sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Gilmore Girls e a crise dos jornalistas



Para este texto eu precisei preparar um café. Liguei o computador e posicionei o copo térmico bem ao seu lado. Eu sei exatamente o que quero escrever. Na verdade é o que eu “preciso” escrever. Uma pesquisa rápida para confirmar algumas informações e está tudo pronto. Este texto é sobre Rory Gilmore. É também uma crítica ao “revival” do seriado Gilmore Girls que entrou na grade da Netflix hoje, dia 25 de novembro de 2016.

Os primeiros anos de Gilmore Girls
Não é possível existir outra palavra que se encaixe melhor em uma hashtag do Twitter que “revival” (#GilmoreGirlsRevival). Stars Hollow (Estados Unidos), a cidade da ficção onde tudo acontece, não mudou. Os personagens, e também os atores, não mudaram. Se há alguma decoração, alguma casa ou qualquer coisa que está diferente das temporadas originais do seriado (lançado em 2000), são apenas detalhes. É literalmente um “revival”. Assistir à nova temporada, que recebeu o nome de “Gilmore Girls: A year in the life”, é voltar no tempo e sufocar as saudades daqueles personagens que marcaram tanto uma geração (a minha, pelo menos).

Não lembro a data exata de quando assisti ao seriado pela primeira vez. No começo da década de 2000 ele era transmitido no Brasil por um canal de TV aberto (SBT, eu acho). O fato é que já naquele momento houve uma identificação minha muito forte com uma das personagens principais, a Rory Gilmore. Ela lia compulsivamente; eu lia muito, mas jamais poderia me comparar à ela. Lembro que cheguei a ficar deprimido enquanto assistia à série por pensar que eu não tinha lido nem metade dos livros que ela lera até e a partir dos 16 anos. Ela e sua mãe eram viciadas em café; ela e sua mãe me viciaram em café. Inclusive faço uma pausa para tomar um gole.



Rory resolveu cursar Jornalismo; eu cursei Jornalismo. Acredito que foi exatamente nos anos que eu estava nessa minha primeira faculdade (entre 2005 e 2008) que acompanhei mais de perto a história da personagem. Como ela, eu era entusiasmado com a profissão e o estudo dela. Queria escrever histórias, entrevistar pessoas, noticiar fatos para leitores... Queria viajar para outras cidades, para outros países; ser correspondente internacional, acompanhar uma disputa presidencial... Trabalhei na área, assim como Rory, e a paixão só aumentou. Eu, diferente de Rory, continuei a estudar. Fiz uma nova graduação em Ciência Econômicas para me enveredar no jornalismo especializado; fiz um mestrado em Divulgação Científica e Cultural também com o mesmo propósito.

Dez anos depois (o primeiro episódio da última temporada foi ao ar dia 26 de setembro de 2006) a Netflix resolve produzir esse “revival”. Dividido em quatro episódios, um para cada estação do ano, a escritora e produtora executiva Amy-Sherman Palladino trouxe o universo todo de volta para os fãs e mostrou como está Rory Gilmore, agora com 32 anos. Foi exatamente a condição atual dela e a forte identificação com minha realidade que motivou este texto.



A melhor aluna de seu curso em Yale, Rory tinha um futuro promissor; não fui o melhor aluno de minha turma, mas me destaquei em alguns pontos. Contudo, ao se formar, a personagem se viu desempregada. Ela até recebeu ofertas de emprego aqui e ali, mas não conseguiu uma vaga em um curso promovido pelo New York Times. Quando tentou recorrer às outras ofertas que recebera, as vagas já estavam preenchidas e Rory se viu desamparada. Minha situação, quando me formei, era um pouco diferente: eu tinha emprego, trabalhava no Jornal de Limeira (praticamente a Gazeta de Stars Hollow), mas também não consegui uma vaga no curso do jornal O Estado de S. Paulo, que na época tinha muito prestígio, assim como o do NYT tinha para Rory.

O parágrafo acima resume a 7ª temporada, a última disponível até ontem. No revival, no entanto, não é mencionado todos os passos de Rory nos dez anos que se passaram – claro, até porque não daria tempo. Contudo, sabemos que ela não voltou a estudar; não fez mestrado e nem especialização. Dividia sua rotina entre Londres e Stars Hollow – além de outras cidades nas quais suas caixas de roupas estavam espalhadas.

Eu, claramente não tive essa “sorte” em relação à rotina. Fiquei dividido entre Campinas e Limeira, cidades do interior de São Paulo. Saí do jornal que trabalhava em 2010 para fazer cursinho pré-vestibular e encarar a nova graduação. Em Campinas, morei em três apartamentos diferentes. Não tive caixas de roupas e pertences espalhadas em diversas casas, mas empacotei e desempacotei meus livros e outras coisas nas mudanças. Não voltei a trabalhar na área de jornalismo, mas não foi por falta de interesse, mas sim por falta de vagas no mercado de trabalho.

Um mix de crises: 30 anos e jornalismo
Apesar destes detalhes, a maior identificação com a personagem se deu por causa de sua situação profissional atual: desempregada e sem perspectivas paupáveis. A nova temporada conseguiu mostrar a situação de inúmeros jornalistas brasileiros. Não sei se profissinais norte americanos passam pelo mesmo problema e nem se Amy-Sherman Palladino teve a real intenção de abordar essa questão.

O fato concreto, no entanto, é que não há emprego. O jornalismo passa por uma crise há anos e ela se acentuou nestes últimos. Diversos jornais grandes, e principalmente os pequenos, demitiram vários profissionais ou fecharam as portas – o Jornal de Limeira onde trabalhei, por exemplo, não existe mais. Alguns veículos estão se aproximando cada vez mais de seus leitores e transformando eles em colaboradores de conteúdos – o que pode significar mais perdas para o mercado de trabalho de jornalistas. Não precisamos sequer de diploma para exercer a profissão! E, além disso, fica clara a de Marx que diz, em outras palavras, que quem tem um osso não vai largar jamais; enquanto isso, os cachorros famintos se viram como podem com as sobras (1).

Rory trabalha como freelancer na nova temporada, é, portanto, um desses cachorros trabalhando com sobras. Ela tenta apresentar seus textos para um veículo famoso e até propõe escrever de graça só para mostrar sua capacidade, mas não consegue emprego de jeito nenhum. A personagem também tenta escrever um livro com/sobre uma figura emblemática que aparece na nova série – seria praticamente um trabalho de ghostwriter. Essa empreitada também não dá certo. Rory recorre, então, a um site que a perseguia há tempos para tê-la na equipe. Adivinhe? Não dá certo, claro.

Depois de todas as empreitadas fracassadas, Rory volta para a casa de sua mãe. Com 32 anos, ela se recusa a fazer parte de um grupo de jovens adultos de Stars Hollow, todos na faixa dos 30 anos, morando com os pais e todos desempregados. Mais uma realidade atual e cada vez mais comum retratada pela escritora? Bem provável.

Não vou contar o que Rory decide fazer e qual o fim da personagem nesta nova série. No entanto, os fatos apresentados por Amy-Sherman Palladino e encarnados por Rory são muito reais. Eles mostram a crise do jornalismo e a crise dos 30 anos de forma clara, porém eufemisado com o doce encanto de Stars Hollow. Para os e as demais jornalistas que estão desempregados e não têm nenhuma perspectiva de emprego no Brasil, recomendo a série. Mas atenção: não vale assistir apenas esse “revival”! Acompanhar a história inteira de Rory Gilmore é essencial para entender as crises pelas quais a personagem passa.

Como mencionado, o ponto mais evidente dos quatro episódios novos é a situação da profissional. Quantos jornalistas não trabalham como freelancer atualmente? Quantos não se sujeitam a receber muito menos que o piso salarial da categoria para trabalhar 44 horas semanais? Em todas essas questões, vale observar, está a qualidade da informação. Praticamente com uma lógica de produção just-in-time, os profissionais com emprego fixo se apropriam da informação e na mesma hora precisam produzir suas notícias. Um ritmo acelerado pela internet e pela competição para um mercado cada vez mais restrito de leitores ainda conscientes da necessidade de atualização. Ainda mais restrito no caso de áreas especializadas, como o jornalismo econômico. Neste caso, a notícia, além de ser publicada de forma rápida e, algumas vezes, sem contextualização nenhuma, dialogam apenas com aqueles que entendem o vabulário da área – o que exclui a grande massa.

Vou cumprir minha promessa de não falar qual o fim que a escritora da série deu para Rory Gilmore. No entanto, adianto que ela não segue na profissão de jornalista. Assim como muitos profissionais da área, a necessiade fala mais alto e qualquer emprego é emprego. Os sonhos de escrever história, de informar e de formar leitores, fica apagado por um mercado que se aproveita da fragilidade da categoria para pagar menos, receber mais trabalho e aumentar cada vez mais a massa de jornalistas desempregados.

