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domingo, 7 de dezembro de 2014

Nem sempre os conselhos funcionam... BIRD e seus relatórios

Os dois textos abaixo são resenhas feitas para a disciplina de Desenvolvimento Econômico Contemporâneo do Instituto de Economia da Unicamp. A proposta em uma parte do curso foi comparar como o discurso de algumas instituições mudaram ao longo do tempo. Começo publicando dois textos que fiz com base nos Relatórios sobre o Desenvolvimento Mundial do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), do Banco Mundial.

A comparação dos dois textos fica clara como nem todo conselho é o melhor quando não se considera que existe uma realidade além do "ceteris paribus" (expressão usada em economia para manter "tudo o mais constante"). Com isso quero tentar mostrar que, como concluímos em algumas aulas da disciplina mencionada acima, é preciso considerar muitos outros fatores além do estrito crescimento econômico. Um desses fatores é a realidade política e a integração de cada país na geopolítica internacional.

Essa questão do "conselho" fica clara quando os dois relatórios falam das privatizações. Em uma era amplamente recomendado tanto quanto aspirina. No segundo há o reconhecimento de que essa parte do receituário pode não ter sido um bom conselho como se acreditava.

Seguem as resenhas:

Fichamento: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 1991: o desafio do desenvolvimento. RJ: FGV; Banco Mundial, 1991. Visão geral.

Este relatório do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), do Banco Mundial, é o segundo de uma série de três que tratam da pobreza e do meio ambiente publicados entre 1990 e 1992. Também é o 14º documento do Banco Mundial e se compromete a dar uma “ampla visão geral da agenda desenvolvimentista” (BIRD: 1991 p. iii). No prefácio da publicação, o então presidente da instituição, Barber B. Conable diz que a década de 1990 se inicia com drásticas mudanças, se referindo a “ambiciosas reformas nos sistemas econômicos e políticos” (ibid.) Tendo em vista essa transição, Conable diz que o relatório busca fazer debates históricos que levaram os formuladores de políticas a tomarem suas decisões no passado.

Uma das lições mais valiosas refere-se à interação do Estado e do mercado no estímulo ao desenvolvimento. A experiência mostra haver mais probabilidade de êxito na promoção do desenvolvimento econômico e na redução da pobreza quando os governos complementam os mercados; conflitos entre uns e outros geram fracassos dramáticos. O Relatório descreve uma abordagem favorável aos mercados, cujo bom funcionamento é permitido pelos governos, que por sua vez concentram suas intervenções em áreas onde os mercados se mostram inadequados. (Ibid.)

Quatro aspectos principais do relacionamento entre governo e mercado são listados por Conable (In: BIRD: 1991) e discutidos ao longo do relatório:

Primeiro, o investimento na população requer atuação pública eficiente. Em geral, os mercados não são capazes, por si sós, de garantir que as pessoas, especialmente as mais pobres, disponham adequadamente de educação, atendimento médico, nutrição e acesso ao planejamento familiar. Segundo, é essencial ao êxito das empresas um contexto que lhes seja favorável – no qual se incluam concorrência, boa infra-estrutura e instituições. Concorrência estimula inovação, difusão de tecnologia e uso eficiente de recursos. Terceiro, para o desenvolvimento econômico ter sucesso, os países precisam estar integrados à economia global. A abertura aos intercâmbios internacionais de bens, serviços , capital, mão-de-obra, tecnologia e ideias estimula o crescimento econômico. Quarto, uma base macroeconômica estável é essencial ao progresso sustentado. Restaurar a confiança do setor privado é hoje um grande desafio para vários países com um longo histórico de instabilidade macroeconômica. (BIRD: 1991, p. iii) (grifos nossos)

A perspectiva para um desenvolvimento rápido nos primeiros anos da década de 1990 se fundamentava em um cenário internacional favorável a todas as economias. Como explica Conable (In: BIRD: 1991), as políticas desenvolvimentistas de países desenvolvidos se beneficia amplamente com a abertura de países em desenvolvimento tornando o mundo “cada vez mais interdependente” (p. iii). Contudo,

(...) o Relatório acentua, principalmente, que o futuro dos países em desenvolvimento a eles próprios compete. Está nas políticas e instituições nacionais a possibilidade de um desenvolvimento bem-sucedido. Se houver reformas firmes e sustentadas no nível nacional, conclui o Relatório, o ritmo do desenvolvimento pode ser bem mais acelerado – e no fim da década milhões de pessoas não viverão em condições de pobreza. (BIRD: 1991, p. iii)

Nas “Definições e notas sobre os dados” o relatório faz algumas observações sobre as classificações adotadas aos grupos de países:

·         Economias de baixa renda são aquelas com PNB per capta igual ou inferior a US$580 em 1989.
·         Economias de renda média são aquelas com PNB per capta superior a U$580, mas inferior a US$6,000 em 1989. Este grupo divide-se ainda em economias de renda média baixa e economias de renda média alta, a um PNB per capta de US$2,335 em 1989.
·         Economias de alta renda são aquelas com PNB per capta igual ou superior a US$6,00 em 1989. (BIRD: 1991, p. x)

Os dois primeiros grupos são considerados as “economias em desenvolvimento”. Contudo, o relatório ressalta que “a classificação por renda não reflete necessariamente o nível de desenvolvimento” (BIRD: 1991, p. x). Além destas classificações o relatório também trabalha com grupos analíticos. São eles: Exportadores de petróleo (como Argélia, Angola, Catar, Iraque, Nigéria, entre outros); membros da Organização Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); e o terceiro grupo são os

Países de renda média muito endividados (abreviado para “muito endividados” anos Indicadores do Desenvolvimento Mundial) são os 20 países que tiveram sérias dificuldades com o serviço da dívida. São países em que três dos quatro coeficientes-chave estão acima de níveis críticos: dívida/PNB (50%), dívida/exportações de bem e serviços (275%), serviço acumulado da dívida/exportações (30%) e juros acumulados/exportações (20%). (BIRD: 1991, p. xi)

É neste grupo no qual o Brasil pertencia naquele momento junto da Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Nicarágua, Peru, Uruguai, Venezuela e outros países africanos, europeus e asiáticos. Ou seja, dos mais de 100 países que entraram nas análises do relatório do BIRD, quase todos os países latino-americanos e poucos países dos demais continentes estão neste grupo.
A “Visão geral” do relatório aponta que mais de 1 bilhão de pessoas ainda não vivia com a renda diária de um dólar naquela época. Embora alguns países já haviam melhorados seus indicadores, a pobreza continuava a ser o problema. Contudo, o desenvolvimento é acreditado pelo relatório uma vez que “mais de 95% do aumento do contingente mundial de mão-de-obra nos próximos 25 anos ocorrerão no mundo em desenvolvimento” (BIRD: 1991, p. 1).
Experiências anteriores são a base para compreender o desenvolvimento econômico. Além disso,  a equipe do relatório afirma que

(...) a história nos mostra que as políticas econômicas e as instituições são de importância crucial – o que é animador, pois implica que os países que não prosperaram podem vir a ter melhor desempenho. Mas é também um desafio, pois obriga os governos de todo o mundo (e não somente dos países em desenvolvimento), bem como as agências multilaterais, a levarem em conta os fatores que têm promovido o desenvolvimento e coloca-los em ação. (BIRD: 1991, p. 1)

Neste trecho já fica evidente a importância que o Banco Mundial dá para as instituições além da ênfase para a necessidade de outras economias compartilharem de experiências de sucesso na história.
Estado x laissez-faire
Mercados competitivos garantem organização da produção e a distribuição de bens e serviços. Além disso, a competitividade incentiva o espírito empresarial e o progresso tecnológico. Contudo, o relatório afirma que mercados devem coexistir com o Estado. “E, em muitas outras tarefas, os mercados às vezes resultam inadequados ou fracassem completamente. É por isso que os governos devem, por exemplo, investir em infra-estrutura e oferecer serviços essenciais à população pobre” (BIRD: 1991, p. 1).

