sábado, 23 de dezembro de 2017

"Gestão de pessoas", a visão de uma dessas pessoas


Uma busca rápida na internet sobre o tema “Gestão de pessoas” traz uma infinidade de resultados. Cursos de especialização, artigos com “frases inspiradoras”, “pilares” ou qualquer passo a passo, são fáceis de encontrar entre as milhares de propostas disponíveis online. A questão, contudo, é: o que é gestão de pessoas para quem está no final da linha, do organograma ou no “chão de fábrica”? Apresentar essa visão é o objetivo deste texto.

Falar o termo “Gestão de pessoas” é algo chique. É um dos termos de um vocabulário empresarial que teve e ainda tem muito destaque quando o assunto é gerir uma empresa e, principalmente, uma equipe de funcionários. A principal promessa é sempre o desenvolvimento desses funcionários, independentemente de suas posições hierárquicas na empresa. Essa promessa, contudo, parece ser mais palpável quando ela é apresentada a todos os funcionários, exceto aqueles que trabalham nas atividades mais elementares de uma companhia. Sendo assim, ela se torna muito mais uma ilusão que uma possibilidade, principalmente em grandes empresas.

Dizer, por exemplo, que o mercado de trabalho é um ambiente no qual "leão come leão" não é exagerar na adjetivação. A maioria das empresas trabalha com um cenário pouco favorável para a colaboração entre os seus funcionários, preferindo instaurar um local altamente competitivo. A competição puxa a meritocracia que, por sua vez, leva à gestão de pessoas.

Sim, esta é, em partes, uma visão negativa de um termo tão comumente usado em conversas com coordenadores e gerentes. Dizer que o funcionário que trabalha no nível hierárquico mais baixo de uma empresa tem um responsável pela gestão de seu desenvolvimento e crescimento na empresa pode ser um discurso ilusório e manipulador. “Faça mais que você cresce!”, é desta forma que geralmente a questão é apresentada. No entanto, a negatividade desta visão está relacionada diretamente à falta de preparo de quem é colocado para gerir pessoas. 

Essa atividade não conta apenas com controle de escalas, folgas, férias e manutenção da produtividade do funcionário. Ela deve ir além e usar todas as ferramentas possíveis e imagináveis para lidar com um empregado. Apesar de existir inúmeras ações ou instrumentos que podem ser usados nesta gestão, há duas que são essenciais: comunicação e transparência.

As “ferramentas” fundamentais

Como apresentado, a gestão de um profissional deve ir além do feijão com arroz – diga-se de passagem que é apenas quando o gestor consegue ir além que ele está efetivamente gerindo alguém.
O ambiente de trabalho é um local altamente crítico. Independentemente da empresa, quer ela seja nacional ou multinacional; grande ou pequena; tradicional ou startup; as pessoas precisam trabalhar com ou sem “gosto”/"vontade"/"motivação". Em um único escritório há funcionários com perfis que são extremos opostos. Há o satisfeito e o insatisfeito com a empresa ou com a função; há o highperformer e aquele que faz só o que lhe é pedido; há quem tem filhos e duplas jornadas e aqueles que voltam para a casa dos pais depois do expediente e lá nada fazem. Listar todos os tipos e perfis levaria, no mínimo, mais umas duas laudas. A questão, contudo, é: entender o funcionário é primordial antes de qualquer coisa.

Esse entendimento passa, portanto, pela comunicação e pela transparência. Apresento elas como “ferramentas” porque, embora básicas e cruciais, essas duas palavrinhas são muitas vezes esquecidas durante um diálogo (por incrível que pareça). A comunicação, por exemplo, está em todo lugar, porém, muitas vezes ela é usada de forma errada. De nada adianta conversar com um subordinado e a ele não dizer nada de relevante, ou seja, expelir um discurso pronto e pré-formatado. Há inúmeras maneiras de dizer uma mesma palavra: com contextos diferentes, tons de voz diferentes, ambientes diferentes. Embora a mensagem seja importante, uma palavra não se sustenta sozinha na interpretação de ninguém. Há, portanto, inúmeros fatores que contribuem para a efetividade da comunicação.

O “momento adequado”, por exemplo, é um desses fatores. Como disse anteriormente, o ambiente de trabalho é um local crítico. Em questão de segundos tudo pode mudar. O slogan de uma rádio de notícias brasileira é perfeito para este caso. De uma hora para outra uma insatisfação pode surgir em um funcionário da equipe e ela se espalha tão rápido que a gestão de pessoas passa a ser uma gestão de crises. Insatisfações acontecem e podem ser geradas por infinitas causas e motivações. É neste ponto que a comunicação é essencial. De fato, manter uma comunicação clara e constante com os funcionários ajuda a evitar a maior parte das crises que podem impactar a atividade dos trabalhadores. Saber os anseios e frustrações é mais importante que ouvir elogios e falsas mensagens sobre o quanto este ou aquele funcionário está gostando de sua função e da empresa.

A proposta é, portanto, questionar: “Quais são suas reclamações?”. Aqui entra a transparência. Gestores de pessoas muitas vezes não são os donos da empresa, porém, eles recebem tais função e cargos por estarem em sintonia com os objetivos econômicos dela. Um gestor - quer ele seja coordenador, diretor ou qualquer outro cargo acima dos funcionários do “chão de fábrica” – é escolhido para manter as engrenagens limpas e funcionando. Isso tudo é óbvio, mas a questão das reclamações deveria ser tão óbvio quanto, porém, não é o que acontece na maioria das empresas.
Ouvir o funcionário reclamar é uma das ações mais justas e poderosas que qualquer gestor pode fazer. Contudo, não estamos falando de qualquer reclamação. Se pensarmos em uma escala de complexidade, do assunto mais fácil ao mais complicado, embora os gestores não devam ignorar nenhum discurso, a preferência deve ser dada àqueles casos que parecem impossíveis e sem solução.

Você, leitor, pense em algo que você jamais teria coragem de reclamar ao seu superior. Todos temos algum ponto que nos faz pensar duas vezes antes de falar mesmo que a mensagem seja elaborada da maneira mais assertiva, respeitosa e política possível, certo? Pois é, aqui está o erro. Se é preciso pensar mais de uma vez antes de fazer uma reclamação, algo está muito errado. Algo, na verdade, não está transparente e a tendência é que piore com o tempo. Sabem a máxima do “cliente satisfeito faz propaganda para X pessoas e um insatisfeito faz para 10X”? Pois é, ela não funciona apenas com clientes e arrisco dizer que ela é muito mais importante com os funcionários que com os clientes porque insatisfação contamina e afeta a qualidade do atendimento ao cliente final. É possível dizer até que ela é uma praga, mas, ao invés de ser combatida, ela precisa ser compreendida. A compreensão é a chave para mitigar qualquer falha de expectativa que, consequentemente causa toda e qualquer insatisfação.


Neste cenário, portanto, defendo que gestores não devem ser aquelas pessoas que mais entendem do processo, que mais fizeram cursos de Recursos Humanos, Gestão de Pessoas ou qualquer outro curso que é mais fácil de entrar e concluir que jogar uma partida de truco com alguém que não conhece as regras do jogo. Um gestor precisa, antes de qualquer coisa, ser uma pessoa empática e corajosa. Empática porque precisa saber lidar, principalmente, mais com frustrações que com qualquer outro assunto; corajosa, embora seja um atributo “simples”, porque ouvir reclamações sinceras e sem filtros não é algo para qualquer pessoa. Mais que isso, saber interpretar essas reclamações, ser empático com elas e, principalmente, ser sincero e transparente em uma resposta à ela é que é a questão fundamental. No fundo, um "gestor de pessoas" precisa enxergar o valor das reclamações e incentivar o funcionário a ser "contra a empresa" para melhorá-la cada vez mais - este tópico, contudo, é tema para um próximo texto. =)

O que o filme "Her" nos diz sobre ser Customer Centric?



Roberto,
 Você vai sempre voltar pra nossa casa e me contar o seu dia? Do cara no trabalho que falava demais. De como sua camisa manchou no almoço. De algo curioso que lhe ocorreu ao acordar mas você tinha esquecido. Me dizer como todos são loucos, e nós vamos rir disso. E se você voltar pra casa tarde e eu já estiver dormindo, sussurre ao meu ouvido apenas um dos seus pensamentos de hoje. Porque eu adoro o modo como você vê o mundo. Fico muito feliz de estar ao seu lado e ver o mundo através dos seus olhos.
Beijos, Maria.
 “Isso é lindo”.
“Obrigado”, disse Theodore assustado ao ouvir o elogio de um colega do trabalho que ouviu a carta sendo redigida à partir de seu ditado para o computador.
“Queria que alguém me amasse assim”, complementou o tal colega.

