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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Rachel e a liberdade de opinião exacerbada

A discussão surgiu de uma postagem no Facebook sobre o caso da âncora do jornal do SBT, Rachel Sheherazade e a opinião emitida por ela a respeito do “marginalzinho amarrado ao poste” e os justiceiros que fizeram tal ato. Há uma petição on-line contra a jornalista e foi justamente a partir do compartilhamento dessa petição que a discussão se iniciou.

Um dos meus contatos estava indignado pela reação contra a jornalista lembrando que na época das manifestações de junho de 2013 ela tinha sido aplaudida de pé por ter se mostrado “muito guerreira, destemida e corajosa, por falar abertamente da realidade pobre da política brasileira”, segundo ele. A indignação dele era vê-la sendo “achincalhada” por ter cometido um erro.

O problema dela, contudo, é que não foi um único erro. As opiniões dela vêm incomodando há um certo tempo já. A opinião é livre, mas na posição que a jornalista está essa liberdade é carregada por uma responsabilidade enorme, ainda mais com o público que o jornal do SBT atinge. Muita gente ainda confere aos jornalistas a voz da verdade e da sabedoria, principalmente aquelas pessoas que não tem tanto estudo pra enxergar os interesses e o jogo de poder que estão por de trás dessas manifestações que a Rachel emite. O texto pode nem ser dela, tornando-a um bode expiatório dos editores do jornal, mas quando ela abre a boca toma a autoria da fala pra si e parece não pensar nem um pouco nas consequências que essas palavras podem ter para os telespectadores. Este é, pra mim, o real problema.

A liberdade de opinião as vezes da uma dessas: “as pessoas são tão expostas como são, e se acham cada vez mais no direito de julgar e conjugar os verbos”, como esse contato disse. No fundo eu acho que o problema é a falta de consideração sobre o que se está falando. A maioria esquece que tem dois ouvidos e uma boca e, infelizmente, cada vez mais estão perdendo a capacidade de pensar e refletir sobre o mundo. E quer exemplo mais claro disso que as próprias palavras da jornalista: “ficha mais suja que pau de galinheiro”? Além do péssimo gosto para metáforas, o uso do conhecimento popular mostra que a linguagem está direcionada para um público específico. É justamente aí que mora o perigo nessa história da Rachel. Imagina uma mãe de família que, por uma injustiça social, não conseguiu terminar nem o Ensino Fundamental ouvindo essa mulher falar. Assim como o BBB, no dia seguinte o assunto da rodinha de amigas vai ser as palavras da Rachel, quem saiu do reality e o que aconteceu nas novelas X, Y e Z. há 27 minutos ·

A opinião é um assunto tão complicado que tem telejornais que sequer usam ancoras mais. Na contramão, os jornais da TV Cultura se abstêm de colocar um âncora e levam acadêmicos e estudiosos pra comentar as notícias. É um modelo excelente uma vez que eles colocam quem realmente estuda os assuntos a fundo e têm propriedade pra dar uma opinião concreta. Jornalistas, geralmente, não têm essa capacidade porque saem da graduação tão despreparados quanto um adolescente sai do Ensino Médio e que se vê forçado a escolher uma carreira a todo custo. É preciso anos de estudo, de profissão e de profissionalismo pra emitir uma opinião concreta e sólida. E acima disso, é preciso inteligência e discernimento para pensar na reação que as palavras terão junto ao público.

A opinião da jornalista representa, de certa forma, uma parte da população: a “classe média que sofre”. São aquelas pessoas que só enxergam problemas no Brasil e não conseguem ver que nossos problemas sociais e econômicos são causados, também, por nós mesmos quando nos abstemos de lutar por um país com menor desigualdade. O governo pode até ter criado os “usurpadores”, como meu contato se referiu aos beneficiários de programas sociais, quando fez o Bolsa Família e as infinitas bolsas. Todo sistema tem suas falhas, mas de que outra forma seria possível reduzir a pobreza e diminuir a distribuição de renda que existe no país? O Bolsa Família, por exemplo, tem uma contrapartida na educação. A educação, infelizmente, ainda está engatinhando depois dos tombos que levou por conta das reformas passadas. Mas vai ser só por meio dela que vamos conseguir sair da condição que estamos e tentar caminhar com passos um pouco mais largos.

Aí é que entram os jogos de interesse. Qual o interesse que os mais ricos têm de dar educação para a população? Pra quê fazer a massa pensar e raciocinar e abrir mão da política do pão e circo que está aí há séculos, desde que Portugal resolveu trazer as caravelas e despejar o instinto contra o trabalho e disseminar esse paternalismo exacerbado que só enxerga os interesses políticos com o custo de um jeitinho abrasileirado? É uma herança que temos e uma condição do capitalismo que ainda marca essa injustiça social. Karl Marx em O Capital, livro 1, já retratou a falta de interesse em fornecer educação para a população e mostrou como os trabalhadores daquela época eram explorados pelos capitalistas. O que mudou desde então quando o tema é educação?

Agora, sobre o caso do "marginalzinho", quem prova que ele tinha feito algo realmente? Se fez, quem tem o direito de tomar o poder nas mãos e prender o indivíduo num poste com a trava de bicicletas? É realmente um ato desumano o que fizeram com ele. Nesse sentido, porque as palavra dela não foram em defesa da educação nesse país ou de melhora no sistema carcerário? Fornecer ensino nos presídios e programas de capacitação no lugar de deixar mil presos numa cela pequena aprendendo ainda mais a como ser um bandido pode ser uma solução e uma causa para a campanha lançada no telejornal "Adote um bandido e dê a ele a oportunidade de estudar e tentar ser alguém". Ai entram os defensores da “classe média sofre” e pensam no dinheiro público gasto com “marginais”. Contudo se esquecem que esse problema não é do indivíduo, mas sim da sociedade.


As palavras da jornalista, no entanto, foram carregadas de preconceito, esse preconceito "classe média sofre" porque um marginalzinho na rua vai roubar o iPhone dela para comprar drogas, uma vez que foi excluído da sociedade e da possibilidade de estudar e conseguir dinheiro por meios legais e dignos. As drogas e a violência é um problema social com uma solução a conta gotas, ficar propagando o preconceito e discriminação de classes da forma como ela e o SBT fizeram não vai ajudar em nada.

Entrevista da Sheherazade quando entrou no SBT (indicada por Rodrigo Cezarin em comentários no Facbook)

Vídeo da jornalista sobre Justin Bieber e sobre o "Marginalzinho preso ao poste"

domingo, 21 de abril de 2013

Contradições entre o quê e quem fala


O jornalismo deste final de semana trouxe a contradição aos leitores de O Estado de S. Paulo e telespectadores do Globo Esporte. No primeiro, informações diferentes apareceram no editorial do jornal e na coluna da jornalista Suely Caldas, duas visões diferentes com caráter de informação em duas páginas da mesma edição. Já na televisão a contradição se dá entre a programação geral da emissora carioca e uma reportagem sobre a situação de um ginasta olímpico.

Vale parar um pouco depois de ler e assistir às reportagens divulgadas e televisionadas por estes veículos e contrapor as informações e a história de quem é que está falando.

No jornalismo esportivo

Parece ser senso comum que brasileiro gosta apenas de futebol. Afinal, qual é o esporte considerado paixão nacional e qual é o esporte que mais recebe espaço na cobertura do jornalismo esportivo? O futebol tem espaço garantido as quartas-feiras na programação da Globo e provavelmente sempre terá espaço quando precisar, vide as transmissões dos jogos da seleção brasileira. Sem querer ir contra essa paixão dos brasileiros pelo futebol, acho que colocar esse esporte ao lado de qualquer outro é humilhar esse qualquer outro quando se trata de medir a atenção que eles recebem na mídia.

Partindo dessa constatação é muito contraditório ver a emissora que deixou de transmitir as Olimpíadas de Londres de 2012 fazer uma reportagem no domingo pela manhã mostrando as situações precárias de treino de um ginasta olímpico, medalhista de ouro naquela competição. Ressalva: uma reportagem curtíssima se comparada com a que mostra vida de um jogador de futebol brasileiro que faz sucesso na Europa e tem até peruca loura que imita seus cabelos a venda no mercado. O ginasta da reportagem é Arthur Zanetti e a emissora mostrou como o atleta treina hoje em dia depois de ter recebido medalha de ouro em 2012.

A primeira reflexão é realmente a indignação de ver alguém que conquistou uma medalha importante para o Brasil ter que treinar sem as condições mínimas para tentar repetir o feito nas olimpíadas aqui no país. A segunda, no entanto, é ver que quem fala do problema, de certa forma, ajuda a criar o mesmo problema. Tenho a impressão de que se a Rede Globo tratasse a ginástica olímpica, o volei, o basquete, ou qualquer outro esporte com a mesma intensidade que trata o futebol, não só a visibilidade dessas modalidades aumentariam, mas também o volume de patrocínios que eles recebem. Pra mim a lógica parece fácil: visibilidade do esporte traz patrocínios que significa visibilidade para o patrocinador. Afinal, basta reparar nas quadras e nas camisas dos times de futebol: não são pequenas empresas que estão estampadas ali, são? E o que mais as empresas querem nessa lógica capitalista são grandes e exorbitantes lucros. “Pouco importa a forma como obtê-lo, mas se usar o esporte ajuda a promover a marca e traz algum reconhecimento à empresa, então usemos”, parece pensar o dono do dinheiro brasileiro.

Aqui ainda vale resgatar o texto publicado no Observatório da Imprensa do jornalista Thiago Forato: “A intenção da emissora é quebrar o monopólio?” (edição 706 de 7 de julho de 2012). Ao discutir a aquisição dos direitos de transmissão das Olimpíadas de Londres pela Rede Record, o autor diz algo que se parece verdade pura quando se trata de jogos olímpicos: “Entre novela e Olimpíada, certamente a emissora carioca escolheria a primeira opção, privando a maioria da população de acompanhar os jogos olímpicos.”

No jornalismo econômico

A outra contradição está no jornalismo econômico. O editorial do jornal O Estado de S. Paulo traz, para variar, mais um ataque à presidente Dilma Roussef: “Dilmês castiço”. Quase no mesmo tom está o texto da colunista do caderno Economia & Negócios, Suely Caldas: “Autonomia do BC – agora vai?”. Apesar das semelhanças e dos ataques ao governo petista, os dois textos trazem duas interpretações sobre um mesmo assunto que geram informações diferentes.