Quando os mercados podem funcionar bem e têm a liberdade de fazê-lo, o progresso econômico tende a ser substancial. Quando os mercados fracassam e os governos intervêm cautelosa e judiciosamente, ocorre um progresso adicional. Mas quando os dois se unem, os fatos indicam que o todo é mais que a soma das partes. Quando o estado e o mercado funcionam de mãos dadas, os resultados têm sido espetaculares; mas, quando trabalham em oposição, os resultados têm sido desastrosos. (BIRD: 1991, p. 2)

A economia mundial em transição

Nas décadas anteriores a 1990, o progresso tecnológico melhorou o padrão de vida em alguns países como a China e outros países asiáticos. Além disso, a mortalidade infantil diminuiu e a expectativa de vida aumentou graças a tecnologia média, saneamento ambiental, melhor alimentação e educação neste período. No entanto, o desenvolvimento necessita de paz. Como ressalta o relatório: “a causa mais importante da fome em países em desenvolvimento em anos recentes foi, sem dúvida, o conflito militar, e não a pobreza ou insuficiência de produção agrícola” (BIRD: 1991, p. 3).
Quanto ao comércio mundial, o BIRD afirma que ele cresceu a uma taxa de 6% ao ano de 1950 até aquele momento. Este crescimento foi 50% mais rápido que o da produção. Por conta destes números o relatório aponta a necessidade de um aumento geral da integração econômica entre os países.
As projeções do banco Mundial para os anos 1990 era de um crescimento na renda per capta de cerca de 2,5% ao ano nos países industrializados, contando com um cenário sem grandes choques externos adversos e se as políticas adotadas forem boas. Para que isso seja possível seria necessário uma inflação entre 3% e 4% e taxas reais de juros de cerca de 3%. Caso a expansão do comércio mundial ultrapassar 5% o crescimento da renda per capta pode ser de 3%. Quanto aos países em desenvolvimento, se forem adotadas “reformas mais vigorosas e abrangentes, a renda (...) pode, a longo prazo, aumentar em outros 1,5-2 pontos percentuais – em média, cerca do dobro do aumento provocado por melhores condições internas” (BIRD: 1991, p. 3).

Os caminhos do desenvolvimento
Desenvolvimento é melhorar a qualidade de vida. “Abrange, como fins em si mesmos, a melhoria da educação, padrões mais elevados de saúde e nutrição, menos pobreza, um meio ambiente mais limpo, maior igualdade de oportunidades, maior liberdade individual e uma vida cultural mais rica” (BIRD: 1991, p. 4).
O relatório também cita as estratégias adotadas nas décadas anteriores como substituição de importações e a tributação da agricultura para financiar o investimento industrial. Contudo, o Banco Mundial faz uma ressalva sobre este assunto:

Essas ideias não resistiram à prova do tempo. Hoje, há indícios mais claros, tanto em países industrializados quanto em países em desenvolvimento, de que é melhor não se pedir aos governos que dirijam o desenvolvimento. Quase sempre, os impostor discriminatórios contra a agricultura constituem impostos sobre o crescimento econômico. O isolamento econômico por trás de barreiras comerciais tem-se mostrado oneroso. Retardar a concorrência ou interferir nos preços, deliberada ou acidentalmente, é quase sempre contraproducente. (BIRD: 1991, p. 4)

Embora desacredite a capacidade de os Estados de conduzirem o desenvolvimento, o relatório aponta algumas atribuições aos Estados que constituem o cerne do desenvolvimento. São elas: definir e proteger os direitos de propriedade; oferecer sistemas jurídicos, judiciais e normativos eficazes; aumentar a eficiência dos serviços públicos; e proteger o meio ambiente.
O aumento na produção é, de acordo com o relatório, a soma de aumento de capital e mão-de-obra e das variações da produtividade destes dois insumos. Nos países em desenvolvimento essa variação foi muito lenta ao longo do tempo. Sendo assim, o Banco Mundial atribui ao aumento da produtividade, considerado como o motor do desenvolvimento, a diferença entre os crescimentos da produção nos diferentes países analisados. A produtividade, por sua vez está em função do progresso tecnológico que é influenciado pela “história, educação, instituições e políticas de abertura nos países em desenvolvimento e industrializados” (BIRD: 1991, p. 5). Além disso, a tecnologia é difundida pela investimento no capital físico e humano através do comércio. Sendo assim, um ambiente favorável a estes investimentos é necessário para o progresso e o relatório aponta que economias com sistemas de preços não-distorcidos é, em geral, mais propícia ao desenvolvimento.
Intervenções menores no mercado também é um ponto tratado pelo relatório. O documento analisa três pontos relacionado às economias que adotaram mais intervenção na década de 1980, como a China, Índia e Coreia: intervenções disciplinadas pela concorrência externa e interna; intervenções que não distorcessem indevidamente os preços relativos; intervenção mais moderada que em outros países em desenvolvimento. Além dos pontos embasados na experiência dos países citados, o relatório também cita outros três pontos com base na experiência de outros países e na teoria econômica:
1.      Intervir relutantemente: deixar que os mercados funcionem por si mesmos. “(...) geralmente é um erro o Estado engajar-se na produção física ou proteger a produção interna de um bem que pode ser importado a preço mais baixo e cuja produção local traz poucos benefícios secundários” (BIRD: 1991. p. 6);
2.      Aplicar controles e contramedidas: colocar a intervenção em função da disciplina dos mercados interno e internacional;
3.      Intervir abertamente: tornar a intervenção simples e transparente, além de sujeita a normas.

Elementos de uma abordagem favorável ao mercado
Dissipar as dúvidas quanto a inflação e educação como fundamento para disseminação e adoção de novas tecnologias são dois pontos que são promovidos pelas quatro áreas essenciais, aos olhos do Banco Mundial:
Desenvolvimento humano: este tópico engloba não só a educação e a renda da população como também o aumento populacional. Estes três pontos são inversamente proporcionais, ou seja, crescimento na educação e na renda faz declinar o aumento da população. Nesta seara o relatório aponta como alternativas: investimento maior na educação básica, no sistema de saúde básica e maior cuidado para que os programas públicos atinjam seus objetivos.
Economia interna: garantia de leis que protejam a propriedade, bens públicos de qualidade, investimentos em infra-estrutura, não impor restrições para abertura e fechamento de firmas, entre outras medidas que garantam, em essência, a liberdade do mercado são pontos a serem trabalhados pelas economias.
Economia internacional: “sempre que os fluxos internacionais de bens, serviços, capital, mão-de-obra e tecnologia aumentaram rapidamente, o ritmo do progresso econômico também foi rápido” (BIRD: 1991, p. 9). Abertura comercial implica em novas possibilidades de acesso a tecnologias. Esse fluxo de tecnologia se dá tanto por educação no exterior, investimento externo, assistência técnica, entre outros. Para tanto o Banco Mundial aponta necessária a redução das barreiras não-tarifárias. “Os governos dos países industrializados têm a responsabilidade – senão em relação ao mundo em desenvolvimento, pelo menos em relação a seus próprios povos – de permitir que os exportadores dos países em desenvolvimento tenham acesso aos seus mercados” (BIRD: 1991, p. 9)
Política macroeconômica: no tocante a este ponto o relatório discrimina gastos demasiados no Estado em função de um cenário macroeconômico mais favorável ao mercado. Gastos públicos geram dívidas interna e externa e empréstimos. Neste sentido, a confiança dos empresários deve ser conquistada a fim de garantir investimentos no país.

O governo pode manter uma política fiscal prudente se examinar cuidadosamente a divisão de tarefas entre o Estado e o setor privado. Isso, como afirma o Relatório, é desejável em qualquer caso. Reavaliando suas prioridades de gastos, implementando reformas fiscais, reformando o setor financeiro, privatizando as empresas estatais e lançando mão de tarifas para reaver o custo de certos serviços prestados pelo Estado, os governos podem alcançar, ao mesmo tempo, os objetivos de eficiência microeconômica e estabilidade macroeconômica. (BIRD: 1991, p. 10)


Reconsiderando o Estado
A importância de atenção às políticas ambientais e também a não-discricionariedade do governo na economia são apontados pelo relatório como responsabilidades numa revisão do papel do Estado.