A carta, ditada ao computador por Theodore, é redigida em uma caligrafia apropriada para Maria. O computador se encarrega das curvas certas das letras cursivas, mas o tom e a emoção são estrategicamente criados pelo funcionário daquela empresa.

Especializada em correspondências, uma companhia criou um serviço personalizado para aquela sociedade. Quer seja no futuro ou em um presente alterado por alguma decisão favorável à tecnologia realmente acessível em todo o mundo, essa empresa teve a ideia de contratar profissionais capacitados à uma inteligência emocional mutante e evolutiva. O serviço era simples: conhecer o cliente e falar em nome dele com seus amigos de infância, familiares distantes ou distanciados pelo crescimento individual, colegas de trabalho ou até mesmo com Ricardo, o marido de Maria da carta que abre esse texto.

Embora em uma sociedade mais evoluída tecnologicamente, esse cenário é retratado pelo filme Her, do diretor Spike Jonze. No ano em que chegou ao cinema, 2013, a maioria dos comentários e críticas se posicionavam à favor ou contrários à indicação de Scarlet Johanson ao Oscar apenas pela atuação com sua voz neste filme. Ela fez o papel de Samantha, um Sistema Operacional (OS, na sigla em inglês usada no filme para se referenciar à personagem) avançado ao ponto de se adaptar ao seu usuário e desenvolver sentimentos. Contudo, não são apenas sentimentos que a OS desenvolve. Ela vai além das expectativas do usuário e cria um relacionamento com ele. Da simples interação, à amizade e até ao namoro e talvez casamento.

Quem passa por todo esse processo apresentado por Her é Theodore, interpretado por Joaquim Phoenix. Separado da esposa há quase um ano, mas ainda não divorciado, Theodore trabalha na empresa especializada em escrever cartas por seus clientes. Sensível e adaptável à todas situações, ele fala por seus clientes com todo o sentimento que eles sequer conseguiriam externalizar sozinhos. São cartas elogiando um casamento da amiga, desejando melhoras à um primo distante ou expressando a saudade de amantes que há muito não se veem.

Theodore tem uma escrita sensível e perceptiva que lhe rende a publicação de um livro com as melhores cartas selecionadas por Samantha. Ela, um OS que ele comprara e concedera acesso à todos seus e-mails e contatos, se liberta de sua condição puramente artificial para uma consciência emocional humana. Ela suspira entre suas frases mesmo sem precisar de oxigênio. Ela ri, flerta, conta piadas para Ele. Samantha lê o trabalho de Theodore e se emociona. De todas suas cartas, ela seleciona aquelas que expressam com perfeição os sentimentos mais difíceis de descrever apenas com palavras pretas em um papel branco. Ela se humaniza.

O filme trata de atendimento e expectativas correspondidas em dois níveis. No plano humano, real, Theodore compõe cartas que são certeiras e empáticas com os sentimentos de quem recebe e correspondente com o sentimento de quem o contatou para isso. No plano tecnológico, virtual, Samantha é um OS programado para atender às expectativas humanas de quem o comprou. Ela é uma Siri, um Google Assistent ou uma Cortana que vai além da capacidade assistiva para uma interação com o usuário humanizada, adaptativa auto-evolutiva.

Fora do mundo da Sétima arte, Her serve como uma exemplo do que é um atendimento humanizado. Um Analista de Relacionamento é como Theodore ou Samantha. A empresa que o contrata é o cliente dele ou o desenvolvedor dela. Os clientes da empresa, por sua vez, são aqueles que recebem as cartas escritas por Theodore ou o usuário que comprou um OS como Samantha. O fato é que lidar com clientes é ser empático e adaptável às suas mais distintas intenção, sensações e estados de ânimo.
Quando Theodore compõe a carta de Maria, além de saber exatamente o que destinatário gostaria de ouvir, ele também sabe dosar exatamente o que seu cliente precisa falar. Ele trabalha com expectativas e sabe como se relacionar com todas as suas facetas. Definitivamente não é um trabalho fácil se você for parar para pensar no que outra pessoa escreveria para um amigo que perdeu o pai, por exemplo. Dar boas notícias é fácil, emocionante, divertido e prazeroso. Dar más notícias é um outro terreno que muitas pessoas não gostam de sequer saber de sua existência. Essas pessoas o rodeiam, chegam próximas ao seu muro, mas no máximo encostam nele. “Vou estar fazendo”, “vou estar me reportando”, “vou estar tentando dar uma notícia ruim para o senhor, mas não sei como fazer, então, na verdade, vou estar passando para meu superior, tudo bem?”

O grande desafio de um atendimento humanizado não é, portanto, corresponder às expectativas, mas sim superá-las ou convertê-las. É enxergar um ponto crítico e transformá-lo em uma experiência positiva. Faz-se isso quando, por exemplo, um cliente que sequer teria direito ao reembolso de uma viagem paga em dinheiro (vide os termos de uso para se informar melhor e não fazer isso você também) e se decepciona com uma situação que ela considera negativa feita por parte da empresa. O atendente, neste cenário, consegue acalmá-la e propor uma solução satisfatória para ela não ficar sem o dinheiro que desembolsou à mais pelo serviço que usou. Faz-se isso também quando a cliente envia um e-mail falando que ficou sem bateria no celular e acabou não conseguindo pagar o motorista particular que ela chamou pelo aplicativo. A atendente, comovida pelo relato da passageira, resolve enviar à ela um carregador de celular portátil para que ela não precise passar pela situação mais uma vez.

Para além dos mimos e das intermediações, um atendimento humanizado realmente merece essa adjetivação quando a empatia é suficiente para criar um relacionamento saudável, transparente e sincero com seus clientes. Ele não é composto por frases prontas e falsos gerúndios, mas sim por escolhas assertivas de palavras e mensagens que transmitem credibilidade e segurança em nome da empresa. Esta cria vínculos, faz sua fama como ouvinte das queixas de seus clientes e, principalmente, consciente do contexto de seus clientes, como defende Claudia Vale quando o assunto é empresa focada no cliente (Custommer Centric, no inglês).

Para além do filme, quem ajuda também a entender uma comunicação que atenda às expectativas é Patrick Charradeau. Linguista francês e fundador da Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso, Charradeau defende que o processo de comunicação é dado por dois atores e suas respectivas máscaras. Cada indivíduo tem sua formação histórica, social e psicológica única. No ato de comunicação, falada ou escrita, esse indivíduo imputa intenções em suas mensagens. Às vezes essas intenções são claras, como uma ordem ou um pedido gentil. Porém, a maior parte das intenções são ocultas por uma máscara. Estratégica, consciente ou inconsciente, essas máscaras são “filtros” (sociais, econômicos, sexuais, etc.) que precisam ser interpretados pelos ouvintes ou leitores (o famoso destinatário da mensagem). Uma máscara se comunica com a outra e os indivíduos, sem seus filtros, estão constantemente interpretando, duvidando, concordando ou conflitando com as mensagens que recebem.

Nas palavras adaptadas de Charradeau, do livro Linguagem e Discurso (Contexto, 2012):

“O discurso é apenas uma máscara usada pelo indivíduo. É por isso que esse indivíduo, consciente desse estado de fato, pode jogar, com finalidades estratégicas, tanto o jogo da transparência entre ele e seu discurso quanto o da ocultação do indivíduo pelo destinatário”. Ou seja: “O discurso é sempre uma imagem de fala que oculta em maior ou menor grau o indivíduo” (a citação original e página estão no final do texto).


É, portanto, o trabalho de Theodore, em Her, ser a máscara de seus clientes. Sendo assim, o papel de um Analista de Relacionamento também é ser uma máscara da empresa para a qual ele trabalha. Embora máscara tenha uma conotação mais negativa que positiva, a teoria de Charradeau é aplicada à toda e qualquer situação de comunicação, quer seja ela positiva ou negativa; de amor ou de ódio; tristeza ou felicidade. Sendo assim, o atendimento humanizado é tão adaptável e metamórfico quanto as infinitas intensidades das interações humanas.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Um novo passo, confirmando velhas visões

Há alguns dias (ou semanas) publiquei aqui no blog a dificuldade que é encontrar emprego atualmente em São Paulo (ou no Brasil, talvez). Eis que finalmente consegui uma recolocação e, acredito, uma ótima recolocação. Este texto, além de uma comemoração pessoal, tem o objetivo de compartilhar uma experiência muito positiva relacionada ao processo seletivo. Por hora vou omitir o nome da empresa porque não quero dar spoilers do processo seletivo – ficará claro o porquê.

All Star e Havaianas
A primeira impressão que veio na cabeça quando fui chamado para a entrevista e fiz aquela pesquisa habitual sobre a empresa foi Google. Temos na cabeça o tal “padrão Google” de empresa: descontraída, com vídeo games e outras formas de entretenimento para o funcionário, ou seja, diferentona.

