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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
[Resenha] Vidas Secas, de Graciliano Ramos | Projeto USP 2017
"Vidas secas" é um livro. Uma dessas coisas cheia de papel. Quem escreveu esse negócio foi um tal de Graciliano Ramos, um senhor igual o Seu Tomás da bolandeira. Esse Seu Graciliano é cheio de palavras e conseguia falar bonito com as pessoas. Até por favor ele devia pedir, mas isso não é certo, tem que mandar, não pedir favor.
Seu Graciliano da Vidas Secas deve ter uma cama boa. Igual aquela que Sinha Vitória quer. Sinha Vitória não aguenta mais dormir na cama de vara por causa de um nó que tem bem no meio dela. Eu e ela temos que dormir cada um de um lado, senão dói as costas.
Me disseram que Seu Graciliano estudou na escola do Modernismo. O que seria isso? Se o filho mais velho ouvisse essa palavra "Modernismo" ia achar mais bonita que "inferno", certeza. "Modernismo". Esse filho é um bicho curioso. Nem sabe falar, mas fica fazendo perguntas! Por isso que toma uns cascudos na cabeça e sai emburrado como um boi contrariado. Cascudo na cabeça também toma quem assiste ao vídeo e não se inscreve!
Esse Seu Youtubil deixa as coisas tão fáceis. É só clicar no botão de se inscrever. Não precisa de nada mais e ninguém vai pisar no seu pé e te botar na cadeia como fez o maldito soldado amarelo. Esse soldado deve estar lá, seco que nem o mandacarú em tempo de seca, procurando água no meio do sertão. Vontade de dar cabo nele, mas governo é governo.
Então, você aí, se inscreve. Escreve também um comentário para dizer o que você achou da seca nesse sertão e da Baleia, que Deus a tenha. I created this video with the YouTube Video Editor (http://www.youtube.com/editor)
January 5, 2017 at 12:00PM
sexta-feira, 20 de maio de 2011
A GENTE SE ACOSTUMA, MAS NÃO DEVERIA ....
Estou ouvindo o Juca Oliveira ler este texto da Marina Colasanti na Band News FM... vale a pena registrar:
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Vinícius de Moraes e seu crocodilo - atual e verdadeiro
Estudando literatura encontrei esse poema de Vinícius de Moraes:
O crocodilo
O crocodilo que do Nilo
Ainda apavora a cristandade
Pode ser dócil como o filho
Que chora ao ver-se desamado.
Mas nunca como ele injusto
Que se ergue hediondo de manhã
E vai e espeta um grampo justo
No umbigo de sua própria mãe.
O crocodilo espreita a garça
Sim, mas por fome, e se restringe
Mas e o filho, que à pobre ave
Acompanha no Y do estilingue?
A lama pode ser um berço
Para um crocodiliano
No entanto o filho come o esterco
Apenas porque a mãe diz não.
Tem o crocodilo um amigo
Num pássaro que lhe palita
Os dentes e o alerta ao perigo:
Mas no filho, quem acredita?
O filho sai e esquece a mãe
E insulta o outro e o outro o insulta
É ver o simples caimão
Que nunca diz: filho da puta!
O crocodilo tem um sestro
De cio: guia-se pelo olfato
Mas o filho pratica o incesto
Absolutamente ipso-facto.
Chamam ao pequeno crocodilo
Paleosuchus palpebrosus
Porém o que me admira é o filho
Que vive em pálpebras de ócio.
O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Los Angeles"
Espero não ter fieto uma interpretação errada - afinal literatura é muito subjetivo -, mas esse texto me fez lembrar muito aqueles filhinhos de mamãe descontrolados e extremamente mimados que não conhecem limites para conseguirem o que querem. Aqueles playboyzinhos que estão acostumados com tudo servido na bandeja e nada conquistado com esforço e que de tão acostumados com essa facilidade de berço, não sabem se relacionar em sociedade e usam seus meios para se sobrepor àqueles que dizem não. Hoje não comem mais esse esterco que Vinícius disse, usam carros e violência para protestar contra um não dos pais, da namorada ou de qualquer um que ouse enfrentar sua "superioridade mental".
Se a criança é o futuro de amanhã, como viveremos com um mundo dominado por crianças tão mimadas e sem respeito aos mais velhos????? Dá medo!!!!!!!!!!!
O crocodilo
O crocodilo que do Nilo
Ainda apavora a cristandade
Pode ser dócil como o filho
Que chora ao ver-se desamado.
Mas nunca como ele injusto
Que se ergue hediondo de manhã
E vai e espeta um grampo justo
No umbigo de sua própria mãe.
O crocodilo espreita a garça
Sim, mas por fome, e se restringe
Mas e o filho, que à pobre ave
Acompanha no Y do estilingue?
A lama pode ser um berço
Para um crocodiliano
No entanto o filho come o esterco
Apenas porque a mãe diz não.
Tem o crocodilo um amigo
Num pássaro que lhe palita
Os dentes e o alerta ao perigo:
Mas no filho, quem acredita?
O filho sai e esquece a mãe
E insulta o outro e o outro o insulta
É ver o simples caimão
Que nunca diz: filho da puta!
O crocodilo tem um sestro
De cio: guia-se pelo olfato
Mas o filho pratica o incesto
Absolutamente ipso-facto.
Chamam ao pequeno crocodilo
Paleosuchus palpebrosus
Porém o que me admira é o filho
Que vive em pálpebras de ócio.
O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Los Angeles"
Espero não ter fieto uma interpretação errada - afinal literatura é muito subjetivo -, mas esse texto me fez lembrar muito aqueles filhinhos de mamãe descontrolados e extremamente mimados que não conhecem limites para conseguirem o que querem. Aqueles playboyzinhos que estão acostumados com tudo servido na bandeja e nada conquistado com esforço e que de tão acostumados com essa facilidade de berço, não sabem se relacionar em sociedade e usam seus meios para se sobrepor àqueles que dizem não. Hoje não comem mais esse esterco que Vinícius disse, usam carros e violência para protestar contra um não dos pais, da namorada ou de qualquer um que ouse enfrentar sua "superioridade mental".
Se a criança é o futuro de amanhã, como viveremos com um mundo dominado por crianças tão mimadas e sem respeito aos mais velhos????? Dá medo!!!!!!!!!!!
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