Ambos relembram o desconforto gerado pela presidente no dia 27 de março quando ela falou sobre inflação em entrevista coletiva aos jornalistas que acompanhavam o encontro dos Brics (bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Durban, na África do Sul. Naquela ocasião as edições dos veículos anti-governo deram mais ênfase ao começo e ao final da fala da presidente e ignoraram todas as outras palavras da presidente sobre o esforço do governo contra a inflação. A interpretação das palavras de Dilma gerou alvoroço no mercado financeiro devido às expectativas quanto à Selic. Frente à repercussão a presidente convocou os jornalistas e disse que sua fala fora manipulada, sem dizer, no entanto, quem manipulou suas palavras.

Resgatado o cenário, o editorial do último domingo (21 de abril) O Estado de S. Paulo afirmou: “(...) Imediatamente, a declaração causou nervosismo nos mercados em relação aos juros futuros, o que obrigou Dilma a tentar negar que havia dito o que disse. E ela, claro, acusou os jornalistas de terem cometido uma ‘manipulação inadmissível’ de suas declarações, que apontavam evidente tolerância com a inflação alta – para não falar da invasão da área exclusiva do Banco Central.” (página A3 do jornal). Já a colunista Suely Caldas afirma: “Efeito imediato, a taxa de juros no mercado futuro despencou. Irritada, ela acusou agentes do mercado de manipularem suas palavras. Se tivesse ficado calada, nada disso teria acontecido, o mercado não teria motivo nem respaldo para criar volatilidade, instabilidade.” (página B2). Afinal, quem manipulou? Eu, leitor, fiquei confuso.

Essa contradição mostra diferentes olhares influenciados pela visão política de quem escreveu o texto. É teorizado que a formação profissional e cultural influencia na forma como o jornalista vê, avalia e escreve sobre um determinado assunto e como o jornal transmite as informações aos leitores. Teoria essa que quebra os discursos de objetividade. Essas visões ficam completamente expostas, claro, num artigo opinativo. O perigo, porém, está na forma como essas elas são usadas. A cobertura sobre a declaração da presidente no dia 28 de março foi extensiva. Quando o Valor Econômico deu apenas uma página, O Estado de S. Paulo publicou várias análises e entrevistas numa demonstração clara de desafeto com o governo e/ou com sua política econômica.

Como tentei expor no artigo anterior no Observatório da Imprensa (“Amanipulação e o jornalismo enviesado” de 9 de abril, edição 741) o jornalismo econômico está mais político que econômico. Um professor de economia da Unicamp me disse, na semana do dia 1º de abril, que os ataques ao governo estão intensos mostrando um uso político desse noticiário. Ele concorda que a Dilma não deveria ter respondido a questão do jornalista, mas não porque ela não sabe o que diz, mas sim porque qualquer afirmação que ela desse seria usada contra ela mesma, não no tribunal, mas na imprensa e, claro, nas eleições!

CONTIN,A. Alex. Contradições entre o quê e quem fala.Observatório da Imprensa (São Paulo), ed. 743. p. Digital, 2013. 

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Ilustração de como a Globo trata a Ginástica Olímpica:


Ou seja: não trata!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A manipulação e o jornalismo enviesado


Será que a acusação da presidente Dilma Rousseff (PT) de que suas palavras foram manipuladas está tão errada assim? Analisar o caso e o atual jornalismo econômico traz reflexões que ultrapassam a falta de contexto que é prática nos grandes jornais.
Na quarta-feira (27/3), durante o V Cúpula dos Brics (bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em Durban, na África do Sul, a presidente concedeu uma entrevista coletiva a vários repórteres brasileiros que lá estavam acompanhando os debates dos presidentes dos cinco países. Após falar sobre dificuldades, realizações e desafios do bloco, um jornalista do Valor PRO (identificado pelo jornal Valor Econômico na edição do dia 28) questionou a presidente sobre o impasse entre crescimento, inflação e mercado de trabalho aquecido. Antes de ver a resposta da presidente, vale uma contextualização.
Nos dias anteriores – isso considerando antes e depois do dia 27 – foram publicadas várias reportagens na grande imprensa sobre o mercado de trabalho aquecido. São diversas visões sobre a relação inflação e taxa Selic. Os porta-bandeiras da necessidade urgente de aumento da taxa básica de juros e/ou aumento do desemprego são os jornais O Estado de S. Paulo e, em menor grau, a Folha de S.Paulo e também o Valor Econômico, que parece ter uma racionalidade um pouco mais pé no chão em todo esse caso.
Independência do Banco Central
Além das discussões sobre a relação desemprego e inflação, os jornais das últimas semanas trouxeram outras pautas. Todo e qualquer ato da presidente Dilma vira pauta. Nada mais natural no ponto de vista jornalístico. Mas o que parece ser forçado nestes últimos dias é a quantidade de vezes que inflação e taxa de juros é citada por esses jornais durante a semana. Quer seja em artigos opinativos, colunas, editoriais e reportagens, os jornais paulistas estão aproveitando o cenário econômico para o que parece ser uma desmoralização da presidente Dilma, mesmo frente às pesquisas que mostram a aceitação de seu governo.
Eis que, frente a todo esse cenário que foi (e vem sendo) construído pela imprensa e seus analistas, a presidente respondeu à pergunta do repórter do Valor e todo o bafafá começou naquela semana. Vou me ater a dois pontos: a questão do ministro da Fazenda e o debate sobre a inflação e a declaração sobre o não comprometimento do crescimento da economia.
De acordo com a transcrição, o áudio e o vídeo da entrevista coletiva disponibilizados pelo Blog do Planalto, a pergunta foi: “(...) É sobre os Brics, é porque a senhora está falando muito da questão do crescimento, da importância que os países têm de manter o crescimento. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil, que é um dos principais dos países dos Brics, está se falando muito da necessidade de talvez conter... medidas que reduziriam o emprego, que estaria fazendo pressão inflacionária. O que a senhora acha desse tipo de...?”
Aí começa o problema, as versões e interpretações. A presidente começa sua resposta alegando que “geralmente, nas questões específicas sobre inflação, eu deixo para ser falado pelo ministro da Fazenda”, mas que adiantaria algumas questões aos jornalistas lá presentes. Já de cara essa frase, usada, abusada e criticada pelos jornais, deu argumentos àqueles que insistem que o Banco Central (BC) não é independente. A questão da independência do Banco Central provém de um arcabouço teórico na economia que preza pela relação mínima entre os dirigentes do “banco dos bancos” (como é conhecido o BC) e as políticas arbitrárias do governo em poder. Ou seja, é desejável que o BC não seja usado partidariamente pelo poder Executivo para fazer da política econômica um instrumento de campanha e deixá-la ao sabor do vaivém presidencial.
Cesta básica e folha de pagamento
Atenho-me apenas numa análise do discurso e da prática do jornalismo e não dos aspectos econômicos que envolvem a questão, é possível ver que a frase foi totalmente tirada do contexto quando transmitida para o público. Primeiro porque a pergunta foi feita num local não propício para essa discussão: a própria Dilma disse que queria responder questões sobre o encontro dos BRICS e não sobre a situação brasileira. E, na minha interpretação, a presidente queria apenas deixar que o ministro da Fazenda falasse sobre o assunto, sendo ele o porta-voz do governo para assuntos como o que foi questionado – afinal, quantas vezes se vê Guido Mantega discursando sobre economia? No entanto, a simples frase da presidente foi assunto suficiente para o jornal O Estado de S. Paulo abrir um quadro na primeira página do caderno “Economia & Negócios”, no dia 28 de março, falando dos deslizes da Dilma durante o encontro dos países emergentes.
Além dessa primeira frase da Dilma, outra foi amplamente criticada: “Esse receituário que quer matar o doente em vez de curar a doença, ele é complicado, você entende? Eu vou acabar com o crescimento do país. Isso daí está datado, isso eu acho que é uma política superada.” Segundo os jornais do dia seguinte, a frase da presidente gerou um mal-estar no mercado financeiro. Os agentes que agem a partir de expectativas quanto ao futuro dos juros para vender e comprar ações ou títulos, interpretaram que não haveria aumentos na taxa Selic.
A frase, assim como a anterior, também foi tirada fora do seu contexto. Antes de falar sobre esse receituário, a presidente havia citado as medidas que seu governo está adotando para tentar conter a inflação. Ela inclusive citou medidas no campo da Educação que têm como objetivo aumentar a quantidade de mão-de-obra capacitada no Brasil – uma constante no discurso de empresários quanto às dificuldades para a produção. Também citou desonerações na cesta básica e da folha de pagamento – outra constante da crítica quanto às altas taxas brasileiras que aumentam os custos da produção. Mas e ai? Quem citou essas justificativas?
Jornalismo econômico e política
Além disso, e vale a pena citar, a presidente concluiu sua resposta dizendo que o fato de achar o tal receituário ultrapassado “(...) não significa que o governo não está atento e, não só atento, acompanha diuturnamente essa questão da inflação. Nós não achamos que a inflação está fora de controle, pelo contrário, achamos que ela está controlada e o que há são alterações e flutuações conjunturais. Mas nós estaremos sempre atentos.” É possível dizer que o governo nega a inflação, afirmação usada por articulistas da imprensa, frente a uma fala dessa?
O mais interessante ao analisar o discurso desses jornais é construir uma grande história, com começo, meio e fim, como propõe Luiz Gonzaga Motta no artigo “A análise pragmática da narrativa jornalística”. Reunindo todas as reportagens que relacionam aumentos das variações de preços e taxa Selic é possível construir como os jornais se colocam frente à inflação. É considerável a quantidade de reportagens e artigos que falam que o mercado de trabalho é um dos principais fatores da inflação e que é preciso aumentar o desemprego para conseguir encaixar a economia lá na curva de Philips que relaciona inflação alta e taxas de desempregos baixa e vice-versa.
Neste jornalismo que usa a bandeira da objetividade mas veste a camisa da ideologia político-partidária, é lei focar apenas nos aspectos negativos da fala da presidente e lotar as páginas com angulações pessimistas sobre números da economia. Em conversa com um professor de economia da Unicamp, questionei como ele viu o caso. De cara, o professor disse que a presidente não deveria ter respondido a pergunta. Mas qualquer resposta dela seria o suficiente para a imprensa fazer o mesmo showrnalismo que fez.
“Esperemos 2014”
Ele ainda me explicou que o governo petista vem de uma atuação presidencial sem muitas brechas para a crítica da imprensa. Segundo ele há dez anos que a imprensa não conseguia criticar fortemente o PT como vem fazendo nestes últimos meses. De repente, frente a todo o cenário de reflexos de crise, baixo crescimento, entre outros assuntos, uma linda brecha se abriu e em um dos melhores momentos: véspera de eleição. É um uso político do jornalismo econômico.
Refletindo sobre as palavras desse professor e voltando os olhos para o jornalismo econômico feito pelos principais jornais paulistas, é possível identificar claramente um discurso contra o atual governo. Parece que esse jornalismo está em função da crítica que irá ser usada nas próximas eleições presidenciais. Vai ser interessante assistir às propagandas eleitorais e contar quantas dessas reportagens foram usadas. Portanto, como concluiu Fernando Henrique Cardoso em seu artigo “Razão e bom senso”, no Estado de S. Paulo deste domingo, “Esperemos 2014”.