As informações disponíveis eram, de certa forma, limitadas. Em um site de “reviews” de ex-funcionários, um profissional comentou que lá era possível trabalhar de bermuda e chinelo; no anúncio da vaga dizia que de sexta-feira tem bolo e cerveja para os funcionários. Portanto, não foi difícil logo associar a empresa com o Google. Foi o que me motivou a participar do processo? Não exatamente, mas confesso que a possibilidade de trabalhar de bermuda em um país que o calor é escaldante me atraiu bastante – afinal, aqui a hipocrisia fica de lado. Sempre pensei: pra quê, afinal de contas, é preciso trabalhar de terno, de social ou de jeans quando vivemos em um país tropical? Isso é extremamente hipócrita e injusto com o funcionário. Tenho, e sempre tive, em mente, que um funcionário confortável significa uma produtividade maior ou, para ser mais justo, uma experiência melhor no trabalho sem aquelas amarras habituais.

Animado com as informações que obtive, só pude confirma-las no dia da entrevista. Localizada na Vila Olímpia, um bairro conhecido pelo “glamour empresarial”, o ambiente físico é maravilhoso. Todo moderno e descolado. Logo na recepção vi poltronas roxas. A recepcionista de vestidinho curto e All Star nos pés. Simpática, pediu para que preenchêssemos nossas informações no iPad. Essas eram enviadas diretamente para a profissional do RH que seria informada que eu e os outros candidatos já estávamos aguardando.

A espera não foi longa, mas quando finalmente fomos chamados para a sala onde seria realizado o processo seletivo, Havaianas. Sim, a profissional do RH estava de jeans rasgado, uma blusinha leve e Havaianas da Minie nos pés. Ela chegou a comentar, ao longo do processo, que as pessoas estranham ao ver aquele “dresscode” desconstruído. Sim, é de se estranhar, mas extremamente animador – pelos motivos que já apontei acima, mas repito: Pra quê passar calor e trabalhar desconfortável?

Diversidade
Essas primeiras surpresas-impressões logo foram superadas. Em um ambiente descontraído, tanto quanto a empresa, nos foi proposto a redação de um e-mail resposta para um cliente hipotético. Vinícius, o cliente, sofreu homofobia e teríamos que conversar com ele para tentar solucionar e remediar o transtorno. Vou repetir: HOMOFOBIA. Ok, se as primeiras impressões são as que ficam, a segunda a superou facilmente. Pode até me coloque para trabalhar trajando roupas de frio sob um sol de 40º, isso seria fichinha em um ambiente que se preocupa com questões de homofobia e mostra logo aos candidatos essa visão maravilhosa.

Na sequência veio um teste de interpretação do inglês. Foi exibido um vídeo e apenas teríamos que escrever resumidamente o assunto dele. O vídeo? Emma Watson falando sobre feminismo no lançamento da campanha “He for She”. Vou repetir: FEMINISMO. Acho que minhas impressões sobre a empresa não poderiam ficar melhores que estas. Contudo, ficaram.

Assim que terminamos esses dois testes curtos e rápidos, veio aquela famosa apresentação dos candidatos. Éramos 11 ou 12 na sala juntos da profissional do RH e o coordenador da área para a qual estávamos concorrendo. Na apresentação tínhamos que dizer: nome, formação e uma esquisitice. Sim, uma esquisitice. O objetivo claramente foi quebrar o gelo entre os participantes e funcionou muito bem. A começar pelos dois funcionários da empresa: ela adorava comer comida, como arroz e feijão, frios; ele tinha atraso ósseo de dois anos. Realmente bem esquisitos. Na ordem vieram os candidatos: não lembro de todos os relatos, apenas que um dos homens já teve dez furões e adorava assistir a vídeos de casamento e uma menina gostava de assistir vídeos de remoção de cravos. Urgh!
Na minha vez, aproveitei para verificar e confirmar o quanto a empresa era pró-diversidade. Falei que adorava comer pizza com banana e ketchup e, aí sim o teste, que adorava pintar as unhas de roxo, mas que não fazia isso em dia de entrevista porque não tinha como saber a receptividade das empresas. Eis que a profissional do RH me disse: “Aqui você vai poder pintar as unhas o quanto quiser!”. YAY!!!!!!! Por mim, empresa aprovada; fiquei só esperando o resultado recíproco.

Enfim, o objetivo de quebrar o gelo com as tais esquisitices funcionou muito bem. Pela segunda vez em minhas experiências com entrevistas de emprego, presenciei um ambiente colaborativo e não competitivo. O resto do processo, conduzido pelo coordenador da área, foi uma conversa sobre a empresa e os serviços que ela prestava. Ele queria saber nossa opinião sobre as questões que envolviam o escopo de trabalho deles e tudo fluiu em uma conversa muito harmoniosa. Não teve (quase) ninguém querendo se sobressair acima dos demais e nem roubar as falas (a única exceção foi uma menina de 24 anos que cortava os concorrentes para repetir o que já havia dito). Essa impressão não foi apenas minha, no caminho para o metrô fui conversando com outros três candidatos que estavam tão surpresos e animados quanto eu.

Boa sorte ou equipe visionária?
Lembro que comentei no texto anterior sobre o fator “sorte” que algumas empresas falam e desejam aos seus candidatos. A sorte existe? Sim, mas temos que ter sorte para encontrar uma empresa que não se apoie na sorte. E olha... aparentemente isso é muito difícil. Tenho a impressão que algumas (senão a maioria) não seleciona candidatos pela competência expressa no currículo e na entrevista. Elas se apoiam, quase que exclusivamente, nas indicações ou no pequeno nível de ameaça aos coordenadores da área. Afinal, para quê selecionar alguém que não foi indicado e/ou que vai crescer demais e “competir” com o chefe do departamento? “Vou é manter meu emprego e selecionar alguém que eu consiga manter na rédea curta”.

Outra questão é a entrevista. Mandei inúmeros currículos para diversas empresas neste um ano e meio de desemprego. Poucas (pouquíssimas) me chamaram para uma entrevista. Várias disseram: “Seu currículo não foi compatível, boa sorte na próxima tentativa”. Algumas vezes respondi, irado, que não tinha como eles saberem se eu era ou não compatível sem uma entrevista cara-a-cara. “Não tive a chance de sequer expressar minhas qualidades para vocês e dizer o quanto posso colaborar com a empresa” – essa foi uma das respostas que enviei.

O que a empresa que vou entrar se diferencia dessas outras? Me inscrevi para uma vaga de Analista de Comunicação. Meu currículo tinha total compatibilidade com a descrição da vaga que fizeram. Um ou dois dias depois recebi uma ligação do RH: “Olá Alex, você se candidatou para a vaga X, mas ela mudou para uma outra vaga e gostaríamos de saber se você tem interesse. Vi aqui que seu currículo é bem robusto e se encaixa no perfil da vaga. Além disso, aqui você terá a chance de crescer na empresa e buscar outras vagas”. Pronto!

A fala precisa de melhores explicações? Posso estar enganado, mas interpretei como um convite para crescer, praticamente um convite ao futuro. Ou seja, a empresa está em expansão, inclusive recebendo investimentos de empresas estrangeiras para investimentos em nosso país. Provavelmente por isso é que as contratações imediatas também têm um objetivo de longo prazo.

Com todas essas colocações é que afirmo e confirmo: “Sorte é encontrar uma empresa boa e não ter sorte ao concorrer à vaga que elas oferecem”. Afinal, a maioria das pessoas se prepara, estuda e seleciona vagas que tenham relação com sua formação e suas expectativas, certo? Há, sim, aquele fator desespero que faz com que CVs sejam enviados para vagas que nada têm relação com os currículos, mas, como dito, “desespero”.


Finalizando esse texto que já ficou gigante, quero destacar que o objetivo dele vai além de só expressar meu entusiasmo com esse novo passo. Mais que isso, o texto também objetiva compartilhar minhas experiências para que algum profissional de RH tenha insights e ideias sobre as funções que, supostamente, acham que estão fazendo bem, mas que sempre pode melhorar. Se você é empresário ou de RH, não deseje sorte ao seu candidato. Não é questão de sorte, é tudo questão de visão estratégica e de crescimento fundado na competência de quem você seleciona hoje.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Vestibular da Fuvest para Letras, algumas dicas e orientações



Desde novembro do ano passado (2016), me aventuro no mundinho do YouTube com vídeos sobre minhas leituras. A ideia do canal surgiu quando comecei a estudar sozinho para o vestibular da Fuvest. Estava pleiteando uma vaga no curso de Letras e resolvi falar sobre as leituras das obras obrigatórias cobradas nas provas de Português.

