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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Vamos pensar um pouco em como lemos uma entrevista? Vamos!!!

Em geral, as entrevistas dão muito mais voz ao entrevistados que as simples notícias e reportagens. Estas só citam suas fontes (os profissionais escolhidos) para confirmar, analisar ou, embora com menos frequência, contrapor a ideia dominante do texto. ", disse"; ", afirmou"; ", assegura"; ", explica". Toda fala de uma fonte, geralmente é acompanhada de um verbo que dá o tom e enfatiza a importância daquela declaração para o texto.

Nas entrevistas, contudo, o tom é dado de uma forma totalmente diferente: ele está na apresentação do texto ou na formulação das perguntas. Geralmente os primeiros parágrafos servem tanto para apresentar quem é o entrevistado, como também para dar uma ideia geral do pensamento, ideia ou ideal que esse profissional segue ou expressa. Já as perguntas mostram o outro lado da moeda: o do jornalista que conduz a entrevista ou do veículo no qual o diálogo é publicado. É possível ver, por exemplo, a preparação do profissional ou a disposição dele de obter informações que podem beneficiar ou até "prejudicar" o entrevistado.

A entrevista com o presidente da Usiminas, o engenheiro metalúrgico Sergio Leite, publicada hoje (31/10)  no Correio Brasiliense, serve de exemplo para observar o comportamento do jornalista. Embora não seja explicitada a condição imposta ao diálogo, em três momentos o entrevistador perde importantes pontos que poderiam contradizer o entrevistado e até o programa econômico do próximo governo. É bom salientar que por "condição imposta ao diálogo" quero dizer que a entrevista pode ter sido comprada pela Usiminas para destacar sua magnitude e capacidade de recuperação; pode ter sido um "brinde" ao anunciante do jornal; pode também ser uma ressalva à importância de se olhar para a indústria e à infraestrutura do Brasil num cenário no qual Paulo Guedes critica a indústria brasileira; pode também ter sido cortada pelo editor chefe do jornal a fim de garantir uma boa relação com a empresa; entre outras mil possibilidades.

Sendo assim, quando lemos uma entrevista, devemos ficar atentos à formulação das perguntas. Elas podem só ser um subsídio para conduzir o que o entrevistado quer falar ou um confronto intelectual para trazer a transparência e mais informações para a conversa. Olha só esses exemplos retirados da entrevista selecionada:

Correio Brasiliense (CB): Quais são os problemas centrais que o novo governo deve atacar?
Sergio Leite (SL): Nós temos problemas sérios no campo da saúde, da educação e da infraestrutura. Enfrentar os desafios nessas três áreas passa por uma grande capacidade de gestão e de investimentos. Na parte de gestão, precisamos fazer uma reforma profunda no Estado brasileiro e trazê-lo para a dimensão que ele precisa, com ajustes das contas públicas. É preciso essencialmente voltar ao superavit primário e começar um processo de regularização das contas públicas. Esse processo deve levar em consideração também a reforma da Previdência e a reforma fiscal. Reforço: neste momento, devemos reduzir ao máximo os gastos com a máquina governamental.

Leite diz que precisamos de gestão e investimentos nas áreas de saúde, educação e infraestrutura, certo? Ele diz que o caminho é regular as contas da máquina pública, levando em consideração as reformas fiscal e da Previdência. Ele não diz, contudo, sobre como os investimentos poderiam ser feitos. Aliás, a pergunta que fica é: "Como poderiam ser feitos investimentos na educação e saúde para acabar com o problema nessas áreas, se há um limite para gastos do governo (a PEC do Teto de Gastos)?" Ele aponta e explica um caminho (da gestão) e só menciona o outro (dos investimentos). Frente à essa resposta vaga, o que o repórter pergunta na sequência? Veja: "Os problemas são, de fato, monumentais. O Brasil vai conseguir sair rapidamente da crise?" e "O senhor chegou a se encontrar com o presidente eleito, Jair Bolsonaro?". Em nenhuma das duas respostas ele fala sobre como poderiam ser feitos os investimentos e o tema passa batido.

Outro ponto no qual o jornalista perde uma oportunidade incrível:

CB: O maior competidor da indústria brasileira do aço é a China, certo?SL: Sim, mas na China nós não competimos contra empresas, mas contra um Estado. Trata-se de um Estado que não é uma economia de mercado, que não remunera adequadamente sua mão de obra, que não remunera adequadamente o capital e em que a prática do subsídio está presente na indústria. Ou seja, é uma concorrência desleal. Esse posicionamento da China gerou reação dos Estados Unidos. Por sua vez, a decisão protecionista do presidente Trump desencadeou uma série de reações na Europa, África e Ásia. A única região que não aplicou medidas para fazer frente a essa decisão de Trump foi a América Latina. Por isso, eu digo que é preciso fazer uma reflexão: faz sentido o Brasil ser um país liberal nas suas relações comerciais num mundo notadamente protecionista?

Reparem na última declaração de Leite. O jornalista poderia pegar essa declaração como um gancho e questionar: "Por que é preciso avaliar se faz sentido ser um país liberal?"; ou "Qual o risco para o Brasil de adotar uma política liberal frente a um cenário internacional protecionista?"; ou "Quais os entraves que uma economia liberal enfrentaria numa concorrência internacional protecionista?". O que o jornalista pergunta? Isso aqui: "Apesar da crise dos últimos anos, a Usiminas vem de uma série de resultados financeiros sólidos, voltando inclusive a operar no azul. Como isso foi possível?", tirando o foco do cenário internacional e do programa liberal de Paulo Guedes e voltando a focar no quão maravilhosa é a capacidade de Sergio Leite de reerguer a Usiminas. Esse tipo de fuga do assunto é totalmente estratégico, afinal, a resposta poderia comprometer as relações da Usiminas com o governo fascista ou comprometer o Correio Brasiliense e transformá-lo na próxima Folha de S.Paulo.

Para acabar, um último jogo de pergunta e resposta mal aproveitado:

CB: A Usiminas é um caso especial, já que ela tem acionistas japoneses e ítalo-argentinos e uma gestão brasileira. Como é trabalhar com múltiplas nacionalidades?SL: É um desafio e uma experiência extraordinária. Temos na Usiminas três forças: os brasileiros, que somam a maior parte da força de trabalho, os ítalo-argentinos e os japoneses. Tenho uma relação sólida com todos os grupos, porque o trabalho foi sempre o de buscar integração e equilíbrio. Atravessamos um período grande de conflito acionário, mas conseguimos unir as forças dentro da empresa. No “Grupo dos 10”, tenho profissionais que representam o acionista ítalo-argentino, outros que representam o acionista japonês, e os que fazem parte da força de trabalho brasileira. Durante mais de um ano e meio, conseguimos trabalhar de forma integrada, unida e pacífica. Conseguimos inclusive selar um novo acordo de acionistas, que trouxe a paz. Hoje, vivemos um cenário muito positivo. Estamos todos de mãos dadas trabalhando para construir o presente e o futuro da Usiminas.
   
Qual é a questão aqui? Claro: "Como ficariam as relações da Usiminas com a Argentina, se Paulo Guedes já deixou claro que pode não dar preferência aos países vizinhos e ao MercoSul  para priorizar as relações com os Estados Unidos?". O jornalista entra nesse ponto? Claro que não. Ele, na verdade, até faz uma pergunta que poderia levar a esse questionamento das relações com os países sul americanos, mas ela é mais focada na gestão da Usiminas: "Como está o plano de investimentos da empresa? Diante da melhoria dos resultados, os planos foram ampliados?" e o assunto morre.

Com esses três assuntos negligenciados é possível reforçar que as entrevistas mostram, e muito, a capacidade ou disposição que o veículo de comunicação tem para o diálogo. Como comentei anteriormente, as entrevistas podem ser só mais um negócio da área comercial do jornal, porém, se é assim, ela não cumpre com seu papel de questionar e esclarecer pontos importantes do cenário politico e econômico. Sem isso, as entrevistas se resumem a "puxar saco" da empresa, profissional ou anunciante.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Onde foi parar a polifonia de vozes? São mesmo só "vândalos"? (Carta aos colegas jornalistas)

Colegas jornalistas, a grande imprensa continua nestes dias de manifestação com dois discursos muito claros que precisam ser refletidos.

O primeiro é o apartidarismo/anti-partidarismo que se é pintado das manifestações. Um sociólogo bem intencionado vai saber falar melhor que eu, mas é preciso ver o que está por detrás disso. Negar a representatividade de todos os partidos, expulsar os partidos que são legitimamente a favor das mesmas causas que estão nas ruas, e negar todo e qualquer militante simpático à causa da juventude tem um valor em si que pode ser preocupante. Pode ser que PT e PSDB não represente mais a população, mas existem partidos menores que têm uma luta perfeitamente parecida com a de muitas pessoas que foram para as ruas ontem. E se não se identificam com eles e esses manifestantes ainda acreditam no seu partido, é hora de o jovem ir até esse partido e questionar a visão de seus dirigentes para adequar as visões de ambos os lados.  Qual o perigo de continuar se propagando que o povo é contra partidos? Fascismo, nacionalismo...? (para pensar)

O outro é o silenciamento da mídia em relação aos vândalos. A violência não é o melhor caminho, mas quem pode assegurar que os políticos vão realmente mudar alguma coisa com a onda de protestos e não vão cruzar os braços e esperar os vários jovens que não usam ônibus entrar em férias e irem passar uma temporada na Disney e dispersar o movimento? O que está por detrás de uma pedra jogada contra a prefeitura e contra a polícia? Não estou defendendo o uso da força, mas há de se considerar que grandes revoluções da história, que efetivamente mudaram o rumo daquelas sociedades foi sim pelo uso da violência (vide as cabeças cortadas na França, por exemplo, os tempos são outros, mas será que o povo também é?).

Portanto, esta é uma hora de o jornalismo usar de seu conceito básico que é a polifonia de vozes: é preciso ouvir TODOS os lados, inclusive dos vândalos e dos criminosos, não só da polícia e dos manifestantes pacíficos. Que sentimento de revolta se apodera de um jovem que começa a depredar um patrimônio público ou privado? O grupo tratado por minoria são puramente vândalos ou é uma veia mais radical dos manifestantes que não usam cartazes, mas usam pedras para se manifestar?

É quase certo que os barões da imprensa de Limeira que estão mais preocupados com a publicidade e o lucro de seus jornais que com uma discussão legítima da sociedade E salário digno para seus jornalistas - salário este sem distinções baseadas em preferências pessoais acima da meritocracia - não apoiarão dar voz aos "marginais". Mas qual será, portanto, o papel de você jornalista que tem um dever com seu leitor e não com seu salário? Você passou pela cadeira do ensino superior e ouviu discursos da grande mídia que manipula a todo momento a profissão em prol da objetividade, mas também ouviu várias vezes que era preciso ouvir todos os lados envolvidos no fato. O que se está passando e repassando para toda a população não são todos os lados, é apenas um lado. Não vale a pena refletir sobre isso?


