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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ideologia e parcialidade na imprensa


Fonte: Estadão. Acessado em 6 out. 2014.

A imprensa conquistou a liberdade de expressão a duras penas depois do Ato Institucional nº 5. Hoje nenhum veículo precisa recorrer às receitas de bolo ou aos versos de Camões para preencher um espaço que ficaria em branco depois do crivo do governo. Isso é fato. Contudo, enquanto a liberdade aflorava a parcialidade e o subjetivismo extremo a acompanhava. O que se pode esperar de uma cobertura das eleições 2014 de veículos que apoiam incondicionalmente um ou outro partido político, uma ideologia neoliberalista e se esquece daqueles preceitos básicos do jornalismo ou das outras ideologias que ainda têm espaço da economia, na política e na sociedade?

Gramsci identifica a imprensa como um partido político. Perseu Abramo defende que ela manipula seu público devido aos interesses financeiros que a empresa possui. É possível até liga-la a um aparelho de dominação do Estado de Althusser. Independente destas características, definições e acusações, a imprensa é e deve ser livre. Contudo, até que ponto podem ser tão livres assim a coberturas jornalísticas que cada veículo faz?

Não parece ser errado que aquele jornal ou esta televisão apoiem a candidatura deste ou daquele partido ou candidato à Presidência. O Estadão foi claro, no último domingo (5/10) que apoiava a eleição de Aécio Neves (PSDB). Com a bandeira da “hora da razão”, o jornal deu as justificativas para se votar neste candidato e acabar com o “lulopetismo” que sua redação tanto combate. Aceitável? Sim, são livres e não há nada que os impeça de se transformarem em um meio de divulgação da ideologia daquele partido.

Porém, como é possível confiar na credibilidade do jornal sendo que: (1) eles só deram espaço durante as coberturas aos três primeiros colocados nas pesquisas de intenções de voto? (2) como podemos nos assegurar que o tratamento dos escândalos do PT têm o mesmo peso que os do PSDB? (3) e na parte econômica, como podemos acreditar no tal “pessimismo dos empresários”, que o jornal tanto divulga, quando o conjunto das edições do jornal são uma campanha de desmoralização do governo petista?

Há, sem dúvida, problemas na estrutura tributária brasileira que desestimula os investimentos privados. Os impostos que incidem em cascata são o exemplo mais claro disso. Contudo, após a edição do Estadão deste último domingo fica a dúvida: este pessimismo é realmente justificável? E quem instaura o pessimismo nos empresários: a situação econômica ou a imprensa? Há algumas informações que podem colocar a cobertura do jornal sob suspeita.

A primeira é demográfica: São Paulo é o centro dinâmico do país. Aqui estão as principais empresas do Brasil ou então as sedes destas grandes empresas. Portanto, é neste estado que está a “nata do capitalismo brasileiro”. Essa nata do capitalismo, defensores tanto da indústria quanto, principalmente, do agronegócio, são neoliberais. Acreditam fortemente que a participação do Estado na economia deve ser mínima. Sem subsídios, sem incentivos, sem o Estado de bem-estar social – como disse Marilena Chauí em uma de suas palestras, o neoliberalismo foi uma desconstrução de todo aparato social que o Estado construiu ao longo de décadas para amparar a classe pobre e os trabalhadores.
Outra informação vem do resultado deste primeiro turno das eleições a presidente. Em São Paulo foi reeleito Geraldo Alckimin (PSDB) com 57,31% dos votos. Por mais que grande parte dos professores reclamem da situação da Educação; que a mídia saiba que há ainda a aprovação automática que leva vários alunos a mal saberem interpretar um texto no Ensino Médio. Aécio Neves (PSDB) teve 44,22% dos votos no estado. Não que esses números representem  que esta é a parcela da população ligada ao capital, mas representam, como muito sabem, que São Paulo é um reduto deste partido.

Há entre veículos de comunicação e seus leitores um “contrato de leitura”, defendido por Maia (2002). Se estes veículos se antecipam aos seus leitores, conceito de Orlandi (2006), e entregam ao público o que eles querem ler nas páginas dos jornais, fica evidente a relação entre os resultados das urnas e a cobertura que faz a grande mídia, especialmente o Estadão. Contudo, até que ponto há esta antecipação e este contrato? Não estariam os jornais negando ser um espelho da sociedade, por mais que esta teoria seja controversa, e, no lugar disso, estariam pautando esta sociedade, inserindo nela a ideologia que acreditam ser a melhor para a sociedade brasileira?