A experiência deu certo e, depois de me tornar um “USPiano”, passei a fazer alguns vídeos sobre “Como é o curso de Letras” (te convido a se inscrever no canal Marca Páginas para acompanhar os vídeos). Para minha surpresa, meus vídeos sobre este tema receberam mais comentários que aqueles de leituras – sinal de que algumas pessoas se interessam (talvez muito) pelo curso. Para ser fiel a este blog, resolvi, portanto, registrar em texto essas primeiras impressões do curso.

Sendo assim, vou tentar colocar alguns tópicos que acho essenciais para quem quer saber como entrar no curso neste primeiro texto. Em um próximo vou falar sobre como é a graduação em letras e minhas impressões sobre o primeiro semestre.

Por onde entrar
Não, não é pela porta! Para entrar no curso de Letras da USP você pode: fazer o vestibular da Fuvest e/ou o Enem. Confesso que eu não sabia que esse curso selecionava por meio do Enem também. Descobri isso só depois que entrei. Portanto, fica um aviso logo de cara: todas as dicas abaixo são para a Fuvest e não para o Enem, ok? Caso haja interesse, posso pesquisar com mais detalhes sobre o ingresso pelo Enem e escrevo em uma próxima oportunidade.

O vestibular
Sem dúvida, essa é a parte que deve tirar o sono de muitas pessoas. Nos vídeos do YouTube recebi mais de um comentário com questão sobre como se preparar para o vestibular.

Eu diria que não há segrede algum, contudo existe um: ler as obras obrigatórias! Muita gente, por inúmeros motivos, deixa de ler os livros indicados pela Fuvest. Sem dúvida que algumas leituras são chatas – como a de Iracema, que eu detesto. Contudo, outras são maravilhosas – como foi com "Capitães de Areia", do Jorge Amado, que infelizmente não está mais na lista; ou "O Cortiço", do Aluísio de Azevedo.

Deixando a defesa da qualidade da leitura de lado, acho importante reforçar que ler todas as obras pode ser um diferencial para a prova. Na verdade não é apenas ler: é necessário estuda-las. Acredite, elas não estão ali de graça ou apenas para infernizar a vida do vestibulando. Cada obra da lista corresponde a uma escola literária e elas são, ouso dizer, as expressões máximas dessas escolas. “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, é o realismo em forma de livro; assim como “O Cortiço” é o naturalismo; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, é a segunda geração modernista; “Sagarana”, de Guimarães Rosa, a terceira geração e assim sucessivamente.

As dicas que eu dou são: leia uma pequena biografia do autor e uma descrição do movimento literário do qual ele fez parte antes de começar a leitura; anote essas informações em um caderno; no mesmo caderno, vá fazendo resumos de cada capítulo do livro: anote quem são os personagens, quais as relações que eles estabelecem entre si e com o ambiente, quais são os pontos altos e baixos do enredo, quem é e como se comporta o narrador; quando terminar de ler, estude suas anotações e, aí sim, busque vídeos no YouTube ou resumos na internet para comparar sua opinião e suas anotações com as de outras pessoas e professores (veja se há algo que você não reparou ou que, talvez, interpretou de uma forma diferente).

Exatas, o terror em forma de continhas
Ainda sobre o vestibular, um outro ponto que sempre surge em comentários e perguntas é sobre estudar Matemática e Física. Quem nasceu para as miçangas, não cuida das contas do caixa, não é mesmo?

Sim, Matemática e Física são o terror em forma de continhas! Contudo, estudar essas duas disciplinas pode também ser um diferencial para sua preparação. “Ah, mas eu sou péssimx nisso!!!!”. Tudo bem, mas então estude o básico. Todas as disciplinas, sem exceção, são cobradas na primeira fase do vestibular da Fuvest. Este é o momento da grande peneira e você precisa garantir uma pontuação mínima para a próxima etapa.

Sendo assim, a dica nesta hora é estudar até onde você consegue. Se você está se preparando sozinhx, tente estudar a teoria em livros do Ensino Médio (você encontra eles facilmente em sebos) ou no YouTube (tem canais excelentes de professores da área; meu preferido, e que me ajudou muito, foi o AulaLivre.net); faça muitos exercícios para fixar o conteúdo; faça resumos sobre os conteúdos que você estudou; refaça exercícios e tudo o mais.

Chegou em um ponto em que não consegue mais avançar sozinho? Talvez seja essa a hora de buscar ajuda de outra pessoa ou de parar por aí. A ajuda é sempre o melhor caminho, contudo, você precisa entender as suas limitações. Não vai adiantar muita coisa você estudar equações trigonométricas se você é como eu e confunde os gráficos do seno com o do cosseno e/ou não consegue decorar aquelas fórmulas infernais. Chegou nesse ponto? Vá estudar outra matéria, mas volte sempre aos exercícios que você já dominou. Fazer sempre exercícios, mesmo que sejam os mesmos que você já fez antes, vai te ajudar bastante a fixar e relembrar o assunto.

História, Geografia e Português
Obviamente que a disciplina com maior peso no vestibular de Letras é a de Português. Contudo, você sabia que História e Geografia também têm um peso maior que o resto? Sim.
Na segunda fase do vestibular da Fuvest, você fará provas em três dias: no primeiro será uma prova de Português, com a famosa redação; no segundo será conhecimentos gerais, ou seja, todas as disciplinas juntas mais uma vez; e no terceiro será História e Geografia.

Você não pode zerar em nenhuma das provas senão será eliminadx automaticamente. Contudo, este não é o momento para ter medo! Particularmente, eu achei a segunda fase do vestibular de 2017 mais fácil que a primeira. A primeira foi terrível! Já a segunda, por conta de sua estrutura (essa que falei acima), foi bem tranquila.

Todas as questões são dissertativas, portanto, é hora de escrever e argumentar. Uma letra boa é um ótimo requisito para que você seja compreendido – por isso que sugeri as anotações das leituras em um caderno, assim você treina a letra também! Além da caligrafia, a estruturação da resposta é muito importante. Escrever de forma clara, sem rodeios e sem encher linguiça é a melhor coisa. Sabe a resposta? Responde. Desconfia que sabe? Responde com suas desconfianças. Não sabe? Ah... aí tenta escrever alguma coisa, vai...

Isso tudo foi para dizer algo importante: não se prenda apenas na leitura das obras e nos exercícios de Exatas, leia conteúdos de História e Geografia também! Anualmente a editora Abril lança os “Guias do estudante”. São apostilas com revisões dos principais conteúdos de cada disciplina. Eu achei essas apostilas ótimas e usei elas realmente como guias: li o tópico e, caso eu tenha ficado com alguma dúvida ou não tenha sentido confiança no quanto sabia sobre o tema, aí sim eu buscava outras leituras. Faça assim, talvez ajude. Deu certo pra mim.

E a redação?
Antes de pensar em estudar redação, entre no edital da Fuvest e veja quais são os critérios de correção dos textos. Isso vai te ajudar a ter um norte sobre como eles são. Com isso em mente, a melhor coisa é praticar. Fiz um vídeo no canal Marca Páginas sobre o livro "Comunicação em prosa moderna", de Othon M. Garcia. Indico essa obra para toda e qualquer pessoa que vai fazer vestibular, trabalhar com texto e linguagem ou fazer concurso. Ele é ótimo e dá dicas valiosíssimas não só sobre a estrutura do texto e de sua composição, mas também sobre como interpretá-lo - e isso é importantíssimo para o vestibular e todas as suas disciplinas!

Quer treinar as redações? Então busque as provas passadas no site da Fuvest e se familiarize com os temas sugeridos. Tente escrever as redações dos anos anteriores, mas tente também inventar novos temas e para praticar sua escrita. Você vai reparar que os temas da Fuvest são um tanto quanto "abstratos". No vestibular que eu fiz o tema era a maioridade do homem. Sabe aquela antiga tela azul do Windows? Sim, eu vi ela na minha frente quando abri a prova. Mas... deu certo. Pensei sobre o tema, fiz um rascunho, estruturei o texto e acho que tirei 70 ou 80 pontos na redação. Ou seja, não é impossível.

Aproveito este tópico para fazer duas propagandas: a primeira é a reiteração do livro do Othon Garcia. Se você tem dificuldades com interpretação e redação, leia aquele livro antes de começar a estudar qualquer coisa. Ele é extremamente didático e fornece exemplos valiosíssimos. Apesar de ser um livro relativamente grande, dedique um tempo para sua leitura porque ela é essencial.

A segunda propaganda é sobre meus serviços de aulas de redação. Não, não fiz todo esse texto só para isso, mas né, a gente precisa trabalhar. Caso você tenha interesse, dou aulas via Skype (ou presencial em São Paulo) sobre redação e nelas planejamos juntos um cronograma de provas e reescritas das redações passadas da Fuvest e de temas inéditos para aprimorar a sua habilidade da escrita. Mais informações em www.indiciumx.com.br.

