre um pedinte do Centro de Limeira.

Quando o assunto dá pano pra manga, ótimo. Se a notícia for fria então, melhor ainda. Uma reportagem? Nem se fala. Dá vontade de não parar mais de escrever, principalmente quando o texto começa a enveredar na literatura utilizando alguns recursos do jornalismo literário. Ou quando a área ou editoria da matéria nos interessa.

Mas ai vem o maldito vilão desse jornalismo diário: o espaço. Chega a desanimar quando pensamos que uma página do jornal não é só sua. Por mais anúncios que ela possa ter, as vezes até mais que um terço de todo o espaço diagramado, nem sempre só uma notícia preenche o vazio deixado pelos anunciantes. Isso é triste...

Dá vontade de fechar uma única página com três matérias sobre o mesmo assunto. Esses dias, quando a multinacional ArvinMeritor, de Limeira, atendeu a imprensa para falar sobre as demissões que havia feito, acabei fazendo três matérias sobre o assunto. Uma de abre com quatro mil caracteres relatando o encontro e a posição da empresa; e duas "menores", com dois mil cada, falando sobre o nível de emprego que caiu na cidade e a entrevista de um professor de Ciências Políticas sobre o caso.

Dei uma espiada na diagramação e vi uma página quase limpa. O anúncio que tinha ali era até pequeno e pelas minhas contas as três matérias iriam encaixar certinho, todas na mesma página. Mas... não existe somente as minhas matérias. O jornal ainda conta com mais repórteres e aquele dia, não era só a empresa que era notícia. O que acontece? O texto de quatro mil se transforma em dois e meio, e as outras matérias acabam indo para a gaveta. Isso é natural, mas chato de lidar.

O jornal não tem tantas páginas quanto gostaríamos que tivesse e, geralmente, nem tantos anúncios quanto a parte comercial também desejaria.

Essa é a frustração que percebi que nós focas temor que aprender a lidar. Não todos. Conheço algumas pessoas que para escrever 1.500 caracteres choram mais que no enterro do cachorro. Dependendo do assunto, quando é aquelas pautas que você prefiria passar longe (tema para uma próxima edição desse diário), é realmente complicado escrever algo considerável - mas até para isso há caminhos interessantes (tema de um próximo post também).

É amigo foca, se você vai trabalhar num jornal diário, já se prepare para enfrentar a serra elétrica do editor. A nossa vontade de escrever "livros" sobre cada matéria que nos cai nas mãos é rapidamente cortada, ou serrada, ou estripada, para tranformar as notícias em pequenas notas do canto da página.


\o/ Ainda bem que aqui, ninguém vai cortar meu texto!!!! \o/ (risos)

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* a matéria de abre, como o nome diz, é a que abre uma página. No Jornal de Limeira essas matérias têm mais elementos gráficos, entre eles a linhafina e na maior parte dos casos acompanha foto.

Um comentário:

Rodrigo Piscitelli disse...

Interessante essa análise. Na TV, onde estou agora, a limitação espacial dá lugar à temporal. Mais grave que isso, porém, é o que me escreveu uma amiga: "a descoberta inevitável de que jornalismo é rotina, e não arte da palavra - ao menos no ´mercadão´".