segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Por que Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno?

O resultado do primeiro turno da eleição deste ano foi preocupante, porém, mais que compreensível. Contra todos os discursos de alerta sobre o Bolsonaro, as pessoas estão votando no candidato por acreditar que ele é a melhor opção para acabar com a CORRUPÇÃO no Brasil. Existe, infelizmente, aqueles que compactuam com outras ideias do candidato, principalmente as de misoginia, racismo e homofobia, porém, não é possível afirmar que os 46% de eleitores de ontem são homofóbicos, misóginos e racistas - pelo menos prefiro acreditar que não.

A questão é a seguinte: como disse, é compreensível que as pessoas estejam votando no Bolsonaro com a esperança de acabar com a corrupção e a violência no Brasil, mas qual é o custo disso? Bolsonaro não propôs uma reforma política - na entrevista no Jornal Nacional, por exemplo, ele disse que todos os grandes gastos prescindiriam de assinatura e aval dele (isso é sufiente?); na questão da violência, "bandido bom é bandido morto", a solução seria concentrar traficantes na favela e descer bala neles, porém, e os inocentes naquele lugar? Se você mora em uma região não violenta e não dominada pelo tráfico, é fácil apoiar essa medida, não é? Quando o candidato foi questionado sobre os inocentes que estariam na favela, ele disse que retiraria eles de lá antes da ação; quando questionado mais uma vez sobre a morte de inocentes por balas perdidas e a impossibilidade de simplesmente "tirar os inocentes da linha de fogo", ele não respondeu nada.

Além desses dois pontos principais da campanha, que convenceu 46% dos eleitores, o problema central é o preço e o que o candidato traz consigo em um possível mandato. Ele promete empregos transformando o país em uma economia liberal, fazendo coro e dando ouvidos apenas aos empresários com os quais ele conversou. O preço disso é a perda de inúmeros direitos trabalhistas arduamente conquistados em uma economia periférica e refém de uma política econômica internacional que apenas beneficia o aumento do lucro por meio do uso de mão de obra barata (ou seja, sem direitos) em países subdesenvolvidos - isso significa que vamos continuar (e retroceder) no caminho da autonomia econômica.

Por fim e o que mais preocupa a esquerda, é a esteira, o véu dessa noiva conservadora, ou seja, todo o discurso de ódio contra negros, mulheres e homossexuais, além de uma provável ditadura militar, que vem junto com esse combate à corrupção e à violência. Esse discurso é propagado pela ignorância. Ele fala muito do "kit gay" e que não quer que um pai de família chegue em casa e veja o filho de 6 anos brincando com uma boneca - percebe a ignorância nisso? Além de deturpar um projeto de conscientização sobre a sexualidade (que não quer incentivar ninguém a transar ainda na infância, MUITO menos "virar gay"), ele propaga um preconceito e reforça a imagem da "família tradicional" com valores ultraconservadores enraizados.

Quanto à ditadura militar, pra ele é passado e não se deve mexer nisso - veja a entrevista do candidato no RodaViva. Dívida com negros? Passado. Tudo é passado e precisamos olhar para o momento atual. O problema, porém, é que esse passado continua enterrado e, no lugar de vir à tona para conscientizar a população a não repetir erros do passado, Bolsonaro prefere manter enterrado e manter o povo na ignorância para aparentemente deixar o caminho aberto a um novo controle militar na política brasileira. Fazer coro com esse candidato sobre a Ditadura Militar e apoiar essas ideias só ressalva o tamanho da ignorância, da falta de conhecimento sobre História e o poder e eficiência que um projeto como "Escola Sem Partido" tem na conjuntura brasileira.

Para terminar, um recado: esquerda não é só PT; esquerda não é corrupção do PT. Esquerda política e econômica é uma linha de pensamento e de ação que favorece a vida do trabalhador e da sociedade. É incoerente e extremamente inocente acreditar que o liberalismo e o capitalismo vão te ajudar a colher frutos bons no futuro. Isso é uma ilusão: pode até aumentar o emprego, mas o custo disso vai ser alto demais e aumentar a desigualdade de renda existente no Brasil (ou seja, 1% vai ficar ainda mais rico e o resto vai se fuder mais ainda).

Para terminar (2): se você votou no Bolsonaro e eu, um amigo ou qualquer gay, mulher ou negro sofrer algum por ódio na rua no governo desse fascista, eu vou fazer questão de ir até onde você estiver, olhar nos seus olhos e simplesmente dizer: "Esse sangue também está nas suas mãos!"

terça-feira, 15 de maio de 2018

"Tchau, mãe!": 'Sobre morar em São Paulo' ou 'Sobre morar longe do "Boa Noite"'


Morar em uma cidade diferente daquela que você nasceu e longe de toda sua família é, sem dúvida, uma experiência interessante. Claro que há alguns pontos negativos, como as saudades da casa da mãe ou pelo menos de uma proximidade dela que dispense uma viagem de 2h ou mais. Também tem a questão da vida adulta e a necessidade de administrar a geladeira de forma consistente para não faltar nada nos últimos dias do mês. Ô saudades da geladeira mágica que as coisas brotavam sem precisar fazer muito esforço!

Apesar de os poucos pontos negativos serem bem convincentes do porquê não voltar para a casa dos pais, a vida com asas e em locais distintos e distantes tem suas vantagens que fazem as saudades e as necessidades compensarem. Há oito anos sai da casa de minha mãe. Morei lá até 2010, quando tinha 24 anos. Naquele ano fiz cursinho e consegui ser aprovado na Unicamp. O primeiro destino, portanto, foi Campinas, interior de São Paulo. Lá morei por seis anos em três diferentes locais da cidade. Em 2016, desempregado e sem muitas perspectivas de algo promissor nas minhas áreas de formação naquela cidade, resolvi voltar a estudar para o vestibular e coloquei como meta o curso de Letras da USP, aqui na capital do estado.

De forma geral, acredito que temos duas experiências distintas ao morar sozinho e distante da família, em outra cidade: uma delas é a autodescoberta e a outra a descoberta da cidade. As duas poderiam dar uma terceira experiência que seria a descoberta de um ser em um espaço urbano, em uma sociedade – essa terceira questão, no entanto, está presente na primeira. A segunda, será tratada em outros textos.

Um mapa para si mesmo

A autodescoberta é, em resumo, conhecer suas limitações, habilidades e capacidade de adaptação à rotina ou aos imprevistos dessa rotina. É ter a capacidade de se virar nos 30, literalmente. Sem mãe, sem irmã, sem primos e, durante algum tempo, sem amigos. As habilidades sociais precisam se desenvolver e a dependência do próximo parece diminuir pouco há pouco. Um pai que troca a resistência do chuveiro; o amigo que topa ficar sem fazer nada na calçada de sua casa; uma loja, pequena como uma papelaria ou tão grande quanto um hipermercado, na qual você sabe que pode confiar no produto e, principalmente, sabe que vai encontrar o que precisa e o local onde ele está na prateleira.

É necessário dar alguns pulos, corridas ou cliques no YouTube para aprender a fazer alguma coisa que você nunca precisou até aquele momento. Ninguém te ensina a desentupir uma privada; a como evitar mosquitos de fruta na cozinha; as vezes há pessoas que sequer sabem trocar uma lâmpada e minimamente conhece a diferença entre água sanitária e limpa-vidros.

Sentimental e psicologicamente, o autoconhecer-se pode ser ainda mais complicado. Sem ter com quem conversar pessoalmente, os diálogos no WhatsApp vão perdendo o calor e o tom das palavras “palpáveis”. Seu amigo ou amiga, irmã, mãe ou qualquer pessoa não está ali para ver sua expressão de falsa alegria e perguntar o que está acontecendo; se pode ajudar. Obviamente não dá para deixar de considerar que algumas amizades parecem não precisar de rostos e presenças 100% do tempo, o sexto sentido e o conhecimento sobre a pessoa ditam o ângulo da interpretação de palavras na tela do celular. Essa falta gera, sim, um sentimento de vazio e sempre levanta a dúvida sobre a real necessidade de estar tão longe de um “Boa noite!” todos os dias.