Estudante de primeira viagem
Uma amiga me mandou uma mensagem dizendo que quer fazer o vestibular da Unicamp para Letras, porém, nunca precisou estudar para nenhuma prova ou vestibular antes. Além disso, ela já passou dos 30 anos e, como sabemos, tantos anos longe do Ensino Médio, muita coisa inútil se comprovou inútil. Porém, é preciso resgatar ou reaprender essas coisas para esquecer mais uma vez depois do vestibular. Sim, é terrível ter que fazer isso, mas é possível.

Vou repetir uma dica minha: AulaLivre.net. Essa escola da região Sul do Brasil, tem uma canal maravilhoso no YouTube. Embora os vídeos sobre as disciplinas sejam bem resumidas e não abracem todo o conteúdo cobrado pelo vestibular, eles têm uma playlist específica sobre "Como estudar" (acesso o link para assistir). Recomendo assistir a todos os vídeos dessa playlist assim que você decidir fazer o vestibular. Neles, o professor Fábio Mender dá dicas sobre como organizar a rotina de estudos; como se concentrar; como revisar; entre outros assuntos muito pertinentes.

Assistiu? Se planejou? Então, como disse nos tópicos anteriores, é hora de ler as obras obrigatórias, fazer o máximo de exercícios de matemática que puder, ler muito sobre História e Geografia e passar. Não, eu concordo que não é fácil, mas é possível, sim! O curso de Letras da USP é um dos mais inclusivos da universidade toda: tem negro, branco, japonês; pessoas que acabaram de sair do Ensino Médio, outras com mais de 40 anos, outras na segunda ou terceira faculdade, outras com doutorado, mestrado e por aí vai. A variedade é gigantesca e maravilhosa, mas isso vai ser tema do próximo texto. =)


Ah, para finalizar: quer mais um incentivo para estudar para entrar no curso de Letras? Então vou te dar dois: anualmente entram 850 alunos no curso de graduação. SIM, 850! É um mar de gente que invade o prédio da Letras anualmente! O segundo motivo é: se você adora literatura, tem muitos tradutores de autores famosos como Homero e Dostoiévski que são ou foram professores da USP! Isso pra mim é sensacional.

Pronto, agora o texto acabou. Abaixo segue meu planejamento para os próximos textos. Caso você tenha alguma sugestão de tema, me diz nos comentários, ok? Muitos dos temas abaixo já foram gravados para o canal Marca Páginas. Sendo assim, te convido para passar lá também. 

Pauta para próximos textos
- A USP, minhas impressões (biblioteca, bandejão, espaço geográfico, acessos e etc);
- O primeiro semestre de Letras: muita gente, pouca interatividade, mas muita leitura!;
- Leituras do primeiro semestre e, mais uma vez, a importância de ler;
- Morar, estudar Letras e trabalhar em São Paulo para quem não é da capital;
- O tal do ranqueamento;

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A difícil procura por emprego

Encontrar um emprego atualmente não está nada fácil. Embora os dados divulgados pelo governo federal deem uma esperança de que “logo será minha vez”, a situação não parece ser tão otimista assim.

Desconfio, quase com certeza, de que o real problema está em algumas áreas específicas. A área de jornalismo parece definhar cada vez mais. Não é a primeira vez que escrevo sobre essa situação, mas a impressão vai se consolidando dia após dia. Uma das evidências que corroboram com essa visão pessimista a respeito das oportunidades de emprego para jornalistas é a quantidade gigantesca e crescente de candidaturas a vagas da área.

Cada vez que uma vaga para “Redator”, “Assessor de Imprensa” ou mesmo para “Jornalista” (embora essa seja uma raridade aparecer), em pouco tempo a concorrência aumenta vertiginosamente. Para não ficar apenas no “achismo”, seguem alguns exemplos:

Em janeiro deste ano, o Conselho Regional de Biologia (CRBio) de São Paulo (1ª Região), divulgou um edital de um concurso público para diversas vagas, entre elas havia uma vaga para jornalista. O salário era de R$ 6.625,21 para uma jornada de trabalho de 40 horas semanais, além dos “benefícios” como vale refeição, vale transporte e plano de saúde. Era apenas uma vaga, como já dito, porém, 477 profissionais se inscreveram no processo. Essa concorrência só perdeu para o cargo de Auxiliar administrativo, que, segundo o edital, o salário era de R$ 3.292,15. Para o CRBio de São Paulo foram abertas duas vagas e 3.126 pessoas se inscreveram no processo.

Ok, nada de novo, afinal, que concurso não é concorrido ultimamente?

Outro exemplo é uma vaga anunciada no site Infojobs para Analista De Comunicação Jr. A empresa, além de não se identificar no anúncio, também não informou salário, tempo da jornada de trabalho e nem a região de São Paulo onde o trabalho seria desenvolvido. Os únicos requisitos eram: Ensino Superior completo, português avançado (sim, português avançado) e inglês intermediário. Os “benefícios”: vale refeição e vale transporte. Segundo as estatísticas do site, 864 profissionais, provavelmente quase todos jornalistas, se inscreveram.

Um terceiro exemplo, este, porém, sem dados numéricos, foi uma vaga para professor de Jornalismo em uma das unidades do Senac de São Paulo. O processo ocorreu em 2016, mas me lembro que, no dia em que fiz uma das provas da seleção, a coordenadora da unidade comentou que eles haviam recebido muitos currículos, mas muitos mesmo! Não me recordo do valor exato, mas era um número astronômico. Isso se deve, principalmente, ao fato da não exigência de pós-graduação nenhuma para assumir a vaga, mas, mesmo se exigisse no mínimo uma especialização, sem dúvida alguma o número seria enorme.


Ok, não está fácil e nem seria necessários três parágrafos para reiterar a alegação, certo? Certíssimo. Contudo, há outros pontos que a situação de “desempregado” revela com muita força: o desrespeito de algumas empresas ou de seus setores de Recursos Humanos e o oportunismo de sites de vagas.

“Não foi dessa vez!”
Sobre o desrespeito, não parece ser necessário apresentar dados. Quem mandou currículo ultimamente deve ter percebido que as respostas são raríssimas – sim, no superlativo mesmo porque escrever “muito raríssimas”, embora verídico, seria redundante. O candidato envia seu CV por meios virtuais e, na maioria das vezes, nunca saberá se a vaga foi preenchida ou não. Em raros (ou raríssimos) casos, algumas empresas se dão ao trabalho de enviar uma resposta pronta e formal com as seguintes palavras: “Não foi dessa vez!”. A vontade é de responder: “Não foi dessa vez e nem será em uma próxima!!!!”, em parte pela frustração de não conseguir a vaga e em parte pelo ódio que o sentido que a frase tem.

“Não foi dessa vez!”, as vezes seguido de “Continue tentando”, é uma afronta ao candidato. Por quê? Por que nos faz sentir que estamos implorando para fazer parte do quadro de funcionários daquela empresa sensacional que colocou nosso e-mail em uma mensagem automática e disparou para sabe-se lá quantos candidatos recusados.

Uma correção: eu disse “faz sentir...”, mas a expressão mais adequada seria “faz perceber”. A realidade é que muitos candidatos estão sim implorando pela oportunidade. Contudo, o sentido de desrespeito continua. Provavelmente poucas são as pessoas que enviam o currículo para uma empresa com um “sonho” de trabalhar naquela companhia. O que acontece, e fica a dica para as empresas, é que o candidato olha a vaga, o salário (quando este é informado, ou seja, quase nunca), verifica se tem afinidade com as funções descritas (quando são) e manda seu currículo. Claro que isso não é regra. Tenho algumas empresas-dos-sonhos, como costumo chamar, nas quais eu adoraria trabalhar. Fico sempre de olho nas vagas que elas abrem e me candidato assim que tenho conhecimento da oportunidade. Contudo, e isso sim é regra, a necessidade de trabalhar é imposta para a grande maioria das pessoas. Logo, se inscrever em diversas vagas ou distribuir currículos como se distribui folders de ótica na avenida Paulista parece ser a regra e não a exceção.

Um breve comentário ainda neste tópico sobre desrespeito: há outra mensagem que as empresas costumam nos enviar: “Seu perfil não se encaixa na vaga”, ou algo parecido. É claro que não se encaixa, afinal, vocês nem sequer dão a oportunidade de o candidato se apresentar e dizer suas competências e habilidades! Claro que isso pode ser reflexo de um currículo mal formulado, contudo, mesmo seguindo todas as dicas possíveis e imagináveis disponíveis na internet sobre “o currículo ideal”, ainda assim a coisa não anda!