PS: espero que antes de responderem este post me acusando de defender a violência vocês parem para refletir o que estão fazendo com o poder da comunicação que lhes é dado quando uma página em branco está na tela de seus computadores e quando uma câmera é ligada no estúdio. Posso não ser especialista em nada, mas se eu fizer um ou dois pensarem um pouco sobre a profissão e o que estão fazendo dela, fico feliz.

PS2: quando mandei esta carta aos jornalistas que conheço não segui o protocolo de colocar todos os e-mails em cópia oculta que é justamente para que os jornalistas lá elencados olhem para seus pares e, pelo menos pelo princípio da concorrência, partam para uma abordagem diferenciada.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A sofisticação da reportagem: análise das reportagens da revista piauí - agora na internet


Depois de pouco mais de três anos, finalmente tomei um gole de vergonha e coloquei meu Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo. Meu trabalho foi um estudo sobre os recursos do jornalismo literário que são usados na revista piauí até 2008 e recebeu o nome de "A sofisticação da reportagem: uma análise dos recursos do jornalismo literário na revista piauí". Orientado pela professora doutora Milena de Castro Silveira e é um dos meus orgulhos da carreira  =D.

Esta foi a primeira vez que fiz um upload no 4shared, e pelo o que vi é preciso fazer login no site para baixar o arquivo. Caso haja algum problema, por favor me avisem que providencio um outro site para hospedar o arquivo. O link é este: http://www.4shared.com/office/wTA1335O/CONTIN_Alex_-_A_sofisticao_da_.html.

Vou aproveitar para divulgar um resumo do trabalho:


"O presente trabalho se dedica à análise da aplicação de recursos literários na redação das reportagens da revista Piauí. Através de uma revisão bibliográfica dos conceitos e história do jornalismo; contextualização do jornalismo como um gênero literário; jornalismo literário; reportagem; e jornalismo de revista. Também é apresentado um panorama sobre a revista Piauí explicando a origem de seu nome, criação, seções, conteúdos, leitores e tiragens. Suas reportagens são analisadas em uma pesquisa qualitativa que toma por base os livros teóricos sobre reportagem e jornalismo literário. São analisados desde o projeto gráfico da revista até a estruturação da reportagem." (CONTIN, p. 4)


E o primeiro parágrafo da introdução:


"Na correria do dia-a-dia poucos são aqueles que se dão o prazer de sentar no canto do sofá, parar o relógio por um tempo considerável e se entregar ao prazer de ler uma reportagem de fôlego e com conteúdo de qualidade. No meio de todas as notícias quentes que a imprensa apresenta aos seus leitores, alguns veículos ainda investem em textos que devolvem ao cotidiano da população o prazer pela boa leitura. A revista Piauí, é hoje um desses veículos. O presente trabalho se propõe a analisar a construção das reportagens dessa revista que há dois anos já se posiciona entre as mais lidas do Brasil e que expõe através de suas palavras a sofisticação do texto moderno resgatando os recursos literários utilizados por escritores clássicos brasileiros e internacionais. Diferentes maneiras de informar o mesmo leitor propiciam a análise de diversos recursos que valorizam a imagem a ser retratada e que foge das fórmulas convencionais propostas pela industrialização da notícia." (CONTIN, p. 6)


O trabalho foi enriquecedor e devo uma boa parte dele à colaboração da própria revista e à minha orientadora que fortaleceu em mim o gosto pela carreira acadêmica e pela redação de trabalhos científicos e analíticos como este - gosto esse que estou retomando (como já disse) com muito prazer na Unicamp.

Além do trabalho final, também (finalmente) coloquei uma apresentação que fiz para o dia da minha banca. Por não ser muito adepto dos padrões quadrados do rigor da ABNT, tentei inovar na apresentação do meu trabalho em três pontos. O primeiro foi a decoração da sala, fiz um varal com as edições da revista, como aqueles de literatura de cordel. O segundo foi a capa e contra-capa das versões impressas para a banca, que também incluí na versão de capa dura que está disponível na biblioteca do Isca. As capas foram feitas com duas imagens do Frankstein que estavam disponíveis no site da revista e tentei produzir uma capa parecida com as feitas pela publicação. E o terceiro ponto foi o vídeo feito com fotografias, ilustrações e capas da revista piauí.



O trabalho foi, como já disse, enriquecedor pra mim, espero que seja útil para curiosos e estudiosos.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Imparcialidade zero

O momento pode ser histórico; o resultado pode ter agradado grande parte da população, mas sinceramente acho que uma capa como esta não esconde nenhum descontentamento que havia entre a direção do jornal e o prefeito Silvio Félix. Não estou defendendo esse político ridículo, mas a capa desta edição, pelo menos pra mim, foi um exemplo de como a imparcialidade foi esquecida na hora da edição, infelizmente! Consigo imaginar o tamanho da felicidade da redação do JL na hora que descobriram que o prefeito havia sido cassado, mas nada justifica um trabalho como este.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma certa rádio e a homofobia...


Há algumas semanas um colega de classe, de Campinas, me chamou no bate-papo para me mostrar um áudio gravado de uma rádio limeirense que circula pela internet. No começo ele já se mostrou indignado com o conteúdo da conversa e perguntou se eu conhecia as pessoas que estavam se manifestando naquele áudio. Se trata de um diálogo entre donos de uma rádio local que opinavam de forma preconceituosa sobre a aprovação do primeiro casamento homossexual em Limeira. O assunto é polêmico para algumas pessoas e ao mesmo tempo um bom tema de debate.

Pela segunda vez estou tendo aulas de Ciências Sociais. A primeira foi na graduação de Jornalismo e agora na graduação de Ciências Econômicas com um foco mais voltado para a economia. A estrutura dessa aula na Unicamp é analisar o pensamento dos sociólogos considerados, como um professor definiu, a tríade da sociologia: Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx.

Finalizamos as discussões sobre os estudos do primeiro autor e, para ter base para isto, estudamos en passant trechos de Bauman e Rosanvallon. O que interessa disso tudo para esse assunto são os conceitos de grupos sociais, valores e a estrutura da sociedade. Estruturo meu texto na minha opinião como jornalista tentando tatear o conhecimento adquirido nesse primeiro bimestre de aula.

Qual seu grupo?

Quando alguém pergunta minha religião, respondo “católico não praticante”. Como fui educado nesta religião, passei a apreciar e a ter fé em alguns elementos dela, porém há alguns anos não frequento as missas dominicais. Sou contra um padre - ou pastor, estendendo a crítica a outras religiões - dar sua opinião ferrenha sobre o que os fiéis devem considerar para suas vidas pessoais, mas como é provado, isso é inerte na nossa sociedade.

Se me perguntar onde eu moro, onde trabalho, o que estudo, com quem eu ando... muitas pessoas já me dirão quem sou. Estamos, como é defendido por Bauman, sempre inseridos em grupos sociais. O grupo dos católicos, dos estudantes de economia, dos jornalistas e etc. Isso é fruto da socialização do indivíduo e, mais ainda, produto de valores sociais que praticamente regem nossa vida.

A religião, por exemplo, é considerada por Durkheim como um fator de coesão social, ou seja, ela garante o equilíbrio e a paz na sociedade por pregar valores que são seguidos pelos integrantes deste grupo. Outros grupos menores também têm seus valores, regras e normas baseados na identificação de qualidade e defeitos que se complementam ou se repelem em relação a outros grupos. Cada grupo controla seus indivíduos por meio da coerção social estabelecendo penas aos transgressores, aos chamados “outsiders” como definiu Durkheim.

Portanto, com a revisão de alguns conceitos básicos dos primeiros meses de ciências sociais é possível questionar o leitor: qual o seu grupo social? Você nasceu e foi criado com quais valores? Frequentou quais ambientes e fez amizades com quais tipos de pessoas? Refletindo sobre isso, cada um consegue encontrar, de maneira clara e direta ou indiretamente, quais são suas raízes e o que a sociedade na qual está inserido reza como certo ou errado.

Eu avaliaria o grupo social onde nasci, Limeira, como uma união de pessoas um tanto quanto tradicionalistas e conservadoras (com raras exceções inteligentes). Eu ainda acrescentaria que são pessoas pouco otimistas, afinal quem nunca ouviu a seguinte frase: “Abriu um Mac Donalds na cidade? Vamos ver quanto tempo vai durar...” Além dessa baixa autoestima, os limeirenses com os quais convivi me pareceram extremamente bairristas e com uma forte tendência a se manterem fechados para as novidades da sociedade. Para esse ponto eu vou usar uma citação de Durkheim, do livro “Da divisão social do trabalho”: “quanto mais obscura uma consciência, mais refratária à mudança, porque não vê depressa o bastante que é necessário mudar, nem em que sentido é preciso mudar” (página 17)

Por obscura eu desenharia um limeirense que não se preocupa com o debate social, que se abstém de avaliar quais são os melhores investimentos para a educação em sua cidade e que é facilmente ludibriado pelos políticos carismáticos que usam de obras populares para mostrar serviço e garantir votos e mais votos e, claro, um belo salário por quatro anos.

Opinião? Claro, pode opinar...

Não tiro o direito de ninguém expor sua opinião, mas algumas pessoas deveriam pensar melhor em como expõem essa opinião. O áudio que está circulando a internet começa com a discussão sobre a liberação do primeiro casamento homossexual de Limeira e que, se eu não estou enganado foi de uma pessoa que eu adimiro muito, uma psicóloga conhecida na cidade (a aeromoça de Santos Dumond, como a apelidei). O problema na opinião dessas duas pessoas é a forma como se referem a um “conhecido” da equipe chamando-o de todos os termos pejorativos possíveis que se pode usar para conversar com um homossexual e o uso de um veículo de comunicação para a disseminação de uma opinião sem nenhum embasamento e preconceituosa.

Se não bastasse essa lista de xingamentos, os radialistas ainda usam argumentos ridículos e arcaicos para justificar seu posicionamento contrário ao casamento homossexual. Um deles disse que Deus fez o homem e a mulher com o encaixe perfeito, isso não deveria ser contrariado. Claro que, na minha posição de comunicador, estou melhorando a frase pífia usado por um deles, mas a argumentação seguiu mais ou menos neste sentido, além de dizerem, claro, que não deveria ser dado voz à minoria e deixar os costumes da forma como estavam. A meu ver isso é um claro e explicito reflexo de como tradicionalista e conservador os limeirenses são.