CONTIN, A.A. A manipulação e o jornalismo enviesado. Observatório da Imprensa. (São Paulo) Ed. 741. Digital. 2013 Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed741_a_manipulacao_e_o_jornalismo_enviesado> 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Duas revoltas, uma resposta e um comentário pessoal

Me revoltei com esta entrevista, mas ao mesmo tempo ela me fez admirar ainda mais a Marília Gabriela:



Hoje comentei sobre este vídeo no meu estágio e me deparei com duas das quatro pessoas da sala com a opinião exatamente igual à deste pastor. Ouvi: dois homens e duas mulheres "não é normal" e dois homens e duas mulheres não são capazes de criar uma criança porque não vão ter a presença/papel/educação do pai e da mãe. Desisti de discutir depois de alguma relutância...

A caminho do ponto de ônibus parei com uma colega do trabalho na cantina da Faculdade de Educação e uma professora que estava num intervalo de banca ouviu nossa revolta e me indicou esse vídeo:



Fiz questão de comentar:

"É incrível como o medo de uma mudança na sociedade faz pessoas não esclarecidas a correrem para as palavras da bíblia e usar um texto antigo e não atualizado para explicar o século XXI !!!! Defender este tipo de visão pautada apenas na religião contribui e muito para a permanência do machismo e da violência contra gays! A sociedade muda, os gays estão ganhando espaço, estão adquirindo mais direitos e respaldo legal: isso amedronta conservadores que usam falsos estudos como o tal pastor!!!

"Adorei sua resposta Eli! Infelizmente encontrei dois colegas de trabalho com a mesma visão do pastor Silas. Achava que pessoas deste tipo estariam longe de mim, mas estavam ao meu lado todo esse tempo. Uma dessas pessoas, inclusive, riu quando citamos Freud dizendo que ele se drogava e por isso não tinha credibilidade suficiente. O engraçado é que o pastor, antes dessa conversa preconceituosa, sequer disse qual era o uso do dinheiro de seus fieis e caiu em contradição com a sua ""prosperidade""!"

Realmente o mundo está mudando e algumas barreiras estão sendo fortemente combatidas e quebradas. A oposição conservadora e amedrontada vai continuar, mas acredito que não há mais volta. Ninguém vai tirar os direitos adquiridos pelos gays pelo mundo sem encarar acusações de tirania e intolerância; e todos vão ver crianças criadas por essas novas famílias muito bem colocadas na sociedade. São minhas esperanças e minhas crenças para o futuro, um futuro que quero ver e defender com unhas e dentes até quando puder.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Pensando em tendências e criatividade


A segmentação de mercado e a atenção do empresário nas tendências de comportamento dos seus clientes são pontos que toda empresa precisa se atentar ao se aventurar num mercado. Há muito tempo o produzir por produzir deixou de ser algo trivial para ficar cada vez mais complexo e competitivo. Nessa movimentação do mercado capitalista acho que vale destacar aquelas empresas que ainda tentam buscar um diferencial para não ser mais uma nessa multidão de CNPJs perdidos no venda o que puder, lucre se for capaz.

Um delas, sem dúvida, é a Imaginarium, na minha opinião. Hoje ganhei um calendário da minha irmã comprado em uma lojinha muito pequena no shopping Piracicaba. Apesar do tamanho, a loja parece ser parada obrigatória para muita gente que gasta algum tempinho no shopping olhando vitrines. O que é mais interessante na loja é a criatividade em seus produtos. Se eu tivesse condições decoraria toda minha casa com as coisas da loja, mas o criativo nem sempre é barato, infelizmente.

No Natal de 2012 ganhei uma bandeja com almofada para usar o computador no colo e um case muito divertido para guardar o notebook. Hoje minha irmã trouxe um calendário vertical muito útil e tão alegre e criativo quanto os outros dois produtos. O mais interessante dos produtos é que eles não são feitos e pensados de qualquer forma, eles unem matéria prima de qualidade com visuais incríveis.

Bom... o objetivo do post não é exaltar a marca num grande pedestal, na verdade é para ressaltar que criatividade e atenção com os clientes realmente vendem. As lojas da franquia não são apenas mais umas perdidas nos shoppings do país. A marca parece já ter garantido seu lugar entre adolescentes e pessoas que gostam de boas novidades. Além disso, as lojas se destacam entre todas as vitrines por conta da originalidade da disposição dos produtos e também pela originalidade daquilo que está sendo exibido. Lembro que no Natal fizeram uma espécie de roda gigante em uma das vitrines da rede, uma ideia muito legal e que realmente chama a atenção.

É uma tendência que vale a pena ser seguida (não copiada). Se cada empresa pensasse com mais criatividade e dedicação no seu cliente final, nós consumidores teríamos cada vez mais produtos de qualidade por preços pequenos. Porém, criatividade e investimento ainda parecem ser artigos de luxo para empresários.

“Puxando um pouco a sardinha para meu lado” eu vejo que isso também é um pouco de falta de investimento num marketing e num setor de comunicação de qualidade. Falta à algumas empresas uma ligação um pouco maior com seus clientes e com as tendências dos comportamentos deles. E hoje me parece tão fácil dar esse passo, não parece? Em que outra época um empresário poderia coletar informações tão essenciais de seu público alvo como hoje com tantas redes sociais, blogs e informações fáceis na internet? Facebook e (o quase extinto) Orkut são duas redes poderosíssimas para um investimento certeiro e estão cada vez mais sendo usados até por pequenos empresários que sorteiam produtos online. Quem trabalha com comunicação precisa ficar cada vez mais atendo à essas oportunidades de negócio que surgem a todo momento na rede e podem ser meios de comunicação muito úteis e diretos para destacar um cliente e uma marca nesse mar de cliques e curtições.

Ainda em tempo...

Algo que sempre odeio em algumas lojas e que deve ser tão pensado quanto a comunicação: a qualidade do atendimento dos funcionários. Tem funcionário que trabalha sem nenhuma motivação e parece deixar a educação (se é que eles têm) em casa. Não adianta nada investir tanto em qualidade dos produtos e deixar a principal parte, que é a venda, nas mãos de pessoas tão despreparadas.

domingo, 2 de outubro de 2011

I want your mind!


“Temos um destino a cumprir, um “destino manifesto” sobre todo o México, sobre a América do Sul, sobre as Índias Ocidentais e o Canadá. As ilhas de Sandwich são tão necessárias para o nosso comércio oriental quanto as ilhas do Golfo para o ocidental. As portas do império chinês devem ser derrubadas pelos homens de Sacramento e do Oregon, e os arrogantes déspotas japoneses, inimigos da cruz, serão iluminados nas doutrinas do republicanosmo e da lei do voto. A águia da república pousará no campo de Waterloo, depois de traçar seu vôo entre os desfiladeiros do Himalaia ou dos montes Urais e um sucessor de Washington ascenderá ao trono do império universal”

O trecho acima foi escrito pelo jornalista e comerciante de algodão norte-americano James Dunwoody Brownson DeBow, em 1850 na sua revista DeBow’s Magazine. O trecho acima faz parte de um texto de outro autor, o historiador britânico Geoffrey Barraclough, no livro “Introdução à história contemporânea”, publicado pela primeira vez em 1964. Barraclough usa este trecho do artigo do jornalista norte-americano para mostrar a mentalidade expansionista dos Estados Unidos no meio do século XIX, momento no qual o país começa a se projetar mundialmente.

O texto faz parte do curso de História Econômica II da graduação de Ciências Econômicas da Unicamp. A primeira metade deste curso se volta inteiramente a todos os movimentos políticos econômicos entre a Revolução Francesa de 1789 até o momento em que Estados Unidos e Rússia se tornam os dois “flancos” que concentram o poder nas últimas décadas do século XIX. É um texto interessante para verificar como o mundo passa de um sistema europeu de equilíbrio de poderes para uma política mundial bipolar.

As palavras de DeBow são um bom tema para se refletir sobre o papel dos meios de comunicação e, principalmente dos artigos opinativos nos jornais e revistas. DeBow, de acordo com uma pesquisa rápida no Wikipedia, foi um jornalista do Sul dos Estados Unidos que carregava as bandeiras do expansionismo do modelo econômico daquela região do país e da independência do Sul em relação ao Norte do país.

Como já foi mencionado, o texto foi escrito em uma época em que, ao que se parece, os ânimos começaram a ficar acirrados no mundo. Ele foi publicado em um momento que a Europa perdia sua importância vital no pensamento político internacional. Depois de partilharem a África como um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, os europeus em seu expansionismo em busca de novos mercados e territórios olham para o Chá Verde que está sobre a mesa chamado Ásia. Mas, como diz Barraclough, o desejo por aquela região não era exclusividade dos europeus. Além das potências do velho continente havia outras três crianças de olho na bebida: Rússia, Japão e Estados Unidos. A Ásia, portanto, se tornara o palco dos conflitos internacionais e desvia o eixo da política que sempre foi, até então, centrado na Europa.