A Enganação encarnada em forma de site
Por fim, os sites de vagas. Nós, desempregados, somos bombardeados com propagandas de vagas em sites de empregos. Eu, sinceramente, já perdi a conta de quantos cadastros eu tenho: Vagas.com; Infojobs; Curriculum; Catho; Emprega Brasil; BNE... a lista é grande. De todos, o único que confio é no Vagas e por conta de dois motivos: em meu último emprego, minha chefe disse que pegava os currículos por lá; e as maiores empresas usam o site e redirecionam o candidato para o Vagas quando ele pesquisa por Carreiras ou “Trabalhe conosco” nos sites institucionais delas. O resto parece ser resto.

Já assinei por três meses o Infojobs e a Catho. Não preciso comentar o resultado péssimo da experiência depois de um texto de três laudas. Os preços são altos e muito contraditórios: como é que um desempregado vai pagar um site para tentar conseguir um emprego? Sem renda ele vai usar que dinheiro? Provavelmente o do FGTS de sua última contratação, mas e quem sequer isso tem mais? Esse tipo de serviço me provoca sensações no limiar do ódio indescritíveis. O pior de tudo é: pagar o site não é garantia de consegui uma colocação no mercado de trabalho! Ok, o site não pode fazer milagre, apenas “destacar o seu CV”. Mas eu só paguei para o meu currículo ficar mais para cima de uma pilha virtual? Sim.


Enfim... desabafo feito, a conclusão é: não está fácil, mesmo com notícias sobre a “recuperação do mercado de trabalho” tão difundidas pela grande imprensa.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ler ou ser feliz? Uma reflexão sobre "Farenheit 451", de Ray Bradbury

Ler ou ser feliz? Uma reflexão sobre "Farenheit 451", de Ray Bradbury Link para texto sobre o tema no site do Canal Marca Páginas: https://goo.gl/ia1CPF || Contatos || Instagram: http://ift.tt/2qSwuzs Twitter: http://twitter.com/alexcontin E-mail: alex.contin@gmail.com ou canalmarcapaginasoficial@gmail.com Site: http://ift.tt/2s06hlH

June 6, 2017 at 09:00AM

segunda-feira, 5 de junho de 2017

OdS #10 - Por que tenho medo de bolsominion [Mês do orgulho gay!]

OdS #10 - Por que tenho medo de bolsominion [Mês do orgulho gay!] IMPORTANTE: eu apenas citei o perfil deste tal Lucas, assim como mostrei os vídeos que ele curtiu com seu perfil, porque ele não fornece informações sobre si mesmo em seu perfil. Além da foto falsa, a única informação que podemos ver no perfil dele é o nome, que provavelmente é falso. Desta forma, acredito que a exposição aqui feita não é capaz de prejudicar a pessoa do mundo real que está por detrás deste perfil falso. Caso ele tivesse colocado informações reais, eu jamais o exporia da forma como fiz aqui. AVISO: comentários como o do tal Lucas serão ignorados e temos o direito de moderar todo e qualquer comentário feito em qualquer um de nossos vídeos, especialmente aqueles que expressam algum discurso de ódio e violência. O do Lucas foi a primeira e única exceção.

June 5, 2017 at 09:00AM

sexta-feira, 2 de junho de 2017

[Resenha] Eneida de Virgílio - Série Estudos Clássicos (USP)

[Resenha] Eneida de Virgílio - Série Estudos Clássicos (USP) Link para o [Folheando] a Eneida: https://youtu.be/PQEk7yguIlk Link do vídeo do Leonardo Antunes cantando os primeiros versos da Odisseia para você entender como os versos em hexâmetro datílico são/devem ser lidos: https://www.youtube.com/watch?v=E4YswUqEjKo || Contatos || Instagram: http://ift.tt/2qSwuzs Twitter: http://twitter.com/alexcontin E-mail: alex.contin@gmail.com ou canalmarcapaginasoficial@gmail.com Site: www.indiciumx.com.br

June 2, 2017 at 09:00AM

quarta-feira, 31 de maio de 2017

[Resenha] O leopardo - Giuseppe Tomasi di Lampedusa [TAG Maio]

[Resenha] O leopardo - Giuseppe Tomasi di Lampedusa [TAG Maio] Crítica sobre o material complementar da TAG: http://ift.tt/2qAiNUF || Indicações sobre o tema feudalismo: HOBSBAWN: em "A era do Capital" (https://goo.gl/0wj9C3) o autor fala um pouco sobre a ascendência do capitalismo e como o feudalismo ruiu. Ajuda a entender as personagens mais ligadas à burguesia na história dO Leopardo. SWEEZY: "Teoria do desenvolvimento capitalista". DOBB: "A evolução do capitalismo". Os dois autores acima se debruçam sobre o tema com bastante profundidade. No curso de Ciências Econômicas da Unicamp, por exemplo, o aluno estuda a dupla como construções contrastantes sobre o mesmo fenômeno: a transição do feudalismo para o capitalismo. Sobre esse estudo da Unicamp, indico dois textos: * LAZAGNA, Angela: Resenha do 'Balanço do debate: a transição do feudalismo ao capitalismo de Eduardo Mariutti" (https://goo.gl/GbR5E6). Essa é uma resenha de um livro sobre o assunto, publicado pelo Mariutti, que foi meu professor de História Econômica na Unicamp. * MARIUTTI, Eduardo B. "A transição do feudalismo ao capitalismo : um balanço do debate" (https://goo.gl/dFvNeq). Para quem tiver um interesse gigantesco sobre o assunto, essa é a tese de doutorado do Mariutti! Haja interesse, mas a tese é ótima! || Contatos || Instagram: http://ift.tt/2qSwuzs Twitter: http://twitter.com/alexcontin E-mail: alex.contin@gmail.com ou canalmarcapaginasoficial@gmail.com Site: www.indiciumx.com.br

May 31, 2017 at 09:00AM

quinta-feira, 25 de maio de 2017

[Folheando] Quatro cinco um - a revista dos livros! [SEM FALAS!]



A revista "Quatro cinco um" é nova no mercado e chegou com tudo! A proposta, ao que parece, é ser extremamente segmentada, seu tema: LIVROS! Dê uma espiada nessa nova revista junto com a gente! =)

Ansioso pelos próximos números da revista, mas desde já um pouco desapontado com o caráter marketeiro, ao menos das duas únicas matérias sobre poesia. Não sou o maior fã de poesias, mas com a disciplina de Introdução ao Estudo Literário I, ministrada por Roberto Zular no curso de Letras da USP, não tive como reconhecer toda a engenhosidade, complexidade e beleza de um poema.

Aos poucos fui percebendo que tudo aquilo que aprendemos na escola não faz nenhum sentido. Poesia é muito mais que um verso, um conjunto de rimas bonitinhas ou algo escrito de um jeito diferente de uma prosa. É perfeitamente compreensível como as pessoas não gostam e não apreciam poesia, afinal, entrar nela é um trabalho árduo. Passar da leitura linear de "Em minha terra tem palmeiras | Onde canta o sabiá" para uma leitura ritmada e cheia de imagens, infelizmente, não é simples. Entender os lás e os cás, a mistura do leite com o sangue, o olhar de um antinarciso e seja lá o que mais a poesia nos possibilita é algo quase único. Quase, afinal, muita prosa com sabor de poesia prova que a classificação em gênero é tão complexa quanto entender as particularidades de cada um para além da simples diferença entre "verso" e "prosa".

Cenário composto e voltando aos textos sobre poesia da "Quatro cinco um", eles se propõe única e exclusivamente a nos dizer quem são os poetas. Um homem e uma mulher; New York e Canadá; um coração no bolso e apagamentos de si mesmo. São informações ou impressões? O que vale mais na poesia, baseado no que aprendi até então, não é tanto quem a fez, mas os sentidos e imagens que ela possibilita ao leitor, ou não? Sendo assim, ver textos sobre poesia que se limitam a repetir o que a Wikipedia provavelmente já fez com os poetas, me pareceu algo muito... estranho. Mas também como fazer diferente? Aqui me dou licença poética e estúpida de quem está nos primeiros passos: não sei.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Uma crítica sobre a TAG Livros, de um assinante de primeira viagem

A proposta da TAG Livros é genial. A cada mês a equipe seleciona um curador e solicita a ele a indicação de um livro. O associado não sabe o que vai receber e aqui o fator confiança nos curadores e, acima disso, na capacidade da equipe da empresa em selecioná-los, é que faz a diferença. Além disso, o serviço também aposta na elaboração de seu kit: além do livro, em capa dura com um box colecionável e um "mimo" relacionado com o tema do mês, o associado recebe uma revistinha com informações sobre o curador, a obra e outros dados adicionais que, em tese, ajudam na leitura.