Ser contra o casamento homossexual é um posicionamento pessoal, cabe a cada um, dentro de seu círculo de amizades e dentro de sua família discutir esse assunto. Assim como ser preconceituoso ou nazista... você pode ser, desde que não manifeste, ofenda ou mate ninguém. Agora tornar essa discussão pública de um jeito que denigre ainda mais a imagem aqueles que acreditam que essa conquista é um direito justo e tardio, é no mínimo irresponsável e imaturo.

Cabe aqui um questionamento da responsabilidade dos veículos de comunicação. Não tenho conhecimento de pesquisas quantitativas de ouvintes de rádio em Limeira, mas acredito que esse número seja expressivo simplesmente avaliando a aparente estrutura financeira das empresas de comunicação da cidade. Portanto, com tal importância vêm certas responsabilidades. O comunicador, especialmente o jornalista, deve ser um mediador de opiniões. Quando se fala em isenção jornalística, independência e credibilidade está em discussão (quase que de forma utópica) a capacidade de o jornalista avaliar os fatos e expor ao seu público as versões da verdade e da opinião para que o público consiga, sozinho, formular sua própria opinião e se posicionar.

Com certeza o programa daquela rádio não deve ter uma base jornalística (até porque se tivesse estariam só lendo notícia dos jornais impressos e recolhendo reclamações de ouvintes por telefone e fazendo críticas às autoridades públicas, como é de praxe na cidade). Porém, esse fato não deveria ser usado como justificativa para a liberdade de usar palavras tão grosseiras e emitir opiniões tão preconceituosas e sem nenhuma argumentação convincente. Se quisessem discutir o tema, deveriam ter convidado o casal que recebeu o aval para firmar a relação conjugal e algum profissional que pudesse confrontar a opinião deles (ou delas) de forma civilizada e inteligente.

Vale aqui mais uma frase de Durkheim para reflexão: “As vias de comunicação determinam de maneira imperiosa o sentido em que se fazem as migrações interiores e as trocas, e mesmo até a intensidade de tais migrações, etc”. Este é um trecho de um livro no qual o sociólogo francês explica o que é fato social. Aí ele explica que as vias de comunicação têm um forte poder sobre como os valores são trocados dentro da sociedade.

Este debate chega a um fim óbivio: os meios de comunicação têm sim uma responsabilidade muito grande para com o público, afinal que adolescente ou jovem não foi influenciado por alguma moda lançada pela Globo? Ou que dona de casa não procurou aquele copo que aparece na novela para decorar sua mesa de jantar?

A responsabilidade dos meios de comunicação, quer sejam eles gigantescos, imperiais, ou minúsculos, locais e do interior do estado, deveria ser repensada. Qual é o objetivo da sua rádio? Pra quê ela serve além de tocar música o dia inteiro? Se você abrir um espaço para algum comunicador conversar com seus ouvintes, qual a responsabilidade dele? O que ele tem a acrescentar para a vida dessas pessoas que fazem questão de ligar o rádio para ouvir nem que seja de forma desatenciosa?

E seu jornal e seu programa de televisão? Têm algum objetivo ético e moral? Tem alguma filosofia que ultrapasse a simples crítica política do partido da situação? Sua coluna semanal é só para ficar criticando a roupa da primeira dama, o choro da vereadora ou você tem realmente algo a acrescentar para seus leitores? As notícias que são publicadas nas suas páginas impressas e eletrônicas trazem discussões atuais que mostram todos os lados do fato ou você é incapaz de pensar o jornalismo como uma ferramenta que forma opinião do seu leitor e tenta levar a ele o esclarecimento necessário para ele ter uma qualidade de vida melhor? Você escreve textos curtos pressupondo que seu leitor nunca vai ler um texto bem elaborado independente do tamanho que ele ocupe nas páginas ou prefere cortar todo o conteúdo que valorize o debate em detrimento do anunciante que leva dinheiro para a empresa?

As vezes é preciso parar e refletir sobre qual o seu papel no mundo e se você está aqui para olhar diretamente para o seu umbigo com uma consciência totalmente obscura ou se você consegue levantar a cabeça e olhar que a sociedade evolui e precisa de pessoas inteligentes e pensantes para ajudar a população a enxergar que alguns valores estão ultrapassados e que mantê-los pode até ser considerado um crime (vide o preconceito)...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Bons tempos que voltarão logo logo...

Como as vezes nos dá aquela curiosidade de procurar nosso nome no Google, desta vez o resultado me trouxe um certo saudosismo e um pouco de ânimo para o futuro. Encontrei um post antigo do meu primeiro chefe em jornal diário, uma pessoa que admiro até hoje e as vezes ainda recorro para pedir algumas orientações, Rodrigo Piscitelli.

Devo à ele a oportunidade de ser ter sido estagiário do Jornal de Limeira. Tudo bem que fui insistente e fiquei no pé dele até conseguir entrar para a redação, mas esse foi um daqueles chefes que realmente contribuem para o nosso crescimento pessoal e profissional (acho que o único pra mim pelo menos). Realmente senti falta quando ele saiu da redação por decisão própria, principalmente ele e a Renata Caram (que sinto falta até hoje também) foram as pessoas que realmente me ensinaram a fazer jornal diário. Época muito gostosa e inesquecível!!!!

Passado o momento de nostalgia, vou colar o texto que encontrei do blog "Bate-bola" do Rodrigo. Este texto ele escreveu dias depois da minha apresentação do Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no Isca Faculdades, da qual ele fez parte da banca examinadora. O ânimo para o futuro é quanto à minha expectativa de voltar logo para o jornalismo que é minha primeira paixão.

Um reconhecimento

2008 está chegando ao fim e posso dizer que foi um ano positivo. Tomei decisões importantes na minha vida e, tão ou mais importante do que isso, aprendi muito. Aprendi com a bondade e a maldade humanas, aprendi com os erros e acertos, aprendi com os amigos (e como eles têm valor, meu Deus), aprendi ensinando, enfim, aprendi.

Iniciei em 2008 uma experiência nova, a de dar aula. Já escrevi aqui neste blog quanto isto foi enriquecedor para mim. Foi, de certo modo, um contraponto às sombras dos ambientes de trabalho. É algo como se na academia, dando aula, houvesse uma força para frente, enquanto no trabalho, em razão de algumas pessoas e situações, houvesse uma força para trás.

Não bastasse essa experiência nova, tive a honra - esta é a palavra exata - de ser convidado para ser banca de um trabalho de conclusão de curso. E que trabalho! Obviamente que, como banca, fiz uma análise crítica do material e já tive a oportunidade de apresentar meu ponto de vista ao autor do estudo, Foi - e tem sido - enriquecedor. O autor do estudo, Ailton Alex Contin, ou simplesmente Alex Contin, fez um trabalho de fôlego.

Alex é uma dessas figuras que são, como bem definiu meu colega de banca, o professor Alexandre, atrevidas. Ele tem um atrevimento positivo. Nem todas as pessoas, porém, como bem alertou Alexandre, estão preparadas para lidar com isso. Lidar com um atrevimento positivo como o do Alex requer, antes de mais nada, um amplo exercício de humildade. E isto é para poucos, definitivamente.

O mundo, porém, por mais que seja e pareça duro e cruel, é justo. Eu, neste dia 28 de novembro, não tenho dúvidas em afirmar que o Alex é um cara de futuro. Outros, porém, que se acham a última bolacha do pacote, nunca passarão da mesmice em que se intrometeram. Uma mesmice triste. Triste mesmice.

Se alguém não conhece ou tem dúvida do atrevimento do Alex, dê uma olhada no vídeo de apresentação que ele preparou para o trabalho dele. É digno de elogios - e para elogiar é preciso, antes de tudo, ter uma boa dose de humildade. E isto é para poucos...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Uma vacina anti-rábica muito eficiente


Sem que ninguém saiba, a maior parte dos brasileiros atualmente recebem doses extras de vacina. A sociedade conseguiu incluir na carteira de vacinação um antídoto “anti-raiva política” e a campanha parece ter dado certo em quase todos os municípios brasileiros. Prova disso é a indiferença de grande parte desse povo verde amarelo que nunca mais pintou a cara para ir às ruas reclamarem por um país mais justo e sem corrupção.

O site Lide Brasil trouxe hoje uma notícia falando sobre suspeitas de irregularidade na organização do campeonato de balonismo em Rio Claro. A notícia “Jornal revela pagamento de Balonismo antes do evento” mostra a denúncia de um jornal da cidade quanto ao fato de a prefeitura do município ter antecipado pagamentos do evento. Haja sujeira ai ou não, o que vale ser mais investigado, provoca sem dúvidas um sentimento de raiva, essa é a palavra, afinal, uma festa da qual moradores da cidade se orgulham de sediar servir de instrumento para desvios de verba é no mínimo revoltante.

Mas nessa história, como fica a população como um todo? Tenho a impressão que muita gente desistiu de reclamar. Vereadores e prefeitos que foram eleitos pelo povo para representá-los e fazer obras para o povo parecem se colocar tão distantes de seus eleitores que muitas vezes as pessoas preferem só pensar por alguns milésimos de segundo como é péssimo ter políticos ruins e voltar a ver o próximo capítulo da novela a levar suas reclamações à frente e pedir reais investigações.

Este ano comecei a cursar a graduação de economia da Unicamp e no curso de Introdução à Economia tivemos como livro-base a publicação do economista Wilson Cano (de título homônimo ao da disciplina). No capítulo que trata de governo há uma passagem que diz que pelo menos em tese, o objetivo do Estado é trabalhar pelo bem estar da população. Apesar da afirmação ser óbvia, é impossível passar o olhos por afirmações similares a estas e deixar de se indignar especialmente quando ao mesmo tempo que temos como tarefa resenhar as palavras de Cano vemos no noticiário nacional o enriquecimento do ex-ministro Antonio Palocci; no noticiário de Campinas o escândalo envolvendo o alto escalão da Prefeitura (caso que envolve a Sanasa e até a primeira-dama do município); e agora no site Lide Brasil a suposta denúncia de pagamentos ilegais e talvez um superfaturamento da festa.

Até aí não passa de uma indignação de um jovem jornalista e estudante de economia e também de outros jornalistas que não deixaram os casos citados passarem em branco. Mas e meus vizinhos, o que pensam sobre isso? E os outros estudantes de universidades e faculdades públicas e privadas? O fato de eu sentir indignação me sinto como o protagonista da fábula infantil “O patinho feio”, um estranho no ninho. Acho muito difícil vermos mais uma vez toda aquela indignação e engajamento político dos jovens de 1968, relatado por Zuenir Ventura no livro “1968: o ano que não terminou”. Cada vez parece mais impossível a população se revoltar com um aumento salarial estrondoso dos deputados e senadores no começo do ano e ir às ruas, numa greve geral contra esse abuso com nossos bolsos. Ao invés disso a população reelege aquele político que sofreu impeachmant!