Fica, portanto, uma sugestão de entretenimento e reflexão sobre o mercado de trabalho para jornalistas!




(1) Marx traçou um esquema muito pertinente e que nunca vai perder sua atualidade no livro O Capital. Segundo ele, o capitalismo gera uma massa de desempregados que é extremamente útil para o sistema. Aqueles que estão empregados (os cachorros com ossos), além de não abrirem mão de suas vagas, se sujeitam a uma exploração cada vez maior para se manter no emprego. Estes são pressionados pelos desempregados que aceitam qualquer oportunidade e qualquer salário para ter um emprego formal. A pressão vem dos dois lados: os empregados pressionam para ficar e impedem que vagas sejam criadas por aceitarem horas excessivas de trabalho; os desemprados pressionam para entrar, aceitando trabalhar quantas horas forem necessárias. Um dos efeitos positivos para o capitalismo é a diminuição do salário, que fica cada vez menor quando comparado ao esforço e ao lucro que os empregados proporcionam aos patrões.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Canal novo!! Marca páginas já está no YouTube para falar de "Terra Sonâmbula" do Mia Couto

Este ano entrei em uma nova-velha empreitada: mais um vestibular e (se der tudo certo) mais uma graduação. Desta vez escolhi cursar Letras para seguir meu objetivo de ser professor. Apesar das graduações em Jornalismo e Economia e do mestrado pelo Labjor da Unicamp, ainda não consegui chegar até uma sala de aula. Sendo assim, por que não adotar uma outra estratégia, não é mesmo?

Pois bem, o que é o Marca Páginas? É e será um canal para falar sobre livros. Vou tentar cumprir também com um objetivo pessoal de "desmistificar" a economia por meio deste canal, mas ainda vou pensar bem na estrutura para tornar o projeto bem redondo.

A história do canal, bem resumida, é a seguinte: estudando para o vestibular li Terra Sonâmbula do Mia Couto. Fiquei mais que apaixonado pelo livro e queria falar pra todo mundo sobre esse livro incrível. Fui procurar informações sobre ele no YouTube e encontrei o canal da Tatiana Feltrin. O canal dela é antigo já, mas não o conhecia. Por gostar muito do jeito dela e por precisar falar sobre o livro do Mia Couto, resolvi criar o Marca Páginas.

Com o tempo o canal vai adquirir sua forma e linguagem próprias. Projetos não faltam e quem sabe não consigo retomar este blog abandonado para fazer um mix entre textos, leituras e vídeos?

Então, apresento a todas e todos, meu canal Marca Páginas:


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Vida e tecnologia - uma "resenha" pra quem assistiu à Black Mirror



Black Mirror é uma série inglesa na forma de uma antologia que "mostra o lado negro da vida e da tecnologia", segundo a descrição do IMDB. Por ser uma "coleção de textos em prosa organizados segundo tema", como é definido uma antologia, tudo gira em torno da tecnologia e seu papel hipotético (senão atual e real) na vida humana.

Como se fossem fábulas, as séries traçam algumas "morais", e cuidado aqui para os spoilers, mas as conclusões abaixo só farão sentido para quem assistiu à série.

Com ela é possível ver o quanto a política é suja (season 01 episode 01; s02e03 e s03e06) e que muitas vezes está acima de valores aclamados por seus praticantes como a família  (s01e01) e/ou a vida, neste revelando um individualismo supremo e o "cada um por si" (s03e06).

Também é possível refletir sobre o quanto as memórias podem ajudar (s02e01) ou atrapalhar (s01e03) um relacionamento; ou como somos reféns da mídia com seu entretenimento alienador repleto de propagandas (s01e02), sua manipulação política (s02e03) e sua busca por audiência (s01e01). Temos esperança de que todo crime (pode) pode ter punição à sua altura (s02e02 e s02e04) e que a valorizada "privacidade" virtual (se é que ela existe) pode ser uma desculpa até que te peguem com "a mão na massa" (s03e03).

Somos questionados se a realidade virtual pode ajudar a levar a mente para um mundo bom (s03e04) ou para uma área medonha muito bem escondida em seu cérebro (s03e02). Neste mundo "hipotético" você pode ter popularidade, sem liberdade de expressão (s03e01) ou pode se expressar (escondendo-se atrás da tela do computador) e enfrentar o preço de sua liberdade (s03e06). E falando em liberdade, o que você enxerga, é o que você precisa ver (s03e05)? Seriam os judeus, portanto, baratas?

E, por fim, a internet, as redes sociais e a tecnologia? Ah... a internet, as redes sociais e a tecnologia (Black Mirror).

sábado, 11 de abril de 2015

Só para deixar registrado: como rastrear um aparelho com sistema Android

Perdi o celular recentemente e uma amiga me mostrou dois sites para rastrear meu celular. Infelizmente, no meu caso, a pessoa que o achou agiu de ma fé e desligou o aparelho, mas se ele estiver ligado ainda você consegue encontrar muito fácil com estes dois sites:

https://maps.google.com/locationhistory/b/0

https://www.google.com/android/devicemanager

sábado, 28 de março de 2015

Mídia e religião: o pastor e sua bandeira homofóbica


Zapeando pelos canais da TV aberta, acabei tendo a infelicidade de descobrir que o Pastor Malafaia tem um programa ao meio dia na Band. Bem na hora que cai nesse canal ele estava se posicionando contra um projeto que permite que crianças com identidade de gênero diferentes do sexo (meninos que se vestem de meninas e vice-versa) possam usar o banheiro com os quais se identificam nas escolas.

Além de este "mensageiro da palavra de Deus" se posicionar contra o tal projeto, ele ainda usou algumas palavras que me ofenderam muito. Disse que a família brasileira precisa ser forte e "ensinar o menino a ser homem e a menina a ser mulher"; que isso é uma "aberração", uma "pouca vergonha"; e que este modelo de família é uma "família fracassada".

Queria muito entender uma coisa: quem ensina o caminho da felicidade às crianças? Os pais ou a igreja? Uma contradição MUITO GRANDE nas palavras desse pastor é chamar o Estado de impositor enquanto ele mesmo assume esse papel ao dizer o que deve ou não ser feito na criação dos filhos. Quem é ditador? O Estado que está garantindo um direito ou a Igreja que está impondo um preconceito??????????

E outra contradição maior ainda: ele diz que temos o direito de ser homossexuais, que não se opõe a isso. HEIN???? É a retórica do morde e assopra! Primeiro ele diz isso para "ficar registrado", depois profere todas as ofensas que, minimamente, relatei aqui. O Deus dele é amor ou confusão?

sexta-feira, 6 de março de 2015

Destaques desta sexta-feira, 6 de março

* O Estado de S. Paulo

O jornal Estadão deu destaque na sua capa de hoje (sexta, 6 de março) para a nova subida do dólar:

Já no caderno de Economia e Negócios, o destaque da primeira página foi para a notícia da Petrobrás:

> "Petrobrás pode cortar pela metade encomenda de 28 sondas à Sete Brasil: Sem dinheiro em caixa e com dificuldades para levantar financiamento, após ser envolvida em denúncias da Lava Jato, Sete Brasil não tem conseguido viabilizar os contratos assinados com a Petrobrás; governo estuda formas de tentar destravar o crédito para a empresa" (p. B1)
A notícia é mais um desdobramento da operação Lava Jato, tão comentada nos últimos dias. Contudo, vale ressaltar que a informação se refere à uma possibilidade (detalhe para o uso do verbo "poder" no título) e não um corte já definido pela Petrobrás.
Outro detalhe: o título diz que a estatal poderá "cortar pela metade encomenda", contudo, o lide da notícia apresenta uma versão ligeiramente diferente: "(...) A decisão sobre o tamanho do corte no portfólio ainda não foi fechada, mas o 'Broadcast', serviço em tempo real da 'Agência Estado', apurou que deve atingir quase metade da encomenda original" [negrito nosso]. Vale outra pergunta: qual a real credibilidade dessa apuração? Ontem coloquei no facebook a imagem abaixo comparando como o Estadão e a Folha cobriram uma decisão de Rodrigo Janot. Sendo tão imparcial assim, a notícia não poderia ser tendenciosa e a informação inexata a ponto de interferir no desempenho das ações da Petrobrás na Bolsa de Valores?