Curioso com o livro do kit de maio, indicado por Mario Vargas Llosa, resolvi assinar. O vídeo aqui no YouTube fala de minhas primeiras impressões como um novo assinante e há críticas! A principal é quanto à revista, pois eu esperava muito mais dela.

Apesar da diagramação maravilhosa, a revista da TAG falha nas informações. A pequena biografia de Vargas Llosa são suficientes para entendermos o valor que ele, como curador, tem para o clube de associados. Porém, as coisas param por aí. Em um determinado momento do texto sobre Llosa é citado que o escritor se distanciou do socialismo por conta de sua decepção com a experiência em Cuba. Ok. Pra mim essa é a informação mais relevante do texto e que deveria ter total ligação com a indicação do livro feita por ele!!!! Afinal, Llosa teria lido "O Leopardo", o livro que indicou, antes ou depois dessa indignação? Isso faz toda a diferença para entender o valor que a obra tem para o curador. Se foi antes, a leitura do livro e a inevitável ligação com Llosa seria uma, principalmente por conta da revolução sobre a qual o livro se propõe a tratar e a transformação de uma sociedade alicerçada na igraja e na monarquia; se foi depois, a leitura muda de figura e os ideais liberais do livro saltam aos olhos de maneira mais evidente.

A única resposta que temos sobre o assunto é dada em uma frase: Llosa diz que "O Leopardo" é uma obra genial. Só isso???? Genial por que? por onde? por quando? por sei lá o que mais? Essa falha, pra mim, foi gravíssima porque esperava entrar de cabeça na leitura guiado por um curador ganhador de um prêmio Nobel. A falha, a meu ver, parece ser dos editores da revista que não questionaram Llosa sobre a indicação ou se contentaram apenas com uma frase qualquer ou não conseguiram acesso direto ao escritor e estão usando uma indicação dele para aumentar a visibilidade do grupo.

Neste último caso, sobre usar a imagem de Llosa, a impressão que me fica é que houve o seguinte diálogo (que pode ou não ter sido diretamente com o escritor):
- Sr. Llosa, somos da TAG e gostaríamos que o senhor indicasse um livro para nossos associados?
- Qualquer livro?
- Qualquer um!
- Ah, então coloque "O Leopardo" aí.
- Por que esse?
- Tenho que justificar?
- Seria bom...
- Ah, escreve que ele é uma daquelas obras literárias que aparecem de tempos em tempos e que nos deslubram...
- Obrigado, Sr. Llosa!

Senti falta de uma explicação mais apurada simplesmente porque foi Llosa quem indicou o livro! Por ser ganhador de um prêmio Nobel, a possibilidade de ler algo que ele leu e que tenha influenciado em sua produção realmente é um diferencial que a TAG poderia propagar por toda internet. Contudo, acredito que ficarei sem a resposta às questões que surgiram ao assinar e ao ler a revista.

O segundo ponto que me decepcionou foi a parte "Ecos". A proposta é fornecer informações complementares que ajudam na leitura do livro. Nesta seção, os editores da revista colocaram um mapa (belíssimo, como toda diagramação) com as divisões dos reinos da Itália antes da sua união na nação italiana. Ok, relevante? Sim, afinal o personagem menciona e tramsita por essas regiões. Contudo, a meu ver, a questão da transição do feudalismo para o capitalismo seria mais crucial para o leitor se situar na obra. Um processo conturbado na história, dada a emergência do capitalismo, essa transição é objeto de diversos estudiosos como Dobb, Sweezy e Hobsbawn. Os dois primeiros se debruçam sobre o tema e o terceiro tem uma obra apenas para tratar sobre a formação dos estados nacionais. Imagino que talvez seja demais tratar tudo isso em duas páginas de uma revistinha, contudo, se a proposta é dar informações aos leitores, por que não investir num trabalho mais apurado e de maior valor?

Por fim, mas não menos importante, a revistinha da TAG pareceu ser tão machista quanto o Príncipe, personagem principal do livro "O Leopardo". Por quê? Simplesmente porque o mimo enviado no kit, uma "bandeira" de algodão com fotos de ganhadores do prêmio Nobel de Literatura, mostra que a primeira pessoa latino-americana a ganhar o prêmio foi Gabriela Mistral, escritora chilena, em 1945. UMA MULHER, antes de qualquer outro homem! E mais: em uma área dominada (SIM) por homens até pouco tempo atrás! Ao invés de falar sobre ela, a revista optou apenas por tratar do boom de escritores latino-americanos (TODOS HOMENS) das décadas de 1960 e 1970! Estou exagerando ao criticar a opção da revista por não dar toda a atenção possível à Mistral????? Acho que não.

Conclusão: o primeiro kit me decepcionou um pouco. Estou ansioso para receber o kit de março, que veio com o livro "A Câmara Sangrenta" e mais ainda para o do próximo mês, que virá com uma obra situada na Rússia e nos Estados Unidos. Vamos ver se essa primeira impressão ruim se dissipa ao comparar a revista de maio com as demais.

Vale reforçar: o vídeo feito para o YouTube NÃO É propaganda para o serviço! Eu (Alex) e nós do Canal Marca Páginas não recebemos os kits de forma gratúita.

Para quem quiser mais informações sobre a TAG: https://www.taglivros.com/


quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Há muitos homossexuais muito machistas, misóginos, que não percebem que lutamos contra o mesmo 'gigante' (patriarcado)" - Entrevista com Marcella Rosa, autora do livro "Guia Prático do Faminismo: Como dialogar com um machista"

Roubei, descaradamente, esse giphy do blog da Marcella, sim. Sorry, not sorry.

Marcella Abboud, ou Marcella Rosa, ou Professora, ou talvez ‘fêssora’, é Mulher. Antes de qualquer título acadêmico, ser mulher é o que a define, como a orelha do livro a apresenta ao leitor. “Guia Prático do Feminismo: Como conversar com um machista”, lançado pela Letramento em 2016, é, como ela mesma define, um “pedacinho” de sua luta.

Após se formar em Letras pela Unicamp e chegar até ás salas de aula, Marcella se deparou com a condição de suas alunAs inseridas num mundo machista e preconceituoso. Embora ela mantenha um blog (MarcellaRosa.com), o livro foi um convite de seu editor para expandir o conteúdo virtual para o papel.

O livro cumpre com o que diz: é, ao mesmo tempo, um “Guia prático do Feminismo” e uma orientação de “Como dialogar com um machista”. Para mulheres que se interessem pela luta, Marcella dá inúmeras informações sobre as vertentes do feminismo, dados históricos, estatísticos, fontes de leitura e, o que mais é sensacional no livro, ARGUMENTOS ao construir todo o livro na forma de uma conversa entre a autora e um homem extremamente machista, ignorante e que sempre acha que está certo.

Para homens, o buraco é mais embaixo. Ler este livro é um processo quase de autoflagelação. Não é “auto” porque quem dá vários socos no estômago do leitor homem é a própria Marcella. Diga-se de passagem que são socos extremamente necessários! Ao crescermos em uma sociedade machista e patriarcal, independente da orientação sexual, características e pensamentos dessa sociedade estão enraizados em nós, homens. Ler “Guia prático do feminismo: como dialogar com um machista”, portanto, é reconhecer em quais pensamentos estamos errados e aprender a nos policiar cada vez mais com isso.

A entrevista abaixo foi gentilmente concedida pela Marcella no dia 20 de março e está estruturada em duas partes. A primeira são perguntas sobre o livro e sua elaboração. Na segunda parte, propus questões feitas por um segundo personagem: um gay. Muitas vezes, ao ler, ouvir e estudar sobre o feminismo, me deparei com questões do tipo: “Os gays fazem isso também?”. Como não tenho habilidades para invocar Beauvoir e nem dialogar abertamente com Chimamanda Adiche, aproveitei a simpatia e paciência da Marcella para tirar essas dúvidas. Confira os resultados abaixo.

Alex: Quem é seu interlocutor? Que cara ele tem? Ele é branco, hétero, machista? Essa conversa está num bar, num café, num sofá...? Fiquei curioso para saber qual a cara dele e o ambiente que passou pela sua cabeça enquanto você preparava e escrevia o livro.
Marcella: Eu estou trabalhando especialmente com o homem, cis, branco, hétero, sim. Mas, na verdade, eu também estou falando com as minas que precisam de argumento pra discutir com esses caras e não têm... Acho que imaginei um bar, onde quase sempre as nossas falas são cortadas por um cara tosco e bêbado, achando que é o dono da razão.

A: Esse interlocutor que você criou “excreta” umas falas e umas perguntas "absurdas" (a meu ver). Você já ouviu homens falarem e perguntarem isso para você ou para amigas? Você já teve partes dessas conversas (ou ela na íntegra, sem as citações) no ambiente que você imaginou/usou na produção do livro?
M: SIIIIM! e mais de uma vez, querido. Bem mais.