Confesso que me sinto valorizado por estudar na Unicamp e saber que lá tem alunos que valorizam o dinheiro público empregado na nossa educação superior. Ao mesmo tempo não acredito como é possível existir pessoas que não têm o mesmo olhar para o dinheiro que faz falta a muitas famílias no final do mês para poderem investir na compra de um livro, na compra de mais comida e até na compra da sua casa própria.

Gostaria de ser o analista de alguns políticos para saber o que eles realmente pensam da população. O que significa a palavra eleitores para eles? Melhor ainda, gostaria de saber porque os políticos não tornam a máquina pública cada vez mais transparente e menos burocrática? Nessas horas coloco meu instinto de jornalista acima de qualquer outro e lembro como é dificil conseguir investigar as contas públicas sem nenhum tipo de barreira legal (ou ilegal).

Enquanto isso na casa do seu vizinho a vacina anti-raiva política está cumprindo com seu papel e deixando-os sentados no sofá acompanhando o drama das 9...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Depois do jornalismo literário, jornalismo em HQ


Quando a gente para e pensa que a profissão não cria mais nenhuma novidade, eis que alguém se destaca com uma nova forma de fazer jornalismo. A cena acima é do jornalista e cartunista Joe Sacco, do HQ "Notas Sobre Gaza". O quadrinho foi tema de reportagem do jornal O Estado de S. Paulo do último domingo. Há uma entrevista muito legal com o autor no blog da jornlaista Raquel Cozer (vejam aqui).

Como a entrevista é um pouco grande, vou copiar dois trechos pequenos, mas vale muito a pena ler sobre o jornalista e sobre os acontecimentos da Faixa de Gaza que Sacco relata com sua arte autodidata. Ele demorou sete anos entre pesquisa e produção desses quadrinhos e, segundo as informações do blog de Cortez, o HQ deve chegar nas livrarias ainda este mês pela Quadrinhos na Cia.

Vejam dois trechos que são interessantes para ver a produção deste novo tipo de jornalismo e também para entender o que se passa no HQ:

No livro, vários palestinos dizem que o que aconteceu em 1956 não era importante. Por que tinha tanta certeza de que era?
Os massacres em si eram importantes. Na história do conflito entre palestinos e israelenses, os dois incidentes estão entre os maiores com morte de civis. O de Khan Younis teve o maior número de mortes de civis num único dia em solo palestino. Se os sobreviventes estavam vivos, por que não falar com eles em vez de apenas confiar nos poucos parágrafos do relatório da ONU, que não esclarecem o que houve? Mas ainda há outro lado. Os incidentes fazem parte de um continuum de ataques. As pessoas mais novas, especialmente, perguntavam: “Por que quer saber dessas histórias velhas com tudo o que está acontecendo?” O ponto é que, como jovem no Oriente Médio, você não digere o que aconteceu porque há sempre algo novo sendo enfiado goela abaixo. É triste alguém pensar que não vale a pena olhar para trás.
Mas, entre os mais velhos, havia interesse em falar das guerras de 1948 e 1967.
Sim, isso é verdade. Também acontecia de eles confundirem períodos. Houve tanta coisa difícil na história deles que às vezes eles não sabiam mais dizer o que aconteceu e quando.
Como foi o trabalho de filtrar depoimentos contraditórios?
Bem, você tem que olhar para as lembranças de pessoas sobre o que aconteceu há 50 anos com… não diria ceticismo, mas é preciso olhar de perto para dizer o quanto é de fato verdadeiro, o quanto do que outras pessoas disseram a elas passa a fazer parte das memórias delas também. Não é que não confiasse nelas, mas fiz questão de mostrar em Notas Sobre Gaza essas contradições nos depoimentos para que o leitor conhecesse um problema que enfrentei. O que importa é que o arco da história é real. Algumas pessoas se confundiram, outras disseram coisas que não encaixam na história, mas o arco é real.


[...]

Esse cenário conflituoso você já tinha retratado em Palestina¹. Como começou a se interessar por aquela região?
Quando estava no colégio, eu associava palestinos com terrorismo porque toda vez que ouvia falar neles tinha a ver com bombas ou ameaças. Então fui estudar jornalismo, e, quando comecei a entender o que acontecia no Oriente Médio, me dei conta: os americanos sempre se colocaram como os grandes expoentes do jornalismo, mas nunca me contaram direito o que está acontecendo. Eu me senti traído pela minha profissão. Então, nos anos 80, quis tirar essa história a limpo. Não estava certo do que veria, mas achei que podia retratar minhas experiências na Palestina.
E foi daí que veio a ideia de fazer jornalismo em quadrinhos?
Bem, Palestina foi o primeiro exemplo disso. Não estava pensando em criar uma nova… forma de arte ou seja o que for. Não foi uma decisão consciente, foi meio orgânico. Pensei: vou viver essas experiências, falar com as pessoas, anotar e colocar isso junto. É claro, eu tinha o background jornalístico e isso teve impacto no formato que a coisa tomou, mas só depois comecei a pensar mais claramente no que estava fazendo. Foi na história sobre a Bósnia (Gorazde) que comecei a pensar conscientemente em jornalismo em quadrinhos.

¹ "Palestina" é o nome do primeiro quadrinho que une jornalismo e desenho e que ganhou o prêmio American Book Award em 1996

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Filho Legítimo do Brasil



Uma revolta contra a política educacional, contra a inércia brasileira e a cegueira jornalística do interior

Nascido em Limeira, há duas horas de ônibus de São Paulo, sou um filho legítimo do Brasil. Qualquer semelhança é mera coincidência.

Mamãe e papai se casaram há mais de 25 anos e se separaram há cerca de quatro. Quando se conheceram, ela era trabalhadora, ele também. Ela filha de descendentes de espanhóis e italianos, ele de um italiano imigrante. Meus avós maternos pobres, os paternos tiveram bens e uma fábrica de tanques no passado.

Os dois, papai e mamãe, estudaram. Completaram o Ensino Médio, antigo ginasial, e alguns anos depois se matricularam numa faculdade particular de Limeira, Isca Faculdades. Ela cursava contabilidade, ele economia. Abandonaram o curso ainda nas matérias elementares da área para casarem e começarem a construir a casa onde estou neste momento escrevendo este texto.

Começaram pelos fundos do terreno. Na verdade começaram emprestando dinheiro do dono da fábrica de tanques, meu avô, para comprarem o terreno. Eram cinco cômodos, uma varanda grande e um enorme quintal. Quintal onde vi crescer morangos quando tinha cinco anos e onde colho acerolas hoje em dia. O espaço verde está menor, porque os cômodos da casa foram aumentando conforme a família cresceu. Do casal de ex-universitários, em 1986, passamos a três indivíduos nos 360 metros quadrados num bairro pouco afastado do centro comercial de Limeira. Menos de três anos depois já éramos quatro, com minha irmã caçula, a última da produção.

De quatro cômodos a casa passou lentamente para um número bem maior. Tão lentamente foi a ampliação que alguns detalhes foram terminados só no final da década em que vivemos, em pleno século 21.

Acredito que com cinco anos, ou menos, eu já estava matriculado em alguma escolinha. Pré-escola, ou maternal, não sei qual o nome que recebia as escolas “CIP” e “Cavalinho de Pau”, dois lugares que guardo algumas lembranças, poucas, mas há algumas. Depois dessas veio minha iniciação na vida legítima de um brasileiro. Fui matriculado na escola infantil “Chapéuzinho Vermelho”, próximo ao Mercado Municipal, escola municipal.

Um lugar muito gostoso onde aprendi as primeiras letras, como juntá-las com um lápis no papel e como pronunciá-las em sílabas e palavras. Tudo com uma ajuda de minha tia carinhosamente chamada de “Tica”, nascida Maria Luiza. Enquanto mamãe e papai trabalhavam, era na floricultura da tia Tica que passava o tempo entre escola e retorno para a casa.

Da escola com nome de conto de fada infantil para uma de nome mais ousado e bem maior: Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau “Brasil”. Era o máximo ver alunos bem mais velhos, da quarta ou oitava série com o mesmo uniforme. Um prédio tão grande, na época passava pela última reforma que contrastava o velho com um modelo arquitetônico público atual, todo cinza, sem reboque, só tijolos, acho que é assim até hoje.

No primeiro dia de aula, lembro bem, estava ansioso para começar a escrever. Enquanto arrumava as canetas e o caderno brochura em cima da carteira de tampo cor creme e estrutura metálica verde, a professora conversava com alguém na porta. Naquela escola tive até aulas de música - tocávamos alguns instrumentos sem noção nenhuma, mas sempre copiávamos algumas músicas no caderninho dedicado exclusivamente a esta disciplina e íamos para uma escada, num lugar afastado das demais classes, para cantarmos e tocarmos, ou melhor, fazer barulho. Além de música, lembro também das aulas de matemática. Usávamos canudinhos, desses de tomar refrigerante, para contar dezenas, centenas e unidades. Existia até uma competição para ver quem tinha mais e os mais bonitos da sala.

Tempos bons.

Na segunda série mudei de escola. Foi no ano em que não existiria mais escola de primeiro e segundo grau juntas. Parte dos meus coleguinhas de classe foi transferida para uma escola municipal chamada Lázaro, eu comecei a estudar em uma perto de casa, Escola Estadual “Professor Antônio de Queiroz”. Considerada muito boa entre mães e professores na época. Um prédio também grande, com escadarias, corredor grande e doze salas vizinhas. Uma quadra grande até então descoberta e outra menor do lado onde passávamos os recreios jogando queimada com as bolinhas da Coca-Cola.

Lá passei seis anos de minha vida. Era feliz. Principalmente porque podia acordar dez minutos antes do meio dia e ir para a escola correndo sem encontrar o portão fechado. A escola fica a três quarteirões de casa, com direito a dois bares no meio do caminho onde comprávamos chicletes, chocolate e bala. Lembro com mais clareza das professoras e das aulas. “Dona Célia”, de História, costumava passar até três lousas de matéria. As salas tinham lousa na frente e atrás, ela fazia questão de usar as duas. Não me lembro se explicava a matéria tanto quanto copiava o texto do livro, mas ficávamos cansados de tanto escrever em sua aula.

Depois da professora Solange de Educação Artística, a professora, ou também “dona” Vera, de ciências era minha preferida. Adorava aprender sobre ponto de gravidade, sistema reprodutor das plantas e outras matérias da sua área. Ela e a professora de português, Maria Helena, foram as melhores da época. Impunham respeito e eram rigorosas com a disciplina. A bagunça alguns dias era incontrolável, afinal, só quando saímos da escola que percebemos quanto tempo perdemos falando alto, brincando e correndo pelo corredor. Mas deve ser difícil segurar uma criança por tanto tempo numa carteira – imagino hoje em dia, o desafio que deve ser.