Outras notícias do Estado de S. Paulo de hoje (6/3/15):

> "Schahin Petróleo e Gás precisa de US$ 1 bilhão: Relatório de consultoria, encomendado pela própria Schahin, revela as dificuldades de caixa na empresa" (p. B1)

> "Odebrecht é citada na Itália em caso de corrupção: Empresa está em investigação que envolve pagamento de propina para obra no Panamá" (p. B3)

> "Caixa e BB também dificultam crédito, dizem empreiteiras: Construtoras com falta de recursos por causa de atrasos em pagamentos do governo reclamam dos bancos oficiais" (p. B3)

> "Índice de Preços ao Produtor tem deflação de 0,13%" (p. B3 numa notinha minúscula de quatro colunas escondida no final da página)

> "Montadoras demitem 1.846 em fevereiro: Indústria automobilística emprega 142,3 mil pessoas no País, o menor contingente desde maio de 2011; estoque é de 329 mil veículos" (p. B4)
Com dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a notícia ainda informa que nos dois primeiros meses do ano "foram eliminadas 2,2 mil vagas"; "no bimestre, a produção teve queda de 22% na comparação com igual período de 2014"; "O executivo [presidente da Anfavea, Luiz Moran] credita o atual cenário a fatores como perda da confiança dos consumidores, medidas de ajuste econômico, efeitos da alta do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em janeiro, crédito escasso e mais caro, além do menor número de dias úteis em fevereiro, por causa do carnaval."
- Ai ficam algumas questões: sim, a indústria automobilística emprega muito, isso é fato. Mas pra quê dar tanta ênfase nas mudanças nos estoques sendo que nossas ruas já estão sobrecarregadas por demais com um passageiro por veículo nas grandes cidades brasileiras? Além disso, porque não questionar o fato de o Brasil ter escolhido um bem de consumo como motor da indústria em detrimento de indústrias de bens de capital? Ok, pode ser tarde para um questionamento como este, mas então deveria ser feito um debate para verificar a possibilidade de uma política industrial abra espaço para setores chave para nossa economia. Afinal, até quando a indústria automobilística vai continuar registrando lucros e recordes de vendas e nossas ruas se entupindo cada dia mais?

> "Números de dissídios coletivos cresce 23% no TRT de São Paulo: Situação econômica provocou aumento; total subiu de 179 em 2013 ara 220 em 2014 e casos de greve são maioria" (p. B4)

> "Redes de varejo falam em cortar investimentos: Empresas reagem à redução da desoneração; Grupo Guararapes diz que sua alta de custos chega a R$ 60 milhões" (p. B4)

> "Governo tenta convencer S&P de que ajuste dará resultado: Missão da agência voltou a se reunir ontem com autoridades em Brasília para colher informações sobre a situação do País" (p. B4) - é a economia brasileira nas mãos do capital financeiro internacional!

> "Dólar volta a subir e fecha acima dos R$ 3: Com influência da crise política e a aparente disposição do BC de intervir menos no mercado, moeda atingiu maior patamar desde agosto de 2004" (p. B5)

> "Poupança registra maior saída de recursos da história: saques superaram os depósitos em R$ 6,26 bi em fevereiro, o segundo mês consecutivo com resultado negativo" (p. B5)


Notícias do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDCI) desta sexta-feira, 6 de março

Camex prorroga redução de imposto para importação de metanol

Alteração será por doze meses, a partir de 4 de abril

Brasília (6 de março) – Com o objetivo de garantir o atendimento da demanda, uma vez que a produção nacional é insuficiente para o abastecimento do mercado interno, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), presidida pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), decidiu prorrogar a redução do Imposto de Importação do metanol.  Assim, a redução tarifária atualmente em vigor, de 12% para 0%, será prorrogada para os desembaraços aduaneiros a serem efetuados a partir do dia 04/04/2015. A medida permanecerá em vigor pelo período de 12 meses, como estabelece a Resolução Camex nº13, publicada hoje no Diário Oficial da União. A compra externa sem pagamento de imposto está limitada a uma cota de 600 mil toneladas.

A redução tarifária foi prorrogada por meio da permanência do produto, classificado no código 2905.11.00 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), na Lista Brasileira de Exceções à Tarifa Externa Comum (Letec).

O metanol é matéria-prima de quase todo biodiesel fabricado no Brasil. Também é utilizado pela indústria como insumo para produção de formol e seus derivados, resinas e aditivos, entre outras aplicações.


Camex aprova novos incentivos para investimentos na indústria

Lista completa dos 289 ex-tarifários integra as Resoluções Camex 11 e 12 publicadas hoje

Brasília (6 de março) - Foram publicadas hoje duas novas Resoluções Camex com redução do Imposto de Importação para 289 máquinas e equipamentos industriais sem produção no Brasil. A Resolução Camex nº12 traz 262 ex-tarifários para bens de capital (187 novos e 75 renovações) com imposto reduzido de 14% para 2% até 30 de junho de 2016.

Já a Resolução Camex n°11 estabelece a alteração de alíquotas de até 16% para 2%. A medida é válida para 27 bens de informática e telecomunicações (15 novos e 12 renovações) até 31 de dezembro de 2015.

Os investimentos globais e os investimentos relativos às importações dos equipamentos, vinculados aos 289 ex-tarifários aprovados, são, respectivamente, de US$ 2,012 bilhões e US$ 416 milhões.

Os principais setores beneficiados, em relação aos investimentos globais foram os de construção civil (36,48%); o ferroviário (22,72%); e o siderúrgico (11,09%). Entre os projetos beneficiados estão a implantação de linhas de metrô, fabricação de trens e instalação de fábricas para fornecimento de clorato de sódio e de oxigênio gasoso.

Em relação aos países de origem das importações, destacam-se os Estados Unidos (19,47%); o Japão (15,11%); a Alemanha (13,96%); e a França (10,35%).

O que são ex-tarifários

O regime de ex-tarifários visa estimular os investimentos para ampliação e reestruturação do setor produtivo nacional de bens e serviços, por meio da redução temporária do Imposto de Importação de bens de capital e bens de informática e telecomunicações sem produção no Brasil. Cabe ao Comitê de Análise de ex-tarifários (Caex) verificar a inexistência de produção nacional e o mérito dos pleitos tendo em vista os objetivos pretendidos, os investimentos envolvidos e as políticas governamentais de desenvolvimento. As fabricantes brasileiras de máquinas e equipamentos industriais também participam do processo de análise de produção nacional.


quinta-feira, 5 de março de 2015

Destaques de quinta-feira, 5 de março de 2015

Ontem o Comitê de Política Monetária resolveu elevar a Selic em 0,50 ponto percentural e eleva a taxa para 12,75% ao ano.

Nota do Banco Central enviada à imprensa sobre a 189ª reunião:

Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,75% a.a., sem viés.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Alexandre Antonio Tombini (Presidente), Aldo Luiz Mendes, Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Luiz Awazu Pereira da Silva, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques.

Repercussão nos jornais:

* Estado de S. Paulo

Na capa:
E no caderno de Economia e Negócios:



Outros destaques do Estado de S. Paulo:

"Em manifesto, indústria e sindicatos se unem por mudanças na economia", na primeira página do caderno de Economia e Negócios (p. B1)

Entidades patronais e sindicais se uniram para preparar o documento "Manifesto da Coalizão Capital-Trabalho para a Competitividade e o Desenvolvimento". Ao todo, 39 entidades, entre elas Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical e Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) assinam o manifesto que será entregue à Presidência da República, ao Congresso e aos governadores.

Trecho da notícia: "'Indústria destruída'. O documento cobra medidas para ajudar a indústria. 'A competitividade da indústria de transformação nacional está sendo destruída', dizem as entidades, que listam quatro eixos para o ataque: os juros elevados (que continuam aumentando), o câmbio ainda valorizado, a carga tributária que também está em elevação pelo governo e a cumulatividade de impostos."

A notícia ainda comenta que houve aumento de impostos sobre o crédito ao consumidor e sobre o combustível em janeiro,  elevamento dos tributos sobre o faturamento das empresas e "industriais e sindicalistas apontam o dedo, de forma indireta, para a proposta de apertar benefícios trabalhistas, como o seguro-desemprego".

Questões:
> A notícia não cita o porquê da união entre sindicatos e patrões. A lógica manda dizer que seria porque a situação brasileira está difícil para os dois lados e que os aumentos para a indústria poderia gerar cortes de vagas de emprego. Porém, também seria questionável o quanto esses sindicatos são "patronais" no Brasil e esta seria uma clara amostra de como eles andam de mãos dadas por aqui.
> Outro ponto seria o propósito dos aumentos das variáveis citadas como os impostos, juros e câmbio. O real desvalorizado beneficia o setor exportador, isso foi pauta de vários noticiários televisivos na quarta-feira (vi a notícia pelo menos na TV Cultura, SBT e Band), então a questão do emprego não seria um problema nestes setores, seria? Outra questão são os impostos, estão sendo elevados para os patrões, em especial. Sendo assim, por que eles estão sendo elevados? Seria para garantir os programas sociais em detrimento do lucro dessa classe?