A: Você escreveu na dedicatória que o livro é um “pedacinho da sua luta”. Como foi a decisão de lutar também por meio de um livro?
M: Na verdade, eu escrevia no blog, né? Para que quem não fosse aluno meu pudesse ler também. Mas aí o Henderson (meu editor) me convidou pra expandir isso num livro.

A: Voltando ao interlocutor e as impressões que seu livro passa dele (o homem branco, hétero, machista e também ignorante quanto à causa e à necessidade do feminismo), dá para entender que esse interlocutor é seu público-alvo. A conversa, as perguntas e, principalmente, as desconstruções parecem ser um processo de ensino. Desde o lançamento, você conseguiu atingir esse público/interlocutor? Teve algum retorno da recepção de um homem com essas características?
M: Como esperado, mais mulheres que homens procuram meu livro. Fico feliz, porque me sinto fortalecendo-as para o embate. Uma coisa massa que aconteceu foi as mulheres comprarem o meu livro para dar de presente para namorados e parceiros. Isso me deixou mega feliz. Tive retorno de amigos meus que disseram se sentir mal ao perceber que fazem muitas das coisas que descrevo sem nem se darem conta disso. Recebi agradecimentos muito bonitos de mulheres que viram nos namorados, pós livro, uma mudança de atitude.

Há algumas questões que me intrigam há algum tempo e por isso vou coloca-las na boca/letras de um “segundo interlocutor”. Ele (que vou representar aqui por G, de Gay mesmo) é homem, gay, 30 anos, que se interessa pela causa, lê sobre o assunto, se acha menos ignorante que o primeiro interlocutor, quer falar sobre o assunto, mas não sabe se pode se chamar de feminista. Sendo assim, vamos às perguntas:

G: Só homem hétero é machista ou os homossexuais também são? Há muita diferença entre eles?
M: Há muitos homossexuais muito machistas, misóginos, que não percebem que lutamos contra o mesmo 'gigante' (patriarcado).

G: Mas eu sou praticamente uma mulher de tão afeminada. Quer dizer, posso dizer isso?
M: Não, porque o feminino é uma socialização. Isto é: você não é uma mulher, mesmo tendo trejeitos. Você, sendo homem cis, não pode ser quase uma mulher. Sofre preconceito porque o patriarcado atribui ao feminino o negativo.

G: O Feminismo Liberal “agrega” o homem à causa feminista naquela campanha #HeForShe. O que há de errado então com o “machista feministinha”?
M: É porque ele se diz feminista mas segue fazendo coisas machistas.

G: Sou feminista, simpático à causa ou há algum outro termo que se adeque a mim (ou ainda: depende da vertente)?
M: Varia com a vertente, eu prefiro "pró feminismo".

G: Ainda sobre esse ponto, a Beauvoir diz que: “Foi Léon Richier o verdadeiro fundador do feminismo, criando em 1869 Les Droits de la femme e organizando o congresso internacional desses direitos em 1878” (p. 183 – da edição da Nova Fronteira de 2009). Se um homem “fundou” o feminismo, por que muita feminista hoje diz que homem não pode ser feminista?
M: Porque trabalhamos com o conceito de lugar de fala e protagonismo do movimento. É como pedir para um hétero falar sobre homofobia, sabe?

G: Na mesma obra, a Beauvoir diz que "Mesmo o homem mais simpático à mulher nunca lhe conhece bem a situação concreta" (p. 24). Ok, empatia existe, mas é impossível conhecer a situação concreta de qualquer outrx. Se um homem não poderia ser “feminista” por questões biológicas (ele não é ela), ou mesmo por questões sociais, de gênero, de privilégios, como algumas feministas alegam, não haveria, portanto, espaço para a transcendência da consciência do homem? Eles nunca poderiam abrir os olhos e, um dia, ver o quanto são e foram machistas e opressores? Não seria esse uma parte do resultado da luta do feminismo?
M: Acho que o fato de eles nunca saberem o que uma mulher de fato passa não impede a possibilidade de mudança, porque a empatia é sempre possível, entender a experiência do outro e, acima de tudo, acreditar no que o outro, que sofre, fala.

G: Voltando à minha viadagem: o que você e como “o feminismo” (ou uma das vertentes dele) enxergam as drags?
M: Varia muito. Eu, que sou interseccional, entendo o movimento que há nas drags como algo artístico. Mas olha: isso é uma briga feia entre as vertentes, as radfem são veementemente contra.

G: Eu, homem (independente da orientação sexual) acho que não devo falar “pelas” mulheres, isso seria tomar a voz delas, mas eu poderia falar “em favor” delas (ressaltar a importância da causa, indicar livros, filmes, notícias para colaborar com a conscientização) ou os dois termos dão na mesma?
M: Pode falar para elas, SE, E SOMENTE SE, elas quiserem, pedirem e não estiverem reivindicando protagonismo.


domingo, 16 de abril de 2017

Primeiro o YouTube, agora as demais redes sociais

Logo após o YouTube ser "atacado" pelo Washington Post, a plataforma do neoliberalismo brasileiro, Estadão, publica hoje um editorial curioso. No artigo "Desafios da notícia na internet" (página 3), o texto começa dizendo:

"Em tempos de intenso debate sobre as “notícias falsas” (fake news) que circulam na internet – discutem-se, por exemplo, seus efeitos políticos ou a responsabilidade das redes sociais por sua difusão –, estudo do Pew Research Center, uma das instituições de maior prestígio nos Estados Unidos, revela dados interessantes sobre as tendências de comportamento no consumo das notícias digitais."

Detalhes: "discutem-se [...] a responsabilidade das redes sociais por sua difusão" e "[...] uma das instituições de maior prestígio dos Estados Unidos". O primeiro trecho revela que a grande mídia está de olho na "responsabilidade" das redes e talvez estejam maquinando alguma estratégia para filtrar as “notícias [consideradas por eles] falsas”. O segundo destaque reforça que a pesquisa usada para o editorial é 100% confiável e que o leitor pode assumir todas as informações ali elencadas como a verdade proveniente de uma empresa com "prestígio" (portanto, que nunca dará uma informação falsa).

A pesquisa, segundo o editorial, é interessante e traz resultados relevantes sobre como as pessoas compartilham notícias e como elas se lembram (ou não) das fontes. Contudo, quem encomendou a pesquisa? Quais foram as pessoas que participaram do estudo? Qual o interesse que há por detrás de um estudo como este? Havia uma hipótese a ser comprovada pelo estudo? Se sim, qual era? Enfim, a pergunta certa é: qual o interesse por detrás disso tudo? Estudos e pesquisas estão sempre suscetíveis tanto à ideologia do pesquisador quanto às intenções que balizam as interpretações. Informar que a empresa tem “prestígio” é dar uma garantia ao leitor e dizer que ele não precisa se preocupar com nenhuma dessas questões elencadas acima. “Só acredite nos resultados, caro leitor!”

Além disso tudo, o texto questiona as notícias falsas, assunto que está em pauta hoje em dia: “Ponto importante da pesquisa foi detectar se os consumidores de notícias digitais tinham consciência da fonte de informação.” Uma questão importante aqui não é apenas considerar a “fonte de informação”, mas sim a intenção da notícia, a ideologia que está implícita no texto. Saber a fonte da informação é crucial para identificar se aquele texto tem ou não “credibilidade”, se foi composto por um profissional que sabe o que está fazendo, etc. Contudo, de que adiantaria, por exemplo, ler e compartilhar a notícia de um jornal que manipula tanto quanto uma notícia falsa? De que adianta compartilhar a notícia de um grande jornal se não fornece argumentos isentos e plurais para que o leitor possa debater em suas redes sociais sobre o que pensam do assunto ao invés de apenas reproduzir o discurso que os veículos de comunicação querem que esse indivíduo reproduza e internalize?

É relevante sim debater a questão das notícias falsas, contudo, quando vamos debater a questão das notícias desses grandes veículos de comunicação? Quando vamos começar a questionar o porquê de uma notícia trazer apenas fatos que corroborem com o perfil positivo ou negativo (já que não existe o meio termo) que o texto quis traçar de um economista liberal ou de um político da oposição? Quando vamos olhar para um jornal e questionar quais são as intenções por detrás das notícias que ele publica? Quantos rabos estão presos e quantos “dogmas” do jornalismo foram negados pelo simples gosto do poder de informar/manipular?

A impressão que esse texto permite é de que o jornal está de olho nas redes sociais. Este foco, contudo, não parece ser democratizar a informação, mas sim controlar o que pode estar se desviando da ideologia que ele prega em suas páginas diárias.