O Ensino Médio fiz longe de casa. Escola Estadual “Professor Antonio Perches Lordello”, uma chatice, conhecida como prisão pelos alunos e elogiada pelo rigor que a antiga diretora, Dona Minerva, impunha para alunos e professores. Deve ter sido uma herança da ditadura militar, afinal havia mais regras que espaço aberto para os alunos respirarem um ar fresco. Hoje há menos espaço com céu livre ainda considerando que a quadra foi coberta e esta costumava ser o local onde tomávamos sol em dias frios. Não se podia usar chinelo, não podia entrar de piercing, não era permitido tatuagem, era preciso levantar ou tirar a blusa de frio para mostrar o uniforme e todo santo dia havia mensagens da vice-diretora popstar. Os primeiros minutos da primeira aula eram exclusivos para suas palavras, avisos e advertências em públicos para as salas que não se comportavam.

Foram três anos, passaram rápido, mas foram péssimos. O motivo de tanto ódio para com a escola é que o local parece a Índia: dividida em um sistema de castas. Alunos eram, e ainda são, classificados pelo dinheiro e pela inteligência. Os melhores de bolso e de cérebro ficavam nas séries um, dois ou três. O número ia decrescendo assim como a qualidade da sala. Era, e é, revoltante uma escola que deveria preservar o direito constitucional da igualdade fazer tal distinção entre os alunos. Estudei no 1º4, 2º2, 2º1 (promovido por conta de um bom resultado em um simulado interno) e conclui essa fase escolar no 3º 7, a pior sala da manhã.

Nestes mesmos anos ainda cursei Técnico em Administração na Escola Técnica Estadual “Trajano Camargo” e Técnico em Informática no Colégio Técnico de Limeira (Cotil – Unicamp). Não fiz estágio nem nunca trabalhei em nenhuma das duas áreas.

Ao me formar, o recém-empossado presidente petista Lula “lançou” o ProUni – Programa Universidade para Todos. Naquele ano fiz o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), tive uma boa pontuação e consegui uma bolsa de 50% para cursar uma faculdade particular. Me inscrevi na mesma faculdade dos meus pais, Isca, no curso de Jornalismo.

Foi uma área que me identifiquei bastante, fiz estágio, fui classificado em um prêmio importante para estudantes da área e trabalhei por pouco mais de um ano, depois de formado, contratado como Auxiliar de Redação em um jornal de Limeira. Fui demitido e finalmente batizado como filho legítimo do Brasil: desempregado, estudante de escola pública durante toda a vida e com todos os requisitos básicos para ser mais um cego e alienado na multidão que segue a inércia das políticas públicas e o domínio cultural promovido por grandes empresas e poderosos “pensadores” nacionais.

De todos meus amigos das épocas do Ensino Médio e Fundamental, é possível contar no máximo em duas mãos o número de pessoas que seguiram uma vida acadêmica em uma universidade pública. Tentar sei que vários tentaram, mas muitos, assim como eu, pagaram pela sua “Educação Superior”.

Atualmente estou fazendo cursinho pré-vestibular para participar dos vestibulares das universidades públicas de São Paulo. Já formado jornalista e com um objetivo profissional bem definido, vou diariamente para as carteiras do cursinho reaprender o que o tempo e a má qualidade do ensino fizeram o favor de não fixar na minha estante de conhecimento. Pago mensalmente quase R$ 300 para rever em dez meses matérias de três anos de Ensino Médio. E justamente hoje, em uma aula de literatura, o tema política e eleições 2010 foi abordado.

Na volta para a casa, vim pensando na revolta do professor para com o sistema e juntei sua argumentação com minhas constatações durante esses seis meses de cursinho. Depois de ter um diploma nas mãos, voltei praticamente para Ensino Médio a fim de reaprender todo aquele conteúdo que deveria ter sido fixado durante três anos na escola pública.

Junte esse questionamento àquela antiga constatação de que escola pública não presta, uma pitada de consciência eleitoral e política e duas colheres de revolta nacionalista e chegamos a uma bela conclusão: O que foi feito da política para mim e para meus amigos das classes das escolas “Brasil”, “Antonio de Queiroz” e “Perches Lordello”? Qual foi a política empregada pelo poder público que me beneficiou diretamente durante esses mais de 15 anos que passei nas carteiras escolares para tentar ser alguém na vida?

Infelizmente sou um filho legítimo do Brasil. Quinze anos de educação pública com qualidade ruim fruto de uma má administração pública e um processo de modificações no sistema que só falharam.

Um filho que cresceu com a educação pública em processo acelerado de apodrecimento; que tem que pagar um cursinho para poder competir com o mínimo de igualdade possível com os estudantes de escolas particulares, escolas que suprem toda a carência do sistema público a preços caríssimos.

É justamente nesta época do ano que candidatos batem no peito e se dizem os heróis da nação pelos feitos da educação ou se proclamam os messias de uma nova era para a rede pública de ensino. O que seus antecessores fizeram que eles vão aprimorar? Como vão resolver todos os problemas das escolas piores colocadas em pesquisas e avaliações de ensino promovidas pelos governos estaduais e federal?

É ridículo ter que pagar pela educação enquanto temos direito a ela. Infelizmente temos uma educação que mais cala que esclarece. Educação pública que prepara para a inércia do descontentamento e não para a lucidez do desenvolvimento.

Isso é visível até no mercado de trabalho. “Para que evoluir, para quê aprimorar o texto jornalístico, o conteúdo oferecido se o público não é mais leitor e sim consumidor de catástrofes da página de polícia e gols da área de esportes?” Essa foi uma das indagações que ouvi quando quis dar conteúdo para quem compra um jornal e tentar levar cultura e textos que façam as pessoas procurarem sair do marasmo intelectual que se escondem. Uso a cena como exemplo da situação.

Infelizmente algumas pessoas perderam tanto a esperança na educação que até formados e auto-intitulados “excelentes jornalistas” esqueceram que essa profissão não é um palco para ataques mesquinhos e individualistas; que jornalismo não é um meio para enaltecer seu ego ou um ponto central na orquestra dos textos vazios para o principal foco das atenções de uma elite; jornalismo é sim um meio de educar leitores, barrar a inércia da corrupção e da má vontade política e brigar por uma atenção maior para educação e outras áreas básicas que o poder público deixa a desejar.

Estamos numa democracia, e ninguém melhor que seus integrantes para reclamarem por melhoras em outubro. Hoje não há mais manifestações populares como antigamente. No lugar das revoltas do afetados pela má administração da verba pública, estão eleitores do Tiririca, dos cantores do KLB, da Mulher Melão, do Clodovil, do Frank Aguiar, e outros políticos corruptos. Os antigos revolucionários deram lugar para os filhos legítimos do Brasil.


É pra chorar...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Discurso de orador - Formandos em Jornalismo 2008

Não diria para fecharmos os olhos e imaginar a cena, porque as máquinas fotográficas estão por ai e ninguém quer sair assim em uma foto, ainda mais no álbum da formatura. Mas este é um momento em que estaríamos sentados no sofá da sala, na cadeira da varanda ou no canto mais aconchegante da casa. Em frente a uma TV, ouvindo o rádio ou lendo um jornal e revista. No virar das páginas ou passagem dos blocos nos deparamos com uma reportagem mais que especial.

Alguém fez uma pesquisa da história de cada um e colocou ali em imagens ou palavras. Na maioria delas terão alguns elementos básicos que vão se repetir. Os primeiros passos depois de arrastar o joelho por toda a casa, os primeiros doces e as primeiras primeiras coisas que todos experimentamos.

Algumas são mais marcantes. Um uniforme no qual o shorts combina com a camiseta e a lancheira pendurada no ombro. Na época onde os passos eram curtinhos. Caminhando em direção ao portão olhávamos para trás animados ou tristes. Estamos indo para escola! Que conquista. Novos amigos, professoras... vamos escrever, vamos ler, vamos aprender! Lembra? É o primeiro dia da primeira série. Foi o primeiro sentimento de liberdade. Pode ter sido difícil se separar da mãe ou do pai. Deixá-lo dentro do carro ou no portão de casa e rumar para um ambiente novo e diferente.

Alguns anos já se passaram, é óbvio. Poucas são as chances que temos para olhar para trás. Essa é a reportagem da nossa vida. Afinal, agora somos aptos a fazer uma reportagem com todos seus elementos, suas técnicas, arte e ciência, como já disse um dos estudiosos que lemos há exatos quatro anos atrás.

O que colocariam nesse texto, ou nessas imagens e sons? O primeiro dia de aula no ensino médio. As baladinhas da adolescências. Namorados ou namoradas. Ou então, as manifestações políticas que cada um participou, especialmente aquelas que a experiência é superior à maioria de nós.

Seja lá quais foram os principais acontecimentos e depoimentos que cada um iria encontrar nessa reportagem, uma retranca ou capítulo seria igual para todos. O título poderia ser “Os melhores anos de nossa vida”. Afinal, a época da faculdade é vista assim por muitos.

Essa turma de jornalismo que hoje está aqui com a beca e capelo passou quatro anos juntos. A maioria deve se lembrar ainda do primeiro dia de aula. A ansiedade de ver quem estará sentado naquelas carteiras. Quem seriam os professores, os livros que teríamos que ler e as notícias que iríamos escrever. E com certeza se lembram daquele trote. Farinha voando de todo lado, tinta guache no cabelo e na orelha. A festa dos calouros quando estávamos andando pela faculdade conhecendo as instalações.

É pessoal. Naquele dia parecia que uma eternidade ainda estaria pela frente. Seriam 47 meses. Textos, textos e mais textos. Sem dúvida alguma, o xérox da faculdade foi mais visitado até que a cantina. Filas enormes, senhas que demoravam para chegar, e dinheiro, haja dinheiro para todas aquelas fotocópias.

Acima de tudo isso, todas as conquistas que juntos conseguimos. No primeiro ano era teoria atrás de teoria, papers e termos complicados na aula de economia, datas na história da comunicação entre várias coisas. Tanto que de lá para cá o número de alunos diminuiu. Alguns desistiram mesmo, mas infelizmente a situação financeira de alguns não colaborou para eles estarem aqui na frente, sentados do nosso lado. Mas estão no coração de seus amigos que sentiram as perdas ao longo dos novos semestres com a lista de chamada menor.

E o nosso primeiro jornal? As matérias preto no branco. Finalmente sentindo um pouco do que realmente é ser jornalista. Uma emoção digna de relato. Aquele tablóide em nossas mãos, distribuindo pela faculdade. Assumindo o papel dos jornaleiros-jornalistas. “Ei, vejam o que produzimos! Fui eu quem escrevi isso aqui. Extra, extra. Leia, é legal!”