Outra notícia, logo abaixo deste destaque da primeira página: "Produção industrial registra aumento de 2% em janeiro". A informação foi dada ontem, quarta-feira, pelo IBGE referente as diferenças de produção entre dezembro de 2014 e janeiro deste ano. Há uma ressalva na notícia logo no primeiro parágrafo: "Mas o resultado positivo não é suficiente para recuperar as perdas anteriores nem reverte a tendência negativa apresentada pelo setor , observou o" IBGE.  A Notícia repercute a fala de um funcionário do IBGE e de mais três economistas de consultorias e agência de seguro. Nenhum deles, no entanto, fala sobre o resultado positivo no setor de máquinas e equipamentos, além da metalurgia. Destacam, sim, que o setor de montadoras de caminhões registrou aumento por conta da volta das férias coletivas nas empresas. Contudo, onde estaria a análise de um aumento nestes setores citados, uma vez que eles são "termômetros" para o restante da economia? No site do Estadão é também possível ler a notícia.

Outras notícias do Estado:
"Petrobrás eleva desemprego no País: Problemas que atingem a estatal após Operação Lava Jato influenciaram 10% dos 81,7 mil empregos perdidos no País em janeiro" (p. B3, também disponível no site do jornal: AQUI)
"Metalúrgicos de estaleiros fazem protesto no Rio" (p. B3)
"Captação da estatal deve ter aval da União" (p. B3)
"Aumento do etanol na gasolina vale a partir de 16 de março: Mistura passará dos atuais 25% para 27%; medida deve significar o consumo extra de 1 bilhão de litros de etanol" (p. B3 e também no site: AQUI)

"Cenário político faz dólar beirar os R$ 3: Embate entre o Senado e o Poder Executivo elevou a moeda americana em 2,06% a R$ 2,979, maior valor desde 19 de agosto de 2004" (p. B5) Essa matéria fornece duas explicações para o aumento do dólar: embora admitam que a moeda norte-americana esteja sendo cotada mais cara em outros países emergentes e até que esteja ganhando valor sobre o euro, a questão política brasileira se sobressaiu. A causa dessa última explicação é que o mercado vê dificuldades para o Poder Executivo impor o pacote de ajuste fiscal, principalmente depois que o presidente do Senado, Renan Calheiros, ter devolvido a medida provisória enviada à casa, na terça-feira. Comentário: pra quê focar no cenário internacional quando bater no governo é tão... saboroso?
"Dólar alto ainda não beneficia exportadores" (p. B5)
"'Estamos num atoleiro fiscal e cambial': Na avaliação de Blanche, diante da volatilidade e do nível de incerteza, é difícil projetar o rumo do câmbio" (p. B5)


"Analistas já preveem inflação a 8%: Por causa dos aumentos extraordinários da tarifa de energia, na casa de 50%, consultorias revisaram para cima projeção do IPCA" (p. B6)
"Comércio e serviços planejam demissões nos próximos meses" (p. B6)

"Governo prepara leilão da folha dos servidores públicos: Equipe econômica também estuda a licitação da administração dos recursos do FPE e do FPM; no total, receitas podem chegar a R$ 5 bi" (p. B7)

"Governo atrasa pagamentos do PAC: Sem recursos, repasses às construtoras são feitos com uma média de 75 dias de atraso, o que está provocando desaceleração nas obras"

Negócios: "Brasil perde para México posto de maior produtor de veículos da América Latina: Produção brasileira recuou 15,3% em 2014, o que fez o País registrar o pior resultado entre os dez principais produtores do mundo; se projeção de queda de 10% nas vendas se confirmar, Brasil pode ceder para a Alemanha a posição de quarto maior mercado" (p. B11)
"Gerdau vai investir 17,4% a menos em 2015: Esse é o terceiro ano consecutivo em que a siderúrgica gaúcha reduz investimentos" (p. B13)

* Folha de S.Paulo

"Incerteza sobre pacote fiscal leva dólar ao patamar de R$ 3: Moeda fecha a R$ 2,978; US$ 3,33 bi deixaram o país no final de fevereiro". (p. B1)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

10 dicas para organização de um trabalho acadêmico


Escrevi essas dicas para minha turma de Ciências Econômicas na Unicamp. Depois de duas monografias (de jornalismo e de economia) feitas e a dissertação a caminho, fui juntando algumas dicas pessoais que pode ajudar algumas pessoas.

Mas, antes de mais nada, a dica ZERO e mais importante: leia "Como se faz uma tese" de Umberto Eco (link para Livraria Cultura). Esse livro é simples e pequeno, mas genial. Embora ele fale de algumas práticas da Itália, tem dicas valiosíssimas para qualquer pessoa que quer escrever uma monografia (por obrigação do curso ou paixão), dissertação ou mesmo uma tese.


Agora as demais dicas:

1) Não deixe para última hora! "Um dia sem escrever sua mono/dissert/tese, resulta em trabalho triplo no futuro", segundo Marcelo Knobel, professor da Unicamp. Nem que seja para fichar uma página de um livro num dia, outra no outro, mas façam alguma coisa;


2) Post-its coloridos ajudam muito. Aqueles que têm formato de seta são ótimos para marcar mais de um assunto em um livro. Na primeira página, cole um de cada cor e escreva temas específicos que precisa pesquisar ou os nomes dos seus capítulos. Ao longo do livro vá colando esses post-its e fazendo pequenas anotações. Quando tiver vários livros fichados fica mais fácil de relacionar os temas entre autores diferentes;
3) Não deixe de conversar com seu orientador!!! Mesmo que ele não marque reuniões com frequência, COBRE os encontros porque eles são importantes para mantê-lo em dia e também para te "forçar" a apresentar algo com certa periodicidade (além de não deixar tudo para última hora);
4) Nem tente planejar escrever um ou mais capítulos nas férias (no caso de monografias que se dividem em disciplinas de dois semestres). Todo plano de férias fracassa, a não ser que você tenha uma disciplina militar. Prefira manter sua produção em dia ao longo do período letivo, assim dá para descansar de verdade em julho e preparar para a reta final;
5) Use o cronograma apresentado no projeto da monografia/TCC, dissertação, tese e etc. Imprima ele e cole na sua escrivaninha, no local de trabalho, contra-capa do caderno ou em qualquer lugar onde você frequenta muito e costuma estudar. Esse cronograma é essencial para que tudo saia no período certo;
6) Não faça um cronograma muito apertado. Se ainda tiver muitas disciplinas para cursar, seja realista e distribua a produção ao longo dos dois semestres. Leve em conta também os períodos de prova, horas que precisa estudar para essas outras disciplinas e não esqueça de um tempo para descansar!;
7.a) No caso específico da graduação em Ciências Econômicas da Unicamp, no meio do semestre há uma REUNIÃO DE AVALIAÇÃO com a coordenação. Esse esquema pode mudar em 2015, mas até ano passado essa reunião não passava de uma conversa com os membros da coordenação e da comissão de graduação. Eles vão ver o relatório que seu orientador preencheu e a nota parcial registrada ali e conversar para ver se você dará conta de fazer todo o trabalho naquele semestre e se já produziu algo. Até ano passado não era preciso apresentar nada nessas reuniões parciais e elas ocorrem no meio do primeiro e do segundo semestre;
7.b) Em todos os casos, é importante verificar quais são suas obrigações com a instituição de ensino ou com a instituição que te fornece bolsa de estudos (Fapesp em SP, por exemplo). No caso do mestrado, tive que fazer o exame de qualificação. Obviamente que não foi tão simples quanto o item anterior. Mas a dica importante aqui é: conheça suas obrigações, quando deve (e se deverá) apresentar algo, entregar relatórios e etc...
8) Para organizar a redação da monografia, crie uma pasta e alguns arquivos de texto: um para a introdução, um para cada capítulo do trabalho e outro para as referências. Fica mais fácil ir apresentando sua produção para seu orientador (isso se ele não impor alguma regra diferente);
9) Mantenha as Referências sempre atualizadas. Não deixe para incluir uma obra "depois" porque o depois nunca chega e o arquivo final fica sem ela. E acreditem: tem professor que olha toda a referência e vai conferir suas citações nela;
10) Não é só Jesus que salva, GDrive e Dropbox também salvam e também estão nas nuvens. Esses dois recursos têm opção de criar uma pasta no computador que mantém sua HD online atualizada. Crie as pastas da monografia nessa área e salve os arquivos todos ali. Claro que manter uma cópia de segurança num pendrive ou num outro HD ajuda, mas se seu computador pifar ou você tiver um tempo na faculdade, pode acessar seu trabalho pela internet e continuar trabalhando tranquilamente.
É isso.... espero que tenha ajudado alguém. Se sim, deixe um comentário aqui ;)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Dica mais que útil: caracteres para encontrar e substituir informações no Word

Esse post não é nem sobre Economia e nem sobre Jornalismo e Mídia, mas é MUITO útil!