É triste, mas esta tristeza é controlável. Contudo, ela só te dá as rédeas desse controle após algumas rasteiras da vida ou de algumas viagens recheadas de nostalgia. Quando isso acontece é como se a borboleta realmente saísse de um casulo – não consigo ver de outra forma. Ali, protegido e em desenvolvimento, o mundo real parece distante e isolado. É confortável, uma bolha. Voar, acaba sendo um trauma ou literalmente uma libertação. Se ver capaz de ter uma vida longe das asas dos pais te obriga a se enxergar como autossuficiente e, num estágio mais adiante, um membro de uma sociedade capaz de usar o espaço, real ou virtual, para socializar, idealizar e talvez transformar.

O ambiente de trabalho acaba suprindo algumas dessas necessidades, principalmente a relacionada às amizades. Além de permitir conhecer novas pessoas, é no ambiente de trabalho que, no fim das contas, você se ambienta melhor. Ali temos contato com as pessoas que realmente moram na nova cidade. Ouvimos histórias e dicas de lugares para ir; problemas nos transportes e deficiências da cidade, especialmente uma tão grande quanto São Paulo; vemos que as realidades em alguns lugares são realmente incomparáveis com a bolha na qual vivemos durante muito tempo. Histórias de pais que abusavam de filhas, e essa filha nunca perde o sorriso do rosto e o rebolado do samba apesar de as pedras do caminho dela terem sido e serem muito mais pesadas que qualquer uma que você já viu. É no ambiente de trabalho que ouvimos o sotaque local, apesar de repararem mais no seu no que no deles mesmos.

Ainda sobre trabalho, ilusões podem ocorrer. Achar, por exemplo, que São Paulo é a terra do trabalho é um mero engano. Pensar que talvez seja a cidade na qual será possível trabalhar na própria área, como jornalismo ou economia (no meu caso), é, talvez, ter pouco conhecimento sobre a própria área ou parece ser um caso de “acreditar demais na própria capacidade” - ou se deixar levar por pessoas que fazem você não acreditar nisso. Não pode haver engano. Nesta hora, em uma cidade movida pela meritocracia e pelas indicações, ou você mantém o foco em trabalhar no que quer e gosta, independente da quantidade de negativas ou empresas que sequer respondem sua candidatura, ou então você se adapta à realidade e aceita o primeiro emprego que aparece depois de meses de procura. Os boletos são reais e não aparecem só no final do filme, desculpe o spoiler.

A insistência neste objetivo pode cansar, pode entristecer, pode te fazer perder a crença na sua própria capacidade. Esses efeitos negativos, no entanto, também são controláveis. Se adaptar não é ruim e pode, na verdade, ser uma ótima estratégia para conseguir os tão necessários contatos. Talvez um emprego de atendente em um callcenter pode te dar aquelas amizades já comentadas e, em um futuro não muito distante, elas serem as indicações que você precisava. Um emprego fora da área, além disso, pode ser uma oportunidade para começar mais uma vez e não entrar pela porta da frente, mas pela entrada de serviço. As experiências até o momento, me fizeram crer que talvez essa questão não seja tão factível. Tenho a atual impressão que uma experiência em um callcenter, especialmente se for em uma empresa pouco reconhecida por sua capacidade de gerir pessoas, pode, na verdade, manchar oportunidades mais ambiciosas. Se não mancham, acabam por estender o caminho, ao invés de encurta-lo.

Essa questão do trabalho, no entanto, vai ficar para um dos próximos textos sobre as reflexões acerca de morar em São Paulo. Até lá... =)

sábado, 21 de abril de 2018

A primeira visita ao MASP, provavelmente a gente nunca esquece


Uma das minhas maiores vergonhas, aos 30 anos de idade, era nunca ter visitado o Museu de Artes de São Paulo (MASP). Quando tinha tempo, não tinha dinheiro por estar desempregado; quando tinha dinheiro, o inverso.

Sempre gostei muito de visitar museus. Como turista, apesar das poucas e limitadas viagens, sempre tentei ir um aqui e outro lá para ver o quanto da história local eles guardavam. Em Limeira (SP), trabalhei durante um tempo em um prédio que brigava o museu, a escola de artes municipais e a biblioteca da cidade. Apesar do acervo limitado e a falta de atenção do Executivo para com as peças que fazem parte da história da cidade, as obras estavam lá, sob os cuidados de um ou dois funcionários que realmente entendiam a importância de guardar alguns elementos da história.
Em outras viagens, aquelas com a família para a praia ou em viagens sozinhos, conheci outros museus com acervos sobre a história local. Em Pedreira (interior de SP), Santos e Itanhaém (litoral SP) e Penedo (AL), cada um a seu modo e determinado pela sua história, esses museus eram tão importantes para suas cidades quanto o de Limeira, porém, também me lembro de ter a mesma impressão de carência de cuidados por parte das instituições públicas.

O primeiro museu realmente grande e “suntuoso” que conheci foi o Museu de História Natural de Nova York. Em 2013, ganhei um concurso cultural da Livraria Cultura e pude andar pelos corredores entre animais empalhados, representações de ossos de dinossauros, peças de vestuário, instrumentos de trabalho e tantos outros itens guardados naquele lugar. Naquele dia fiz uma viagem dentro de outra.

O Museu de História Natural não é algo para simplesmente visitar em uma manhã, como havíamos planejado (eu e minha irmã). Ele requer praticamente um dia inteiro se você pensa em cumprir com toda a proposta de aprendizagem que o local te oferece. São inúmeras e (quase) incontáveis informações sobre economia, biologia, sociologia, antropologia e tantas outras áreas do conhecimento, inclusive astronomia. Cada peça continha sua descrição e explicações contundentes sobre a importância daquele algo exposto dentro de quatro paredes.

Com um cronograma apertado, passamos pelo Museu de História Natural apenas como turistas apressados para cumprir o cronograma. Embora não tenhamos agilizado os passos para ver tudo e cumprir com o tempo previsto, não conseguimos, nem de longe, aproveitar todas as informações e exposições que o museu reúne. Lembro de ter ficado com inveja de alguns adolescentes que vi andando por lá com caderno e caneta nas mãos. Motivo pela curiosidade até parei um e perguntei o que eles estavam fazendo. A menina me disse que era uma tarefa da escola. Não lembro se ela entrou em detalhes sobre essa tarefa, mas achei uma forma excepcional de ensinar e aprender com peças que tornam a história praticamente viva ali diante dos olhos.

O MASP

Na experiência com o MASP resolvi fazer diferente daquela que tive até então como turista em Nova York e até em minha própria cidade natal. Com tempo, mas sem dinheiro, aproveitei que o museu tem entrada gratuita de terça-feira e me programei para passar a tarde por lá. Ao pesquisar no Google algumas informações sobre o MASP, vi que a média de tempo que os visitantes ficam no local era de 1h a 2h. Pouco tempo, portanto, uma tarde bastaria e realmente bastou.

Reservei a terça-feira, dia 3 de abril, para a visita. A motivação para ir agora e não antes foi pelos estudos do Modernismo brasileiro da década de 1920. Esse é o tema da disciplina de Literatura Brasileira I, do curso de Letras na USP. A professora já havia abordado algumas características de obras e movimentos de vanguarda europeus e brasileiro e estava começando a apresentar a semana de 1922 nas aulas. Além das aulas expositivas, duas leituras indicadas também colaboraram para a decisão: um capítulo do livro de Peter Bürger, “A teoria da vanguarda”’; e o artigo de Walter Benjamin, “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. Esses dois textos fizeram parte das discussões sobre o conceito de arte e as modificações pela qual ela passou ao longo do tempo até as primeiras décadas do século XX no Brasil.

Benjamin, por exemplo, trata em seu texto sobre a aura das obras de arte. Em suma, segundo ele, aura “É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja.”[1] Para além de uma definição sumária, o conceito envolve aquela aura, quase divina, que as obras têm. Sendo mais prático: é aquele ficar-de-queixo-caído quando nos deparamos com algo que mexe com os sentidos e nos surpreende pela sua beleza e singularidade. É o ficar chocado frente a algo glorioso. Enfim... há diversas definições que acredito que apenas a real experiência consegue definir com quase clareza.

Além disso tudo, na segunda-feira antes de minha visita a professora havia comentado sobre Aleijadinho[2] e a importância que os modernistas brasileiros viram na sua obra. O MASP estava com uma exposição justamente sobre nosso artista e a professora fez essa indicação de visita. Ok, vamos lá então conferir.