Se a resposta é sim ou talvez, o problema deste fato é que falta, e muito, a pluralidade de vozes. Acima disso: falta o comprometimento do jornalismo com a cobertura imparcial. Não é possível ler o jornal e acreditar que haverá denúncias de corrupção do PSDB com a mesma cara, peso e tom concedidos aos casos do PT. Uma evidência disso também é a capa do Estadão do último domingo: foram publicadas fotos dos três principais candidatos à Presidência da República e a chamada de cada um deles mostra o tom que cada partido recebe. Na foto de Aécio “Fôlego no final”; na de Marina, “Do sonho à realidade”; já na de Dilma “Tática de desconstrução”. Só por estas chamadas é visível os tons positivos e negativo que o jornal dá a cada um dos candidatos. Isso tudo sem insistir na velha crítica: foram só três candidatos. O caderno especial sobre as eleições de 2014 sequer faz um perfil dos demais candidatos no mesmo tamanho e destaque que fez para os “três principais”.

Agora ficam os questionamentos: como é possível dar a devida credibilidade a um jornal tão grande sabendo que são “cinco pesos e uma medida”, porém quem estabelece essa medida (o jornal) não a faz de maneira justa e igual? Não há problema em um jornal querer apoiar o PSDB, como fez o Estadão, e uma revista o PT, como a Carta Capital. O problema está em como cada um deles induz seus leitores a acreditarem que sua visão é a melhor dentre todas sem propor um debate amplo e dar espaço a todas as vozes dissonantes em relação a sua ideologia. Quem perde com isso é o público e a democracia brasileira.


Somos livres para ler qualquer veículo de comunicação, mas como é possível usar essa justificativa em um país onde o número de leitores decresce a cada ano? Isso sem contar com o número de analfabetos funcionais em São Paulo. Sendo assim, em quem confiar?

domingo, 14 de setembro de 2014

Eleições, jogo sujo e a venda casada para a classe média



Minha opinião não deve ser surpresa para ninguém: há nas eleições basicamente quatro atores. Elas são dominadas por poucos partidos, disputadas por tantos outros considerados “nanicos”, influenciadas pela grande mídia que exacerba seus interesses em manchetes e coberturas enviesadas e “decidida” (entre aspas mesmo) pelos eleitores.

Acompanhando mais de perto um dos candidatos à presidência da República deste ano, a crítica à imprensa foi um argumento muito utilizado pela candidata do PSol, Luciana Genro. Em mais de uma entrevista ela criticou a falta de espaço que seu partido tem na cobertura da grande mídia. Em semanas não lembro de ter visto seu nome ou de qualquer outro candidato que não seja os três “principais” nas folhas do Estado de S. Paulo ou na tela Globo, por exemplo.  Isso é fato.

Desconsiderando por hora alguns interesses vou me ater à uma entrevista da candidata citada para a TV Folha. A entrevista ocorreu na sexta-feira , dia 12 de setembro, foi transmitida ao vivo e está disponível no site do jornal hoje. Minha intenção não é fazer propaganda política, mas não há como fazer a crítica ao jornal sem analisar o todo da entrevista e como ela foi veiculada.

Quem procura o vídeo de Luciana Genro (PSol) no site da folha vai se deparar com o seguinte título: “Luciana Genro defende invasão de imóveis para moradia; veja entrevista”. No total o vídeo disponibilizado pela Folha tem pouco mais de 46 minutos e não está completo, vide que ele foi cortado antes de a candidata responder uma das perguntas de leitores do veículo.

Analisando do ponto de vista da informação, o título foi fruto de uma declaração da candidata durante uma discussão das ações do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).  O jornalista que a entrevistava questionou qual a posição da candidata quanto às “invasões” de terrenos pelo MTST para fins de moradias sociais. Em sua resposta a candidata faz uma correção: invasão, para ela, é um erro de semântica uma vez que este termo se refere à tomada de um imóvel ocupado; ela usa então o termo ocupação. Genro continua defendendo as ocupações usando como argumento os preços dos aluguéis e a ação de grandes empreiteiras que teriam, na fala dela, comprado grandes conjuntos de terra e “tomado conta do Minha Casa, Minha Vida e hoje quem determina a política habitacional no Brasil são as empreiteiras através do programa” do governo.

Então o jornalista lança o que eu encarei como uma “armadilha”: “A senhora destacou a questão semântica entre invasão e ocupação que não é uma invasão porque o terreno não está ocupado. No caso de um imóvel, de um apartamento, uma família que tenha oito apartamentos, ela tem três apartamentos vazios, não quer alugar, etc., o apartamento não está alugado. A senhora defende a ocupação destes imóveis também?”

A candidata alega que “este não é o método do MTST” e é interrompida pelo jornalista que volta a questionar: “Eu estou perguntando se a senhora defenderia. Se a semântica vale para terreno poderia valer para isso também, ou não?”. Se a candidata é pega ou não na armadilha é questionável. Porém, para o que o jornalista estava em mente a armadilha capturou o urso perfeitamente. É um exemplo claro daquelas perguntas que induzem à resposta que o jornalista quer ouvir para usar como manchete de sua reportagem.