Seria bom se tudo fosse só glórias. Mas a glória nossa de cada dia é feita com o sacrifício de nossas escolhas. Provas, provas e mais provas. Conceitos, termos, técnicas, nomes, teorias... e se não bastasse, nossa vida pessoal ainda. Aqueles que viajaram todos os dias para ir até a faculdade. Seja ônibus, van, moto, a pé, carro. Cada um da forma como podia, como conseguia, com o jeitinho que dava. Podemos até reclamar que foi difícil e complicado, mas foram esses desafios que nos formaram. Foram aqueles primeiros textos, as primeiras teorias que colocaram a base para o profissional que cada um é hoje.

Mas muita coisa boa fica tatuado em nossa memória também. Quem não jogou voley ou futebol na quadra? Alguns se arrebentaram, estragaram calças, ralaram o joelho. É, acho que podemos dizer que demos o sangue na faculdade sim! Do nosso jeito, mas demos. Eram intervalos que todos se uniam na quadra ou na arquibancada. Na torcida ou dos dois lados da rede. Ali não havia divergências nem estresses. E o melhor, não havia computadores travando! Pagemakers lerdos. A brisa era natural e no rosto e não do ventilador que não vencia o calor, ainda mais naquele estúdio de rádio que era quase uma sauna privativa dos cursos de comunicação.

E o temido TCC? Que medo dessa sigla quando o terceiro ano estava pra acabar. É um terror feito até mesmo pelos professores. Ainda mais por nós mesmos. Um bicho de 20 cabeça. Literalmente um enigma: decifra-me ou te devoro. Mas foram trabalhos elogiados. Todos com notas acima da média. Uma produção ímpar. Ai também, cada um pulando suas próprias barreiras para ouvir, depois de um ano inteiro, ou melhor, quatro anos, aquele última nota. O veredicto final. O sinônimo de dizer: parabéns, você é jornalista.

Um reconhecimento que é fruto da dedicação de vários professores. Sem a cobrança e os famosos deadlines, ou datas limites para entrega de trabalhos e matérias, nada teria graça. E as gírias? Vamos amarrar? E o São Paulo mais uma vez campeão. Shiiiiiu. Cada um com suas particularidade que nos faziam sorrir e estimulava o pensamento crítico que um jornalista deve ter perante a sociedade e os acontecimentos. Uma responsabilidade sem igual. Cada um com suas afinidades, devemos muito a esses professores que estavam ali, todas as noites dividindo suas experiências e conhecimentos, preocupados com a formação de mais uma leva de jornalistas, o futuro da imprensa.

Além deles, não há um colega ou amigo em toda a sala que não tenha feito parte do crescimento pessoal do outro. Seja por meio de brigas ou abraços. Ajudaram na reflexão pessoal, no apoio para seguir em frente e não desistir do sonho de estar aqui hoje, todos juntos nos formando, aproveitando o nosso dia e de mais ninguém.

Somos nós os vencedores. Foram amizades e laços fortes construídos durante esses anos. Primeiras impressões que se desmancharam, confidencias trocadas e o apoio de verdadeiros amigos que conquistamos durante o curso de jornalismo. São lembranças e amizades que o tempo vai demorar para apagar. Não são lançadas ao vento a fim de se perderem entre as memórias de cada um. Esses dias ficarão marcados para sempre na reportagem que cada um lê de sua própria vida.

Essa pauta não tem fim. Os caminhos, suítes ou desdobramentos deste texto são diversos. Cada um agora irá seguir o seu próprio caminho. Somos como barcos que estavam ancorados. Agora prontos para ganhar a imensidão do mar.
Sucesso para nós.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Diário de um foca - I: a frustração


Quando criei este blog, o primeiro intuito foi colocar o meu dia-a-dia de descobrimentos na imprensa e no jornalismo em si. A ideia era ajudar colegas da profissão a enfrentar os primeiros passos compartilhando minhas experiências pelos lugares onde fosse passando.

Hoje, 18 de fevereiro, resolvi tentar retomar um pouco desse objetivo inicial. Claro que com o tempo e com os interesses e estados de espírito, outros assuntos vão vindo à tona - músicas e até comerciais, vídeos que acho interessante e etc. Afinal o espaço é meu e de mais ninguém.

Uma coisa que acaba ficando no ar e geralmente os professores não respondem é até quando nós, jovens jornalistas, somos considerados focas em uma redação. Apesar de ver durante os quatro anos da graduação esse termo ser comentado e até, em alguns casos, usado como forma de aterrorizar pretendentes às redações dos jornais diários, a diferenciação entre os veteranos (ou dinossauros, no bom sentido) e os novatos (focas) é bem sutil.

O que me fez escrever, hoje, sobre como é ser um foca de uma redação foi um sentimento um tanto ruim, mas que logo passa: a frustração de ter a matéria cortada. Estou há dez meses no Jornal de Limeira e passo agora pelo segundo chefe de redação da empresa. Essa não foi a primeira vez que aconteceu isso, mas como estava há tempos sem escrever aqui no blog resolvi contar a situação.

Apurar, presenciar e acima de tudo isso escrever as notícias para o jornal tem se tornado as atividades mais prazerosas que faço ultimamente. Juntar as informações de diferentes fontes, organizá-las em uma ordem lógica para apresentar aos leitores do veículo é muito gostoso e fascinante. É uma responsabilidade grande saber levar essa informação até milhares de pessoas que não presenciaram o fato ou nem estão por dentro do assunto e se interessam a partir da notícia que você redigiu.

O problema é quando essa sensação boa de sentir os dedos no teclado e o texto da notícia sendo criada no computador fica empolgante demais. Um dos problemas que mais lido na minha rotina é justamente essa empolgação, o que acaba me fazendo escrever demais.

Maldito espaço que corta nosso barato
Quando o texto vem saindo todo ordenado, bonitinho, com algumas pausas para consultas no cardeno para averiguar a palavra que determinada fonte usou em sua declaração, não dá vontade de parar mais.

No Jornal onde trabalho costumamos contar as notícias através dos caracteres. Um programa que funciona na plataforma DOS chamado Ortos permite fazer essa contagem. Esse recurso também está disponível no Word, do Pacote Office, mas nesse programa, que tem cara de antiquado, é só apertar a tecla F4 que a informação está ali, na sua frente.

Em média, uma notícia usada como abre* de uma página tem cerca de dois mil caracteres - um pouco mais, um pouco menos. Claro que todo repórter tem que ter aquele poder de síntese. Escolher quais são as informações mais importantes e hierarquizá-las de forma que o leitor se intere do assunto da forma mais rápida e obetiva possível. Mas e a vontade de contar tudo o que aconteceu? Esse embalo do texto e da digitação me faz escrever matérias de quatro mil caracteres. Se não me engano meu récorde até hoje foi de oito mil - uma matéria sobre um pedinte do Centro de Limeira.

Quando o assunto dá pano pra manga, ótimo. Se a notícia for fria então, melhor ainda. Uma reportagem? Nem se fala. Dá vontade de não parar mais de escrever, principalmente quando o texto começa a enveredar na literatura utilizando alguns recursos do jornalismo literário. Ou quando a área ou editoria da matéria nos interessa.

Mas ai vem o maldito vilão desse jornalismo diário: o espaço. Chega a desanimar quando pensamos que uma página do jornal não é só sua. Por mais anúncios que ela possa ter, as vezes até mais que um terço de todo o espaço diagramado, nem sempre só uma notícia preenche o vazio deixado pelos anunciantes. Isso é triste...

Dá vontade de fechar uma única página com três matérias sobre o mesmo assunto. Esses dias, quando a multinacional ArvinMeritor, de Limeira, atendeu a imprensa para falar sobre as demissões que havia feito, acabei fazendo três matérias sobre o assunto. Uma de abre com quatro mil caracteres relatando o encontro e a posição da empresa; e duas "menores", com dois mil cada, falando sobre o nível de emprego que caiu na cidade e a entrevista de um professor de Ciências Políticas sobre o caso.

Dei uma espiada na diagramação e vi uma página quase limpa. O anúncio que tinha ali era até pequeno e pelas minhas contas as três matérias iriam encaixar certinho, todas na mesma página. Mas... não existe somente as minhas matérias. O jornal ainda conta com mais repórteres e aquele dia, não era só a empresa que era notícia. O que acontece? O texto de quatro mil se transforma em dois e meio, e as outras matérias acabam indo para a gaveta. Isso é natural, mas chato de lidar.

O jornal não tem tantas páginas quanto gostaríamos que tivesse e, geralmente, nem tantos anúncios quanto a parte comercial também desejaria.

Essa é a frustração que percebi que nós focas temor que aprender a lidar. Não todos. Conheço algumas pessoas que para escrever 1.500 caracteres choram mais que no enterro do cachorro. Dependendo do assunto, quando é aquelas pautas que você prefiria passar longe (tema para uma próxima edição desse diário), é realmente complicado escrever algo considerável - mas até para isso há caminhos interessantes (tema de um próximo post também).

É amigo foca, se você vai trabalhar num jornal diário, já se prepare para enfrentar a serra elétrica do editor. A nossa vontade de escrever "livros" sobre cada matéria que nos cai nas mãos é rapidamente cortada, ou serrada, ou estripada, para tranformar as notícias em pequenas notas do canto da página.


\o/ Ainda bem que aqui, ninguém vai cortar meu texto!!!! \o/ (risos)

______

* a matéria de abre, como o nome diz, é a que abre uma página. No Jornal de Limeira essas matérias têm mais elementos gráficos, entre eles a linhafina e na maior parte dos casos acompanha foto.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Lula com azia de ler jornais

O assunto do momento é a matéria publicada na edição de janeiro da Piauí sobre a relação do presidente Lula com os jornais, feita por Mario Sérgio Conti.

Sabe o que eu acho? Isso é inveja desse povo que não tem assessores e contatos importantes como o Lula tem. Li a matéria da Piauí assim que chegou em casa e me ative muito mais à narração e ao fato de o presidente se informar diretamente da fonte que a parte em que diz que tem azias.

Lembro que um dos teóricos que estudam o jornalismo certa vez disse que os jornais têm como público alvo o governo, não os leitores. Fazem a crítica através da informação e principalmente nos editoriais simplesmente com o objetivo de serem lidos pelos governantes do país onde vivem. Agora vem a revista e diz que, se o objetivo desses formadores de opinião era criticar o governo Lula a ação é falha por que quem deveria não lê os jornais.

Como ficam aqueles que se entusiasmam frente ao computador com palavras ritmadas e escolhidas em uma lista feita durante leituras de clássicos da literatura, as palavras mais sofisticadas e complexas para dizer uma simples frase. Mordem a língua, estralam os dedos, suam e se levantam na hora que sua obra de arte está finalmente posta nas palavras do editorial. Pra quê, se o Lula não le? É dar com os burros n'água, e bonito ainda.