“Imagens do Alijadinho”

Todas trabalhadas em madeira, as exposição das “Imagens doAlijadinho” é um mergulho sobre a religião. Confesso que, apesar de só ter uma formação religiosa, mas não exercê-la, a exposição se restringiu apenas à apreciação das obras e a visão a composição do artista. Por ser leigo em artes, tentei esforçar minha visão para além daquilo que estava exposto à minha frente. Neste sentido, consegui observar alguns aspectos interessantes das imagens, mas fiquei profundamente incomodado com outras informações.
Exposição "Imagens do Aleijadinho", no MASP (Foto de divulgação)


Cada imagem ali exposta tinha seu nome e a época em que fora feita. Eram representações de diversos santos que faziam parte do imaginário e da religião mineira do século XVIII. Algumas realmente lindas, como a Nossa Senhora das Dores, feita entre 1791 e 1812, o São Francisco de Assis (século XVIII) e a Santa Ana Mestra (1791-1812). Ao olhar essas obras de perto, dá para ver, aqui e ali, algumas “rachuras” (acho que posso dizer assim) do entalhe da madeira.
Obra em exposição no MASP até 3/6/2018. Foto de Alex Contin.
"Nossa Senhora das Dores" (1791-1812), de Aleijadinho (Foto de Alex Contin)

A pintura de cada uma delas também é algo muito bonito de se admirar. Enquanto algumas parecem ter recebido apenas uma camada de verniz (como o São Francisco de Assis); outras são ricas em detalhes nas estampas dos vestidos e letras no livro de Santa Ana Mestra.

Obra em exposição no MASP até 3/6/2018. Foto de Alex Contin.
"Santa Ana Mestra" (1791-1812), de Aleijadinho (Foto de Alex Contin)

Obra em exposição no MASP até 3/6/2018. Foto de Alex Contin.
Detalhe do livro de "Santa Ana Mestra" (1791-1812), de Aleijadinho (Foto de Alex Contin)
De toda a exposição, contudo, o que mais me chamou a atenção foram os proprietários das obras. Isso foi algo que sempre me incomodou nas artes e não é tanto pelo caráter comercial da composição de algumas obras (quase como a reprodutibilidade criticada por Benjamin). Há obras totalmente comerciais, mas que mantém o artista presente ali em cada traço, cor e composição. O que me incomoda, de verdade, é saber que algumas estátuas do Aleijadinho, como as representações de São Manoel, de Nossa Senhora da Conceição, São Francisco de Assis, entre outras, pertencem a alguma Pessoa Física (com CPF e muito dinheiro para comprar a obra) e não à sociedade e à cidade na qual a obra foi feita. Essa é uma discussão mais batida que limão com cachaça e açúcar, mas da qual eu não consigo me isentar. São obras lindas que ficam na estante de alguém. De vez em quando saem dessa prateleira para compor uma exposição aqui e acolá, mas que são “propriedade” de alguém. Bom... obras de arte são patrimônio e entram até nos balanços de grandes empresas, então é uma discussão que já nasce morta, infelizmente.

Obra em exposição no MASP até 3/6/2018. Foto de Alex Contin.
"São Francisco de Assis" (século XVIII), de Aleijadinho (Foto de Alex Contin)

Acervo em transformação

Depois de passar pelo primeiro andar, onde está Aleijadinho, parti para a exposição de obras da coleção do museu. A exposição “Acervo emtransformação” realmente me impressionou logo de cara pela forma como as obras estão expostas. Elas estão ali, a poucos centímetros da sua respiração e, vale dizer, podem sofrer danos se você respirar perto demais ou quiser colocar o dedo indicador na tela! Muitas pinturas são emolduradas com vidro, porém, várias não. Há uma fita no chão que indica a distância que você precisa manter do quadro, mas é uma distância realmente minúscula. Vi um adolescente quase colocando o dedo em uma obra e por um segundo senti o que é um princípio de infarto.
Obra do acervo do MASP. Foto de Alex Contin.
Obras do "Acervo em Transformação" nos seus cavaletes de cristal. Quadro de Monet em destaque. (Foto de Alex Contin)

Segundo o MASP, o “Acervo em transformação” retoma os cavaletes de cristal de Lina Bo Bardi e têm o objetivo de realmente aproximar o público das obras:

O retorno dos cavaletes não é um gesto nostálgico ou fetichista em relação a uma expografia icônica, mas deve ser compreendido como uma revisão do programa museológico de Lina Bo Bardi com suas contribuições espaciais e conceituais. A dimensão política de suas propostas é sugerida pela galeria aberta, transparente, fluida e permeável, que oferece múltiplas possibilidades de acesso e leitura, elimina hierarquias, roteiros predeterminados e desafia narrativas canônicas da história da arte. O gesto de retirar as pinturas da parede e colocá-las nos cavaletes aponta para a dessacralização das obras, tornando-as mais familiares ao público. Ainda, por outro lado, as legendas informativas colocadas no verso das obras possibilita um primeiro encontro com elas livre de contextualizações da história da arte. Nesse sentido, a experiência do museu torna-se mais humanizada, plural e democrática.[3]

Achei realmente incrível essa proposta de aproximação. Ter as obras tão próximo de nós, público, permite observar os traços, as cores, as texturas e os movimentos dos pinceis dos artistas. Em algumas obras, como “A canoa sobre Epte”, pintada por Monet por volta de 1890, parece ser importante o fato de você poder ver como ele pintou a água e de que forma usou tanto suas pinceladas como suas cores para fazer o reflexo na água. Em outras obras, como as de Picasso, a mesma coisa acontece. Sendo assim, essa proximidade permite contemplar muito mais que apenas a imagem.
Obra do acervo do MASP. Foto de Alex Contin.
"A canos sobre Epte" (cerca de 1890), de Monet (Foto de Alex Contin)

Obra do acervo do MASP. Foto de Alex Contin.
Detalhe da "A canos sobre Epte" (cerca de 1890), de Monet (Foto de Alex Contin)
 Abro mão de ficar falando sobre os artistas e suas obras (até porque reconheço minha ignorância sobre isso) para me focar em apenas um. Como as obras estão expostas em ordem cronológica, resolvi fazer meu próprio zigue-zague respeitando essa ordem. Contudo, ao andar de uma obra até a outra da mesma fila, ou ao trocar de fila, meus olhos eram atraídos por duas pinturas enormes e lindas, quase lá no final do salão. Quanto mais perto chegava, mais curioso ficava para observar as duas obras e tentar entender o que o artista queria me mostrar. A uma fila de distância, abandonei as demais obras que seguiriam meu caminho para finalmente encarar aqueles dois monstros.

A primeira obra, a esquerda, um grupo de pessoas passava a ideia de uma família, mas uma família realmente pobre. Suas roupas praticamente de trapos e as expressões de sofrimento em uma ilustração nem um pouco “realista” (com os traços bonitinhos de um autorretrato, por exemplo), passaram uma noção de realidade crua e muito cruel. Na obra da esquerda, tive a impressão de ver praticamente a mesma família retratada ao lado, como se fossem dois momentos de uma vida seca. Nessa segunda obra a família chorava. Não eram lágrimas azuis, redondinhas e perfeitas, mas sim ocres, da cor de uma terra na qual nada vinga, quase nada cresce. Essas areias, ou lágrimas, eram derramadas pela criança morta dos braços de uma mãe aparentemente inconsolável.
Obra do acervo do MASP. Foto de Alex Contin.
"Criança Morta" (1944), de Portinari (Foto de Alex Contin)

Obra do acervo do MASP. Foto de Alex Contin.
Da série "Retirantes" (1944), de Portinari (Foto de Alex Contin)
As duas obras, de Portinari, foram pintadas em 1944, seis anos após a publicação da primeira edição de “Vidas Secas” (1938), Graciliano Ramos. As telas fazem parte da coleção Retirantes e seus nomes são totalmente dispensáveis frente ao que elas nos apresentam de forma extremamente rica e “real”. Cada um a seu modo, Portinari e Ramos, retrataram a questão nordestina de suas épocas que hoje muitos continuam negando que existe ou, o que é pior, um dia existiu. No meio de tantas pinturas lindas, que aqui ou ali se desviaram ou não do academicismo de suas épocas, os quadros do Portinari e seu intertexto com “Vidas Secas”, são um soco tão grande no estômago que elas dizem “Você quer aura, @? Então toma!” Além disso, elas adquirem um sentido enorme ao estarem expostas no MASP: na Avenida Paulista, em São Paulo, a capital econômica do Brasil que tanto faz questão de perpetuar o preconceito pelos nordestinos (e, sinceramente, por quase tudo o que não é do Sudeste e de São Paulo).