Entre os enfoques do desenvolvimento, aquele que parece mais confiável e promissor sugere uma reavaliação dos respectivos papéis do mercado e do estado. Em poucas palavras, os governos precisam fazer menos naquelas áreas em que os mercados funcionam ou podem funcionar razoavelmente bem. Em muitos países, seria útil privatizar grande número de empresas estatais. Os governos devem permitir o florescimento da concorrência interna e internacional. Ao mesmo tempo, devem fazer mais naquelas áreas nas quais não se pode depender apenas dos mercados. Isso significa, acima de tudo, investir em educação, saúde, nutrição, planejamento familiar e alívio da pobreza; construir uma infra-estrutura social, física, administrativa, normativa e jurídica de melhor qualidade; mobilizar os recursos para financiar as despesas públicas; e estabelecer uma base macroeconômica estável, sem a qual pouco se consegue realizar. (BIRD: 1991, p. 10)

Referente à discricionariedade do Estado, o relatório aborda a diferença entre a economias em sistemas políticos democráticos e autoritários. Além disso, o documento aborda um “círculo vicioso de intervenções nocivas que favorecem interesses particulares e levam à busca de lucros financeiros e à ‘captura’ do Estado” (BIRD: 1991, p. 11).

A reforma deve visar as instituições. O estabelecimento de um sistema jurídico e judiciário eficaz e um firme sistema de direitos de propriedade é um complemento essencial às reformas econômicas. A reforma do setor público é uma prioridade em muitos países – inclusive a reforma do serviço público, a racionalização dos gastos governamentais, a reforma de empresas estatais e a privatização. Entre outras reformas econômicas correlatas estão um melhor fornecimento de bens públicos, supervisão bancária e normas jurídicas para o desenvolvimento financeiro. O reforço dessas instituições melhora a qualidade do governo, torna o Estado mais capaz de implementar a política do desenvolvimento e permite à sociedade estabelecer controles e contramedidas. (BIRD: 1991, p. 11).

O relatório afirma que a adoção das medidas propostas ali, se adotadas, contribuiria para uma melhor distribuição de renda a favor dos mais pobres. Aos países em desenvolvimento, é indicado uma reforma tributária para tornar o sistema progressivo, reforma agrária na China, Japão e República da Coreia.

Prioridades de ação
Os países industrializados devem: eliminar as restrições comerciais e reformar a política macroeconômica.
Em conjunto, países industrializados e as agências multilaterais devem: aumentar a ajuda financeira, apoiar reformar econômicas e estimular o crescimento sustentável.

Já aos países em desenvolvimento: investir nos recursos humanos, melhorar o clima para o empreendimento, abrir as economias ao comércio e ao investimento internacionais e corrigir a política macroeconômica.




Fichamento: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006. Washington, DC: Banco Mundial, 2006. Visão geral.

O Relatório para o Desenvolvimento Humano de 2006, de forma geral, foca na equidade e as formas como os governos devem atuar para alcança-la de maneira plena. A definição do relatório para equidade é ter oportunidades iguais para as pessoas conseguirem a vida que buscam e serem poupadas da extrema privação dos resultados.
Para ilustrar de forma mais clara o conceito, o relatório lança mão de uma narrativa comparando duas crianças nascidas na África do Sul: uma negra de família pobre e outra branca, rica. O recurso estilístico do texto, embora usado apenas no começo do documento de forma narrativa, percorre todo o discurso do BIRD ao fazer inúmeras comparações e ilustrações das condições de desenvolvimento de pessoas por todo o mundo. Exemplo disso é o acesso à educação e saúde na África e no sul da Ásia, ou as diferenças de acesso aos serviços básicos baseados no sexo e nas castas, respectivamente na China e na Índia. Esses diferentes casos mostra quantas dimensões podem ter as inequidades nos e entre os países.
Outro conceito que se liga à equidade é o das “armadilhas da desigualdade”. Estes fenômenos são definidos como “efeitos adversos de oportunidades e forças políticas desiguais sobre o desenvolvimento são os mais prejudiciais, pois as desigualdades econômicas, políticas e sociais tendem a reproduzir-se ao longo do tempo e de geração a geração” (BIRD: 2006, p. 2).
Estas armadilhas são também abordadas ao longo de todo o documento, principalmente a parte da transmissão das condições e oportunidades de geração para geração. Por exemplo, neste trecho:

Infelizmente, as circunstâncias predeterminadas (e, portanto, moralmente irrelevantes) definem muito mais do que apenas os rendimentos futuros. Educação e saúde têm valor intrínseco e afetam a capacidade dos indivíduos de se integrarem à vida econômica, social e política. Mas as crianças defrontam-se com oportunidades substancialmente diferentes para aprender e ter vida saudável em quase todas as populações, dependendo de suas condições financeiras, localização geográfica ou educação dos pais, entre outros fatores. (BIRD: 2006, p. 4)

Buscar a equidade é também buscar a prosperidade, ou seja, estes objetivos são complementares. Além disso, o relatório aponta dois grandes grupos de motivos que são as causas dessa complementaridade: um se refere às muitas falhas de mercado nos países em desenvolvimento, principalmente nos mercados de crédito, seguro, terra e capital humano. “Quando os mercados são incompletos ou imperfeitos, a distribuição de riqueza e de poder afeta a alocação de oportunidades de investimento” (BIRD: 2006, p. 2). Sendo assim, corrigir essas falhas deve ser um dos objetivo para melhor equidade.
Outro grupo de motivos que gera equidade com prosperidade é o fato de instituições econômicas e organizações sociais serem construídas para privilegiar certos interesses específicos de grupos isolados.

A distribuição de riqueza está diretamente relacionada com as diferenças sociais que estratificam as pessoas, comunidades e nações nos grupos que dominam e os que são dominados. Esses padrões de dominação persistem, porque as diferenças econômicas e sociais são reforçadas pelo uso manifesto e sutil do poder. As elites protegem seus interesses de formas sutis, por meio de práticas excludentes em sistemas de casamento e parentesco, por exemplo, e de formas menos veladas, tais como a manipulação política agressiva ou o uso explícito da violência. (BIRD: 2006, p. 2).

O relatório faz também três considerações iniciais importantes para o desenvolvimento do resto do documento:
1)      Nem sempre equidade pode ser medida pela distribuição de renda. Mesmo com processos mais justos, espera-se ainda diferenças que provém de diferentes talentos, preferências, esforço e sorte;
2)      O foco das políticas deve ser a distribuição de ativos, oportunidades econômicas e expressão política e não na desigualdade de rendimentos;
3)      O cálculo do mérito das políticas adotadas para aumentar a equidade e seus efeitos no longo prazo nem sempre é levado em conta ou são difíceis de calcular.
Outro questionamento levantado pelo relatório se refere à importância da equidade para o crescimento. Uma primeira resposta a isso percorre o caminho das inequidades dentro dos mercados e o comando destes e dos governos por grupos pequenos, deixando à margem grande parcela da população. Mercados imperfeitos, por exemplo, geram desigualdades de riqueza e poder e por conseguinte oportunidades desiguais e alocação ineficiente dos recursos. Este tema é trabalhado no documento pelo ponto de vista tanto do mercado financeiro, quanto o de terras e capital humano. O pleno funcionamento de forma transparente e justa não geraria rendas diferenciadas e diferentes oportunidades.
Outro ponto que o relatório do BIRD volta a mencionar, assim como o de 1991 é a importância das instituições. As instituições são construções históricas, políticas e sociais. Dessa forma, imperfeições de mercado são reflexos de distribuições inequitativas de poder.

As boas instituições econômicas são equitaveis de uma maneira fundamental: para prosperar, uma sociedade deve criar incentivos para que a vasta maioria da população invista e inove. Mas tal grupo de instituições econômicas só pode surgir quando a distribuição de poder não for extremamente desigual e em situações nas quais existam restrições ao exercício de poder por parte de funcionários do governo.  (BIRD: 2006, p. 9)

Outro ponto em que as instituições é ressaltada é quando o relatório afirma que políticas que a equidade aprimora as políticas de redução da pobreza:

Afirmamos que uma lente de equidade aprimora a agenda de redução da pobreza. As pessoas de baixa renda geralmente têm menos expressão, menor renda e menos acesso a serviços do que a maioria das outras pessoas. Quando as sociedades se tornarem mais igualitárias de modo a conduzir a maiores oportunidades para todos, as pessoas de baixa renda estarão em condições de aproveitar um “duplo dividendo”. Primeiramente, a ampliação de oportunidades beneficia os pobres diretamente, por intermédio da participação no processo de desenvolvimento. Segundo, o processo de desenvolvimento propriamente dito pode obter mais êxito e tornar-se mais flexível à medida que a maior equidade produzir melhores instituições, gestão mais eficaz do conflito e um melhor uso de todos os potenciais recursos da sociedade, inclusive os recursos das pessoas de baixa renda. Os consequentes aumentos das taxas de crescimento econômico nos países pobres, por sua vez, contribuirão para a redução das desigualdades mundiais. (BIRD: 2006, p. 10)

Essa visão de equidade acrescenta três perspectivas à formulação de políticas de desenvolvimento:
1)      As políticas de diminuição da pobreza podem envolver redistribuições de influência, vantagem ou subsídios fora dos grupos dominantes;
2)      As compensações das políticas devem ser levadas em conta. Caso altos impostos para melhorar a educação atinjam seu objetivo no futuro, esse benefício não deve ser ignorado na elaboração da política;
3)      “Em terceiro lugar, é falsa a dicotomia entre políticas para o crescimento e políticas voltadas especificamente para a equidade. A distribuição de oportunidades e o processo de crescimento são determinados em conjunto. As políticas que afetam um, afetarão o outro” (BIRD: 2006, p. 11).