Finalizando minha monografia da Economia tive vários problemas ao transformar tabelas enormes do Excel em textos do Word por conta do espaçamento e diversos errinhos que precisava corrigir. Ao pesquisar como solucionar esse problema no google achei várias dicas, mas a melhor delas foi do site da Microsoft mesmo.

Quando copiei a tabela do Excel para o word com 350 células, ao converter em texto fiquei com várias linhas em branco entre um texto e outro. Além disso, eu havia colocado numeração nas tabelas, mas resolvi tirar eles depois porque precisei cortar algumas informações e a numeração ficaria toda bagunçada.

Para o primeiro problema, o dos espaços, entrei em "Substituir" e mandei encontrar três linhas brancas usando "^l^l^l" e substitui por uma só "^l"


Para o segundo problema, foi o seguinte:


Com esse dois passos eu tirei as linhas em branco e as numerações que haviam antes de cada parágrafo! Mais prático que isso, impossível!

Espero que essa dica seja útil a mais alguém. Para tanto, segue o texto que copiei do site da Microsoft (link disponível aqui):

Observação: O caractere de interpolação (^) nas tabelas a seguir deve ser digitado. O circunflexo é criado, pressionando SHIFT + 6 na maioria dos teclados. (Não confunda esse caractere com a tecla CTRL.)

Somente na caixa "Localizar"

Os seguintes caracteres só podem ser usados na caixa Localizar . Outros caracteres que ser usado na caixa localizar o que estão listados na seção "Ambos 'Localizar' e 'Substituir por' caixas" deste artigo. 

CaractereCadeia de caracteres
^ 1 ou ^ gImagem (somente imagens embutidas)
^ 2 ^ f (rodapé), ou ^ e (nota)Referenciado automaticamente as notas de rodapé ou notas de fim
^ 5 ou ^ umMarca de anotação/comentário
^ 19 ou ^ dAbertura de campo (usar somente quando você está exibindo códigos de campo.) (Selecionar campo inteiro, não apenas a chave de abertura).
^ 21 ou ^ dFechamento de campo (usar somente quando você está exibindo códigos de campo.)(Selecionar campo inteiro, não apenas a chave de fechamento).
^?Qualquer caractere único
^#Qualquer dígito
^$Qualquer letra
^ u8195Pesquisa por valor caracteres Unicode em espaço
^ u8194Pesquisa por valor caracteres Unicode en espaço
^ bQuebra de seção
^ wEspaço em branco (espaço, o espaço não-separável, guia)
^ unnnnPesquisa de caractere Unicode do Word 2000, onde "n" é um número decimal que corresponde ao valor de caractere Unicode

Somente na caixa "Substituir"

Os seguintes caracteres só podem ser usados na caixa Substituir por . Outros caracteres que ser usada na caixa Substituir porlistados na seção "Ambos 'Localizar' e 'Substituir por' caixas" deste artigo. 

CaractereCadeia de caracteres
^ &Conteúdo da caixa "Localizar"
^ cSubstitua o conteúdo da área de transferência

"Localizar o que" e "Substituir" caixas

Os caracteres a seguir podem ser usados nas caixas Localizar e Substituir . Outros caracteres que ser usado nos Localizar caixa ou a caixa Substituir por listados na "'Localizar' caixa somente" e "' Substituir por' caixa somente" seções deste artigo. 

CaractereCadeia de caracteres
^ 9 ou ^ tGuia
^ 11 ou ^ lNova linha
^ 12Quebra de página ou seção (substitui uma quebra de seção com uma quebra de página)
^ 13 ou ^ pMarca de parágrafo/retorno de carro
^ 14 ou ^ nQuebra de coluna
?Ponto de interrogação
^-Hífen opcional
^~Hífen não separável
^^Caractere de circunflexo
^+Travessão
^=Traço
^ mQuebra de página manual
^ sEspaço não-separável
^ nnnOnde "n" é um número de caractere ASCII
^ 0nnnOnde "n" é um número de caracteres ANSI

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

domingo, 7 de dezembro de 2014

Nem sempre os conselhos funcionam... BIRD e seus relatórios

Os dois textos abaixo são resenhas feitas para a disciplina de Desenvolvimento Econômico Contemporâneo do Instituto de Economia da Unicamp. A proposta em uma parte do curso foi comparar como o discurso de algumas instituições mudaram ao longo do tempo. Começo publicando dois textos que fiz com base nos Relatórios sobre o Desenvolvimento Mundial do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), do Banco Mundial.

A comparação dos dois textos fica clara como nem todo conselho é o melhor quando não se considera que existe uma realidade além do "ceteris paribus" (expressão usada em economia para manter "tudo o mais constante"). Com isso quero tentar mostrar que, como concluímos em algumas aulas da disciplina mencionada acima, é preciso considerar muitos outros fatores além do estrito crescimento econômico. Um desses fatores é a realidade política e a integração de cada país na geopolítica internacional.

Essa questão do "conselho" fica clara quando os dois relatórios falam das privatizações. Em uma era amplamente recomendado tanto quanto aspirina. No segundo há o reconhecimento de que essa parte do receituário pode não ter sido um bom conselho como se acreditava.

Seguem as resenhas:

Fichamento: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 1991: o desafio do desenvolvimento. RJ: FGV; Banco Mundial, 1991. Visão geral.

Este relatório do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), do Banco Mundial, é o segundo de uma série de três que tratam da pobreza e do meio ambiente publicados entre 1990 e 1992. Também é o 14º documento do Banco Mundial e se compromete a dar uma “ampla visão geral da agenda desenvolvimentista” (BIRD: 1991 p. iii). No prefácio da publicação, o então presidente da instituição, Barber B. Conable diz que a década de 1990 se inicia com drásticas mudanças, se referindo a “ambiciosas reformas nos sistemas econômicos e políticos” (ibid.) Tendo em vista essa transição, Conable diz que o relatório busca fazer debates históricos que levaram os formuladores de políticas a tomarem suas decisões no passado.

Uma das lições mais valiosas refere-se à interação do Estado e do mercado no estímulo ao desenvolvimento. A experiência mostra haver mais probabilidade de êxito na promoção do desenvolvimento econômico e na redução da pobreza quando os governos complementam os mercados; conflitos entre uns e outros geram fracassos dramáticos. O Relatório descreve uma abordagem favorável aos mercados, cujo bom funcionamento é permitido pelos governos, que por sua vez concentram suas intervenções em áreas onde os mercados se mostram inadequados. (Ibid.)

Quatro aspectos principais do relacionamento entre governo e mercado são listados por Conable (In: BIRD: 1991) e discutidos ao longo do relatório:

Primeiro, o investimento na população requer atuação pública eficiente. Em geral, os mercados não são capazes, por si sós, de garantir que as pessoas, especialmente as mais pobres, disponham adequadamente de educação, atendimento médico, nutrição e acesso ao planejamento familiar. Segundo, é essencial ao êxito das empresas um contexto que lhes seja favorável – no qual se incluam concorrência, boa infra-estrutura e instituições. Concorrência estimula inovação, difusão de tecnologia e uso eficiente de recursos. Terceiro, para o desenvolvimento econômico ter sucesso, os países precisam estar integrados à economia global. A abertura aos intercâmbios internacionais de bens, serviços , capital, mão-de-obra, tecnologia e ideias estimula o crescimento econômico. Quarto, uma base macroeconômica estável é essencial ao progresso sustentado. Restaurar a confiança do setor privado é hoje um grande desafio para vários países com um longo histórico de instabilidade macroeconômica. (BIRD: 1991, p. iii) (grifos nossos)

A perspectiva para um desenvolvimento rápido nos primeiros anos da década de 1990 se fundamentava em um cenário internacional favorável a todas as economias. Como explica Conable (In: BIRD: 1991), as políticas desenvolvimentistas de países desenvolvidos se beneficia amplamente com a abertura de países em desenvolvimento tornando o mundo “cada vez mais interdependente” (p. iii). Contudo,

(...) o Relatório acentua, principalmente, que o futuro dos países em desenvolvimento a eles próprios compete. Está nas políticas e instituições nacionais a possibilidade de um desenvolvimento bem-sucedido. Se houver reformas firmes e sustentadas no nível nacional, conclui o Relatório, o ritmo do desenvolvimento pode ser bem mais acelerado – e no fim da década milhões de pessoas não viverão em condições de pobreza. (BIRD: 1991, p. iii)

Nas “Definições e notas sobre os dados” o relatório faz algumas observações sobre as classificações adotadas aos grupos de países:

·         Economias de baixa renda são aquelas com PNB per capta igual ou inferior a US$580 em 1989.
·         Economias de renda média são aquelas com PNB per capta superior a U$580, mas inferior a US$6,000 em 1989. Este grupo divide-se ainda em economias de renda média baixa e economias de renda média alta, a um PNB per capta de US$2,335 em 1989.
·         Economias de alta renda são aquelas com PNB per capta igual ou superior a US$6,00 em 1989. (BIRD: 1991, p. x)