Cada obra da exposição tem um pequeno texto explicativo atrás dela. A intenção, segunda a descrição do MASP, é justamente fazer o público experienciar primeiro a obra e depois ter mais informações sobre ela. Contudo, no caso dessas duas telas do Portinari, quase não dá vontade de querer entender o que elas significam. “A imagem já é chocante, talvez saber mais sobre ela desgrace ainda mais a cabeça!”, pensei. A vontade é só de ficar ali, colhendo detalhes com os olhos, lendo toda a narrativa que está por detrás “daquilo” e, acima disso, enxergar a crítica feita por meio daquela imagem. É realmente surreal.

“Maria Auxiliadora: Vida cotidiana, Pintura e Resistência”

Por fim e para recuperar o fôlego, as cores vibrantes de Maria Auxiliadora. A exposição faz parte da programação do “ano dedicado às histórias afro-atlânticas no MASP – as histórias dos fluxos e dos refluxos entre África e as Américas através do Atlântico”[4]. O colorido foi o que mais me chamou a atenção. Nos quadros da Auxiliadora parece não haver sequer resquício de rigor acadêmico da pintura. A liberdade, junto das cores, pulam dos quadros junto com a cultura brasileira e suas peculiaridades regionais.
Obra em exposição no MASP até 3/6/2018. Foto de Alex Contin.
"Banhistas" (1973), de Maria Auxiliadora

Quando sai do espaço dedicado às obras, fiquei imaginando as críticas feitas por aqueles intelectuais mais clássicos que só enxergam arte a partir de um conceito bem fechado (quase sempre elitista) obtido em livros (e não na experiência prática). Eis que, enquanto esperava ser atendido pelo funcionário da lojinha do MASP, ouvi uma conversa que me respondeu de pronto essa indagação pessoal. Um garoto bem branco, magro, alto, com cerca de 20 anos talvez, esperava o funcionário terminar seu cadastro no clube “Amigo MASP”, eis que é questionado: “Gostou das obras da Maria Auxiliadora?”. Ele fez uma cara de não muita amizade e comentou que não. O funcionário, que provavelmente já captara o gosto do menino, comentou: “Ela não tem um rigor acadêmico mesmo, né?”.

Foi praticamente uma pergunta retórica: o garoto havia deixado claro pela expressão e pelo tom de seu “não” que aquele tipo de obra, mais popular, não o agradava. Indo além de uma interpretação superficial e passando para uma mais especulativa, o que parece não ter agradado o garoto era única e exclusivamente a falta do tal “rigor” da pintura. Com isso em mente, ele provavelmente sequer olhou para a crítica feita pela artista. E, para falar a verdade, não era difícil enxergar essa crítica: a exposição contava com explicações e com um acervo pequeno de notícias e outras informações sobre como a Maria Auxiliadora usava sua arte como uma forma de resistência. Estava quase tudo dado para o interpretante, bastava escolher querer ou não interpretar.

Enfim, perder a virgindade do MASP foi uma experiência muito bacana. Tentei colocar minhas críticas pessoais à arte de lado para realmente tentar enxergar sua “evolução” ao longo do tempo. De certa forma o museu me ajudou muito nessa tarefa. As explicações das obras, quando lidas numa sequência como apoio à mensagem de cada pintura, ajudam muito a ver como a sociedade era retratada mimeticamente até um determinado período e como as obras incorporaram o conceito de arte à partir do século XIX (principalmente considerando toda a discussão sobre autonomia da arte feita por Bürger).


[1] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. (1935/1936) Tradução de Sergio Paulo Rouanet. Editora brasiliense. Citação na p. 170.
[2] A exposição “Imagens do Aleijadinho” ficará disponível até dia 3 de junho de 2018. Mais informações aqui: https://masp.org.br/exposicoes/aleijadinho
[3] Texto da descrição da exposição “Acervo em transformação” do MASP. Disponível aqui: https://masp.org.br/exposicoes/acervo-em-transformacao
[4] Texto da descrição da exposição “Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência”, disponível no MASP até 3 de junho de 2018. Fonte e mais informações aqui: https://masp.org.br/exposicoes/maria-auxiliadora-da-silva-vida-cotidiana-pintura-e-resistencia

sábado, 23 de dezembro de 2017

"Gestão de pessoas", a visão de uma dessas pessoas


Uma busca rápida na internet sobre o tema “Gestão de pessoas” traz uma infinidade de resultados. Cursos de especialização, artigos com “frases inspiradoras”, “pilares” ou qualquer passo a passo, são fáceis de encontrar entre as milhares de propostas disponíveis online. A questão, contudo, é: o que é gestão de pessoas para quem está no final da linha, do organograma ou no “chão de fábrica”? Apresentar essa visão é o objetivo deste texto.

Falar o termo “Gestão de pessoas” é algo chique. É um dos termos de um vocabulário empresarial que teve e ainda tem muito destaque quando o assunto é gerir uma empresa e, principalmente, uma equipe de funcionários. A principal promessa é sempre o desenvolvimento desses funcionários, independentemente de suas posições hierárquicas na empresa. Essa promessa, contudo, parece ser mais palpável quando ela é apresentada a todos os funcionários, exceto aqueles que trabalham nas atividades mais elementares de uma companhia. Sendo assim, ela se torna muito mais uma ilusão que uma possibilidade, principalmente em grandes empresas.

Dizer, por exemplo, que o mercado de trabalho é um ambiente no qual "leão come leão" não é exagerar na adjetivação. A maioria das empresas trabalha com um cenário pouco favorável para a colaboração entre os seus funcionários, preferindo instaurar um local altamente competitivo. A competição puxa a meritocracia que, por sua vez, leva à gestão de pessoas.

Sim, esta é, em partes, uma visão negativa de um termo tão comumente usado em conversas com coordenadores e gerentes. Dizer que o funcionário que trabalha no nível hierárquico mais baixo de uma empresa tem um responsável pela gestão de seu desenvolvimento e crescimento na empresa pode ser um discurso ilusório e manipulador. “Faça mais que você cresce!”, é desta forma que geralmente a questão é apresentada. No entanto, a negatividade desta visão está relacionada diretamente à falta de preparo de quem é colocado para gerir pessoas. 

Essa atividade não conta apenas com controle de escalas, folgas, férias e manutenção da produtividade do funcionário. Ela deve ir além e usar todas as ferramentas possíveis e imagináveis para lidar com um empregado. Apesar de existir inúmeras ações ou instrumentos que podem ser usados nesta gestão, há duas que são essenciais: comunicação e transparência.

As “ferramentas” fundamentais

Como apresentado, a gestão de um profissional deve ir além do feijão com arroz – diga-se de passagem que é apenas quando o gestor consegue ir além que ele está efetivamente gerindo alguém.
O ambiente de trabalho é um local altamente crítico. Independentemente da empresa, quer ela seja nacional ou multinacional; grande ou pequena; tradicional ou startup; as pessoas precisam trabalhar com ou sem “gosto”/"vontade"/"motivação". Em um único escritório há funcionários com perfis que são extremos opostos. Há o satisfeito e o insatisfeito com a empresa ou com a função; há o highperformer e aquele que faz só o que lhe é pedido; há quem tem filhos e duplas jornadas e aqueles que voltam para a casa dos pais depois do expediente e lá nada fazem. Listar todos os tipos e perfis levaria, no mínimo, mais umas duas laudas. A questão, contudo, é: entender o funcionário é primordial antes de qualquer coisa.

Esse entendimento passa, portanto, pela comunicação e pela transparência. Apresento elas como “ferramentas” porque, embora básicas e cruciais, essas duas palavrinhas são muitas vezes esquecidas durante um diálogo (por incrível que pareça). A comunicação, por exemplo, está em todo lugar, porém, muitas vezes ela é usada de forma errada. De nada adianta conversar com um subordinado e a ele não dizer nada de relevante, ou seja, expelir um discurso pronto e pré-formatado. Há inúmeras maneiras de dizer uma mesma palavra: com contextos diferentes, tons de voz diferentes, ambientes diferentes. Embora a mensagem seja importante, uma palavra não se sustenta sozinha na interpretação de ninguém. Há, portanto, inúmeros fatores que contribuem para a efetividade da comunicação.

O “momento adequado”, por exemplo, é um desses fatores. Como disse anteriormente, o ambiente de trabalho é um local crítico. Em questão de segundos tudo pode mudar. O slogan de uma rádio de notícias brasileira é perfeito para este caso. De uma hora para outra uma insatisfação pode surgir em um funcionário da equipe e ela se espalha tão rápido que a gestão de pessoas passa a ser uma gestão de crises. Insatisfações acontecem e podem ser geradas por infinitas causas e motivações. É neste ponto que a comunicação é essencial. De fato, manter uma comunicação clara e constante com os funcionários ajuda a evitar a maior parte das crises que podem impactar a atividade dos trabalhadores. Saber os anseios e frustrações é mais importante que ouvir elogios e falsas mensagens sobre o quanto este ou aquele funcionário está gostando de sua função e da empresa.

A proposta é, portanto, questionar: “Quais são suas reclamações?”. Aqui entra a transparência. Gestores de pessoas muitas vezes não são os donos da empresa, porém, eles recebem tais função e cargos por estarem em sintonia com os objetivos econômicos dela. Um gestor - quer ele seja coordenador, diretor ou qualquer outro cargo acima dos funcionários do “chão de fábrica” – é escolhido para manter as engrenagens limpas e funcionando. Isso tudo é óbvio, mas a questão das reclamações deveria ser tão óbvio quanto, porém, não é o que acontece na maioria das empresas.
Ouvir o funcionário reclamar é uma das ações mais justas e poderosas que qualquer gestor pode fazer. Contudo, não estamos falando de qualquer reclamação. Se pensarmos em uma escala de complexidade, do assunto mais fácil ao mais complicado, embora os gestores não devam ignorar nenhum discurso, a preferência deve ser dada àqueles casos que parecem impossíveis e sem solução.

Você, leitor, pense em algo que você jamais teria coragem de reclamar ao seu superior. Todos temos algum ponto que nos faz pensar duas vezes antes de falar mesmo que a mensagem seja elaborada da maneira mais assertiva, respeitosa e política possível, certo? Pois é, aqui está o erro. Se é preciso pensar mais de uma vez antes de fazer uma reclamação, algo está muito errado. Algo, na verdade, não está transparente e a tendência é que piore com o tempo. Sabem a máxima do “cliente satisfeito faz propaganda para X pessoas e um insatisfeito faz para 10X”? Pois é, ela não funciona apenas com clientes e arrisco dizer que ela é muito mais importante com os funcionários que com os clientes porque insatisfação contamina e afeta a qualidade do atendimento ao cliente final. É possível dizer até que ela é uma praga, mas, ao invés de ser combatida, ela precisa ser compreendida. A compreensão é a chave para mitigar qualquer falha de expectativa que, consequentemente causa toda e qualquer insatisfação.


Neste cenário, portanto, defendo que gestores não devem ser aquelas pessoas que mais entendem do processo, que mais fizeram cursos de Recursos Humanos, Gestão de Pessoas ou qualquer outro curso que é mais fácil de entrar e concluir que jogar uma partida de truco com alguém que não conhece as regras do jogo. Um gestor precisa, antes de qualquer coisa, ser uma pessoa empática e corajosa. Empática porque precisa saber lidar, principalmente, mais com frustrações que com qualquer outro assunto; corajosa, embora seja um atributo “simples”, porque ouvir reclamações sinceras e sem filtros não é algo para qualquer pessoa. Mais que isso, saber interpretar essas reclamações, ser empático com elas e, principalmente, ser sincero e transparente em uma resposta à ela é que é a questão fundamental. No fundo, um "gestor de pessoas" precisa enxergar o valor das reclamações e incentivar o funcionário a ser "contra a empresa" para melhorá-la cada vez mais - este tópico, contudo, é tema para um próximo texto. =)

O que o filme "Her" nos diz sobre ser Customer Centric?



Roberto,
 Você vai sempre voltar pra nossa casa e me contar o seu dia? Do cara no trabalho que falava demais. De como sua camisa manchou no almoço. De algo curioso que lhe ocorreu ao acordar mas você tinha esquecido. Me dizer como todos são loucos, e nós vamos rir disso. E se você voltar pra casa tarde e eu já estiver dormindo, sussurre ao meu ouvido apenas um dos seus pensamentos de hoje. Porque eu adoro o modo como você vê o mundo. Fico muito feliz de estar ao seu lado e ver o mundo através dos seus olhos.
Beijos, Maria.
 “Isso é lindo”.
“Obrigado”, disse Theodore assustado ao ouvir o elogio de um colega do trabalho que ouviu a carta sendo redigida à partir de seu ditado para o computador.
“Queria que alguém me amasse assim”, complementou o tal colega.

A carta, ditada ao computador por Theodore, é redigida em uma caligrafia apropriada para Maria. O computador se encarrega das curvas certas das letras cursivas, mas o tom e a emoção são estrategicamente criados pelo funcionário daquela empresa.

Especializada em correspondências, uma companhia criou um serviço personalizado para aquela sociedade. Quer seja no futuro ou em um presente alterado por alguma decisão favorável à tecnologia realmente acessível em todo o mundo, essa empresa teve a ideia de contratar profissionais capacitados à uma inteligência emocional mutante e evolutiva. O serviço era simples: conhecer o cliente e falar em nome dele com seus amigos de infância, familiares distantes ou distanciados pelo crescimento individual, colegas de trabalho ou até mesmo com Ricardo, o marido de Maria da carta que abre esse texto.

Embora em uma sociedade mais evoluída tecnologicamente, esse cenário é retratado pelo filme Her, do diretor Spike Jonze. No ano em que chegou ao cinema, 2013, a maioria dos comentários e críticas se posicionavam à favor ou contrários à indicação de Scarlet Johanson ao Oscar apenas pela atuação com sua voz neste filme. Ela fez o papel de Samantha, um Sistema Operacional (OS, na sigla em inglês usada no filme para se referenciar à personagem) avançado ao ponto de se adaptar ao seu usuário e desenvolver sentimentos. Contudo, não são apenas sentimentos que a OS desenvolve. Ela vai além das expectativas do usuário e cria um relacionamento com ele. Da simples interação, à amizade e até ao namoro e talvez casamento.

Quem passa por todo esse processo apresentado por Her é Theodore, interpretado por Joaquim Phoenix. Separado da esposa há quase um ano, mas ainda não divorciado, Theodore trabalha na empresa especializada em escrever cartas por seus clientes. Sensível e adaptável à todas situações, ele fala por seus clientes com todo o sentimento que eles sequer conseguiriam externalizar sozinhos. São cartas elogiando um casamento da amiga, desejando melhoras à um primo distante ou expressando a saudade de amantes que há muito não se veem.

Theodore tem uma escrita sensível e perceptiva que lhe rende a publicação de um livro com as melhores cartas selecionadas por Samantha. Ela, um OS que ele comprara e concedera acesso à todos seus e-mails e contatos, se liberta de sua condição puramente artificial para uma consciência emocional humana. Ela suspira entre suas frases mesmo sem precisar de oxigênio. Ela ri, flerta, conta piadas para Ele. Samantha lê o trabalho de Theodore e se emociona. De todas suas cartas, ela seleciona aquelas que expressam com perfeição os sentimentos mais difíceis de descrever apenas com palavras pretas em um papel branco. Ela se humaniza.

O filme trata de atendimento e expectativas correspondidas em dois níveis. No plano humano, real, Theodore compõe cartas que são certeiras e empáticas com os sentimentos de quem recebe e correspondente com o sentimento de quem o contatou para isso. No plano tecnológico, virtual, Samantha é um OS programado para atender às expectativas humanas de quem o comprou. Ela é uma Siri, um Google Assistent ou uma Cortana que vai além da capacidade assistiva para uma interação com o usuário humanizada, adaptativa auto-evolutiva.

Fora do mundo da Sétima arte, Her serve como uma exemplo do que é um atendimento humanizado. Um Analista de Relacionamento é como Theodore ou Samantha. A empresa que o contrata é o cliente dele ou o desenvolvedor dela. Os clientes da empresa, por sua vez, são aqueles que recebem as cartas escritas por Theodore ou o usuário que comprou um OS como Samantha. O fato é que lidar com clientes é ser empático e adaptável às suas mais distintas intenção, sensações e estados de ânimo.
Quando Theodore compõe a carta de Maria, além de saber exatamente o que destinatário gostaria de ouvir, ele também sabe dosar exatamente o que seu cliente precisa falar. Ele trabalha com expectativas e sabe como se relacionar com todas as suas facetas. Definitivamente não é um trabalho fácil se você for parar para pensar no que outra pessoa escreveria para um amigo que perdeu o pai, por exemplo. Dar boas notícias é fácil, emocionante, divertido e prazeroso. Dar más notícias é um outro terreno que muitas pessoas não gostam de sequer saber de sua existência. Essas pessoas o rodeiam, chegam próximas ao seu muro, mas no máximo encostam nele. “Vou estar fazendo”, “vou estar me reportando”, “vou estar tentando dar uma notícia ruim para o senhor, mas não sei como fazer, então, na verdade, vou estar passando para meu superior, tudo bem?”

O grande desafio de um atendimento humanizado não é, portanto, corresponder às expectativas, mas sim superá-las ou convertê-las. É enxergar um ponto crítico e transformá-lo em uma experiência positiva. Faz-se isso quando, por exemplo, um cliente que sequer teria direito ao reembolso de uma viagem paga em dinheiro (vide os termos de uso para se informar melhor e não fazer isso você também) e se decepciona com uma situação que ela considera negativa feita por parte da empresa. O atendente, neste cenário, consegue acalmá-la e propor uma solução satisfatória para ela não ficar sem o dinheiro que desembolsou à mais pelo serviço que usou. Faz-se isso também quando a cliente envia um e-mail falando que ficou sem bateria no celular e acabou não conseguindo pagar o motorista particular que ela chamou pelo aplicativo. A atendente, comovida pelo relato da passageira, resolve enviar à ela um carregador de celular portátil para que ela não precise passar pela situação mais uma vez.

Para além dos mimos e das intermediações, um atendimento humanizado realmente merece essa adjetivação quando a empatia é suficiente para criar um relacionamento saudável, transparente e sincero com seus clientes. Ele não é composto por frases prontas e falsos gerúndios, mas sim por escolhas assertivas de palavras e mensagens que transmitem credibilidade e segurança em nome da empresa. Esta cria vínculos, faz sua fama como ouvinte das queixas de seus clientes e, principalmente, consciente do contexto de seus clientes, como defende Claudia Vale quando o assunto é empresa focada no cliente (Custommer Centric, no inglês).

Para além do filme, quem ajuda também a entender uma comunicação que atenda às expectativas é Patrick Charradeau. Linguista francês e fundador da Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso, Charradeau defende que o processo de comunicação é dado por dois atores e suas respectivas máscaras. Cada indivíduo tem sua formação histórica, social e psicológica única. No ato de comunicação, falada ou escrita, esse indivíduo imputa intenções em suas mensagens. Às vezes essas intenções são claras, como uma ordem ou um pedido gentil. Porém, a maior parte das intenções são ocultas por uma máscara. Estratégica, consciente ou inconsciente, essas máscaras são “filtros” (sociais, econômicos, sexuais, etc.) que precisam ser interpretados pelos ouvintes ou leitores (o famoso destinatário da mensagem). Uma máscara se comunica com a outra e os indivíduos, sem seus filtros, estão constantemente interpretando, duvidando, concordando ou conflitando com as mensagens que recebem.

Nas palavras adaptadas de Charradeau, do livro Linguagem e Discurso (Contexto, 2012):

“O discurso é apenas uma máscara usada pelo indivíduo. É por isso que esse indivíduo, consciente desse estado de fato, pode jogar, com finalidades estratégicas, tanto o jogo da transparência entre ele e seu discurso quanto o da ocultação do indivíduo pelo destinatário”. Ou seja: “O discurso é sempre uma imagem de fala que oculta em maior ou menor grau o indivíduo” (a citação original e página estão no final do texto).


É, portanto, o trabalho de Theodore, em Her, ser a máscara de seus clientes. Sendo assim, o papel de um Analista de Relacionamento também é ser uma máscara da empresa para a qual ele trabalha. Embora máscara tenha uma conotação mais negativa que positiva, a teoria de Charradeau é aplicada à toda e qualquer situação de comunicação, quer seja ela positiva ou negativa; de amor ou de ódio; tristeza ou felicidade. Sendo assim, o atendimento humanizado é tão adaptável e metamórfico quanto as infinitas intensidades das interações humanas.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Um novo passo, confirmando velhas visões

Há alguns dias (ou semanas) publiquei aqui no blog a dificuldade que é encontrar emprego atualmente em São Paulo (ou no Brasil, talvez). Eis que finalmente consegui uma recolocação e, acredito, uma ótima recolocação. Este texto, além de uma comemoração pessoal, tem o objetivo de compartilhar uma experiência muito positiva relacionada ao processo seletivo. Por hora vou omitir o nome da empresa porque não quero dar spoilers do processo seletivo – ficará claro o porquê.

All Star e Havaianas
A primeira impressão que veio na cabeça quando fui chamado para a entrevista e fiz aquela pesquisa habitual sobre a empresa foi Google. Temos na cabeça o tal “padrão Google” de empresa: descontraída, com vídeo games e outras formas de entretenimento para o funcionário, ou seja, diferentona.

As informações disponíveis eram, de certa forma, limitadas. Em um site de “reviews” de ex-funcionários, um profissional comentou que lá era possível trabalhar de bermuda e chinelo; no anúncio da vaga dizia que de sexta-feira tem bolo e cerveja para os funcionários. Portanto, não foi difícil logo associar a empresa com o Google. Foi o que me motivou a participar do processo? Não exatamente, mas confesso que a possibilidade de trabalhar de bermuda em um país que o calor é escaldante me atraiu bastante – afinal, aqui a hipocrisia fica de lado. Sempre pensei: pra quê, afinal de contas, é preciso trabalhar de terno, de social ou de jeans quando vivemos em um país tropical? Isso é extremamente hipócrita e injusto com o funcionário. Tenho, e sempre tive, em mente, que um funcionário confortável significa uma produtividade maior ou, para ser mais justo, uma experiência melhor no trabalho sem aquelas amarras habituais.

Animado com as informações que obtive, só pude confirma-las no dia da entrevista. Localizada na Vila Olímpia, um bairro conhecido pelo “glamour empresarial”, o ambiente físico é maravilhoso. Todo moderno e descolado. Logo na recepção vi poltronas roxas. A recepcionista de vestidinho curto e All Star nos pés. Simpática, pediu para que preenchêssemos nossas informações no iPad. Essas eram enviadas diretamente para a profissional do RH que seria informada que eu e os outros candidatos já estávamos aguardando.

A espera não foi longa, mas quando finalmente fomos chamados para a sala onde seria realizado o processo seletivo, Havaianas. Sim, a profissional do RH estava de jeans rasgado, uma blusinha leve e Havaianas da Minie nos pés. Ela chegou a comentar, ao longo do processo, que as pessoas estranham ao ver aquele “dresscode” desconstruído. Sim, é de se estranhar, mas extremamente animador – pelos motivos que já apontei acima, mas repito: Pra quê passar calor e trabalhar desconfortável?

Diversidade
Essas primeiras surpresas-impressões logo foram superadas. Em um ambiente descontraído, tanto quanto a empresa, nos foi proposto a redação de um e-mail resposta para um cliente hipotético. Vinícius, o cliente, sofreu homofobia e teríamos que conversar com ele para tentar solucionar e remediar o transtorno. Vou repetir: HOMOFOBIA. Ok, se as primeiras impressões são as que ficam, a segunda a superou facilmente. Pode até me coloque para trabalhar trajando roupas de frio sob um sol de 40º, isso seria fichinha em um ambiente que se preocupa com questões de homofobia e mostra logo aos candidatos essa visão maravilhosa.

Na sequência veio um teste de interpretação do inglês. Foi exibido um vídeo e apenas teríamos que escrever resumidamente o assunto dele. O vídeo? Emma Watson falando sobre feminismo no lançamento da campanha “He for She”. Vou repetir: FEMINISMO. Acho que minhas impressões sobre a empresa não poderiam ficar melhores que estas. Contudo, ficaram.

Assim que terminamos esses dois testes curtos e rápidos, veio aquela famosa apresentação dos candidatos. Éramos 11 ou 12 na sala juntos da profissional do RH e o coordenador da área para a qual estávamos concorrendo. Na apresentação tínhamos que dizer: nome, formação e uma esquisitice. Sim, uma esquisitice. O objetivo claramente foi quebrar o gelo entre os participantes e funcionou muito bem. A começar pelos dois funcionários da empresa: ela adorava comer comida, como arroz e feijão, frios; ele tinha atraso ósseo de dois anos. Realmente bem esquisitos. Na ordem vieram os candidatos: não lembro de todos os relatos, apenas que um dos homens já teve dez furões e adorava assistir a vídeos de casamento e uma menina gostava de assistir vídeos de remoção de cravos. Urgh!
Na minha vez, aproveitei para verificar e confirmar o quanto a empresa era pró-diversidade. Falei que adorava comer pizza com banana e ketchup e, aí sim o teste, que adorava pintar as unhas de roxo, mas que não fazia isso em dia de entrevista porque não tinha como saber a receptividade das empresas. Eis que a profissional do RH me disse: “Aqui você vai poder pintar as unhas o quanto quiser!”. YAY!!!!!!! Por mim, empresa aprovada; fiquei só esperando o resultado recíproco.

Enfim, o objetivo de quebrar o gelo com as tais esquisitices funcionou muito bem. Pela segunda vez em minhas experiências com entrevistas de emprego, presenciei um ambiente colaborativo e não competitivo. O resto do processo, conduzido pelo coordenador da área, foi uma conversa sobre a empresa e os serviços que ela prestava. Ele queria saber nossa opinião sobre as questões que envolviam o escopo de trabalho deles e tudo fluiu em uma conversa muito harmoniosa. Não teve (quase) ninguém querendo se sobressair acima dos demais e nem roubar as falas (a única exceção foi uma menina de 24 anos que cortava os concorrentes para repetir o que já havia dito). Essa impressão não foi apenas minha, no caminho para o metrô fui conversando com outros três candidatos que estavam tão surpresos e animados quanto eu.

Boa sorte ou equipe visionária?
Lembro que comentei no texto anterior sobre o fator “sorte” que algumas empresas falam e desejam aos seus candidatos. A sorte existe? Sim, mas temos que ter sorte para encontrar uma empresa que não se apoie na sorte. E olha... aparentemente isso é muito difícil. Tenho a impressão que algumas (senão a maioria) não seleciona candidatos pela competência expressa no currículo e na entrevista. Elas se apoiam, quase que exclusivamente, nas indicações ou no pequeno nível de ameaça aos coordenadores da área. Afinal, para quê selecionar alguém que não foi indicado e/ou que vai crescer demais e “competir” com o chefe do departamento? “Vou é manter meu emprego e selecionar alguém que eu consiga manter na rédea curta”.

Outra questão é a entrevista. Mandei inúmeros currículos para diversas empresas neste um ano e meio de desemprego. Poucas (pouquíssimas) me chamaram para uma entrevista. Várias disseram: “Seu currículo não foi compatível, boa sorte na próxima tentativa”. Algumas vezes respondi, irado, que não tinha como eles saberem se eu era ou não compatível sem uma entrevista cara-a-cara. “Não tive a chance de sequer expressar minhas qualidades para vocês e dizer o quanto posso colaborar com a empresa” – essa foi uma das respostas que enviei.

O que a empresa que vou entrar se diferencia dessas outras? Me inscrevi para uma vaga de Analista de Comunicação. Meu currículo tinha total compatibilidade com a descrição da vaga que fizeram. Um ou dois dias depois recebi uma ligação do RH: “Olá Alex, você se candidatou para a vaga X, mas ela mudou para uma outra vaga e gostaríamos de saber se você tem interesse. Vi aqui que seu currículo é bem robusto e se encaixa no perfil da vaga. Além disso, aqui você terá a chance de crescer na empresa e buscar outras vagas”. Pronto!

A fala precisa de melhores explicações? Posso estar enganado, mas interpretei como um convite para crescer, praticamente um convite ao futuro. Ou seja, a empresa está em expansão, inclusive recebendo investimentos de empresas estrangeiras para investimentos em nosso país. Provavelmente por isso é que as contratações imediatas também têm um objetivo de longo prazo.

Com todas essas colocações é que afirmo e confirmo: “Sorte é encontrar uma empresa boa e não ter sorte ao concorrer à vaga que elas oferecem”. Afinal, a maioria das pessoas se prepara, estuda e seleciona vagas que tenham relação com sua formação e suas expectativas, certo? Há, sim, aquele fator desespero que faz com que CVs sejam enviados para vagas que nada têm relação com os currículos, mas, como dito, “desespero”.


Finalizando esse texto que já ficou gigante, quero destacar que o objetivo dele vai além de só expressar meu entusiasmo com esse novo passo. Mais que isso, o texto também objetiva compartilhar minhas experiências para que algum profissional de RH tenha insights e ideias sobre as funções que, supostamente, acham que estão fazendo bem, mas que sempre pode melhorar. Se você é empresário ou de RH, não deseje sorte ao seu candidato. Não é questão de sorte, é tudo questão de visão estratégica e de crescimento fundado na competência de quem você seleciona hoje.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Vestibular da Fuvest para Letras, algumas dicas e orientações



Desde novembro do ano passado (2016), me aventuro no mundinho do YouTube com vídeos sobre minhas leituras. A ideia do canal surgiu quando comecei a estudar sozinho para o vestibular da Fuvest. Estava pleiteando uma vaga no curso de Letras e resolvi falar sobre as leituras das obras obrigatórias cobradas nas provas de Português.

A experiência deu certo e, depois de me tornar um “USPiano”, passei a fazer alguns vídeos sobre “Como é o curso de Letras” (te convido a se inscrever no canal Marca Páginas para acompanhar os vídeos). Para minha surpresa, meus vídeos sobre este tema receberam mais comentários que aqueles de leituras – sinal de que algumas pessoas se interessam (talvez muito) pelo curso. Para ser fiel a este blog, resolvi, portanto, registrar em texto essas primeiras impressões do curso.

Sendo assim, vou tentar colocar alguns tópicos que acho essenciais para quem quer saber como entrar no curso neste primeiro texto. Em um próximo vou falar sobre como é a graduação em letras e minhas impressões sobre o primeiro semestre.

Por onde entrar
Não, não é pela porta! Para entrar no curso de Letras da USP você pode: fazer o vestibular da Fuvest e/ou o Enem. Confesso que eu não sabia que esse curso selecionava por meio do Enem também. Descobri isso só depois que entrei. Portanto, fica um aviso logo de cara: todas as dicas abaixo são para a Fuvest e não para o Enem, ok? Caso haja interesse, posso pesquisar com mais detalhes sobre o ingresso pelo Enem e escrevo em uma próxima oportunidade.

O vestibular
Sem dúvida, essa é a parte que deve tirar o sono de muitas pessoas. Nos vídeos do YouTube recebi mais de um comentário com questão sobre como se preparar para o vestibular.

Eu diria que não há segrede algum, contudo existe um: ler as obras obrigatórias! Muita gente, por inúmeros motivos, deixa de ler os livros indicados pela Fuvest. Sem dúvida que algumas leituras são chatas – como a de Iracema, que eu detesto. Contudo, outras são maravilhosas – como foi com "Capitães de Areia", do Jorge Amado, que infelizmente não está mais na lista; ou "O Cortiço", do Aluísio de Azevedo.

Deixando a defesa da qualidade da leitura de lado, acho importante reforçar que ler todas as obras pode ser um diferencial para a prova. Na verdade não é apenas ler: é necessário estuda-las. Acredite, elas não estão ali de graça ou apenas para infernizar a vida do vestibulando. Cada obra da lista corresponde a uma escola literária e elas são, ouso dizer, as expressões máximas dessas escolas. “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, é o realismo em forma de livro; assim como “O Cortiço” é o naturalismo; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, é a segunda geração modernista; “Sagarana”, de Guimarães Rosa, a terceira geração e assim sucessivamente.

As dicas que eu dou são: leia uma pequena biografia do autor e uma descrição do movimento literário do qual ele fez parte antes de começar a leitura; anote essas informações em um caderno; no mesmo caderno, vá fazendo resumos de cada capítulo do livro: anote quem são os personagens, quais as relações que eles estabelecem entre si e com o ambiente, quais são os pontos altos e baixos do enredo, quem é e como se comporta o narrador; quando terminar de ler, estude suas anotações e, aí sim, busque vídeos no YouTube ou resumos na internet para comparar sua opinião e suas anotações com as de outras pessoas e professores (veja se há algo que você não reparou ou que, talvez, interpretou de uma forma diferente).

Exatas, o terror em forma de continhas
Ainda sobre o vestibular, um outro ponto que sempre surge em comentários e perguntas é sobre estudar Matemática e Física. Quem nasceu para as miçangas, não cuida das contas do caixa, não é mesmo?

Sim, Matemática e Física são o terror em forma de continhas! Contudo, estudar essas duas disciplinas pode também ser um diferencial para sua preparação. “Ah, mas eu sou péssimx nisso!!!!”. Tudo bem, mas então estude o básico. Todas as disciplinas, sem exceção, são cobradas na primeira fase do vestibular da Fuvest. Este é o momento da grande peneira e você precisa garantir uma pontuação mínima para a próxima etapa.

Sendo assim, a dica nesta hora é estudar até onde você consegue. Se você está se preparando sozinhx, tente estudar a teoria em livros do Ensino Médio (você encontra eles facilmente em sebos) ou no YouTube (tem canais excelentes de professores da área; meu preferido, e que me ajudou muito, foi o AulaLivre.net); faça muitos exercícios para fixar o conteúdo; faça resumos sobre os conteúdos que você estudou; refaça exercícios e tudo o mais.

Chegou em um ponto em que não consegue mais avançar sozinho? Talvez seja essa a hora de buscar ajuda de outra pessoa ou de parar por aí. A ajuda é sempre o melhor caminho, contudo, você precisa entender as suas limitações. Não vai adiantar muita coisa você estudar equações trigonométricas se você é como eu e confunde os gráficos do seno com o do cosseno e/ou não consegue decorar aquelas fórmulas infernais. Chegou nesse ponto? Vá estudar outra matéria, mas volte sempre aos exercícios que você já dominou. Fazer sempre exercícios, mesmo que sejam os mesmos que você já fez antes, vai te ajudar bastante a fixar e relembrar o assunto.

História, Geografia e Português
Obviamente que a disciplina com maior peso no vestibular de Letras é a de Português. Contudo, você sabia que História e Geografia também têm um peso maior que o resto? Sim.
Na segunda fase do vestibular da Fuvest, você fará provas em três dias: no primeiro será uma prova de Português, com a famosa redação; no segundo será conhecimentos gerais, ou seja, todas as disciplinas juntas mais uma vez; e no terceiro será História e Geografia.

Você não pode zerar em nenhuma das provas senão será eliminadx automaticamente. Contudo, este não é o momento para ter medo! Particularmente, eu achei a segunda fase do vestibular de 2017 mais fácil que a primeira. A primeira foi terrível! Já a segunda, por conta de sua estrutura (essa que falei acima), foi bem tranquila.

Todas as questões são dissertativas, portanto, é hora de escrever e argumentar. Uma letra boa é um ótimo requisito para que você seja compreendido – por isso que sugeri as anotações das leituras em um caderno, assim você treina a letra também! Além da caligrafia, a estruturação da resposta é muito importante. Escrever de forma clara, sem rodeios e sem encher linguiça é a melhor coisa. Sabe a resposta? Responde. Desconfia que sabe? Responde com suas desconfianças. Não sabe? Ah... aí tenta escrever alguma coisa, vai...

Isso tudo foi para dizer algo importante: não se prenda apenas na leitura das obras e nos exercícios de Exatas, leia conteúdos de História e Geografia também! Anualmente a editora Abril lança os “Guias do estudante”. São apostilas com revisões dos principais conteúdos de cada disciplina. Eu achei essas apostilas ótimas e usei elas realmente como guias: li o tópico e, caso eu tenha ficado com alguma dúvida ou não tenha sentido confiança no quanto sabia sobre o tema, aí sim eu buscava outras leituras. Faça assim, talvez ajude. Deu certo pra mim.

E a redação?
Antes de pensar em estudar redação, entre no edital da Fuvest e veja quais são os critérios de correção dos textos. Isso vai te ajudar a ter um norte sobre como eles são. Com isso em mente, a melhor coisa é praticar. Fiz um vídeo no canal Marca Páginas sobre o livro "Comunicação em prosa moderna", de Othon M. Garcia. Indico essa obra para toda e qualquer pessoa que vai fazer vestibular, trabalhar com texto e linguagem ou fazer concurso. Ele é ótimo e dá dicas valiosíssimas não só sobre a estrutura do texto e de sua composição, mas também sobre como interpretá-lo - e isso é importantíssimo para o vestibular e todas as suas disciplinas!

Quer treinar as redações? Então busque as provas passadas no site da Fuvest e se familiarize com os temas sugeridos. Tente escrever as redações dos anos anteriores, mas tente também inventar novos temas e para praticar sua escrita. Você vai reparar que os temas da Fuvest são um tanto quanto "abstratos". No vestibular que eu fiz o tema era a maioridade do homem. Sabe aquela antiga tela azul do Windows? Sim, eu vi ela na minha frente quando abri a prova. Mas... deu certo. Pensei sobre o tema, fiz um rascunho, estruturei o texto e acho que tirei 70 ou 80 pontos na redação. Ou seja, não é impossível.

Aproveito este tópico para fazer duas propagandas: a primeira é a reiteração do livro do Othon Garcia. Se você tem dificuldades com interpretação e redação, leia aquele livro antes de começar a estudar qualquer coisa. Ele é extremamente didático e fornece exemplos valiosíssimos. Apesar de ser um livro relativamente grande, dedique um tempo para sua leitura porque ela é essencial.

A segunda propaganda é sobre meus serviços de aulas de redação. Não, não fiz todo esse texto só para isso, mas né, a gente precisa trabalhar. Caso você tenha interesse, dou aulas via Skype (ou presencial em São Paulo) sobre redação e nelas planejamos juntos um cronograma de provas e reescritas das redações passadas da Fuvest e de temas inéditos para aprimorar a sua habilidade da escrita. Mais informações em www.indiciumx.com.br.

Estudante de primeira viagem
Uma amiga me mandou uma mensagem dizendo que quer fazer o vestibular da Unicamp para Letras, porém, nunca precisou estudar para nenhuma prova ou vestibular antes. Além disso, ela já passou dos 30 anos e, como sabemos, tantos anos longe do Ensino Médio, muita coisa inútil se comprovou inútil. Porém, é preciso resgatar ou reaprender essas coisas para esquecer mais uma vez depois do vestibular. Sim, é terrível ter que fazer isso, mas é possível.

Vou repetir uma dica minha: AulaLivre.net. Essa escola da região Sul do Brasil, tem uma canal maravilhoso no YouTube. Embora os vídeos sobre as disciplinas sejam bem resumidas e não abracem todo o conteúdo cobrado pelo vestibular, eles têm uma playlist específica sobre "Como estudar" (acesso o link para assistir). Recomendo assistir a todos os vídeos dessa playlist assim que você decidir fazer o vestibular. Neles, o professor Fábio Mender dá dicas sobre como organizar a rotina de estudos; como se concentrar; como revisar; entre outros assuntos muito pertinentes.

Assistiu? Se planejou? Então, como disse nos tópicos anteriores, é hora de ler as obras obrigatórias, fazer o máximo de exercícios de matemática que puder, ler muito sobre História e Geografia e passar. Não, eu concordo que não é fácil, mas é possível, sim! O curso de Letras da USP é um dos mais inclusivos da universidade toda: tem negro, branco, japonês; pessoas que acabaram de sair do Ensino Médio, outras com mais de 40 anos, outras na segunda ou terceira faculdade, outras com doutorado, mestrado e por aí vai. A variedade é gigantesca e maravilhosa, mas isso vai ser tema do próximo texto. =)


Ah, para finalizar: quer mais um incentivo para estudar para entrar no curso de Letras? Então vou te dar dois: anualmente entram 850 alunos no curso de graduação. SIM, 850! É um mar de gente que invade o prédio da Letras anualmente! O segundo motivo é: se você adora literatura, tem muitos tradutores de autores famosos como Homero e Dostoiévski que são ou foram professores da USP! Isso pra mim é sensacional.

Pronto, agora o texto acabou. Abaixo segue meu planejamento para os próximos textos. Caso você tenha alguma sugestão de tema, me diz nos comentários, ok? Muitos dos temas abaixo já foram gravados para o canal Marca Páginas. Sendo assim, te convido para passar lá também. 

Pauta para próximos textos
- A USP, minhas impressões (biblioteca, bandejão, espaço geográfico, acessos e etc);
- O primeiro semestre de Letras: muita gente, pouca interatividade, mas muita leitura!;
- Leituras do primeiro semestre e, mais uma vez, a importância de ler;
- Morar, estudar Letras e trabalhar em São Paulo para quem não é da capital;
- O tal do ranqueamento;