A partir destas considerações, a Visão Geral do relatório resume os quatro pontos principais para a ação pública e a formação de política.

A. Capacidades Humanas
1) Desenvolvimento na primeira infância: a visão essencial aqui é reduzir a armadilha da desigualdade, ou seja, fazer com que as condições do nascimento não sejam fatores decisivos no desenvolvimento cognitivo da criança. Desta forma as políticas devem atuar para garantir esse desenvolvimento de forma que a equidade seja garantida desde cedo;
2) Escolaridade: garantia de pelo menos um nível básico a todas as crianças de forma igual;
3) Saúde: este ponto engloba não só tratamento médico, como imunização, mas também saneamento básico e água potável.
4) Gestão de risco: garantia de que choques e crises econômicas não atinjam as classes mais pobres de maneira tão drástica como usualmente ocorre;
5) Impostos para equidade: “Como os impostos impõem perdas de eficiência, alterando as escolhas individuais entre trabalho e lazer, consumo e poupança, a maioria dos países em desenvolvimento tem possibilidade de ser mais bem servido evitando elevados impostos marginais sobre a renda e fundamentando-se em uma base mais ampla, especialmente para impostos sobre o consumo” (BIRD: 2006, p. 13);

B. Justiça, terra e infraestrutura
1) Criação de sistemas de justiça equitativos: “As instituições legais podem sustentar os direitos políticos dos cidadãos e restringir o aprisionamento do Estado pela elite” (BIRD: 2006, p. 14 );
2) Para uma maior equidade no acesso à terra: essa equidade não precisa necessariamente passar pela questão da propriedade, segundo o relatório, mas sim por políticas agrícolas e maior segurança de posse aos grupos de menor renda;
3) Fornecimento equitativo de infraestrutura:

Embora o setor público continue a ser, em muitos casos, a principal fonte de fundos de investimento em infraestrutura destinados a ampliar as oportunidades dos menos favorecidos, a eficiência do setor privado também pode ser aproveitada. Embora as privatizações de empresas de serviços públicos costumem ser atacadas por seus efeitos desiguais, a evidência indica uma realidade mais complexa. As privatizações na América Latina geralmente resultaram em acesso a serviços, especialmente em eletricidade e telecomunicações. Em outros casos, contudo, no período pós-privatização os preços aumentam mais do que os ganhos em qualidade e cobertura, levando ao descontentamento geral da população.
As privatizações são, portanto, um caso clássico de política que pode ou não dar certo, dependendo do contexto local. Se o sistema público for altamente corrupto ou ineficaz e estiver prevista uma capacidade normativa adequada na pós-privatização, a privatização pode ser considerada um bom recurso. Em outros casos, há privatizações mal programadas que transferem ativos públicos a preços excessivamente baixos para mãos privadas. (BIRD: 2006, p. 15)

C. Os mercados e a macroeconomia
1) Mercados financeiros: a questão perpassa o maior acesso de firmas que geralmente não têm acesso ao mercado financeiro e a empréstimos;
2) Mercados globais: aplicação universal das leis do trabalho e segurança para os trabalhadores como seguro desemprego e proteção/incentivo de minorias como mulheres e jovens inexperientes;
3) Mercado de produtos:

Geralmente há também fortes interações com qualificações no mercado de trabalho. Em muitos países, a abertura ao comércio (geralmente coincidindo com a abertura ao investimento estrangeiro direto) tem sido associada a um aumento da desigualdade salarial nas duas últimas décadas. Isso ocorre especialmente nos países de renda média, notavelmente na América Latina. A abertura ao comércio geralmente incentiva o prêmio por aptidões à medida que as firmas modernizam seus processos de produção (mudança técnica com base em aptidões, no jargão dos economistas). Isso pode ser prejudicial para a equidade se o contexto institucional restringir a capacidade dos trabalhadores de mudarem para um novo trabalho – ou limitar o acesso da população à educação. (BIRD: 2006, p. 17)

4) Estabilidade macroeconômica: o relatório defende que á relação entre instituições injustas e crises macroeconômicas que, geralmente, acabam por penalizar as classes com menor renda. Os governos devem, portanto, criar políticas fiscais anticíclicas e criar redes de segurança antes de crises;

D. A arena global
O documento reconhece que há inequidades no mercado mundial. Contudo, propõe algumas medidas que visem melhorar este cenário como: migrações para países membros da OCDE; aumentar substancialmente a liberalização comercial; permitir que os países pobres usem medicamentos genéricos; e desenvolver normas financeiras mais apropriadas aos países em desenvolvimento.

A conclusão desta visão geral do relatório traz a ideia de que equidade, além de gerar melhores oportunidades, também atrai investimentos

Ao assegurar que instituições reforcem direitos pessoais, políticos e de propriedade para todos, incluindo os atualmente excluídos, os países poderão contar com um número maior de investidores e inovadores e ser muito mais eficazes na prestação de serviços para todos os cidadãos. Uma maior equidade pode, no longo prazo, sustentar um crescimento mais rápido. Esse crescimento pode ser incentivado por uma maior imparcialidade na arena global, pelo menos por meio das promessas feitas na reunião da comunidade internacional realizada em Monterrey. O crescimento rápido e o desenvolvimento humano nos países mais pobres são fundamentais para a redução da desigualdade global e para o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio. (BIRD: 2006, p. 19)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Desigualdade de renda, condições e vida. Alguns trechos do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2006 do Banco Mundial

Certa vez, num grupo de economia no Facebook, entre em uma discussão sobre os benefícios do livre mercado e a não intervenção do governo. A maior parte daqueles que estavam discutindo, acho que posso dizer, eram conservadores ou liberais. A conversa foi feita em um post sobre a transformação da Argentina em uma economia socialista (por conta de regulações colocadas por Christina Kirchner às empresas nacionais).

Em certo ponto da discussão surgiu o tema da liberdade de escolha e as oportunidades iguais a todos. Este assunto veio à tona principalmente depois que comentamos sobre as propostas da candidata à presidência Luciana Genro ter como projeto a taxação de grandes riquezas no Brasil. Como estava no meio de vários liberais, a proposta foi vista como ruim e alguns dos economistas que lá debatiam não viam lógica em distribuir renda mesmo que o dono de uma grande riqueza fosse alguém que, embora pobre, tivesse uma grande ideia e enriquecesse com base em seu esforço. Meritocracia pura.

Dada essa primeira historinha, vou colocar abaixo uma outra que li no Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2006 do Banco Mundial. Confesso que fiquei surpreso de ler uma narrativa tão instigante num documento de uma das instituições máximas da economia mundial, acho que posso definir assim.  Segue, portanto, o texto (a imagem é meramente ilustrativa e não faz parte do relatório):



Imaginemos duas crianças sul-africanas nascidas no mesmo dia do ano de 2000. Nthabiseng é negra, filha de família pobre da zona rural da província de Eastern Cape, a cerca de 700 quilômetros da Cidade do Cabo. Sua mãe não recebeu educação formal. Pieter é branco, filho de família próspera da Cidade do Cabo. Sua mãe completou o terceiro grau na respeitada Stellenbosch University, próxima de casa.