Ao assistir a entrevista completa e levando em conta o programa da candidata e sua atuação no horário político e nos debates aos quais ela é convidada, há três possíveis razões para o que eu enxergo como uma falta de ética e estigmatização da candidata. O primeiro ponto, ligado ao seu programa de governo, leva em consideração sua campanha contra o capitalismo financeiro. Em vários pronunciamentos e entrevistas, Genro atribui aos bancos e ao mercado financeiro o papel de inibidor de uma política mais social uma vez que essas instituições mantém seus lucros enquanto o trabalhador se mantém endividado. Neste ponto questiona-se quais os interesses da imprensa e sua conexão com o sistema financeiro. Durante as ações do Banco Central e do governo Dilma (PT) na derrubada da Selic entre 2011 e 2012 os jornais se colocaram contrários os juros baixos defendendo o interesse do sistema que beneficia especuladores.

A segunda causa possível para o jornalista lançar esta armadilha foi o ataque direto que a candidata do PSol fez à grande mídia e à Folha de S. Paulo. Quando questionada na mesma entrevista à TV Folha sobre a possibilidade de seu governo controlar a mídia, Luciana Genro indagou que a liberdade de imprensa é praticamente uma falácia, uma vez que são os donos dos jornais que determinam o que é ou não veiculado. Além desta acusação, a candidata também apontou a cobertura da grande mídia sobre a corrida presidencial deste ano.

Segundo ela, os grandes jornais e emissoras de televisão só dão espaço para três candidatos “viáveis”, na definição dela, para se votar e complementa: “inclusive a própria Folha que cobre fundamentalmente os três candidatos e ignora os demais. Isso não é democracia". Estava o jornalista ofendido ou não por ter tido seu “patrão” acusado de antidemocrático, é uma questão a ser avaliada. Se sim, lhe faltou profissionalismo; se não, esta hipótese está descartada.

Já a terceira, é o fato de o jornalista ter sido corrigido, ao vivo, na questão semântica da palavra invasão. Aí o argumento é o mesmo anterior: falta de profissionalismo ou a hipótese derrubada. A avaliação destes dois primeiros pontos deve considerar a postura dos dois jornalistas durante a entrevista.

Independente de qualquer uma das alternativas, ao analisar a entrevista da candidata e suas propostas para seu possível governo, o título poderia ser diferente. Ela defendeu imposto sobre as grandes fortunas, portanto, um título possível seria: “Luciana Genro defende taxação sobre grandes fortunas para investir em educação”; ou então sobre o casamento civil igualitário; a descriminalização da maconha; o fato de ela querer consultar o povo sobre a reeleição de ocupantes de cargos políticos; entre outros.

O que a Folha fez faz parte de uma estratégia de desmoralização desta candidata, o que não necessariamente isenta outros candidatos de passarem pelo mesmo. Sendo um jornal lido pela classe média, o editor que escolheu o título apelou para o imaginário popular ao usar “defende invasão de imóveis para moradia”. Em primeiro lugar, o jornalista foi corrigido no uso da palavra invasão, para Luciana Genro seria ocupação.

Em segundo, há um preconceito contra qualquer movimento que fira o “direito da propriedade privada” no mundo liberal em que vivemos. Quando a candidata foi questionada sobre a possibilidade de ocupação de “imóveis”, leia-se “apartamentos que não estão habitados”, o jornalista resgatou do imaginário popular o temor de que o grupo MTST começasse a “invadir” apartamentos em São Paulo para garantirem moradias sociais. Esta estratégia não é nova, há antecedentes na política como na eleição de Lula (PT) em 2002 quando o petista precisou fazer uma carta para sossegar o mercado financeiro alegando que não haveria grandes revoluções na política brasileira.

O que é visível aqui é uma candidata de esquerda sendo colocada à margem do debate eleitoral e mais, ganhando um papel que não lhe cabe. Recorrer ao imaginário dos leitores da Folha para que eles associassem Luciana Genro ao MTST e sua defesa de ocupações de terrenos desocupados é um jogo sujo. O título induz o leitor, ou neste caso, internauta a esperar pelo momento crucial em que a candidata faz a afirmação que casa com o que foi vendido aos seus olhos.


Trata-se pontando de uma venda casada e uma propaganda enganosa. Enganosa porque a candidata foi pega numa armadilha, o jornalista cometeu o “erro de semântica” no título da notícia e o que o título vende não é necessariamente o que a candidata afirmou. E é uma venda casada porque fornece aos leitores do jornal um box de manutenção da direita, dos interesses da classe média e da propriedade privada e de brinde uma mensagem: “não vote nela ou seu apartamento será invadido”. Agora fica a pergunta ao jornalista da Folha: há em São Paulo mais proprietários de oito apartamento ou famílias que destinam grande parte de seu salário ao aluguel?