“O meio é a massagem”

Com esse cenário e com o trecho de DeBow ainda na mente é interessante refletir como um editorial ou um artigo opinativo reflete a opinião de uma elite capitalista ou influencia toda uma população. Deve haver infinitos estudos sobre a importância desses textos sobre o público leitor, mas escolhi dois aos quais tive acesso durante minha formação só para embasar minha argumentação. O primeiro, mais conceitual, é do jornalista (também norte-americano) Fraser Bond, extraído do livro de José Marques de Melo, “Jornalismo Opinativo” (2003). Segundo Bond, o jornalismo tem como razão de ser quatro funções: informar, interpretar, orientar e entreter. E sobre elas ele ainda diz: “Desde os primeiros tempos, o jornalismo tem procurado influenciar o homem. (...) O jornal esforça-se abertamente por influenciar seus leitores através de seus artigos, editoriais, caricaturas e colunas assinadas” (p. 28).

Posso estar errado, mas eu tenho a impressão que poucas pessoas pensam nessas palavras com todo o cuidado quando resolvem escrever um editorial ou uma coluna. Olhe as palavras de DeBow mais uma vez: “...e os arrogantes déspotas japoneses, inimigos da cruz, serão iluminados nas doutrinas do republicanismo e da lei do voto”. É de parar a leiturar e pensar “po$$@!”. Acredito que eu não tenha interpretado errado essas palavras, mas elas nos parecem mais atuais que nunca para a realidade americana e à “American Life”. Afinal não são eles que estão promovendo a democracia lá pela região da Líbia... promoveram a mesma ideia no Afeganistão...

Ainda quero encontrar livros que me dêem base para fazer afirmações mais certeiras, mas tendo fortemente a acreditar que, sem a imprensa o imperialismo norte-americano não seria nada. Na verdade, qualquer forma de imperialismo deve passar pelos meios de comunicação hoje em dia. É neste ponto que entra um outro autor que escolhi: Marshal McLuhan. Encontrei perdido na minha estante de livros um publicação organizada por Stephanie McLuhan e David Staines que reúne 19 conferências e entrevistas desse estudioso que pensava a comunicação na década de 1960.

Entre essas conferências achei uma que se chama “O meio é a massagem”, feita por McLuhan em maio de 1966 em Nova York. A palestra dele é excelente! Fala sobre a vida com a tecnologia daquela época. A forma como as crianças de então eram educadas e como raciocinavam frente a tanta modernidade e etc. Mas o foco da minha leitura era sobre o que o autor falava sobre esse “o meio é a massagem” e, o que pude compreender, é que esse trocadilho com a expressão original “o meio é a mensagem”, é o fato de o meio pelo qual a mensagem é levada ao público ser pensado como algo que educa e edifica as pessoas.

“Um meio de comunicação cria um ambiente. Um ambiente é um processo, não é um invólucro. É uma ação e atuará sobre os nossos sistemas nervosos e nas nossas vidas sensoriais, modificando-os por inteiro.” (p. 129) É preciso complementar esse pensamento? Acredito que não...

O autor, nessa palestra se referia muito à arte e em certo ponto diz “A função da arte romântica ou da arte pitoresca era controlar os estados de espírito” (p. 129) e “A função da arte é ensinar a percepção humana” (p. 131). Forçando a barra, escrever não deixa de ser uma arte. Reforçar, em um artigo opinativo, a importância econômica da China para o comércio norte-americano seria então educar os leitores e criar neles um “ambiente” propício à disseminação desse ideal?

E os jornais por aqui?

Em um dos posts anteriores estava falando sobre a minha opinião da importância dos meios de comunicação. Estudando Barraclough para o curso de História da Unicamp encontrei esse tema mais que interessante para fazer novos questionamentos... O editorial de hoje em dia em jornais pequenos é pensado com o cuidado que lhe cabe? As vezes parece que aquele quadradinho reservado para a “opinião institucional” ou as colunas dos “jornalistas pensantes” são meras descargas de ódio político. Ataca-se o prefeito, a obra mal feita, o deputado que esqueceu a cidade, o contrato fraudulento, o vereador que traiu os eleitores... São pontos importantes? Fico realmente na dúvida sobre isso... o importante seria mostrar para a população a realidade, mas mais importante ainda é mostrar as causas, os desdobramentos.

Em uma crítica ao jornalismo econômico, o professor Wilson Cano, da Unicamp, se mostrou descrente com a qualidade desse gênero na imprensa brasileira. Ele comentou que os jornalistas não mostram de maneira clara as causas dos acontecimentos, só se atêm ao fato. “A economia é política e política é poder”, disse ele. E questionou: a quem interessa o acontecimento noticiado? Eu acrescentaria, com base no que ele falou, será que alguém pensa se as suas palavras interessam a alguém? Via e vejo umas colunas tão pífias. Cheguei até a fazer algumas assim e sinceramente me envergonho, mas a inexperiência era uma complicação relevante. Agora, ver que jornalistas que se dizem experientes escrevem críticas simples, sem mostrar possíveis soluções, a meu ver é perda de espaço... se esses jornais querem só vender e não informar, tirem esses artigos infundados e coloquem então mais um anúncio. Afinal espaço é dinheiro. Jogar pedras no sistema sem uma argumentação clara é perda de espaço se ela não vem acompanhada de causas claras e soluções eficientes.

Voltando ao imperialismo...

Me lembrei de um clipe sensacional da Madonna, feito em 2003: American Life. Além de pensar no jornalismo, o trecho de DeBow nos faz pensar também sobre a política norte-americana. Esse jeito coercitivo e imperial de impor, durante muito tempo, seus desejos e interesses sobre os outros países. Pelo o que me lembro, a versão do clipe American Life que escolhi para esse post foi censurado na época que foi lançado. Tanto que a cantora teve que fazer um outro clipe bem sem graça só com bandeiras no fundo e ela cantando no primeiro plano.

O clipe censurado tem uma ligação muito clara com o trecho do jornalista sulista norte-americano. Lembrei que no meio de todas as discussões sobre liberalismo econômico deste semestre na Unicamp, foi falado em certo momento que a economia levaria a paz ás relações dos países. Será????? O clipe responde.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma certa rádio e a homofobia...


Há algumas semanas um colega de classe, de Campinas, me chamou no bate-papo para me mostrar um áudio gravado de uma rádio limeirense que circula pela internet. No começo ele já se mostrou indignado com o conteúdo da conversa e perguntou se eu conhecia as pessoas que estavam se manifestando naquele áudio. Se trata de um diálogo entre donos de uma rádio local que opinavam de forma preconceituosa sobre a aprovação do primeiro casamento homossexual em Limeira. O assunto é polêmico para algumas pessoas e ao mesmo tempo um bom tema de debate.

Pela segunda vez estou tendo aulas de Ciências Sociais. A primeira foi na graduação de Jornalismo e agora na graduação de Ciências Econômicas com um foco mais voltado para a economia. A estrutura dessa aula na Unicamp é analisar o pensamento dos sociólogos considerados, como um professor definiu, a tríade da sociologia: Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx.

Finalizamos as discussões sobre os estudos do primeiro autor e, para ter base para isto, estudamos en passant trechos de Bauman e Rosanvallon. O que interessa disso tudo para esse assunto são os conceitos de grupos sociais, valores e a estrutura da sociedade. Estruturo meu texto na minha opinião como jornalista tentando tatear o conhecimento adquirido nesse primeiro bimestre de aula.

Qual seu grupo?

Quando alguém pergunta minha religião, respondo “católico não praticante”. Como fui educado nesta religião, passei a apreciar e a ter fé em alguns elementos dela, porém há alguns anos não frequento as missas dominicais. Sou contra um padre - ou pastor, estendendo a crítica a outras religiões - dar sua opinião ferrenha sobre o que os fiéis devem considerar para suas vidas pessoais, mas como é provado, isso é inerte na nossa sociedade.

Se me perguntar onde eu moro, onde trabalho, o que estudo, com quem eu ando... muitas pessoas já me dirão quem sou. Estamos, como é defendido por Bauman, sempre inseridos em grupos sociais. O grupo dos católicos, dos estudantes de economia, dos jornalistas e etc. Isso é fruto da socialização do indivíduo e, mais ainda, produto de valores sociais que praticamente regem nossa vida.

A religião, por exemplo, é considerada por Durkheim como um fator de coesão social, ou seja, ela garante o equilíbrio e a paz na sociedade por pregar valores que são seguidos pelos integrantes deste grupo. Outros grupos menores também têm seus valores, regras e normas baseados na identificação de qualidade e defeitos que se complementam ou se repelem em relação a outros grupos. Cada grupo controla seus indivíduos por meio da coerção social estabelecendo penas aos transgressores, aos chamados “outsiders” como definiu Durkheim.

Portanto, com a revisão de alguns conceitos básicos dos primeiros meses de ciências sociais é possível questionar o leitor: qual o seu grupo social? Você nasceu e foi criado com quais valores? Frequentou quais ambientes e fez amizades com quais tipos de pessoas? Refletindo sobre isso, cada um consegue encontrar, de maneira clara e direta ou indiretamente, quais são suas raízes e o que a sociedade na qual está inserido reza como certo ou errado.

Eu avaliaria o grupo social onde nasci, Limeira, como uma união de pessoas um tanto quanto tradicionalistas e conservadoras (com raras exceções inteligentes). Eu ainda acrescentaria que são pessoas pouco otimistas, afinal quem nunca ouviu a seguinte frase: “Abriu um Mac Donalds na cidade? Vamos ver quanto tempo vai durar...” Além dessa baixa autoestima, os limeirenses com os quais convivi me pareceram extremamente bairristas e com uma forte tendência a se manterem fechados para as novidades da sociedade. Para esse ponto eu vou usar uma citação de Durkheim, do livro “Da divisão social do trabalho”: “quanto mais obscura uma consciência, mais refratária à mudança, porque não vê depressa o bastante que é necessário mudar, nem em que sentido é preciso mudar” (página 17)

Por obscura eu desenharia um limeirense que não se preocupa com o debate social, que se abstém de avaliar quais são os melhores investimentos para a educação em sua cidade e que é facilmente ludibriado pelos políticos carismáticos que usam de obras populares para mostrar serviço e garantir votos e mais votos e, claro, um belo salário por quatro anos.

Opinião? Claro, pode opinar...

Não tiro o direito de ninguém expor sua opinião, mas algumas pessoas deveriam pensar melhor em como expõem essa opinião. O áudio que está circulando a internet começa com a discussão sobre a liberação do primeiro casamento homossexual de Limeira e que, se eu não estou enganado foi de uma pessoa que eu adimiro muito, uma psicóloga conhecida na cidade (a aeromoça de Santos Dumond, como a apelidei). O problema na opinião dessas duas pessoas é a forma como se referem a um “conhecido” da equipe chamando-o de todos os termos pejorativos possíveis que se pode usar para conversar com um homossexual e o uso de um veículo de comunicação para a disseminação de uma opinião sem nenhum embasamento e preconceituosa.

Se não bastasse essa lista de xingamentos, os radialistas ainda usam argumentos ridículos e arcaicos para justificar seu posicionamento contrário ao casamento homossexual. Um deles disse que Deus fez o homem e a mulher com o encaixe perfeito, isso não deveria ser contrariado. Claro que, na minha posição de comunicador, estou melhorando a frase pífia usado por um deles, mas a argumentação seguiu mais ou menos neste sentido, além de dizerem, claro, que não deveria ser dado voz à minoria e deixar os costumes da forma como estavam. A meu ver isso é um claro e explicito reflexo de como tradicionalista e conservador os limeirenses são.

Ser contra o casamento homossexual é um posicionamento pessoal, cabe a cada um, dentro de seu círculo de amizades e dentro de sua família discutir esse assunto. Assim como ser preconceituoso ou nazista... você pode ser, desde que não manifeste, ofenda ou mate ninguém. Agora tornar essa discussão pública de um jeito que denigre ainda mais a imagem aqueles que acreditam que essa conquista é um direito justo e tardio, é no mínimo irresponsável e imaturo.

Cabe aqui um questionamento da responsabilidade dos veículos de comunicação. Não tenho conhecimento de pesquisas quantitativas de ouvintes de rádio em Limeira, mas acredito que esse número seja expressivo simplesmente avaliando a aparente estrutura financeira das empresas de comunicação da cidade. Portanto, com tal importância vêm certas responsabilidades. O comunicador, especialmente o jornalista, deve ser um mediador de opiniões. Quando se fala em isenção jornalística, independência e credibilidade está em discussão (quase que de forma utópica) a capacidade de o jornalista avaliar os fatos e expor ao seu público as versões da verdade e da opinião para que o público consiga, sozinho, formular sua própria opinião e se posicionar.

Com certeza o programa daquela rádio não deve ter uma base jornalística (até porque se tivesse estariam só lendo notícia dos jornais impressos e recolhendo reclamações de ouvintes por telefone e fazendo críticas às autoridades públicas, como é de praxe na cidade). Porém, esse fato não deveria ser usado como justificativa para a liberdade de usar palavras tão grosseiras e emitir opiniões tão preconceituosas e sem nenhuma argumentação convincente. Se quisessem discutir o tema, deveriam ter convidado o casal que recebeu o aval para firmar a relação conjugal e algum profissional que pudesse confrontar a opinião deles (ou delas) de forma civilizada e inteligente.

Vale aqui mais uma frase de Durkheim para reflexão: “As vias de comunicação determinam de maneira imperiosa o sentido em que se fazem as migrações interiores e as trocas, e mesmo até a intensidade de tais migrações, etc”. Este é um trecho de um livro no qual o sociólogo francês explica o que é fato social. Aí ele explica que as vias de comunicação têm um forte poder sobre como os valores são trocados dentro da sociedade.

Este debate chega a um fim óbivio: os meios de comunicação têm sim uma responsabilidade muito grande para com o público, afinal que adolescente ou jovem não foi influenciado por alguma moda lançada pela Globo? Ou que dona de casa não procurou aquele copo que aparece na novela para decorar sua mesa de jantar?

A responsabilidade dos meios de comunicação, quer sejam eles gigantescos, imperiais, ou minúsculos, locais e do interior do estado, deveria ser repensada. Qual é o objetivo da sua rádio? Pra quê ela serve além de tocar música o dia inteiro? Se você abrir um espaço para algum comunicador conversar com seus ouvintes, qual a responsabilidade dele? O que ele tem a acrescentar para a vida dessas pessoas que fazem questão de ligar o rádio para ouvir nem que seja de forma desatenciosa?

E seu jornal e seu programa de televisão? Têm algum objetivo ético e moral? Tem alguma filosofia que ultrapasse a simples crítica política do partido da situação? Sua coluna semanal é só para ficar criticando a roupa da primeira dama, o choro da vereadora ou você tem realmente algo a acrescentar para seus leitores? As notícias que são publicadas nas suas páginas impressas e eletrônicas trazem discussões atuais que mostram todos os lados do fato ou você é incapaz de pensar o jornalismo como uma ferramenta que forma opinião do seu leitor e tenta levar a ele o esclarecimento necessário para ele ter uma qualidade de vida melhor? Você escreve textos curtos pressupondo que seu leitor nunca vai ler um texto bem elaborado independente do tamanho que ele ocupe nas páginas ou prefere cortar todo o conteúdo que valorize o debate em detrimento do anunciante que leva dinheiro para a empresa?

As vezes é preciso parar e refletir sobre qual o seu papel no mundo e se você está aqui para olhar diretamente para o seu umbigo com uma consciência totalmente obscura ou se você consegue levantar a cabeça e olhar que a sociedade evolui e precisa de pessoas inteligentes e pensantes para ajudar a população a enxergar que alguns valores estão ultrapassados e que mantê-los pode até ser considerado um crime (vide o preconceito)...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Manual do estudante vagabundo

Nestes primeiros meses de graduação na Unicamp pude observar alguns tipos muito peculiares e, infelizmente, corriqueiros de alunos durante os cursos. O que segue aqui são constatações ridículas referentes a alguns deles - que na verdade não se pode chamar de estudantes, nem universitários - da Unicamp. Esses tipos não existem apenas aqui na Unicamp, eles estão espalhados por todas as universidades, faculdades e escolas de qualquer nível, infelizmente. Porém, apesar de adaptáveis a outras instituições, as dicas abaixo se encaixam no dia a dia da Unicamp de Campinas e, acredito que na de Limeira também por terem a mesma política.

Você, aluno vagabundo, pode encarar a lista como um manual para ser um aluno totalmente cool, ridículo e descompromissado, que não dá valor nenhum ao dinheiro que é empreendido na sua educação.

- Mesmo que você NÃO trabalhe só leia os textos propostos para a prova;

- Escolha as matérias pela fama do professor, principalmente se ele é "coxa", gíria para professores que não fazem nenhum tipo de cobrança e aprovam grande parte da turma por falta de vontade, empenho ou incompetência. Essa é a melhor forma de conseguir créditos rápidos;

- Não anote nada durante as aulas, mas repare em quem anota - você vai precisar pedir as anotações dele ou dela para tirar xérox;

- Se inscreva em todos os grupos de e-mails e grupos nas redes sociais para obter informações de festas e também para ter acesso fácil aos alunos que estudam. Assim como no caso acima, você vai precisar pedir a esses alunos para disponibilizarem as listas de exercícios ou revisão para prova devidamente preenchidos;

- É importante parecer simpático com os colegas de sala, principalmente se eles não estiverem com o mesmo coeficiente de progressão que você, ou seja, forem bichos/novatos. O fato de você estar com uma porcentagem maior que o resto te dá o falso direito de avaliar as disciplinas e indicar àqueles que querem seguir seu caminho quais são os cursos mais fáceis de se conseguir aprovação;

- Faça comentários bestas e tente discutir com o professor em algum assunto que, por milagre, você saiba discursar com o mínimo de argumentos só para mostrar participação e conseguir pontos extras com professores que ainda contam com a participação da sala como era feito na sétima série e a leitura do livro "Meu pé de laranja lima";

- Seja político, se aproxime de professores que tenham bons contatos ou uma posição importante no instituto. Exemplo é aquele professor que esteja ligado ao centro de intercâmbio da Unicamp: defenda-o, elogie-o e seja amigo dele mesmo que a qualidade desse docente seja totalmente questionável;

- Se interesse muito pelas decisões políticas do instituto ou faculdade que você estuda e fique atento a qual dos lados esse seu professor está ligado; no mundo atual, em alguns casos, importa muito mais quem vai te indicar do que sua capacidade intelectual;

- Coeficiente de Rendimento (CR) na Unicamp é algo importante para todos os alunos que tenham interesses em intercâmbio e até em vagas de estágio em algumas empresas, por exemplo. Se você não consegue indicações, precisa manter um bom CR. Como já foi dito, a melhor forma de melhorar esse número é conseguir disciplinas que sejam de fácil aprovação e sem muitas exigências ao longo do semestre; Se você é novato, contatos com os veteranos é uma ótima forma de descobrir quais são as matérias mais fáceis de conseguir boas notas.

- Se você NÃO precisa trabalhar para viver, é filho de economista e tem uma bela mesada (20 anos de idade com mesada é tremendamente ridículo), um carro na garagem disponível a qualquer momento e pode dormir todas as horas que seu corpo exige para uma boa noite (ou tarde) de descanso, aproveite suas regalias para satirizar quem não tem essas condições e atrapalhe a aula saindo no meio de explicações importantes ou, como dito anteriormente, tomando um grande tempo com uma discussão sem nenhum sentido. Quanto mais você atrapalhar o desenvolvimento da aula, mais o professor não poderá seguir o cronograma e menos os outros alunos vão aprender o que devem. Viva o liberalismo e a concorrência capitalista! Esmague seus oponentes da melhor forma!

- Todas essas características isso te dá um coeficiente informal dentro dessa vidinha de universitário vagabundo: Coeficiente de Mal Caráter (CMC);

Agora... se mesmo você fazendo tudo isso, se matricular em um curso e não conseguir dar conta do recado porque as exigências estão além do que te falaram e todo o tempo disponível que você tem não é suficiente para resolver seus próprios exercícios e estudar sozinho, parabéns! Sendo o CMC um valor de 0 a 1, o seu passou de 1 faz tempo!!

Por favor, não atrapalhe quem quer aprender. A universidade é um período de desenvolvimento intelectual ou de amadurecimento intelectual para aqueles que estão ingressando. É um momento único (a não ser que você precise refazer a matéria porque não conseguiu média para ser aprovado) de trazer os conceitos desenvolvidos por autores clássicos para sua vida pessoal e profissional, de entender a dinâmica da sociedade e da história do homem e se aperfeiçoar cada vez mais na área que você escolheu.

Um texto não serve apenas para decorar conceitos e aplicá-los na prova ou na resenha exigida, assim como uma discussão em sala não é um momento de exibição gratuita. A formação acadêmica tem um propósito nobre formar profissionais qualificados que tenham a capacidade de pensar nossa sociedade de uma forma crítica e propor à ela soluções que melhorem o relacionamento entre pessoas e não apenas entre cifras e valores monetários.

Se formam economistas, engenheiros, professores para fazerem a diferença e inovarem em suas áreas de atuação e criar mecanismos que possibilitem um melhor desenvolvimento das forças produtivas, aumente os empregos, a renda dos trabalhadores, que possibilite mais qualificação a todos.

Encare essas horas que você precisa ficar na cadeira da faculdade/universidade como os melhores momentos da sua vida. Não os coloque no topo apenas porque haverá festas diárias ou um churrasco em plena segunda-feira na república do seu amigo. Estes são os melhores momentos porque, para muitos, serão os únicos nos quais poderão ter contato com professores e pesquisadores realmente inteligentes e que conseguem transmitir todo o conhecimento em prol da formação de estudantes com os quais não têm nenhum vínculo senão aquele que envolve o comprometimento louvável de mestres que acreditam que a educação é o melhor caminho para diminuir as injustiças sociais!

Diga-se de passagem àquele aluno que segue o manual do aluno vagabundo: injustiças sociais que você ajuda a acentuar quando pensa apenas no dinheiro como fim de interesses privados e não como meio para mudar algo na vida de alguém (mesmo que seja numa empresa extremamente capitalista) e principalmente quando perde a civilidade e o respeito por quem não encara essa lista com risos e identificações pessoais (falando de forma mais clara: aqueles que não vestem a carapuça deste texto).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Alunos públicos em escolas públicas - esse é o caminho justo!


O número de estudantes de escolas públicas do ensino médio matriculados nos cursos de graduação da Unicamp aumentou de 2010 para 2011. Tudo bem, está um pouco tarde para falar sobre estatísticas e o crescimento é até pequeno, mas algumas pesquisas informais feitas recentemente dão algumas informações bem interessantes sobre o fato. Porém enquanto tentamos influenciar alguém a pensar na graduação como um futuro vantajoso, alguns adolescentes só pensam naquilo!
Uma das pesquisas foi feita no começo do semestre, em agosto, quando começamos o curso de Ciências Sociais para Economia na graduação de Ciências Econômicas na Unicamp. Como é de praxe com alguns professores, o primeiro dia de aula teve uma apresentação rápida dos alunos. O fato mais interessante é que de toda a sala, que devia estar com cerca de 40 alunos aquele dia, a grande maioria disse que estudou em escolas públicas no ensino médio.

O fato foi bem curioso e surpreendente até para o professor. Um certo consenso (com um quê de preconceituoso) nos faria pensar que em uma turma de futuros economistas só deveria haver alunos das melhores escolas particulares de Campinas e região (pensamento seguido por aquele olhar de desdém). Porém, o perfil dos alunos do curso de economia do período noturno é em si interessante. No vestibular de 2011 foram aprovados 35 alunos para esse período (ao todo 105 alunos ingressaram no curso de Ciências Econômicas na Unicamp: 70 no diurno e 35 no noturno).

Dos futuros economistas, uma parte considerável já está na sua segunda graduação. Ali tem formados em Jornalismo (eu), Imagem e Som, Relações Internacionais, História, Tecnólogo em Mecatrônica e Direito, além de outros alunos que já tinham cursado de um a três anos outra graduação na Unicamp ou em outras universidades públicas. Essa era uma informação que tínhamos desde o começo do curso, março, mas a quantidade de alunos vindos de escolas públicas foi algo novo.

NÚMEROS

Voltando à participação dos alunos de escolas públicas nas matrículas da graduação da Unicamp, alguns dados da Comissão Permanente para o Vestibular (Comvest) da Unicamp mostram valores consideráveis. A pesquisa está disponível no site da Comvest (WWW.comvest.unicamp.br) e os dados fornecidos são baseados nas informações que os vestibulandos fornecem durante o processo seletivo.

Foquei minha pesquisa na participação de alunos vindos do ensino médio das escolas públicas. Em 2010, dos 3.536 inscritos nas graduações da universidade, 1.030 (29,1%) informaram terem cursado o Ensino Médio em escola pública; em 2011, foram 1.148 (31,9%) dos 3.601 inscritos. Um aumento de 118 pessoas ou 2,2 pontos percentuais.

O crescimento parece pequeno, mas uma notícia divulgada pela Comvest mostra que a participação desses alunos foi recorde na Unicamp. A porcentagem mostra o impacto positivo do Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social promovido pela universidade, está entre as maiores dos últimos anos e reverte a tendência de queda verificada desde 2009.

Este fato deve ser estímulo para quem pensa que é impossível ser aprovado em um vestibular como o da Unicamp – e eu sei que existe adolescentes e mães que pensam assim, infelizmente. E mais...

Estatística dos matriculados em 2010

Estatística dos matriculados em 2011
Fonte: Comvest - Unicamp

COMPORTAMENTO

Essa informação se encaixa com os comentários que ouvi sobre o Unicamp de Portas Abertas (o famoso UPA) que ocorreu na última semana, nos dias 2 e 3 de setembro. Uma pessoa com quem conversei disse ter reparado o desdém de alguns alunos e o grande interesse de outros. O que me surpreendeu também foi quais alunos pertenciam aos dois grupos mencionados.

“Apelidamos o UPA de Unicamp de Pernas Abertas, o evento parecia uma micareta de carnaval, em todos os lugares tinha adolescente se beijando”, disse essa pessoa. Uma situação que deve ter sido vergonhosa de se presenciar em um ambiente acadêmico como a Unicamp. Depois de ter comentado que infelizmente os alunos de ensino médio de hoje em dia não têm mais interesse em cursar uma graduação e entrar para a vida acadêmica, essa fonte comentou que diferente do que pensávamos, os alunos de escola pública eram os mais interessados nas palestras e eventos do UPA, enquanto que quem se comportava como se estivesse em uma micareta eram os alunos de escolas particulares. “Só vão ao UPA os alunos de escola pública que estão realmente interessados em cursar algo na Unicamp até porque muitos não têm dinheiro para pagar a viagem até lá e por isso eles ficam bem interessados, fazem perguntas e participam de várias palestras”, disse.

Não podemos generalizar, mas é estimulante saber que alunos de escola pública estão tão interessados em ter uma graduação de qualidade e pública. É difícil se deparar com notícias que relatem eventos nas escolas de Ensino Médio do Estado que incentivem os alunos a escolherem uma graduação e os ajudem a entender melhor as profissões que pretendem seguir. Um dos professores do cursinho pré-vestibular que fiz no ano passado criticava as ONGs justamente por conta da inexistência de programas com essa finalidade para adolescentes e comunidades carentes.

A arte e o esporte têm seu valor de inclusão e proteção desses jovens contra a violência das ruas, mas nenhuma ONG ou escola parece se preocuparem com o que será dos estudos desses alunos depois do jogo de futebol ou da aula de capoeira. Na verdade o que falta ai é vontade de mudar a vida de alguém. Acredito que não seja difícil reunir uma vez por mês ou durante um dia todo profissionais das mais diversas áreas e/ou alunos de graduações diferentes para conversarem com esses jovens carentes sobre o que é ser um jornalista, um economista, um dentista, um físico nuclear ou qualquer outra profissão que passe pelos bancos das universidades. O que falta para esses jovens é perspectiva.

As escolas de ensino médio e fundamental têm um papel muito importante na formação profissional e pessoal dessas crianças e adolescentes a meu ver. Se os professores (quando há bons professores e motivados) deveriam estimular desde cedo a pesquisa sobre as diferentes profissões, mostrar às crianças as possibilidades de estudo e de trabalho que cada área apresenta e trabalhar os estudos desses estudantes com um foco direcionado à educação superior e à melhora da qualidade de vida que uma graduação pode proporcionar.

Fica aqui minhas constatações e uma sugestão simples de ser adotadas por professores e escolas estaduais: levem estudantes e profissionais para conversar com os alunos; estimulem os alunos que têm vontade de cresces e estudar; estimulem os pais desses alunos a enxergarem as possibilidades e benefícios que uma graduação pública pode fornecer aos alunos. Uma frase que um professor me disse uma vez se encaixa nessa hora: o bom mestre é aquele que faz o aprendiz superá-lo. Alguém pensa nisso hoje em dia?

sábado, 30 de julho de 2011

Relacionamento profissional, cada vez mais complicado...


Existem assuntos para os quais não é preciso nenhuma formação específica para poder falar sobre. Um deles é como as pessoas tratam umas as outras hoje em dia. Nas últimas semanas presenciei e ouvi muitas histórias de pessoas que não fazem nenhum tipo de esforço para não serem arrogantes, mal educadas e grosseiras com colegas de trabalho, clientes ou com as pessoas que as cercam.

Esse tipo de postura, infelizmente, parece ser muito comum em profissões que há maior relacionamento interpessoal e com clientes. É possível contar nos dedos de uma única mãos a quantidade de vendedores, gerentes ou atendentes que me atendeu tão bem a ponto de eu gravar o nome desta pessoa e procurá-la sempre que possível para comprar algo ou para tirar dúvidas, conversar e saber das novidades daquela empresa. Tenho a impressão que esse tipo de relacionamento com cliente está ficando cada vez mais difícil.

Quando começamos a estudar economia, uma das afirmações (ou fato) com as quais nos deparamos é a qualificação da mão de obra do setor de serviços. É notório que a grande parte da mão de obra qualificada como engenheiros, químicos, até mesmo estilistas, nutricionistas e tantas outras formações superiores está alocada no setor de transformação, ou seja, na indústria. Detalhe importante: mão de obra qualificada que exerce a profissão na qual se formou, afinal a quantidade de pessoas que conseguem um emprego na área de formação é pequena – não é em vão que há tanta reclamação de empresários sobre a falta de qualificação das pessoas que se candidatam às vagas.

Apesar disso, a qualificação ou a falta dela não justifica uma postura mal educada ou grosseira quando se está conversando com um colega de trabalho ou atendendo um cliente. Existe na IBM, empresa onde estou trabalhando no momento, valores e competências muito interessantes que devem permear a conduta e a vida dos funcionários, os IBMistas, como somo chamados. Duas delas são “a dedicação ao sucesso dos clientes (externos e internos)” e “ comunicação para impactar” (do inglês communicate for impact), respectivamente, um dos três valores IBM e uma das nove competências dos funcionários da IBM. São dois pontos que parecem muito simples, mas que na prática fazem toda a diferença.

Diferença que começa na forma como as pessoas se relacionam. Essa semana tive algumas conversas com superiores e com amigos sobre isso. Na minha opinião, no mundo corporativo, as pessoas deveriam ser, no mínimo, obrigadas a serem educadas. Pode parecer meio exagerado usar a palavra “obrigadas”, mas o fato é que nem todas as pessoas são educadas, nem todas conseguem ser simpáticas e, principalmente, nem todas (ou ninguém) vivem num mundo perfeito cheio de sorrisos num campo verde cheio de flores ou em uma praia deserta com sobras de coqueiros. Todos estamos sujeitos a sermos ansiosos, tensos, tristes, desmotivados e todas as qualidades negativas que são efeito colateral desse mundo agitado e doido no qual vivemos hoje em dia. Porém – esse porém é a parte mais importante deste texto –, pessoas que são afetadas pelo lado negativo do mundo moderno não devem passar essa negatividade adiante. Pode até ser que apliquemos aquele refrão da sabedoria do axé “cada um no seu quadrado”, mas eu iria um pouco mais além, cada um no seu quadrado com seus problemas pessoais.

Entendo que em uma empresa os funcionários estão sendo pagos para alimentar uma máquina maior, seja de pequeno, médio ou grande porte; local, regional, nacional ou internacional... não importa o tamanho ou a dimensão dessa empresa, quando um funcionário assina o contrato de trabalho para vender roupas, gerenciar carreiras, ser um auxiliar administrativo ou desenvolver um software, é preciso haver dedicação ao próximo e uma comunicação clara. Como já disse, ninguém tem o direito de julgar o seu colega de trabalho ou maltratar um cliente só porque a vida não sorriu para essa pessoa naquele dia específico. Acredito que não seja necessário anos de experiência em um ambiente corporativo ou formação em psicologia, sociologia ou seja lá qual for a área que olhe para esse assunto com mais rigor para entender que educação é um item fundamental para o bom relacionamento (real ou virtual) entre as pessoas.

Existe sim diversidade de personalidades, mas deveria ser proibido permitir que pessoas impactem o sucesso alheio porque não sabem ser objetivas nas suas mensagens ou pelo menos fingirem que são educadas e deixar a opinião sobre o seu próximo apenas no pensamento.
Sendo assim, ao ensinar um novo processo a alguém, ao atender uma pessoa na fila de um banco, ao vender um produto para alguém em uma loja ou ao escrever uma mensagem por MSN, e-mail ou carta, a educação deve prevalecer sobre qualquer outro sentimento, pré-conceito, julgamento ou opinião quando estamos falando em negócios. Fora disso, seja quem você for ou o que pensar, a vida de cada um deve ser livre de amarras sociais, ou seja, faça o que quiser, pense o que quiser.

Para saber mais...

Os valores e competências da IBM são assuntos facilmente encontrados no site da empresa. Estão disponíveis para consulta e vale a pena ler um pouco sobre como a empresa pensa em seus relacionamentos e no desenvolvimento de seus funcionários.

Valores IBM aqui
Competências IBMistas aqui

quarta-feira, 20 de julho de 2011

E a educação, como fica?

Artigo enviado para Jornal de Limeira e Gazeta de Limeira.

Meu nome é Alex Contin, sou jornalista e estudante primeiroanista de Economia pela Unicamp, em Campinas. Por conta de meus objetivos profissionais deixei Limeira no começo de 2011 e, antes disso, desde janeiro de 2010, quando sai do Jornal de Limeira, parei de acompanhar de perto os trabalhos dos vereadores limeirenses. No período que acompanhei os trabalhos na Câmara Municipal de Limeira o fiz com muita indignação e vergonha. Eis que nesta quarta-feira, dia 20, recebi um e-mail chamado “Fiscaliza Limeira” vindo do gabinete de um dos vereadores.

É de conhecimento geral que vereadores se elegem em Limeira mais por conta das promessas bairristas que por promessas para realmente exercer o papel legislador e fiscalizador que o cargo exige. É vergonhoso ver como os vereadores dessa casa se rendem às tramas políticas que são tecidas nesse limbo que são as relações regadas à puros interesses financeiros. Não fiscalizem em Limeira apenas casas lotéricas e bancos, POR FAVOR, façam de seus mandatos uma passagem honrosa pela casa que dá assentos à representantes do povo. Não deixem de fiscalizar os atos do poder Executivo. Saiam dos bancos e das casas lotéricas e vão às escolas, às obras públicas, aos departamentos da prefeitura atrás de processos licitatórios suspeitos ou de valores muito altos!

Sendo extremista, acredito que os vereadores limeirenses e de outras cidades deveriam abrir mão de seus salários para investirem mais na educação pública que está em um estado deplorável ou no mínimo honrar o dinheiro público que recebem e dar mais atenção a esse gargalo do desenvolvimento das cidades. Alunos do Ensino Fundamental e Médio sequer têm perspectivas de continuar seus estudos depois do terceiro colegial - isso quando chegam a completar esse ciclo da educação. É por conta dessa qualidade ridícula da nossa educação que políticos que apenas sabem prometer praças e iluminação em bairros da periferia conseguem se eleger. Grande parte dos eleitores parece não ter discernimento suficiente para enxergar como que as crianças estão sendo educadas nas escolas. Muitos pais parecem delegar aos professores a obrigação de educar a criança para a vida inteira. Na outra mão, professores encontram crianças que repetem a violência que veem em casa.

O salário que os vereadores recebem em quatro anos deve ser suficiente para pagar por mais livros, jogos educativos para essas crianças ou cursos de especialização para seus professores. No mínimo é suficiente para elaborar uma rede de palestras nas escolas de Ensino Médio sobre as profissões do futuro. Palestras essas para incentivas que alunos perdidos encontrem o caminho que desejam trilhar rumo à uma qualificação que dê um mínimo de esperança e perspectiva para suas vidas.

Porém, parece ser muito mais importante colocar vigias em casas lotéricas e abaixar a cabeça para o chefe do Executivo a investir em alunos com futuro e em eleitores esclarecidos sobre o que deve ser mais importante – uma praça com pista de skate ou uma escola com mais livros e uma educação com mais qualidade.

Vereadores, não sejam ridículos, não abaixem suas cabeças aos discursos inflamados de representantes do poder Executivo na Câmara. Comecem a investigar mais as contas públicas, as obras, os atos. Fiscalizem até as qualidades do atual governo. Transformem-se em uma fábrica de escândalos se preciso, mas por favor, não deixem o dinheiro dos limeirenses ser empregados em atos ridículos só para garantir mais votos nas próximas eleições!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Uma vacina anti-rábica muito eficiente


Sem que ninguém saiba, a maior parte dos brasileiros atualmente recebem doses extras de vacina. A sociedade conseguiu incluir na carteira de vacinação um antídoto “anti-raiva política” e a campanha parece ter dado certo em quase todos os municípios brasileiros. Prova disso é a indiferença de grande parte desse povo verde amarelo que nunca mais pintou a cara para ir às ruas reclamarem por um país mais justo e sem corrupção.

O site Lide Brasil trouxe hoje uma notícia falando sobre suspeitas de irregularidade na organização do campeonato de balonismo em Rio Claro. A notícia “Jornal revela pagamento de Balonismo antes do evento” mostra a denúncia de um jornal da cidade quanto ao fato de a prefeitura do município ter antecipado pagamentos do evento. Haja sujeira ai ou não, o que vale ser mais investigado, provoca sem dúvidas um sentimento de raiva, essa é a palavra, afinal, uma festa da qual moradores da cidade se orgulham de sediar servir de instrumento para desvios de verba é no mínimo revoltante.

Mas nessa história, como fica a população como um todo? Tenho a impressão que muita gente desistiu de reclamar. Vereadores e prefeitos que foram eleitos pelo povo para representá-los e fazer obras para o povo parecem se colocar tão distantes de seus eleitores que muitas vezes as pessoas preferem só pensar por alguns milésimos de segundo como é péssimo ter políticos ruins e voltar a ver o próximo capítulo da novela a levar suas reclamações à frente e pedir reais investigações.

Este ano comecei a cursar a graduação de economia da Unicamp e no curso de Introdução à Economia tivemos como livro-base a publicação do economista Wilson Cano (de título homônimo ao da disciplina). No capítulo que trata de governo há uma passagem que diz que pelo menos em tese, o objetivo do Estado é trabalhar pelo bem estar da população. Apesar da afirmação ser óbvia, é impossível passar o olhos por afirmações similares a estas e deixar de se indignar especialmente quando ao mesmo tempo que temos como tarefa resenhar as palavras de Cano vemos no noticiário nacional o enriquecimento do ex-ministro Antonio Palocci; no noticiário de Campinas o escândalo envolvendo o alto escalão da Prefeitura (caso que envolve a Sanasa e até a primeira-dama do município); e agora no site Lide Brasil a suposta denúncia de pagamentos ilegais e talvez um superfaturamento da festa.

Até aí não passa de uma indignação de um jovem jornalista e estudante de economia e também de outros jornalistas que não deixaram os casos citados passarem em branco. Mas e meus vizinhos, o que pensam sobre isso? E os outros estudantes de universidades e faculdades públicas e privadas? O fato de eu sentir indignação me sinto como o protagonista da fábula infantil “O patinho feio”, um estranho no ninho. Acho muito difícil vermos mais uma vez toda aquela indignação e engajamento político dos jovens de 1968, relatado por Zuenir Ventura no livro “1968: o ano que não terminou”. Cada vez parece mais impossível a população se revoltar com um aumento salarial estrondoso dos deputados e senadores no começo do ano e ir às ruas, numa greve geral contra esse abuso com nossos bolsos. Ao invés disso a população reelege aquele político que sofreu impeachmant!

Confesso que me sinto valorizado por estudar na Unicamp e saber que lá tem alunos que valorizam o dinheiro público empregado na nossa educação superior. Ao mesmo tempo não acredito como é possível existir pessoas que não têm o mesmo olhar para o dinheiro que faz falta a muitas famílias no final do mês para poderem investir na compra de um livro, na compra de mais comida e até na compra da sua casa própria.