No dia de seu nascimento, Nthabiseng e Pieter não podiam, a rigor, ser responsabilizados pelas condições de suas famílias: suas etnias, nível de renda e de educação de seus pais, sua localização urbana ou rural ou até mesmo seu sexo. Mas as estatísticas sugerem que essas variáveis históricas pré-determinadas farão grande diferença em sua vida. Nthabiseng tem 7,2% de possibilidade de morrer no primeiro ano de vida, mais do dobro dos 3% de Pieter. Pieter pode esperar viver até os 68 anos. Nthabiseng, até os 50. Pieter pode esperar completar 12 anos de educação formal. Nthabiseng, menos de 1 ano. Nthabiseng provavelmente será significativamente mais pobre do que Pieter durante toda a vida. Quando crescer, ela provavelmente terá menos acesso à água limpa e saneamento ou a boas escolas. Portanto as oportunidades com que essas duas crianças se deparam para alcançar todo o seu potencial humano são extremamente diferentes desde o início, sem que elas próprias tenham culpa disto.

Essas disparidades de oportunidades refletem-se em diferentes capacidades de contribuir para o desenvolvimento da África do Sul. Talvez as condições de saúde de Nthabiseng ao nascer fossem piores, devido à pior nutrição de sua mãe durante a gravidez. Devido à socialização de seus gêneros, localização geográfica e acesso a escolas, Pieter tem muito mais possibilidade de adquirir uma educação que o permita utilizar integralmente seus talentos naturais. Mesmo que aos 25 anos, e apesar das dificuldades, Nthabiseng consiga ter uma excelente idéia acerca de negócios (como uma inovação para aumentar a produção agrícola), ela terá muito mais dificuldade em convencer um banco a emprestar-lhe dinheiro a uma taxa de juros razoável. Se Pieter tiver uma idéia igualmente interessante (como o projeto de uma versão avançada de um software promissor) terá mais facilidade em obter crédito tendo tanto um diploma universitário, quanto muito provavelmente algum colateral. Com a transição para a democracia na África do Sul, Nthabiseng pode votar e, dessa forma, indiretamente moldar a política de seu governo, algo que era negado aos negros durante o apartheid. Mas o legado da desigualdade de oportunidades e da força política do apartheid ainda permanecerão por alguns anos. Há um longo caminho a percorrer entre essa (fundamental) mudança política e as mudanças de condições econômicas e sociais.

Por mais surpreendentes que sejam as diferenças de oportunidades durante a vida entre Pieter e Nthabiseng na África do Sul, elas são minimizadas pelas disparidades entre os sul-africanos médios e os cidadãos de países mais desenvolvidos. Consideremos as chances de Sven – nascido no mesmo dia em uma família típica da Suécia. Sua possibilidade de morrer no primeiro ano de vida é muito pequena (0,3%) e ele pode esperar viver até os 80 anos, 12 anos mais do que Pieter e 30 mais que Nthabiseng. Ele provavelmente completará 11,4 anos de educação – 5 anos mais do que o sul-africano médio. Essas diferenças de tempo de escolaridade são agravadas pelas diferenças de qualidade: na oitava série, Sven terá expectativa de marcar 500 pontos em um teste comparativo internacional em matemática, enquanto o estudante sul-africano médio obterá uma pontuação de apenas 264 – mais de dois desvios padrão abaixo da média da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD). Nthabiseng muito provavelmente nunca chegará à oitava série e, portanto, não fará o teste. Essas diferenças de oportunidades de vida entre nacionalidades, etnias, gêneros e grupos sociais chocarão muitos leitores como fundamentalmente injustas. Elas podem também levar à perda de potencial humano e, portanto, à perda de oportunidades de desenvolvimento. É por isso que o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006 analisa a relação entre eqüidade e desenvolvimento.


Como encontrei mais algumas citações interessantes no mesmo documento, resolvi coloca-las logo abaixo. Os números em parênteses correspondem à página de onde copiei o trecho. Os grifos em negrito foram feitos por mim.


A quantificação direta da desigualdade de oportunidades é difícil, mas uma análise do Brasil serve de exemplo. A desigualdade de renda em 1996 foi dividida no seguinte: uma parcela atribuída a quatro circunstâncias predeterminadas que fogem ao controle das pessoas – etnia, região de nascimento, nível de escolaridade dos pais e ocupação dos pais no nascimento – e uma parcela residual. Essas quatro circunstâncias são responsáveis por cerca de um quarto de todas as diferenças de renda entre os trabalhadores. Pode-se argumentar que outros determinantes das oportunidades também são predeterminados ao nascimento, mas não foram incluídos neste conjunto – por exemplo, gênero, condição financeira da família ou a qualidade da educação básica. Como essas variáveis não estão incluídas na “decomposição” da desigualdade, esses resultados podem ser considerados como estimativas de um limite inferior da desigualdade de oportunidade no Brasil. (p. 4)

Infelizmente, as circunstâncias predeterminadas (e, portanto, moralmente irrelevantes) definem muito mais do que apenas os rendimentos futuros. Educação e saúde têm valor intrínseco e afetam a capacidade dos indivíduos de se integrarem à vida econômica, social e política. Mas as crianças defrontam-se com oportunidades substancialmente diferentes para aprender e ter vida saudável em quase todas as populações, dependendo de suas condições financeiras, localização geográfica ou educação dos pais, entre outros fatores. (p. 4-5)

Significativas diferenças de gênero também persistem em muitas regiões do mundo. Em partes do Leste e Sul da Ásia, especialmente em áreas rurais da China e noroeste da Índia, a oportunidade de simplesmente viver pode depender de uma única característica predeterminada: sexo. Essas regiões têm um número consideravelmente maior de meninos do que meninas devido, em parte, ao aborto seletivo e à diferença de cuidados após o nascimento. E em muitas (nem todas) partes do mundo, mais meninos do que meninas frequentam a escola. (p. 5)

Um cidadão comum nascido entre 1975 e 1979 na África subsaariana tem apenas 5,4 anos de escolaridade. No Sul da Ásia, esse número sobe para 6,3 anos; nos países da OEDC é de 13,4 anos. (p. 6)

A média dos gastos anuais com consumo varia desde US$279 em Paridade do Poder de Compra (PPP) na Nigéria até US$17,232 em PPP em Luxemburgo. Isso significa que o cidadão médio em Luxemburgo dispõe de recursos monetários 62 vezes superior do que o nigeriano médio. (p. 6-7)

A surpreendente evidência do impacto da criação de estereótipos no desempenho vem de um recente experimento na Índia. Pediu-se a crianças de diferentes castas que fizessem exercícios simples, tais como resolver labirintos, com incentivos em dinheiro condicionados ao desempenho. O resultado mais importante do experimento é que as crianças de castas inferiores têm desempenho igual às das castas superiores quando sua casta não é anunciada publicamente pelo condutor do experimento, mas desempenho significativamente inferior quando a casta é divulgada. (p. 9)

 Fonte: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006. Washington, DC: Banco Mundial, 2006. Visão geral. 


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Ideologia e parcialidade na imprensa


Fonte: Estadão. Acessado em 6 out. 2014.

A imprensa conquistou a liberdade de expressão a duras penas depois do Ato Institucional nº 5. Hoje nenhum veículo precisa recorrer às receitas de bolo ou aos versos de Camões para preencher um espaço que ficaria em branco depois do crivo do governo. Isso é fato. Contudo, enquanto a liberdade aflorava a parcialidade e o subjetivismo extremo a acompanhava. O que se pode esperar de uma cobertura das eleições 2014 de veículos que apoiam incondicionalmente um ou outro partido político, uma ideologia neoliberalista e se esquece daqueles preceitos básicos do jornalismo ou das outras ideologias que ainda têm espaço da economia, na política e na sociedade?

Gramsci identifica a imprensa como um partido político. Perseu Abramo defende que ela manipula seu público devido aos interesses financeiros que a empresa possui. É possível até liga-la a um aparelho de dominação do Estado de Althusser. Independente destas características, definições e acusações, a imprensa é e deve ser livre. Contudo, até que ponto podem ser tão livres assim a coberturas jornalísticas que cada veículo faz?

Não parece ser errado que aquele jornal ou esta televisão apoiem a candidatura deste ou daquele partido ou candidato à Presidência. O Estadão foi claro, no último domingo (5/10) que apoiava a eleição de Aécio Neves (PSDB). Com a bandeira da “hora da razão”, o jornal deu as justificativas para se votar neste candidato e acabar com o “lulopetismo” que sua redação tanto combate. Aceitável? Sim, são livres e não há nada que os impeça de se transformarem em um meio de divulgação da ideologia daquele partido.