Essa repercussão toda que a matéria do Mário Sérgio Conti está na mídia, na minha opinião é exagerada demais. Ler um livro é uma coisa, absorver as palavras, o estilo, perceber como os personagens se relacionam entre si e como são colocados na narrativa do autor. Agora, se eu tivesse a meu dispor o telefone do presidente Evo Morales, Hugo Chavez, Felipe Correa e demais chefes de Estado, secretários, ministros e tudo o mais, pra quê leria os jornais? Um telefonema e se tem direto da fonte a informação dos lados da notícia. Problema no gás? Liga para o presidente boliviano, o presidente da petrobrás e talvez o melhor economista do Brasil que os três darão um panorama completo de como está a situação, quais os caminhos que pode tomar e como isso afeta o Brasil e ponto, mais completo que muita matéria que dá voz só a um dos lados da notícia.

E um detalhe adicional, quantos jornais devem falar sobre o presidente? Quantas revistas semanalmente dão uma nota, capa ou páginas e mais páginas de matérias e críticas ao governo? E quantos minutos as televisões destinam ao noticiário político-nacional? O presidente precisa ficar lendo jornal o dia inteiro ou trabalhar?

Reforço que não sou pró-Lula, mas contra repercussões, a meu ver, sem sentido e sem fundamentos. Esses dias um colunista do Estadão quis tanto criticar o presidente que se perdeu nas palavras e brincou de gangorra entre ser contra ou a favor do que a matéria trouxe.

Não quero ser pretencioso a ponto de dizer que ele está errado no seu texto, mas minha opinião é diferente da que expressou. Roberto DaMatta que escreve para o Caderno 2, e nesse espaço disse o seguinte:

"Vejam bem, há contradições triviais. O padre pecador, o ateu crédulo, o professor ignorante, o médico hipo-condríaco, o economista pobre, o pastor malandro, o jornalista venal, o desembargador corrupto, o policial cri-minoso e o político sem caráter. Mas todos leem! Todos se informam por meio de amigos e auxiliares, mas não abandonam o contato direto com a fonte: esse foco indispensável ao conhecimento do mundo. Esse mundo feito de representações codificadas, de palavras e algarismos articulados numa determinada intenção e estrutura. Estivesse eu dizendo o que digo por meio de rimas, o efeito seria diferente. É por causa disso que eu não posso me conformar com um presidente que não lê."

1. Será que todos leem mesmo? Eu duvido...
2. "Todos se informam por meio de amigos e auxiliares, mas não abandonam o contato direto com a fonte: esse foco indispensável ao conhecimento do mundo." O que é esse foco indispensável? O Jornal? Pode ser que no Brasil ainda esteja com a credibilidade alta, mas nos Estados Unidos a populaçõa já não confia mais tanto nos seus jornais. E de qual jornal estaria falando? Será que o jornal merece mesmo o título de "foco indispensável ao conhecimento do mundo" frente a tantos jogos de interesse e posições políticas mascaradas? Claro que com suas seções e divisões o jornal consegue falar de todas as partes do mundo e trazer as causas e consequências, histórias e desdobramentos. Mas uma coisa aprendemos em jornalismo: conversar com as fontes, com os lados da notícia e tudo o mais, apurar, averiguar, checar, comparar e finalmente relatar. O que o presidente diz que faz? Ele só não relata...

Sei lá... acho que é exagerado demais criticar tanto uma fala tão rápida do presidente como foi a que deu para o jornalista da piauí.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Inovação na imprensa

Estava lendo hoje o Observatório da Imprensa (OI) e me deparei com um artigo bem interessante - tanto que estava em destaque na primeira página do site. O autor, Lúcio Martins Costa, faz uma observação pertinente no texto intitulado "A imprensa precisa voltar a surpreender". Segundo ele, "entre o segundo semestre de 2007 e o primeiro semestre de 2008, pelo menos 70% das fontes se repetiram nos cadernos e economia da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo e nas respectivas seções das revistas Veja e Época."

Costa cita as fontes. Segundo ele, a imprensa recorre geralmente a ex-ministros ou ex-comandantes do Banco Central como Delfim Neto, Pedro Malan e Armínio Fraga. A crítica do autor é real também na imprensa regional como em Limeira. Quando a pauta do dia envolve economia, a maioria dos jornalistas já têm na ponta da língua o nome de uma dos profissionais mais acessíveis da cidade.

No mínimo ele deve até esperar as ligações da imprensa quando algum assunto de sua área está em destaque na mídia nacional. O preço do tomate sobe ou desce, isso interfere na cesta básica da população, será uma alimentação mais escassa ou então gastos menores com outros produtos para a família ou para a casa. Quem é entrevistado? O mesmo economista e até a mesma nutricionista para falar das possíveis substituições do alimento ou das consequências que a ingestão de outros legumes pode causar na dieta do limeirense.

É um quadro lógico entrevistar profissionais dessa área. As informações que ele trazem para a notícia são relevantes e ajudam a população a preparar seu bolso para não perder dinheiro ou então orientam a como continuar sua vida frente às dificuldades e até facilidades que o dia a dia da economia trás diretamente para a população.

O problema não está em informar mas a quem consultar para fornecer essa informação completa. É nessas horas que instituições de ensino ou até mesmo órgãos públicos podem disponibilizar seus professores e profissionais especializados nas áreas requisitadas para, não só ajudar na hora de informar a população, mas também divulgar sua capacidade de compreender a realidade da população além de seus balcões e carteiras.

É fato que muitas pessoas temem a imprensa. Diretores de escola, professores de universidades e até secretários municipais têm pavor de encarar um jornalista e responder algumas perguntas sobre qualquer tema. Nessa hora pode-se aplicar a máxima "quem não deve não teme", mas a situação pode ir além dessa suposição de que há fogo onde aparece fumaça. A inibição chega a ser um problema psicológico e temos de respeitar.

Mas o fato está, como já mencionado, em aproveitar as oportunidades. Em Limeira já pelo menos cinco faculdades que têm administração em sua lista de cursos e ainda chega em 2009 mais uma, pública - a Unicamp. Mesmo que não seja um curso específico de economia, pelo menos um professor da área deve ter especialização em economia e consegue discursar de forma clara sobre os problemas econômicos do país. Se isso não é fato, que tipo de administrador as instituições de ensino superior da cidade estão formando? Alguém que só senta atrás do computador e preenche planilhas?

No artigo publicado no Observatório da Imprensa, o autor diz que não conseguiu observar se o fato de as fontes se repetirem acontecia também nas outras áreas de cobertura da imprensa. sua observação se limitou à área econômica. Em Limeira acontece, sim.

Uma desculpa fácil e sempre pronta é dizer que a cidade é pequena e não dispõe de tantos profissionais capacitados para explicar qualquer tipo de assunto. Limeira tem quase 300 mil habitantes, impossível se ter somente uma nutricionista, um economista e um administrador de empresas. Aqui tem um presidente da Associação Comercial, um prefeito, um presidente da Câmara dos vereadores e mais uns comandando um sindicato ou outra associação. Mas além deles há vários outros profissionais que fazem essas organizações públicas e privadas acontecerem. São eles que não ganham o destaque justo pelo trabalho feito.

As assessorias de imprensa tanto públicas quanto das associações e faculdades poderiam deixar de desgastar a imagem dos seus figurões e passar a bola para quem está com a mão na massa mesmo. Indicar professores diferentes ou especialistas e técnicos que tenham participado da elaboração de algum projeto poupa a espera pelo término da reunião do secretário X ou do coordenador Y. O problema que surge nessa hora, porém, é o da centralização da informação. "Só o Fulano sabe falar sobre o assunto", diz determinado assessor ou funcionário. Se o tal Fulano morrer tudo acaba? Parece que sim. Hora de entrar em ação os famosos media trainings que tanto se fala, mas pouco se faz.

Prepare os dados!

A caixa azul guarda um tabuleiro onde, no lugar de casinhas e desafios a serem enfrentados, há um mapa mundi com os principais países. Seis dados, três vermelhos e três amarelos, são os ataques e as defesas. Em caixinhas de plástico pecinhas do mesmo material de seis cores diferentes representam os exércitos dos jogadores. Um dos mais tradicionais jogos de tabuleiros da Estrela, o War, é uma brincadeira não só para crianças - por conta da complexidade de suas regras -, mas também para adultos que ficam até por horas bolando estratégias para eliminar os oponentes ou conquistar territórios e contientes.

Apesar de ser um só jogo, a impressão é que o tabuleiro deixou de ser feito de papelão para se tornar realidade - é a imagem que os jornais passam de um conflito que parece existir há pelo menos 60 anos entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, no Oriente Médio.

O objetivo dos jogadores é, porém, obscuro. Nas reportagens que são publicadas diariamente sobre o conflito há somente os fatos mais quentes, aquela cartinha que os jogadores do War ganham no início do jogo com o objetivo real da partida, porém, deixou de ser divulgada há muito tempo. Em jornalismo é chamada de contextualizar a notícia essa técnica ou recurso, e não demanada nem muito tempo, muito menos tanto espaço para ser feita. Em outras notícias que receberam as chamadas suites (continuação da notícia no dia ou página seguinte), há sempre uma ou duas linhas relembrando as causas e origens da notícia.

Ilustração do site do Estadão sobre os alvos de israelenses e palestinos

No Estado de S. Paulo de hoje, por exemplo, há cinco notícias e um artigo distribuídos em duas páginas na seção Internacional (p. A8 e A9). A primeira, que abre a página, é sobre a liberação de estrangeiros da Faixa de Gaza. A notícia traz as impressões daqueles que conseguiram sair e como andam as negociações entre Egito e Israel, Hamas e Fatah, por um cessar-fogo. Ao lado uma matéria, uma segunda sobre a "calma tensa de Jerusalém" que relata um pouco da mídia do local e uma manifestação feita em um dos portões da Cidade Vermelha por conta da morte de crianças no conflito.

As matérias seguem falando sobre a ofensiva terrestre que será feita por Israel; a revolta do Hamas com a morte do líder do grupo, Nizar Rayan; a tentativa dos Estados Unidos de intermediar um cessar-fogo duradouro e um artigo de um pianista e maestro argentido de ascendência judaica e naturalizado israelense, Daniel Barenboim.

O único que comenta a origem do conflito é o pianista que em cinco linhas no segundo parágrafo do seu texto dá uma ideia das causas de tanta rivalidade: "É um conflito intrincado e sensível, um conflito humano entre dois povos profundamente convencidos de seu direito de viver no mesmo pedaço de terra."

Novas mídias
Em uma época onde as novas mídias são cada vez mais utilizadas pelos grandes jornais, sobrou para a versão on-line do Estadão tentar oferecer essa contextualização da notícia. Os chamados hiperlinks - conexões entre matérias na internet -, possibilitam fornecer ao leitor um resumo cronológico dos principais acontecimentos que levaram os ataques israelenses que duram pelo menos oito dias.

