sábado, 10 de abril de 2010

A Sanfona e Seu Danilo



Fim de tarde, a luz do sol só é visível no topo dos telhados e nas construções mais altas do bairro Vila Glória. Naquela rua, as trabalhadoras de uma fábrica de tecelagem começam a se despedir e seguem seus caminhos para a casa. O ônibus passa cheio de trabalhadores e o movimento dos carros é incessante. Enquanto o barulho da movimentação de pessoas está no seu agito mor, Seu Danilo arruma sua cadeira na varanda. A luz branca é perfeita para enxergar as notas mais altas ou baixas das partituras que seus dedos lêem. O varal para os papéis com as notações musicais já está pronto e nenhum vento naquele dia calmo pode atrapalhar a compreensão dos compassos e ele se entrega à música.

Apesar de as condições ajudarem, algo ainda o atrapalha. Hora com as pernas cruzadas, hora com os pés bem apoiados no chão, sua sanfona se movimenta para os lados e transforma notações em músicas, muitas vezes sertanejas. O problema são suas costas. Frente às outras limitações que ele comenta em conversas simples e calmas, este é o menor dos males. Essa dor só o impede de tocar seu instrumento em pé nas festas e igrejas onde costuma fazer parte da animação musical. Em casa ensaia sentado, aguenta o peso e a prática já reza a posição menos incômoda para o treino.

Tocar é sua paixão. O amor que sente pela música é o que não o deixa desistir e se entregar aos anos de dificuldade que já se passaram. Enquanto algumas pessoas reclamam da vida ou da monotonia da aposentadoria, Seu Danilo está sempre arranjando defeitos para consertar em sua casa e nos momentos em que não está se dedicando ao lar, senta e toca.

Apesar de nascer em uma fazenda, ser descendente de italianos e ter a pele morena queimada pelo sol, Seu Danilo tem os olhos parecidos com os de um japonês. Quando observa algo, a pouca abertura e o tamanho de seus olhos por detrás dos óculos de lentes grossas podem enganar aquele que tente dizer sua origem. Se eles sempre foram assim ou se fecharam com o tempo devido ao esforço para enxergar os números das máquinas registradoras do banco ou mesmo as notas pequenas das partituras, é difícil dizer com poucas conversas e um convívio distante. Outros cronistas poderiam interrogar sua família, mas a pausa na escrita delimita o fluxo da criatividade e das lembranças.

Com já foi comentado, há um problema que atrapalha Seu Danilo em seus dons musicais e não são os olhos pequenos ou as dores nas costas. Em casa ele não consegue mais se dedicar sozinho ao teclado. Mesmo fazendo aulas semanais com um professor particular, esse segundo instrumento que aprecia dedilhar entre os movimentos da sanfona e os afazeres de casa é hoje um desafio para sua cabeça. Seu aniversário de setenta anos já passou há algum tempo. Não que a idade seja problema para seu lado musical. Ele consegue praticar sanfona e tocá-la em festas com seus amigos sem muitos erros, e se diverte com isso. Porém, quando se senta no banco do teclado as articulações dos dedos se enrijecem. A cadência e a harmonia entre a escala musical desaparecem e uma partitura que seria executada em simples horas na sanfona, se torna um martírio para sua teimosia em fazer a música perfeita no instrumento eletrônico.

Seu principal argumento é a falta de cooperação de sua cabeça, sua depressão ou a falta de jeito com o teclado que fica sobre a mesa e a consequente preferência pela sanfona e sua mobilidade. Quando Seu Danilo se aposentou do banco público em que trabalhava, uma depressão acompanhou a rescisão e os benefícios que teve ao se desligar da empresa. Na época, com a globalização em alta e os computadores dominando toda e qualquer operação bancária, a adaptação não foi fácil. Para quem nasceu na fazenda, fez um curso de pedreiro para construir sozinho a casa de sua mãe e entrou em uma instituição financeira fazendo serviços gerais, uma CPU, com números na tela preta, comandos e atalhos diversos e acima disso a cobrança dos superiores por resultados com aquele novo equipamento foi o estopim para uma depressão. A queda só não foi maior por conta da música e é nela que Seu Danilo se apóia até hoje para seguir em frente depois de criar os cinco filhos e aproveitar o justo momento de descanso mental.

(incompleto)

Um comentário:

Mr. Bruno Pacolla disse...

Hey, that's my dad! :D