Porém, como é possível confiar na credibilidade do jornal sendo que: (1) eles só deram espaço durante as coberturas aos três primeiros colocados nas pesquisas de intenções de voto? (2) como podemos nos assegurar que o tratamento dos escândalos do PT têm o mesmo peso que os do PSDB? (3) e na parte econômica, como podemos acreditar no tal “pessimismo dos empresários”, que o jornal tanto divulga, quando o conjunto das edições do jornal são uma campanha de desmoralização do governo petista?

Há, sem dúvida, problemas na estrutura tributária brasileira que desestimula os investimentos privados. Os impostos que incidem em cascata são o exemplo mais claro disso. Contudo, após a edição do Estadão deste último domingo fica a dúvida: este pessimismo é realmente justificável? E quem instaura o pessimismo nos empresários: a situação econômica ou a imprensa? Há algumas informações que podem colocar a cobertura do jornal sob suspeita.

A primeira é demográfica: São Paulo é o centro dinâmico do país. Aqui estão as principais empresas do Brasil ou então as sedes destas grandes empresas. Portanto, é neste estado que está a “nata do capitalismo brasileiro”. Essa nata do capitalismo, defensores tanto da indústria quanto, principalmente, do agronegócio, são neoliberais. Acreditam fortemente que a participação do Estado na economia deve ser mínima. Sem subsídios, sem incentivos, sem o Estado de bem-estar social – como disse Marilena Chauí em uma de suas palestras, o neoliberalismo foi uma desconstrução de todo aparato social que o Estado construiu ao longo de décadas para amparar a classe pobre e os trabalhadores.
Outra informação vem do resultado deste primeiro turno das eleições a presidente. Em São Paulo foi reeleito Geraldo Alckimin (PSDB) com 57,31% dos votos. Por mais que grande parte dos professores reclamem da situação da Educação; que a mídia saiba que há ainda a aprovação automática que leva vários alunos a mal saberem interpretar um texto no Ensino Médio. Aécio Neves (PSDB) teve 44,22% dos votos no estado. Não que esses números representem  que esta é a parcela da população ligada ao capital, mas representam, como muito sabem, que São Paulo é um reduto deste partido.

Há entre veículos de comunicação e seus leitores um “contrato de leitura”, defendido por Maia (2002). Se estes veículos se antecipam aos seus leitores, conceito de Orlandi (2006), e entregam ao público o que eles querem ler nas páginas dos jornais, fica evidente a relação entre os resultados das urnas e a cobertura que faz a grande mídia, especialmente o Estadão. Contudo, até que ponto há esta antecipação e este contrato? Não estariam os jornais negando ser um espelho da sociedade, por mais que esta teoria seja controversa, e, no lugar disso, estariam pautando esta sociedade, inserindo nela a ideologia que acreditam ser a melhor para a sociedade brasileira?

Se a resposta é sim ou talvez, o problema deste fato é que falta, e muito, a pluralidade de vozes. Acima disso: falta o comprometimento do jornalismo com a cobertura imparcial. Não é possível ler o jornal e acreditar que haverá denúncias de corrupção do PSDB com a mesma cara, peso e tom concedidos aos casos do PT. Uma evidência disso também é a capa do Estadão do último domingo: foram publicadas fotos dos três principais candidatos à Presidência da República e a chamada de cada um deles mostra o tom que cada partido recebe. Na foto de Aécio “Fôlego no final”; na de Marina, “Do sonho à realidade”; já na de Dilma “Tática de desconstrução”. Só por estas chamadas é visível os tons positivos e negativo que o jornal dá a cada um dos candidatos. Isso tudo sem insistir na velha crítica: foram só três candidatos. O caderno especial sobre as eleições de 2014 sequer faz um perfil dos demais candidatos no mesmo tamanho e destaque que fez para os “três principais”.

Agora ficam os questionamentos: como é possível dar a devida credibilidade a um jornal tão grande sabendo que são “cinco pesos e uma medida”, porém quem estabelece essa medida (o jornal) não a faz de maneira justa e igual? Não há problema em um jornal querer apoiar o PSDB, como fez o Estadão, e uma revista o PT, como a Carta Capital. O problema está em como cada um deles induz seus leitores a acreditarem que sua visão é a melhor dentre todas sem propor um debate amplo e dar espaço a todas as vozes dissonantes em relação a sua ideologia. Quem perde com isso é o público e a democracia brasileira.


Somos livres para ler qualquer veículo de comunicação, mas como é possível usar essa justificativa em um país onde o número de leitores decresce a cada ano? Isso sem contar com o número de analfabetos funcionais em São Paulo. Sendo assim, em quem confiar?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Série experiências acadêmicas. Texto 3: Graduação em Economia na Unicamp

Eu sou muito suspeito para falar desse curso por que eu simplesmente AMO, apesar de DETESTAR algumas partes (nada é perfeito). Quando terminei a graduação em Jornalismo e fui efetivado em um jornal diário em Limeira comecei a ter mais contato com matérias sobre economia. Até o final da primeira graduação nunca tinha pensado em fazer outra, mas ideia surgiu quando tentei fazer o processo seletivo para mestrado no Instituto de Economia e não passei (claro). Isso foi em 2009 e neste ano resolvi traçar um caminho diferente: entrar na graduação em Economia, enquanto estivesse nela fazer um mestrado em Jornalismo e quando concluísse os dois cursar o doutorado em Economia. Estou na metade desse caminho...

Bom... sobre o curso agora. Eu sempre costumo parafrasear uma economista chamada Maria Conceição Tavares: “Economia é matemática, história e política” e quem quer ganhar dinheiro no mercado financeiro vá cursar estatística ou matemática. Foi mais ou menos isso que ela disse e hoje eu percebo que ela tem toda a razão (infelizmente).

Minha birra: exatas

Eu, particularmente, detesto a área de exatas do meu curso. Somos obrigados a fazer disciplinas de cálculo e estatística para chegar em econometria. O problema não é cursar essas disciplinas, na minha visão o ruim está na forma como algumas delas são ministradas e avaliadas. Há professores que sequer se importam se o aluno está entendendo ou não e correm com a matéria como se quisessem se ver livres daquela tortura todas as aulas. Outros professores sequer tem a simpatia necessária para lidar com alunos de graduação. Esses acham que o aluno, por passar no vestibular, está 100% pronto e com uma memória ímpar para lembrar todas as fórmulas e macetes necessários para resolver uma conta em meio minuto.

O ruim disso tudo é que algumas avaliações focam mais nesses macetes: “relembre como resolver essa conta usando log”, ou seno e cosseno ou então, “seja capaz de olhar para a fórmula e sacar do fundo da sua memória que toda ela pode ser dividida por um algoritmo e a solução fica muito mais fácil”. Isso é RIDÍCULO. Não se avalia se o aluno entendeu a matéria e é capaz de mostrar esse conteúdo com números e fórmulas simples. Os professores parece que fazem questão de complicar ao máximo para ver se o aluno é esperto ou não (eu não sou, por isso só me dou mal). Ai vem eles dizendo: façam exercício, o treino ajuda. Ok, eu até faço os exercícios, mas ai não me sobra tempo para ler as 400 páginas das outras matérias. E ai? Ai que é cada um por si e Deus por todos!

Minha paixão: humanas

Já a parte de humanas dificilmente tenho reclamações a fazer. As leituras e discussões propostas pelos professores de História e política são ótimas. Elas abrem a cabeça para te fazer entender não só o porque que nossa economia é como é, mas também ajuda olhar para como a sociedade se constrói a partir das relações econômicas e das heranças colonizadoras, no caso do Brasil. O problema disso é que eu acho que o nível de criticismo aumenta, e muito. Ver alguns posts no facebook, por exemplo, podem ser torturantes. Afinal, não é apenas criticar político X ou Y, a política X ou Y adotada aqui ou acola... a história que existe por detrás disso tudo é tão importante quanto a ação tomada no presente. O interessante, contudo, é quando você tenta argumentar com alguma pessoa extremista: você quebra todos os argumentos dela usando a história e ela foge pela tangente.

Agora sobre esse ponto acho que dá para afirmar que a visão da Unicamp é quase totalmente de esquerda. Isso daria um post enorme que eu acho que não estou sequer preparado para defender e explicar, mas não basta apenas cortar gastos, salários e aumentar os juros. Medidas que parecem tão simples podem afetar tanto o desenvolvimento econômico e social de um país e a ala da direita sequer parece parar para pensar na sociedade antes de bradar para todos os cantos suas teorias e soluções para o mundo.