Em uma das notícias que ganha destaque na primeira página do jornal on-line, há links para galeria de fotos, vídeos e mais textos sobre o conflito. Em um deles, chamado "Conheça a história do conflito entre Israel e palestinos" é possível tomar conhecimento do desdobramento do jogo de guerra da vida real. O primeiro item do texto fala sobre a aprovação da ONU, em 1974, para partilhar a Palestina criando um Estado judaico e outro árabe. O pequeno texto já diz que desde aquela época os palestinos e outros países árabes não aceitaram a divisão. A listagem prossegue pontuando a criação do Hamas, porém sem precisar a data (1987-92) até dezembro de 2008 quando o grupo palestino "rompe trégua e volta a lançar mísseis contra o território israelense."

Para aqueles que têm internet é possível acompanhar as notícias além das páginas impressas. Enquanto a página A9 traz a informação de que o grupo Hamas convocou um 'dia de ira' para se vingar de Israel por conta da morte do líder Rayan, a versão on-line já traz a notícia de que Israel conseguiu matar um segundo líder, o comandante militar Mamduk Jamal (Abu Zakaria al-Jamal). As notícias na web não param e são atualizadas sem uma periodicidade regular.

Mas e aqueles que não possuem um computador? Tudo bem que o acesso à internet está cada vez mais fácil e também é possível se presumir que os leitores do Estadão sejam de uma classe econômica atualizada tecnologicamente. Mas o jornal impresso acompanha seu leitor aonde quer que ele vá. Apesar do tamanho das páginas ser um ponto negativo, o fato de ser um objeto, um material concreto e não virtual, possibilita ser lido na varanda ou até no ônibus. E é nessa hora que o leitor se depara com a curiosidade de querer saber mais detalhes sobre o conflito.

Pode ser uma boa estratégia colocar um "calhau" (anúncio institucional), direcionando o leitor para o site do jornal, mas a tática pode também irritar o leitor que se veria abastecido com mais uma ou duas linhas que conte a origem do conflito - por mais velho que ele seja.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Aberje e IABC divulgam pesquisa internacional sobre crise e comunicação

A Aberje e a IABC - International Association of Business Communicators divulgaram na última semana uma pesquisa conjunta sobre crise e comunicação.
O encontro contou com a presença da presidente da entidade internacional, Julie Freeman e da vice-presidente, Lee Anne Snedeker.
A pesquisa foi aplicada com 1442 membros da IABC, sendo 59% dos EUA e 26% do Canadá, durante o período de 29/10 a 12/11 de 2008.
O estudo teve como objetivo saber se os comunicadores estão envolvidos na crise e como isso afeta suas funções.
A maioria dos entrevistados são diretores ou gerentes de corporações.
Questionados sobre o impacto da crise em suas organizações, 24% disseram que não há crise, mas 40% avaliam que o choque é significante, drástico ou considerável.
Consideraram o impacto como moderado 36% dos entrevistados.
Em outro item, 8% têm muito medo de perder seus empregos devido à crise, 34% um pouco e 51% não têm medo algum.
Dentre os que responderam "drástico e considerável" estão aqueles que trabalham em áreas financeiras e os norte-americanos.
Sobre se a crise afeta a motivação e confiança dos funcionários, a resposta de 37% foi que não afeta de maneira nenhuma, enquanto 34% disseram que afeta moderadamente.
Por fim, questionados se suas organizações tinham pedido por um plano de comunicação devido à crise, a maioria respondeu que não (70%).

Font: Jornal da Comunicação Coorporativa

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

The end...

Finalmente, depois de algumas madrugadas acertando slides, fotos e esquentando a cabeça com o que eu iria falar na apresentação, ela veio, foi rápida e passou. Pra mim foram quatro anos em 30 minutos. Um tempo muito curto!!! Não estava nem na metade do que queria falar e minha orientadora, Milena de Castro, já sinalizava o relógio dizendo que meu tempo estava quase no fim. Isso corta o barato... (risos).

Enfim, várias pessoas acabam perguntando se tirei um peso das costas, se agora durmo tranqüilo, se estou sentindo vazio por dentro, entre outras indagações e questionamentos sobre o fim de "uma das épocas mais gostosas da vida", como muitas pessoas defendem. O que vou mais sentir falta, e já senti, é das discussões com professores. Durante todo esse tempo as conversas em salas sobre os mais diferentes temas ligados ao jornalismo foi o que contribuiu para meu aprendizado. Não tanto a leitura dos textos propostos nas aulas, mas sim a exploração do ponto de vista de cada um sobre o que os diversos autores pelos quais passamos defendiam.

Como já falei em outros posts, meu trabalho de conclusão foi uma monografia. Um trabalho acadêmico que se propõe a defender um tema específico, aprofundar-se nesse tema. Assim como esse produto visa o apronfundamento, meu objeto de estudos tem o mesmo ideal, aprofundar-se nas notícias, são as reportagens. Apesar de me lamentar de não ter feito um produto jornalístico, como um livro, um jornal ou outros disponíveis para concluir o curso, a escrita científica e leitura de livros técnicos para se defender temas e argumentar a favor da hipótese central sempre me atraiu. Como já disse, me fará falta a orientação dos professores sobre como abordar esses temas, idéias de tema e tudo o mais. Sei que dará pra contar com eles a distância, não mais cara a cara, mas começa a partir de agora uma nova fase, a de aprender a me virar sozinho.

Obrigado aos professores e banca examinadora.

domingo, 12 de outubro de 2008

Crise de informação

A cena é típica. Frente a grandes letreiros digitais vários homens gritam, gesticulam, perdem os cabelos. Com papéis nas mãos, consultando computadores e falando ao celular os homens das Bolsas de Valores não devem ter um final de semana tranqüilo há algum tempo. Enquanto eles estão entrando em pânico com toda a instabilidade do dólar e das ações que são comercialiadas nos mercados mundiais de capitais, nós continuamos nossa vida.

É fato que quem é curioso ou tenta se manter atualizado com as notícias nacionais e internacionais está vivendo uma segunda crise, a da falta de informação clara e traduzida. Até uma matéria de "Entenda a crise" traz termos e informações de forma confusa e de difícil entendimento para a população no geral. Daí vem a pergunta: essa 'população no geral' está interessada em saber o que siginifica crise de liquidez, movimento especulativo, operação de hedge e títulos podres? Pode até ser que não, porém, pelo menos uma pequena parcela está.

SOBE DESCE

O dólar sobe, o dólar cai. Se houve dizer que a bolsa caiu, e caiu mais um pouco, e mais um pouquinho. A queda chegou a 40% desde maio. Islândia, Inglaterra, China, Brasil, Alemanha, entre tantos outros países sentem os resultados dessa crise. E os paulistanos e limeirenses? Sentem na hora de procurar produtos importados. Há a estimativa de que 33% produtos do Índice Nacional de Preços do Consumidor Amplo (IPCA) sofram influência da moeda(o IPCA mede as variações de preços ao consumidor ocorridas nas regiões metropolitanas). Commodities, produtos agrícolas básicos vendidos no mercado internacional também. Estes já passaram por uma crise este ano. Alguns preços pegaram uma caroninha na montanha russa do dólar. Nessa crise dos alimentos, o trigo, arroz, entre outros commodities não foram influenciados pelo preço da moeda americana diretamente, o motivo foi outro, a crise foi outra.

O mundo deve estar precisando de um psiquiatra ou um psicólogo. O primeiro deve ser mais eficiente para receitar um calmante faixa preta para tentar acalmar os nervos desse mercado internacional. Além desses profissionais ainda é necessário um tradutor ou intérprete para esclarecer todas esses termos esquizofrênicos aos quais uma grande parte da população não está familiarizada.

Já foi lançada a pergunta: o povo se interessa por esse assunto? A repsosta pode mudar quando informações como a que os ítens do IPCA serão influenciados. O bolso dos brasileiros ainda podem estar distantes de tudo isso, mas também pode chegar a ficar bem próximo. Sem alarde, isso pode demorar...

ELES DEVEM E NÓS PAGAMOS?

Agora um dado curioso. A crise nos Estados Unidos começou por conta da inadimplência do segmento da população chamado de "subprime". Eles correspondem à parcela da população pertencente às classes D e E. São os mais pobres, mais humildes e que precisam de mais dinheiro para ter uma vida digna aqui e lá. Com a economia dos EUA em alta, dinheiro sobrando e juros baixos, essa parcela da população viu nos empréstimos uma oportunidade de melhorar sua qualidade. Os bancos adoraram. Sinal de dinheiro e enriquecimento. Os investidores de risco também se animaram, principalmente quando a inadimplência se tornou comercializável. Ou seja, o banco vendeu a dívida do seu Zé norte-americano que não conseguiu pagar seu empréstimo. De olhos gordos esses investidores compraram essa dívida esperando um retorno maior de seu dinheiro. Até ai tudo bem, isso ocorre em todo mercado financeiro. O problema foi quando a economia norte-americana começou a desaquecer, o emprego foi diminuindo, e como diz a máxima "a corda sempre arrebenta do lado mais fraco", quem pagou o pato? Lógico, aqueles pertencentes ao subprime. Ficaram sem emprego e sem condições de pagar o que deviam. Aí começou todo esse rolo.

Essa foi a origem, de acordo com os especialistas e notícias que são publicadas nos meios especializados. Aparenta ser uma crise fechada, só dos americanos. Mas os bancos começaram a entrar em um estado crítico. Muitos foram socorridos por falta de dinheiro. A confiança nos EUA despencou. Essa é a palavra chave para toda essa crise se tornar internacional. O que se resultou dai foram surtos de pânico.

Em entrevista à agência de notícias BBC Brasil, o presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Antonio Castro, disse que os investidores estão agindo com a emoção. É essa emoção que afeta o dólar. Bancos e empresas têm dívidas em dólar. Com a incerteza do futuro da economia norte-americana, eles compram mais da moeda para sanar suas contas. Outras empresas também fazem suas reservas em dólar.

A lei da oferta e da procura diz que quanto mais produto disponível no mercado, menor o preço, e quanto maior a procura (demanda), o valor sobe. Com todo mundo querendo comprar dólar, o preço sobe. O dólar mais alto, as negociações de importação e exportação, que são feitas baseadas nessa moeda, também encarecem. Os exportadores adoram, os importadores nem tanto.

Enquanto tudo isso ocorre, a população segue vivendo e ouvindo a orientação dos especialistas: poupem. Compras parceladas a perder de vista é bom ser feitas com cautela. Vou então pensar duas vezes antes de comprar os presentes de Natal! Me desculpem os amigos, mas a crise não deixa presentear todos!