Gostaria de ser o analista de alguns políticos para saber o que eles realmente pensam da população. O que significa a palavra eleitores para eles? Melhor ainda, gostaria de saber porque os políticos não tornam a máquina pública cada vez mais transparente e menos burocrática? Nessas horas coloco meu instinto de jornalista acima de qualquer outro e lembro como é dificil conseguir investigar as contas públicas sem nenhum tipo de barreira legal (ou ilegal).

Enquanto isso na casa do seu vizinho a vacina anti-raiva política está cumprindo com seu papel e deixando-os sentados no sofá acompanhando o drama das 9...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Burrocracia e falta de inovação

Nas últimas sextas-feiras as aulas de Introdução à Economia da professora Ana Lucia Gonçalves da Silva, na Unicamp, estão sendo apresentados vários seminários sobre temas abordados durante as aulas que tem como livro-base a publicação do professor Wilson Cano de nome homônimo ao da disciplina. Semana passada dois grupos se apresentaram: o meu falando sobre a política industrial dos governos Lula e outro grupo falando sobre as privatizações da época de Fernando Henrique Cardoso.

A apresentação das privatizações foi muito interessante. O grupo usou como texto base o livro do jornalista Aloysio Biondi, "O Brasil privatizado". Para quem quiser ler um pouco de críticas às privatizações me parece uma excelente leitura por trazer dados que geralmente não temos tanto contato por conta dos interesses da grande mídia. Não vou relatar os dados aqui porque ainda não li o livro e também porque o objetivo do texto é outro.

Depois das privatizações meu grupo falou sobre a política industrial dos dois governos Lula. Eu falei sobre o primeiro mandato, de 2003 a 2006 e a Política Industrial, Tecnológica e de comércio Exterior. Expusemos informações sobre a criação de leis que incentivaram o desenvolvimento da indústria de tecnologia como a Lei do Bem e a Lei da Informática, por exemplo. Além desse estímulo ao tecnológico, o plano pareceu ser uma carta clara ao desenvolvimento do conceito de inovação nas empresas brasileiras.

Hoje em dia a palavra inovação aparece em todos os lugares. A IBM, por exemplo, tem na inovação um dos seus valores fundamentais ("Inovation that matters to the client and to the world" - something like that), há campanhas do Sebrae sobre empreendedorismo e inovação e tudo o mais que é possível para incentivar o micro, pequeno e grande empresários a adotar políticas e técnicas inovadoras na sua produção com a finalidade explicita de tornar o mercado brasileiro mais competitivo.

Uma observação que acho que vale a pena ser feita é referente à inovação das políticas dentro do setor público. Estamos vendo no noticiário nacional o enriquecimento do Palocci, em Campinas integrantes do alto escalão do poder Executivo estão envolvidos num escândalo envolvendo a Sanasa; em Limeira é a vez da merenda escolar (que desconheço quais foram os desdobramentos da pizzaria da Câmara municipal) e etc.

Os exemplos são mais que suficientes para se notar que tanta burrocracia de nada adianta para quem realmente quer tirar um pouco de vantagem do cargo e do dinheiro público que administra direta ou indiretamente. Porque não inovar na forma como os processos são feitos? Ou melhor ainda, porque não revolucionar a política de uma forma que ela fique mais transparente. Como leigo em política, fico indignado como é difícil conseguir informações claras sobre contratos e além disso, como é difícil se investigar casos de improbidade administrativa com total imparcialidade e comprometimento por parte dos legisladores que se propõe a fazer isso.

Um dos pontos que eu acho mais importante de serem mudados seria a prestação de contas de todos os funcionários comissionados que assumem um cargo público, bem como a prestação de conta dos parentes mais próximos daqueles que ocupam o alto escalão. Não deve ser difícil para um prefeito comprar bens e colocar no nome de um dos filhos, ou para um presidente da Câmara receber propina, comprar um apartamento e colocar no nome de sua assessora. Parece que a legislação dá brechas para roubos. É de se pensar em quem fez essas leis, será que as brechas não são com finalidade explícita? Vai saber...

Outro ponto que também deveria ser mudado, na minha opinião, é extinguir os cargos comissionados e colocar profissionais concursados no lugar. Claro que nenhum político abraçaria essa causa!!! Mas o serviço público vira um cabide de empregos de quatro em quatro anos. É inevitável que haja enormes mudanças com governos diferentes assumindo o poder - isso é óbvio. Mas ao meu ver isso ajuda ainda mais essas sacanagens que são noticiadas cada vez com frequência maior. Se os concursos públicos fossem realmente levados a sério e os editais exigissem profissionais capacitados para assumir os cargos mais importantes, principalmente aqueles que controlam o orçamento público, talvez os escândalos seriam menores. Claro que o homem é corrompível (se é que essa palavra existe), mas uma reestruturação do Estado para que ele exerça seu papel principal que é garantir o bom funcionamento da máquina pública e o bem estar e interesses da população, do coletivo é fundamental!

Enquanto isso nos bancos da universidade, um monte de alunos pensam num Brasil melhor a espera da realidade movida a ganância e dinheiro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Maquiavel e seus ensinamentos..

Ainda estou estudando e vou aproveitar que dei uma estacionada no Renascimento, vou colocar aqui algumas citações do livro "O Príncipe", de Maquiavel. Dei uma de Napoleão e fiz comentários nas citações que mais gostei... por falar nisso, ainda quero ler a versão desse livro comentado pelo francês.

"Aquilo que os príncipes prudentes devem fazer: cuidar não somente das desordens presentes, mas precaver-se das futuras, e empregar todo o seu talento a remediá-las, o que mais facilmente se fará se de çpnge forem previstas. ao contrário, se esperares que elas se consumam, a droga chegará tarde demais, porquanto o mal terá tornado-se incurável" (p. 12)

"O tempo tudo arrasta consigo e que, assim, ele pode trazer o bem como o mal, o mal como o bem" (p. 13)

"Aquele que promove o pode de um outro perde o seu, pois tanto a astúcia quanto a força com as quais fora ele conquistado parecerão suspeitas aos olhos do novo poderoso" (p. 17)

"O homem prudente deverá constantemente seguir o itinerário percorrido pelos grandes e imitar aqueles que mostraram-se excepcionais, a fim de que, caso o seu mérito (virtù) ao deles não se iguale, possa ele ao menos recolher deste uma leve fragrância" (p. 24)

"O mal, portanto, deve-se fazê-lo de um jacto, de modo a que a fugacidade do seu acre sabor faça fugaz a dor que ele traz. O bem, ao contrário, deve-se concedê-lo pouco a pouco, para que seja melhor apreciado o seu gosto" (p. 44)

"Eu assevero que uma tal ascenção dependerá ou do apoio do povo, ou do apoio dos poderosos. Isto porque em qualquer cidade se encontram estas duas disposições contrárias, as quais decorrem que o povo não deseja ser comandado nem oprimido pelos grandes e de que estes desejam exatamente o inverso. desses dois apetites contrários advém nas cidades um destes três efeitos: ou um governo (principato) forte, ou liberdade, ou desordem." (p. 45)

"Aquele que foi alçado em príncipe com a ajuda dos grandes mantém-se com mais dificuldade que aquele que o foi com apoio popular, visto que o primeiro acha-se cercado de muitos que se lhe assemelham, não podendo, por isso, nem comandá-los, nem manobrá-los" (p. 45) [essa citação é ótima! Reflete bem o clima entre burguesia e monarquia durante a Idade Moderna, tanto que o período começa com o fortalecimento das monarquias nacionais e termina com as revoluções burguesas do século XVIII]

'Assim, um homem que eleva-se à condição de príncipe mediante o favor do povo deve a este manter-se aliado, o que lhe será fácil uma vez que o povo pede apenas para ser poupado da opressão" (p. 47)

"Há uma tão grande distância entre o modo como se vive e o modo como se deveria viver, que aquele que em detrimento do que se faz privilegia o que se deveria fazer mais aprende a cair em desgraça que a preservar a sua própria pessoa" (p. 73)

"Dos homens, em realidade, pode-se dizer genericamente que eles são ingratos, volúveis, fementidos e dissimulados, fugindo quando há perigo, e cobiçosos" (p. 80)

"Existem dois modos de combater: um, com leis; o outro com a força. O primeiro modo é o próprio do homem; o segundo, dos animais. Porém, como o primeiro muitas vezes mostra-se insuficiente, impõe-se um recurso ao segundo. Por conseguinte, a um príncipe é necessário saber valer-se dos seus atributos de animal e de homem" (p. 84) [Essa passagem também é verdadeira até hoje. Vamos tentar fazer uma manifestação contra aquele aumento abusivo no salário dos deputados, senadores e presidente... no mínimo um batalhão da Polícia Militar ou federal estará protegendo a Granja do Torto e o Senado. O engraçado é que os policiais que estiverem atrás de escudos e cacetetes não devem ganhar nem 5% do novo salário desses políticos nojentos!]

"São tão simples os homens e tão simplesmente eles conformam-se às exigências do seu presente, que aquele que sabe enganar encontra sempre um outro que, justamente, se deixa enganar" (p. 85) [Tudo a ver com o comentário que fiz na citação anterior!!!!! povo é conformado demais...]

"Direi simplesmente o seguinte: será sempre imensamente fácil para um príncipe aliciar aqueles homens que lhe tenham sido hostis na origem do seu principado se estes carecerem de um apoio para manter-se" (p.104) [Explicação para a popularidade de Lula em 2010?]

"Assaz positiva ou negativa, a atitude adotada por qualquer pessoa em sua vida civil deve ser premiada ou punida de um modo que repercuta fortemente" (p. 108) [A Câmara dos Vereadores de Limeira leva isso sério demais que até perdeu o sentido... basta contar as moções de aplauso e outros atos inuteis que fazem...]

"A pridência , ela, consiste em saber-se reconhecer a extensão dos incovenientes e tomar por bom o que é menos ruim" (p. 111) [Ótima frase para propaganda política]

"Mais vale ser impetuoso que circunspecto, pois a fortuna é mulher, e, para mantê-la submissa, é preciso batê-la e maltratá-la" (p. 124)

Fonte: Machiavelli, Nicoló di Bernardo dei, 1469-1527. Tradução de Antonio Caruccio-Corporale. Porto alegre: L&PM, 1998.