Uma decepção: alguns professores

Já teci alguns comentários sobre os professores de exatas. Uma ressalva: não são todos de exatas que são assim. Tive uma professora que foi excelente tanto na didática quanto nas avaliações. Foi justa. Contudo, não é regra. Como também não é regra que só professores de exatas são ruins, existe professor de humanas PÉSSIMO também. Já ouvi esse argumento várias vezes e tendo a aceita-lo cada dia mais: há professores que se interessam apenas por suas pesquisas e pouco se importam com as aulas na graduação. A pesquisa acadêmica é vista por eles como o que realmente lhes dá status e reconhecimento nesse meio. Por conta disso alguns professores até se recusam em assumir disciplinas na graduação, o que é lamentável.

Em citar nomes, alguns exemplos são professores que não se preocupam com o conteúdo que estão passando para os alunos, simplesmente usam a pesquisa que desenvolvem para ficar discutindo os autores em sala. Ou então ministram algumas aulas com total desleixo e sem a preocupação se o aluno vai aprender o proposto pela disciplina ou não. Cheguei a presenciar um professor no começo da graduação que sequer sabia a matéria que estava ensinando! Quando ele era questionado sobre a resolução do exercício, não respondia e ainda ficava bravo por receber os questionamentos. Mas... nada é perfeito, porém, eu acredito fielmente que o problema disso é a estabilidade que os professores têm. Sem essa estabilidade e com a possibilidade de serem demitidos a qualquer momento por não cumprirem com seus deveres, acho que a qualidade aumentaria muito.

Outra decepção: sem solução para esses professores

Professor ruim exite aqui, ali e lá. Lá você pode reclamar e pode ser que o professor seja até demitido por não estar cumprindo com o seu papel de professor. Ali o aluno pode reclamar e ser simplesmente ignorado porque há um nível de coleguismo entre os professores tão grande que pouco importa a visão da ralé acadêmica. Aqui, no Instituto de Economia, existe o canal de reclamações dos professores (uma avaliação semestral), ela é levada em consideração pela Coordenação do curso mas, mesmo após conversa com o professor, essa coordenação fica de mãos atadas por que não têm nenhum mecanismo legal ao qual possa recorrer para obrigar que o professor mude sua atitude. Dentro da sala de aula o professor é soberano (e alguns acreditam que ditador também), portanto eles têm plena autonomia. A autonomia e soberania, contudo, é tão grande que a maior parte dos alunos tem medo (isso mesmo, medo) de reclamar de algum professor e ser prejudicado por ele nas avaliações. PÉSSIMO.

Conclusão

Professor e profissional ruim tem em todos os lugares, mas mesmo assim meu gosto pela Economia da Unicamp não diminui. A única coisa que tiro de bom desses pontos negativos é a experiência que eu não quero segui quando (e se) eu for um desses professores.



terça-feira, 6 de maio de 2014

Você sabe o que é taxa de câmbio real, nominal e Paridade do Poder de Compra?

Fazendo minha monografia para a conclusão da graduação em economia, resolvi escrever um pouco mais sobre alguns conceitos. Esta é a parte que falo sobre taxa de câmbio (ainda não revisada pela minha orientadora) e que vou usar para o próximo vídeo do vlog "Vou ter que desenhar?". Segue o texto:


A taxa de câmbio, no Brasil, pode ser definida como o preços da moeda estrangeira medido em valores da moeda nacional, representado pelo quociente moeda local/moeda estrangeira – R$/US$ em nosso caso (Carvalho et al:  2007, p. 340). Um aumento dessa taxa significa que a moeda estrangeira ficou mais cara, portanto, uma depreciação da moeda nacional ou uma desvalorização nominal na taxa de câmbio, afinal é necessário mais moeda nacional para comprar uma estrangeira. Quando a moeda estrangeira fica mais barata há uma queda na taxa de câmbio, portanto uma apreciação nominal da taxa e uma valorização da moeda nacional.

A importância desses movimentos dos preços das moedas nacional e estrangeira é fundamentalmente sentida pelos setores da economia que mantêm relações com o mercado internacional de bens e serviços e também no mercado financeiro internacional. De forma geral, valorizações da moeda estrangeira (apreciação da taxa de câmbio) estimulam as exportações e desestimulam as importações, quando consideramos tudo mais constante (coeteris paribus). Um exportador recebe mais reais ao converter o dólar em nossa moeda e o importador vai precisar de mais moeda nacional para adquirir um produto precificado nessa moeda estrangeira. O contrário é verdadeiro: desvalorização da moeda estrangeira (depreciação da taxa) desestimulam as exportações e estimulam as importações. A taxa de câmbio é, portanto, o parâmetro que permite realizar as conversões entre as moedas nacional e estrangeiras (quando consideramos também operações em euro, peso e outras moedas).

Essas considerações são feitas utilizando a taxa de câmbio nominal. O cálculo para a taxa real de câmbio (E) é feita por uma equação que considera a taxa nominal (e) que multiplica o quociente entre os índices de preços (inflações) do país estrangeiro (P*) e o índice de preços nacional (P). A inflação interna encarece os produtos de exportação, já a externa encarece os produtos importados e estimula as exportações. 



Outra forma de defini-la é apresentada por  Mankiw (2009, p. 686): “A taxa de câmbio real é a taxa à qual uma pessoa pode trocar os bens e serviços de um país pelos bens e serviços de outro país”.  De acordo com este autor, a taxa real de câmbio é um “determinante-chave” das exportações líquidas, uma vez que a sua depreciação indica que os bens nacionais se tornam mais baratos em relação ao estrangeiro e, com isso, as exportações daquele país aumentam, o que incentiva produção e gera renda.

Contudo, há outros fatores a serem considerados na taxa real de câmbio. Entre eles está o “grau de abertura da economia, a preferência dos consumidores e os ganhos de produtividades no setor exportador (...) [além disso] a inflação é um cálculo médio que inclui uma série de bens e serviços, muitos dos quais não são comercializados no mercado internacional” (Paulani & Braga: 2007, p. 154).


Por conta dessa arbitrariedade do cálculo da taxa real de câmbio, é preciso considerar também outras formas de calcular as relações entre moedas nacional e estrangeira. Uma delas é a Paridade do Poder de Compra (PPC). A teoria da PPC parte da chamada “lei do preço único, de acordo com a qual produtos homogêneos devem ter o mesmo custo nos diferentes mercados, quando expressos na mesma moeda” (Lopes & Casconcelos: 2011, p. 241. O produto comumente usado é o Big Mac, lanche padrão da rede McDonalds. Sendo assim, o preço do lanche no Brasil, em reais, deve ser o mesmo nos Estados Unidos (em dólar) multiplicado pela taxa de câmbio (R$/US$). 

Existe aqui o pressuposto da eficiência do mercado: neste caso não existem custos de transação e, caso o preço em um país seja menor ou maior que no outro, a demanda seria deslocada para o local de menor preço até que ele aumente e o equilíbrio seja restabelecido. As críticas à essa teoria começam pelo custo de transação. É irreal supor que os consumidores se deslocariam de um país para o outro para consumir um determinado bem. Além disso, o custo de deslocamento acaba tornando o bem ou serviço mais caro naquele país que registra menor preço. Portanto, existem bens que não induzem fluxos comerciais independente de seu preço, são eles os bens e serviços não transacionáveis (non-tradeables). Outra crítica é que as cestas de consumo nos diferentes país não são as mesmas.

Bibliografia usada:

BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 4. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
CARVALHO, Fernando Cardim de et al. Economia monetária e financeira.: teoria e política. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
LOPES, Luiz Martins; VASCONCELOS, M. A. S. de. (org.) Manual de macroeconomia: nível básico e nível intermediário. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2011.
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2009.
PAULANI, Leda Maria. A nova contabilidade social: uma introdução à macroeconomia. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2007.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Você sabe como se calcula a inflação?