Os dois primeiros grupos são considerados as “economias em desenvolvimento”. Contudo, o relatório ressalta que “a classificação por renda não reflete necessariamente o nível de desenvolvimento” (BIRD: 1991, p. x). Além destas classificações o relatório também trabalha com grupos analíticos. São eles: Exportadores de petróleo (como Argélia, Angola, Catar, Iraque, Nigéria, entre outros); membros da Organização Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); e o terceiro grupo são os

Países de renda média muito endividados (abreviado para “muito endividados” anos Indicadores do Desenvolvimento Mundial) são os 20 países que tiveram sérias dificuldades com o serviço da dívida. São países em que três dos quatro coeficientes-chave estão acima de níveis críticos: dívida/PNB (50%), dívida/exportações de bem e serviços (275%), serviço acumulado da dívida/exportações (30%) e juros acumulados/exportações (20%). (BIRD: 1991, p. xi)

É neste grupo no qual o Brasil pertencia naquele momento junto da Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Nicarágua, Peru, Uruguai, Venezuela e outros países africanos, europeus e asiáticos. Ou seja, dos mais de 100 países que entraram nas análises do relatório do BIRD, quase todos os países latino-americanos e poucos países dos demais continentes estão neste grupo.
A “Visão geral” do relatório aponta que mais de 1 bilhão de pessoas ainda não vivia com a renda diária de um dólar naquela época. Embora alguns países já haviam melhorados seus indicadores, a pobreza continuava a ser o problema. Contudo, o desenvolvimento é acreditado pelo relatório uma vez que “mais de 95% do aumento do contingente mundial de mão-de-obra nos próximos 25 anos ocorrerão no mundo em desenvolvimento” (BIRD: 1991, p. 1).
Experiências anteriores são a base para compreender o desenvolvimento econômico. Além disso,  a equipe do relatório afirma que

(...) a história nos mostra que as políticas econômicas e as instituições são de importância crucial – o que é animador, pois implica que os países que não prosperaram podem vir a ter melhor desempenho. Mas é também um desafio, pois obriga os governos de todo o mundo (e não somente dos países em desenvolvimento), bem como as agências multilaterais, a levarem em conta os fatores que têm promovido o desenvolvimento e coloca-los em ação. (BIRD: 1991, p. 1)

Neste trecho já fica evidente a importância que o Banco Mundial dá para as instituições além da ênfase para a necessidade de outras economias compartilharem de experiências de sucesso na história.
Estado x laissez-faire
Mercados competitivos garantem organização da produção e a distribuição de bens e serviços. Além disso, a competitividade incentiva o espírito empresarial e o progresso tecnológico. Contudo, o relatório afirma que mercados devem coexistir com o Estado. “E, em muitas outras tarefas, os mercados às vezes resultam inadequados ou fracassem completamente. É por isso que os governos devem, por exemplo, investir em infra-estrutura e oferecer serviços essenciais à população pobre” (BIRD: 1991, p. 1).

Quando os mercados podem funcionar bem e têm a liberdade de fazê-lo, o progresso econômico tende a ser substancial. Quando os mercados fracassam e os governos intervêm cautelosa e judiciosamente, ocorre um progresso adicional. Mas quando os dois se unem, os fatos indicam que o todo é mais que a soma das partes. Quando o estado e o mercado funcionam de mãos dadas, os resultados têm sido espetaculares; mas, quando trabalham em oposição, os resultados têm sido desastrosos. (BIRD: 1991, p. 2)

A economia mundial em transição

Nas décadas anteriores a 1990, o progresso tecnológico melhorou o padrão de vida em alguns países como a China e outros países asiáticos. Além disso, a mortalidade infantil diminuiu e a expectativa de vida aumentou graças a tecnologia média, saneamento ambiental, melhor alimentação e educação neste período. No entanto, o desenvolvimento necessita de paz. Como ressalta o relatório: “a causa mais importante da fome em países em desenvolvimento em anos recentes foi, sem dúvida, o conflito militar, e não a pobreza ou insuficiência de produção agrícola” (BIRD: 1991, p. 3).
Quanto ao comércio mundial, o BIRD afirma que ele cresceu a uma taxa de 6% ao ano de 1950 até aquele momento. Este crescimento foi 50% mais rápido que o da produção. Por conta destes números o relatório aponta a necessidade de um aumento geral da integração econômica entre os países.
As projeções do banco Mundial para os anos 1990 era de um crescimento na renda per capta de cerca de 2,5% ao ano nos países industrializados, contando com um cenário sem grandes choques externos adversos e se as políticas adotadas forem boas. Para que isso seja possível seria necessário uma inflação entre 3% e 4% e taxas reais de juros de cerca de 3%. Caso a expansão do comércio mundial ultrapassar 5% o crescimento da renda per capta pode ser de 3%. Quanto aos países em desenvolvimento, se forem adotadas “reformas mais vigorosas e abrangentes, a renda (...) pode, a longo prazo, aumentar em outros 1,5-2 pontos percentuais – em média, cerca do dobro do aumento provocado por melhores condições internas” (BIRD: 1991, p. 3).

Os caminhos do desenvolvimento
Desenvolvimento é melhorar a qualidade de vida. “Abrange, como fins em si mesmos, a melhoria da educação, padrões mais elevados de saúde e nutrição, menos pobreza, um meio ambiente mais limpo, maior igualdade de oportunidades, maior liberdade individual e uma vida cultural mais rica” (BIRD: 1991, p. 4).
O relatório também cita as estratégias adotadas nas décadas anteriores como substituição de importações e a tributação da agricultura para financiar o investimento industrial. Contudo, o Banco Mundial faz uma ressalva sobre este assunto:

Essas ideias não resistiram à prova do tempo. Hoje, há indícios mais claros, tanto em países industrializados quanto em países em desenvolvimento, de que é melhor não se pedir aos governos que dirijam o desenvolvimento. Quase sempre, os impostor discriminatórios contra a agricultura constituem impostos sobre o crescimento econômico. O isolamento econômico por trás de barreiras comerciais tem-se mostrado oneroso. Retardar a concorrência ou interferir nos preços, deliberada ou acidentalmente, é quase sempre contraproducente. (BIRD: 1991, p. 4)

Embora desacredite a capacidade de os Estados de conduzirem o desenvolvimento, o relatório aponta algumas atribuições aos Estados que constituem o cerne do desenvolvimento. São elas: definir e proteger os direitos de propriedade; oferecer sistemas jurídicos, judiciais e normativos eficazes; aumentar a eficiência dos serviços públicos; e proteger o meio ambiente.
O aumento na produção é, de acordo com o relatório, a soma de aumento de capital e mão-de-obra e das variações da produtividade destes dois insumos. Nos países em desenvolvimento essa variação foi muito lenta ao longo do tempo. Sendo assim, o Banco Mundial atribui ao aumento da produtividade, considerado como o motor do desenvolvimento, a diferença entre os crescimentos da produção nos diferentes países analisados. A produtividade, por sua vez está em função do progresso tecnológico que é influenciado pela “história, educação, instituições e políticas de abertura nos países em desenvolvimento e industrializados” (BIRD: 1991, p. 5). Além disso, a tecnologia é difundida pela investimento no capital físico e humano através do comércio. Sendo assim, um ambiente favorável a estes investimentos é necessário para o progresso e o relatório aponta que economias com sistemas de preços não-distorcidos é, em geral, mais propícia ao desenvolvimento.
Intervenções menores no mercado também é um ponto tratado pelo relatório. O documento analisa três pontos relacionado às economias que adotaram mais intervenção na década de 1980, como a China, Índia e Coreia: intervenções disciplinadas pela concorrência externa e interna; intervenções que não distorcessem indevidamente os preços relativos; intervenção mais moderada que em outros países em desenvolvimento. Além dos pontos embasados na experiência dos países citados, o relatório também cita outros três pontos com base na experiência de outros países e na teoria econômica:
1.      Intervir relutantemente: deixar que os mercados funcionem por si mesmos. “(...) geralmente é um erro o Estado engajar-se na produção física ou proteger a produção interna de um bem que pode ser importado a preço mais baixo e cuja produção local traz poucos benefícios secundários” (BIRD: 1991. p. 6);
2.      Aplicar controles e contramedidas: colocar a intervenção em função da disciplina dos mercados interno e internacional;
3.      Intervir abertamente: tornar a intervenção simples e transparente, além de sujeita a normas.

Elementos de uma abordagem favorável ao mercado
Dissipar as dúvidas quanto a inflação e educação como fundamento para disseminação e adoção de novas tecnologias são dois pontos que são promovidos pelas quatro áreas essenciais, aos olhos do Banco Mundial:
Desenvolvimento humano: este tópico engloba não só a educação e a renda da população como também o aumento populacional. Estes três pontos são inversamente proporcionais, ou seja, crescimento na educação e na renda faz declinar o aumento da população. Nesta seara o relatório aponta como alternativas: investimento maior na educação básica, no sistema de saúde básica e maior cuidado para que os programas públicos atinjam seus objetivos.
Economia interna: garantia de leis que protejam a propriedade, bens públicos de qualidade, investimentos em infra-estrutura, não impor restrições para abertura e fechamento de firmas, entre outras medidas que garantam, em essência, a liberdade do mercado são pontos a serem trabalhados pelas economias.
Economia internacional: “sempre que os fluxos internacionais de bens, serviços, capital, mão-de-obra e tecnologia aumentaram rapidamente, o ritmo do progresso econômico também foi rápido” (BIRD: 1991, p. 9). Abertura comercial implica em novas possibilidades de acesso a tecnologias. Esse fluxo de tecnologia se dá tanto por educação no exterior, investimento externo, assistência técnica, entre outros. Para tanto o Banco Mundial aponta necessária a redução das barreiras não-tarifárias. “Os governos dos países industrializados têm a responsabilidade – senão em relação ao mundo em desenvolvimento, pelo menos em relação a seus próprios povos – de permitir que os exportadores dos países em desenvolvimento tenham acesso aos seus mercados” (BIRD: 1991, p. 9)
Política macroeconômica: no tocante a este ponto o relatório discrimina gastos demasiados no Estado em função de um cenário macroeconômico mais favorável ao mercado. Gastos públicos geram dívidas interna e externa e empréstimos. Neste sentido, a confiança dos empresários deve ser conquistada a fim de garantir investimentos no país.

O governo pode manter uma política fiscal prudente se examinar cuidadosamente a divisão de tarefas entre o Estado e o setor privado. Isso, como afirma o Relatório, é desejável em qualquer caso. Reavaliando suas prioridades de gastos, implementando reformas fiscais, reformando o setor financeiro, privatizando as empresas estatais e lançando mão de tarifas para reaver o custo de certos serviços prestados pelo Estado, os governos podem alcançar, ao mesmo tempo, os objetivos de eficiência microeconômica e estabilidade macroeconômica. (BIRD: 1991, p. 10)


Reconsiderando o Estado
A importância de atenção às políticas ambientais e também a não-discricionariedade do governo na economia são apontados pelo relatório como responsabilidades numa revisão do papel do Estado.

Entre os enfoques do desenvolvimento, aquele que parece mais confiável e promissor sugere uma reavaliação dos respectivos papéis do mercado e do estado. Em poucas palavras, os governos precisam fazer menos naquelas áreas em que os mercados funcionam ou podem funcionar razoavelmente bem. Em muitos países, seria útil privatizar grande número de empresas estatais. Os governos devem permitir o florescimento da concorrência interna e internacional. Ao mesmo tempo, devem fazer mais naquelas áreas nas quais não se pode depender apenas dos mercados. Isso significa, acima de tudo, investir em educação, saúde, nutrição, planejamento familiar e alívio da pobreza; construir uma infra-estrutura social, física, administrativa, normativa e jurídica de melhor qualidade; mobilizar os recursos para financiar as despesas públicas; e estabelecer uma base macroeconômica estável, sem a qual pouco se consegue realizar. (BIRD: 1991, p. 10)

Referente à discricionariedade do Estado, o relatório aborda a diferença entre a economias em sistemas políticos democráticos e autoritários. Além disso, o documento aborda um “círculo vicioso de intervenções nocivas que favorecem interesses particulares e levam à busca de lucros financeiros e à ‘captura’ do Estado” (BIRD: 1991, p. 11).

A reforma deve visar as instituições. O estabelecimento de um sistema jurídico e judiciário eficaz e um firme sistema de direitos de propriedade é um complemento essencial às reformas econômicas. A reforma do setor público é uma prioridade em muitos países – inclusive a reforma do serviço público, a racionalização dos gastos governamentais, a reforma de empresas estatais e a privatização. Entre outras reformas econômicas correlatas estão um melhor fornecimento de bens públicos, supervisão bancária e normas jurídicas para o desenvolvimento financeiro. O reforço dessas instituições melhora a qualidade do governo, torna o Estado mais capaz de implementar a política do desenvolvimento e permite à sociedade estabelecer controles e contramedidas. (BIRD: 1991, p. 11).

O relatório afirma que a adoção das medidas propostas ali, se adotadas, contribuiria para uma melhor distribuição de renda a favor dos mais pobres. Aos países em desenvolvimento, é indicado uma reforma tributária para tornar o sistema progressivo, reforma agrária na China, Japão e República da Coreia.

Prioridades de ação
Os países industrializados devem: eliminar as restrições comerciais e reformar a política macroeconômica.
Em conjunto, países industrializados e as agências multilaterais devem: aumentar a ajuda financeira, apoiar reformar econômicas e estimular o crescimento sustentável.

Já aos países em desenvolvimento: investir nos recursos humanos, melhorar o clima para o empreendimento, abrir as economias ao comércio e ao investimento internacionais e corrigir a política macroeconômica.




Fichamento: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006. Washington, DC: Banco Mundial, 2006. Visão geral.

O Relatório para o Desenvolvimento Humano de 2006, de forma geral, foca na equidade e as formas como os governos devem atuar para alcança-la de maneira plena. A definição do relatório para equidade é ter oportunidades iguais para as pessoas conseguirem a vida que buscam e serem poupadas da extrema privação dos resultados.
Para ilustrar de forma mais clara o conceito, o relatório lança mão de uma narrativa comparando duas crianças nascidas na África do Sul: uma negra de família pobre e outra branca, rica. O recurso estilístico do texto, embora usado apenas no começo do documento de forma narrativa, percorre todo o discurso do BIRD ao fazer inúmeras comparações e ilustrações das condições de desenvolvimento de pessoas por todo o mundo. Exemplo disso é o acesso à educação e saúde na África e no sul da Ásia, ou as diferenças de acesso aos serviços básicos baseados no sexo e nas castas, respectivamente na China e na Índia. Esses diferentes casos mostra quantas dimensões podem ter as inequidades nos e entre os países.
Outro conceito que se liga à equidade é o das “armadilhas da desigualdade”. Estes fenômenos são definidos como “efeitos adversos de oportunidades e forças políticas desiguais sobre o desenvolvimento são os mais prejudiciais, pois as desigualdades econômicas, políticas e sociais tendem a reproduzir-se ao longo do tempo e de geração a geração” (BIRD: 2006, p. 2).
Estas armadilhas são também abordadas ao longo de todo o documento, principalmente a parte da transmissão das condições e oportunidades de geração para geração. Por exemplo, neste trecho:

Infelizmente, as circunstâncias predeterminadas (e, portanto, moralmente irrelevantes) definem muito mais do que apenas os rendimentos futuros. Educação e saúde têm valor intrínseco e afetam a capacidade dos indivíduos de se integrarem à vida econômica, social e política. Mas as crianças defrontam-se com oportunidades substancialmente diferentes para aprender e ter vida saudável em quase todas as populações, dependendo de suas condições financeiras, localização geográfica ou educação dos pais, entre outros fatores. (BIRD: 2006, p. 4)

Buscar a equidade é também buscar a prosperidade, ou seja, estes objetivos são complementares. Além disso, o relatório aponta dois grandes grupos de motivos que são as causas dessa complementaridade: um se refere às muitas falhas de mercado nos países em desenvolvimento, principalmente nos mercados de crédito, seguro, terra e capital humano. “Quando os mercados são incompletos ou imperfeitos, a distribuição de riqueza e de poder afeta a alocação de oportunidades de investimento” (BIRD: 2006, p. 2). Sendo assim, corrigir essas falhas deve ser um dos objetivo para melhor equidade.
Outro grupo de motivos que gera equidade com prosperidade é o fato de instituições econômicas e organizações sociais serem construídas para privilegiar certos interesses específicos de grupos isolados.

A distribuição de riqueza está diretamente relacionada com as diferenças sociais que estratificam as pessoas, comunidades e nações nos grupos que dominam e os que são dominados. Esses padrões de dominação persistem, porque as diferenças econômicas e sociais são reforçadas pelo uso manifesto e sutil do poder. As elites protegem seus interesses de formas sutis, por meio de práticas excludentes em sistemas de casamento e parentesco, por exemplo, e de formas menos veladas, tais como a manipulação política agressiva ou o uso explícito da violência. (BIRD: 2006, p. 2).

O relatório faz também três considerações iniciais importantes para o desenvolvimento do resto do documento:
1)      Nem sempre equidade pode ser medida pela distribuição de renda. Mesmo com processos mais justos, espera-se ainda diferenças que provém de diferentes talentos, preferências, esforço e sorte;
2)      O foco das políticas deve ser a distribuição de ativos, oportunidades econômicas e expressão política e não na desigualdade de rendimentos;
3)      O cálculo do mérito das políticas adotadas para aumentar a equidade e seus efeitos no longo prazo nem sempre é levado em conta ou são difíceis de calcular.
Outro questionamento levantado pelo relatório se refere à importância da equidade para o crescimento. Uma primeira resposta a isso percorre o caminho das inequidades dentro dos mercados e o comando destes e dos governos por grupos pequenos, deixando à margem grande parcela da população. Mercados imperfeitos, por exemplo, geram desigualdades de riqueza e poder e por conseguinte oportunidades desiguais e alocação ineficiente dos recursos. Este tema é trabalhado no documento pelo ponto de vista tanto do mercado financeiro, quanto o de terras e capital humano. O pleno funcionamento de forma transparente e justa não geraria rendas diferenciadas e diferentes oportunidades.
Outro ponto que o relatório do BIRD volta a mencionar, assim como o de 1991 é a importância das instituições. As instituições são construções históricas, políticas e sociais. Dessa forma, imperfeições de mercado são reflexos de distribuições inequitativas de poder.

As boas instituições econômicas são equitaveis de uma maneira fundamental: para prosperar, uma sociedade deve criar incentivos para que a vasta maioria da população invista e inove. Mas tal grupo de instituições econômicas só pode surgir quando a distribuição de poder não for extremamente desigual e em situações nas quais existam restrições ao exercício de poder por parte de funcionários do governo.  (BIRD: 2006, p. 9)

Outro ponto em que as instituições é ressaltada é quando o relatório afirma que políticas que a equidade aprimora as políticas de redução da pobreza:

Afirmamos que uma lente de equidade aprimora a agenda de redução da pobreza. As pessoas de baixa renda geralmente têm menos expressão, menor renda e menos acesso a serviços do que a maioria das outras pessoas. Quando as sociedades se tornarem mais igualitárias de modo a conduzir a maiores oportunidades para todos, as pessoas de baixa renda estarão em condições de aproveitar um “duplo dividendo”. Primeiramente, a ampliação de oportunidades beneficia os pobres diretamente, por intermédio da participação no processo de desenvolvimento. Segundo, o processo de desenvolvimento propriamente dito pode obter mais êxito e tornar-se mais flexível à medida que a maior equidade produzir melhores instituições, gestão mais eficaz do conflito e um melhor uso de todos os potenciais recursos da sociedade, inclusive os recursos das pessoas de baixa renda. Os consequentes aumentos das taxas de crescimento econômico nos países pobres, por sua vez, contribuirão para a redução das desigualdades mundiais. (BIRD: 2006, p. 10)

Essa visão de equidade acrescenta três perspectivas à formulação de políticas de desenvolvimento:
1)      As políticas de diminuição da pobreza podem envolver redistribuições de influência, vantagem ou subsídios fora dos grupos dominantes;
2)      As compensações das políticas devem ser levadas em conta. Caso altos impostos para melhorar a educação atinjam seu objetivo no futuro, esse benefício não deve ser ignorado na elaboração da política;
3)      “Em terceiro lugar, é falsa a dicotomia entre políticas para o crescimento e políticas voltadas especificamente para a equidade. A distribuição de oportunidades e o processo de crescimento são determinados em conjunto. As políticas que afetam um, afetarão o outro” (BIRD: 2006, p. 11).

A partir destas considerações, a Visão Geral do relatório resume os quatro pontos principais para a ação pública e a formação de política.

A. Capacidades Humanas
1) Desenvolvimento na primeira infância: a visão essencial aqui é reduzir a armadilha da desigualdade, ou seja, fazer com que as condições do nascimento não sejam fatores decisivos no desenvolvimento cognitivo da criança. Desta forma as políticas devem atuar para garantir esse desenvolvimento de forma que a equidade seja garantida desde cedo;
2) Escolaridade: garantia de pelo menos um nível básico a todas as crianças de forma igual;
3) Saúde: este ponto engloba não só tratamento médico, como imunização, mas também saneamento básico e água potável.
4) Gestão de risco: garantia de que choques e crises econômicas não atinjam as classes mais pobres de maneira tão drástica como usualmente ocorre;
5) Impostos para equidade: “Como os impostos impõem perdas de eficiência, alterando as escolhas individuais entre trabalho e lazer, consumo e poupança, a maioria dos países em desenvolvimento tem possibilidade de ser mais bem servido evitando elevados impostos marginais sobre a renda e fundamentando-se em uma base mais ampla, especialmente para impostos sobre o consumo” (BIRD: 2006, p. 13);

B. Justiça, terra e infraestrutura
1) Criação de sistemas de justiça equitativos: “As instituições legais podem sustentar os direitos políticos dos cidadãos e restringir o aprisionamento do Estado pela elite” (BIRD: 2006, p. 14 );
2) Para uma maior equidade no acesso à terra: essa equidade não precisa necessariamente passar pela questão da propriedade, segundo o relatório, mas sim por políticas agrícolas e maior segurança de posse aos grupos de menor renda;
3) Fornecimento equitativo de infraestrutura:

Embora o setor público continue a ser, em muitos casos, a principal fonte de fundos de investimento em infraestrutura destinados a ampliar as oportunidades dos menos favorecidos, a eficiência do setor privado também pode ser aproveitada. Embora as privatizações de empresas de serviços públicos costumem ser atacadas por seus efeitos desiguais, a evidência indica uma realidade mais complexa. As privatizações na América Latina geralmente resultaram em acesso a serviços, especialmente em eletricidade e telecomunicações. Em outros casos, contudo, no período pós-privatização os preços aumentam mais do que os ganhos em qualidade e cobertura, levando ao descontentamento geral da população.
As privatizações são, portanto, um caso clássico de política que pode ou não dar certo, dependendo do contexto local. Se o sistema público for altamente corrupto ou ineficaz e estiver prevista uma capacidade normativa adequada na pós-privatização, a privatização pode ser considerada um bom recurso. Em outros casos, há privatizações mal programadas que transferem ativos públicos a preços excessivamente baixos para mãos privadas. (BIRD: 2006, p. 15)

C. Os mercados e a macroeconomia
1) Mercados financeiros: a questão perpassa o maior acesso de firmas que geralmente não têm acesso ao mercado financeiro e a empréstimos;
2) Mercados globais: aplicação universal das leis do trabalho e segurança para os trabalhadores como seguro desemprego e proteção/incentivo de minorias como mulheres e jovens inexperientes;
3) Mercado de produtos:

Geralmente há também fortes interações com qualificações no mercado de trabalho. Em muitos países, a abertura ao comércio (geralmente coincidindo com a abertura ao investimento estrangeiro direto) tem sido associada a um aumento da desigualdade salarial nas duas últimas décadas. Isso ocorre especialmente nos países de renda média, notavelmente na América Latina. A abertura ao comércio geralmente incentiva o prêmio por aptidões à medida que as firmas modernizam seus processos de produção (mudança técnica com base em aptidões, no jargão dos economistas). Isso pode ser prejudicial para a equidade se o contexto institucional restringir a capacidade dos trabalhadores de mudarem para um novo trabalho – ou limitar o acesso da população à educação. (BIRD: 2006, p. 17)

4) Estabilidade macroeconômica: o relatório defende que á relação entre instituições injustas e crises macroeconômicas que, geralmente, acabam por penalizar as classes com menor renda. Os governos devem, portanto, criar políticas fiscais anticíclicas e criar redes de segurança antes de crises;

D. A arena global
O documento reconhece que há inequidades no mercado mundial. Contudo, propõe algumas medidas que visem melhorar este cenário como: migrações para países membros da OCDE; aumentar substancialmente a liberalização comercial; permitir que os países pobres usem medicamentos genéricos; e desenvolver normas financeiras mais apropriadas aos países em desenvolvimento.

A conclusão desta visão geral do relatório traz a ideia de que equidade, além de gerar melhores oportunidades, também atrai investimentos

Ao assegurar que instituições reforcem direitos pessoais, políticos e de propriedade para todos, incluindo os atualmente excluídos, os países poderão contar com um número maior de investidores e inovadores e ser muito mais eficazes na prestação de serviços para todos os cidadãos. Uma maior equidade pode, no longo prazo, sustentar um crescimento mais rápido. Esse crescimento pode ser incentivado por uma maior imparcialidade na arena global, pelo menos por meio das promessas feitas na reunião da comunidade internacional realizada em Monterrey. O crescimento rápido e o desenvolvimento humano nos países mais pobres são fundamentais para a redução da desigualdade global e para o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio. (BIRD: 2006, p. 19)