quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Limeira gira, gira, gira e não sai do lugar



Não é a toa que o símbolo de Limeira é uma laranja, uma fruta redonda, circular, e pude observar isso hoje no shopping Pátio Limeira agora a noite enquanto estava comendo um lanche na praça de alimentação. É incrível como que tudo aqui na cidade entra num “ciclo vicioso”, como dizia minha professora de psicologia da faculdade. Assim como um compasso, faz um círculo, completa 360º e volta sempre para o mesmo lugar. De certa forma em Limeira não há reta, só círculos.

Enquanto estava com um amigo sentado no shopping deu para ver claramente que aqui tudo gira, gira e não muda nunca. Ainda sendo ampliado, o shopping tem cerca de dez corredores, alguns ainda sem loja. Não exatamente circular por seus conjuntos de lojas formando três grandes retângulos. Mas mesmo assim, seus frequentadores giram, giram e giram. Percebi que vários grupos de adolescentes ficaram andando em círculos dentro do shopping e conversando durante todo o tempo. Uns para uma direção e outros para a outra. (Sem contar um grupo de retardados que estava fazendo umas brincadeiras de Ensino Infantil no meio da praça de alimentação... ¬¬)

A cena me fez lembrar da minha época de Ensino Médio, na escola Professor Antonio Perches Lordello. O local que até hoje mais parece uma prisão que uma escola (vide a falta de área verde e o aglomerado de salas regidos a mão de ferro por uma diretora que se orgulha de falar alto e ser grossa com os alunos), é um conjunto de salas cobertas por telhas de brasilite e com pouco área aberta para os alunos ficarem nos intervalos. Lá grupos de adolescentes e também de crianças no período da tarde sempre andavam em círculos durante os intervalos. Uns para uma direção e outros para outra.

Voltando ainda mais no tempo, me lembro que quando as principais avenidas da cidade como a Avenida Saudades e Avenida Rio Claro eram point de encontro de jovens, esse público também ficava girando, girando e girando, só observando uns aos outros. Esses grupos e algumas pessoas solitárias, a pé, de carro ou de moto, exibiam o que de melhor tinham, seja roupas vistosas ou automóveis com sons possantes (e na época aquelas buzinas personalizadas). Esses também andavam em direções, geralmente obedecendo os sentidos das respectivas vias, que sempre eram de mão dupla com canteiros no meio. Incluir a Avenida Piracicaba que até hoje fica cheia nos finais de semana.

E se pararmos para lembrar das histórias das pessoas mais velhas, dá para reparar que girar está mesmo na história dos limeirenses. Conversando com nossos avós, eles contam que antigamente as paqueras eram feitas nas praças da cidade. Os homens giravam para um lado e as mulheres para o outro. Ali se conheciam e formaram as famílias de hoje. Provavelmente girar tenha sido passado de geração para geração pelos genes ou pela educação que é passada de pais para filhos. Está meio que na cultura de um bom limeirense, aquele que se entrega ao ciclo vicioso e gira.

Falando em estar na cultura, essa palavra deve ser um problema que está por detrás disso tudo: a falta de cultura ou de entretenimento na cidade. Recentemente uma comissão foi formada na Câmara, mas parece que o resultado foi nulo. O secretário de Turismo e Eventos, Domingos Furgione Filho, também fez algumas pesquisas sobre a preferência dos jovens e adolescentes para fazer eventos específicos para eles e depois de descobrir que esse público gosta de pagode, grafitti e dance, fez alguns eventos, mas o projeto parou no tempo. A cultura então nem se fala. O Teatro Vitória só lota quando algum ator global ou integrante do CQC vem faz uma apresentação como aqueles pocket shows sem sentido e com alguns palavrões para divertir o público. Enquanto isso peças com mais conteúdo e produções de grupos da cidade ficam com várias cadeiras vazias e sem nenhum tipo de apoio.

Limeira não tem Sesc; não tem um museu decente; sem nenhuma galeria de artes; só tem uma boate; alguns bares que cobram até portaria para se ficar uns cinco minutos apertado ouvindo sertanejo ou qualquer outra música ao vivo que esteja programada para a noite; o que abre sempre fecha; o Centro de Ciência está parado; o que é construído é destruído; ninguém sabe o que será feito da Biblioteca Municipal; e o pior é que a política coloca pessoas de má índole ou despreparadas em cargos cabeça para que isso seja melhorado.

Conversando com o coordenador da Oficina Cultural Carlos Gomes, Robson Trento, e com o maestro da Orquestra Sinfônica de Limeira, Rodrigo Müller, eles comentaram que as vezes a cultura é desprezada. “Fazemos as coisas mesmo que a estrutura esteja ruim, por isso ninguém faz nada para melhorar as condições do local onde trabalhamos”, comentou um deles quando o assunto foi o Palacete Levy que serve de sede para os dois.

Como girar vem desde a época em que o Teatro da Paz era rodeado por moços e moças que ficavam se paquerando, dá para concluir que Limeira parou no tempo, como observou um amigo, Bruno Pacolla. E enquanto ninguém faz nada para mudar essa situação, a cidade vai girando nesse ciclo vicioso. Enquanto os funcionários públicos abaixarem a cabeça para alguns dos funcionários que não prestam e ganham cargos no poder público, enquanto a Cultura for dominada (mesmo que de longe) por um grupo seleto de “artistas” que não prestam ou pessoas que nunca atuaram, dançaram ou tocaram um instrumento e se dizem capazes de comandar um setor tão importante para o desenvolvimento da cidade, os jovens vão ficar girando eternamente sem ter algo útil para fazer.

3 comentários:

Mr. Bruno Pacolla disse...

Limeira é a cidade universitário com mais cara de 3a. idade que eu já vi na vida. Veja que coisa paradoxal, não?! Nosso Teatro deveria ser mais ativo, já que são poucas as peças interessantes que podemos assistir em Limeira. O cinema é tomado por manos! Ir às quartas até o pseudo-shopping é loucura. Só o prefeito ainda não percebeu que precisamos de mais atrativos para os jovens. Com mais bares, mais boates (inclusive gays), a economia da cidade vai melhorar. Eu que nem sou da área sei, imagina os "veiacos" da nossa política. Limeira simplesmente parou no tempo...

Juliano Schiavo disse...

Americana também gira, gira, gira... E continua na mesma. São, por acaso, cidades irmãs? rs

Juliano Schiavo disse...

Americana também gira, gira, gira... E continua na mesma. São, por acaso, cidades irmãs? rs