Inflação não tem segredo: é a variação dos preços. Isso todo mundo sabe e saem notícias na imprensa a todo momento sobre os resultados dos índices de inflação.
A quantidade de índices que medem as variações de preços no Brasil é enorme. Só jogar no Google pra ver. As mais conhecidas são as feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). O índice “oficial” do governo é o da IBGE que faz o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o INPC, e o Índice de Preços ao Consumidor  Amplo, o IPCA. A FGV faz o Índice Geral de Preços, o IGP, e a Fipe o Índice de Preços ao Consumidor, o IPC. Existem algumas variações desses índices, tipo o IPCA-15, o IGP-M, IGP-10, IGP-DI e por ai vai... Como o IPCA e o INPC são de um órgão público (IBGE) e considerado oficial, vou tentar falar um pouco mais sobre ele.
Cada índice tem uma "população-objetivo" diferente:
* INPC – famílias com rendimento familiar entre 1 e 5 salários mínimos.  Ou seja, famílias com rendimento familiar entre R$ 724 e R$ 3620. O critério aqui é para ter as “variações nos grupos mais sensíveis”, segundo o IBGE. Essas famílias consomem todo seu rendimento e têm um nível de renda baixo.
* IPCA – famílias com rendimento entre 1 e 40 salários mínimos. Famílias com rendimento familiar entre 724 e R$ 28.960,00.
Para definir essa população objetivo foi  feita a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) entre julho de 2008 e junho de 2009 em 11 áreas no Brasil. Esta pesquisa também definiu qual é a cesta de consumo de cada família, ou seja, o que elas consomem. O IBGE obteve informações de quanto cada família gasta com quais itens dessa sua cesta. A partir daí agrupou os produtos e serviços consumidos em nove grupos, os itens que vou apresentar aqui fazem parte da tabela do IPCA, divulgada pelo IBGE, será possível ver com mais detalhes nas tabelas mais abaixo: 
  • Alimentação e bebida (batata inglesa, tomate, cafezinho, leite longa-vida, ovo de galinha, cebola, carnes, macarrão, entre outros)
  • Habitação (aluguel, artigos de limpeza, energia elétrica residencial)
  • Artigos de Residência (mobiliário, cama, mesa e banho, tv, som e informática)
  • Vestuário (calçados, roupas, acessórios, tecidos e armarinhos)
  • Transportes (combustíveis, transporte público e veículo próprio)
  • Saúde e Cuidados pessoais (remédios, óculos, médicos, dentistas, plano de saúde e higiene pessoal)
  • Despesas Pessoais (recreação, fumo, fotografia e filmagem)
  • Educação (cursos, leituras, papelaria)
  • Comunicação (tarifas de ligações)
Para obter os preços e calcular os índices, foi feita a Pesquisa de Locais de Compra em 1988 para identificar todos os locais usados por essas famílias para comprar os produtos ou contratar os serviços daquela cesta de produtos. Também fizeram um Cadastro de Domicílios Alugados para obter os valores dos aluguéis. A pesquisa dos preços é feita entre os dias 1º e 30 de cada mês. Dentro desse mês são definidos quatro períodos e para cada um deles um conjunto predeterminado e fixo de estabelecimentos.
O IBGE explica que a partir da coleta há alguns processos de críticas dos valores levantados e etc, mas o que interessa saber é que todo esse processo é feito em algumas regiões metropolitanas.

Mapa da cobertura do SNIPC/IBGE

 Fonte: IBGE - Para compreender o INPC: um texto simplificado (2012)


Cada um desses Estados tem um peso específico para o calculo do INPC. Esse peso é estipulado pela população urbana residente de cada estado e parte das populações não cobertas pelo Sistema Nacional de Índice de Preços ao Consumidor (SNIPC) pertencentes à mesma grande região. A partir daí é feita uma média ponderada índices regionais e se chega ao índice nacional.

Resultados de março

Agora em Março o IBGE divulgou os últimos resultados do IPCA e do INPC. A pesquisa desse índice foi feita em fevereiro. A inflação de março fechou em 0,92%, isso significa que no geral os preços subiram esse número.  No acumulado deste ano os preços já subiram 1,65%, mas em um ano, desde março do ano passado, essa variação foi de 6,21%.
Ok, números, números e mais números.  Isso não é novidade para ninguém. O objetivo desse vídeo na verdade era pesquisar sobre como é feita a pesquisa pelo IBGE, mas não vou deixar de falar sobre os grupos de produtos e serviços que mostrei agora há pouco e como os preços variaram neles.
Como sempre aparece na imprensa, há um vilão. Antes era o tomate, dessa vez foi a batata inglesa. Em março a batata subiu 35,05%! Em fevereiro o preço tinha até caído 0,9%, mas março batata frita nem pensar...
O tomate continua subindo. Em março aumentou 32,85%! Em fevereiro o aumento tinha sido de 10,70%. Portanto, batata com ketchup não dá! Molho de tomate para o macarrão, também não.
Por falar em macarrão, o preço dele aumentou 0,72%. Uma variação pequena até, então dá para fazer um macarrão ao alho e óleo, mas o óleo de soja aumentou 3,23%. Talvez um molho branco então, creme de leite, queijo, cebola e companhia ainda dá pra comprar.
A batata inglesa e o tomate foram os alimentos que mais ficaram caros junto do feijão-carioca que aumentou 11,81%.

Variação dos principais itens do IPCA (mar/2014)


Fonte: Indicadores IBGE: INPC e IPCA de março de 2014

O curioso é ver o acumulado em 12 meses desses preços. Em um ano a batata variou 6,05%, o tomate -6,07% e o feijão -30,97%, ou seja, os dois primeiros estão quase com o mesmo preço de um ano atrás e o feijão está até mais barato... Agora o mais interessante dos resultados de março é o grupo de Artigos de Residência. No geral eles só subiram 0,38% em relação a fevereiro. Mas quando vamos lá na tabela dos itens,  TV e Som tiveram seus preços reduzidos em 0,34%. Bem que poderia ser mais né... mas tá valendo.

Minha opinião e um pouco de "economês"

Vale dizer que o relatório do IBGE aponta que as variações grandes nos preços dos alimentos se deu por conta da seca que atingiu as lavoiras de alguns estados do Brasil. O clima este ano estava realmente pesado. Um calor enorme aqui, chuvas enormes ali... gente passando frio no sul e outras torrando no sol do Nordeste.  Contra o clima não tem o que fazer, mas isso não importa muito para a imprensa e para a política né. Em alguns artigos que saíram num jornal de grande circulação o autor só faltou apontar o dedo para a presidente e dizer que ela é culpada por não chover no nordeste!
O tema da inflação também desperta outro ponto no noticiário: sobre o teto da meta de inflação. Em 1999 o Brasil adotou um Regime Monetário de Metas de Inflação. Ou seja, a política econômica estabeleceu uma meta para a inflação para manter a estabilidade dos preços. A meta que temos hoje é de uma inflação de 4,5%, mas há bandas de 2% para mais ou para menos. Isso significa que a política do governo pode trabalhar com inflações entre 2,5% e 6,5%. O acumulado de 12 meses já está em 6,21% e há previsões de que o governo feche este ano acima dessa meta de 6,5%.
O problema que eu vejo  e que eu aprendi é que a inflação e a má condução dela atrapalha as empresas e investidores, o que chamamos de agentes econômicos, de terem uma visão clara do futuro e estipularem estratégias para sua produção. Esses agentes trabalham com expectativas. Eles têm expectativas de que a inflação continue subindo ou comece a cair. Essas expectativas estão muitas vezes  nos jornais... há algumas pesquisas que mostram o que os empresários estão esperando da inflação e de outras variáveis para o futuro. Em ano eleitoral então, jornal contra o governo adora levantar essa bandeira e chega a ser entediante a forma como eles noticiam as variações de preços. Ninguém dá soluções ou reflete sobre o tema, só sabem criticar, critica e criticar. Claro, por que vão fazer diferente se não é o partido que eles apoiam que está no poder?
Enfim, inflação descontrolada pode ser realmente um problema para empresários. Além disso, ela corrói o nosso poder de compra. Esse termo também está sempre nos jornais. Ele significa que podemos comprar menos com nossos salários a medida que a inflação aumenta. Se o nosso salário é de R$ 1000 hoje, podemos gastar R$ 1000 em produtos e serviços. Se em dez anos a inflação é de 10%, isso significa que perdemos R$ 100 e nosso poder de compra passou para R$ 900. Os salários são reajustados apenas anualmente, enquanto o reajuste não vem, vamos perdendo poder de compra até que na data base a correção é feita, mas mesmo assim os preços do próximo mês já vão ter variado. Isso é um problema... por isso, também, que seria ideal manter a inflação baixa.

Fontes: