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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Rachel e a liberdade de opinião exacerbada

A discussão surgiu de uma postagem no Facebook sobre o caso da âncora do jornal do SBT, Rachel Sheherazade e a opinião emitida por ela a respeito do “marginalzinho amarrado ao poste” e os justiceiros que fizeram tal ato. Há uma petição on-line contra a jornalista e foi justamente a partir do compartilhamento dessa petição que a discussão se iniciou.

Um dos meus contatos estava indignado pela reação contra a jornalista lembrando que na época das manifestações de junho de 2013 ela tinha sido aplaudida de pé por ter se mostrado “muito guerreira, destemida e corajosa, por falar abertamente da realidade pobre da política brasileira”, segundo ele. A indignação dele era vê-la sendo “achincalhada” por ter cometido um erro.

O problema dela, contudo, é que não foi um único erro. As opiniões dela vêm incomodando há um certo tempo já. A opinião é livre, mas na posição que a jornalista está essa liberdade é carregada por uma responsabilidade enorme, ainda mais com o público que o jornal do SBT atinge. Muita gente ainda confere aos jornalistas a voz da verdade e da sabedoria, principalmente aquelas pessoas que não tem tanto estudo pra enxergar os interesses e o jogo de poder que estão por de trás dessas manifestações que a Rachel emite. O texto pode nem ser dela, tornando-a um bode expiatório dos editores do jornal, mas quando ela abre a boca toma a autoria da fala pra si e parece não pensar nem um pouco nas consequências que essas palavras podem ter para os telespectadores. Este é, pra mim, o real problema.

A liberdade de opinião as vezes da uma dessas: “as pessoas são tão expostas como são, e se acham cada vez mais no direito de julgar e conjugar os verbos”, como esse contato disse. No fundo eu acho que o problema é a falta de consideração sobre o que se está falando. A maioria esquece que tem dois ouvidos e uma boca e, infelizmente, cada vez mais estão perdendo a capacidade de pensar e refletir sobre o mundo. E quer exemplo mais claro disso que as próprias palavras da jornalista: “ficha mais suja que pau de galinheiro”? Além do péssimo gosto para metáforas, o uso do conhecimento popular mostra que a linguagem está direcionada para um público específico. É justamente aí que mora o perigo nessa história da Rachel. Imagina uma mãe de família que, por uma injustiça social, não conseguiu terminar nem o Ensino Fundamental ouvindo essa mulher falar. Assim como o BBB, no dia seguinte o assunto da rodinha de amigas vai ser as palavras da Rachel, quem saiu do reality e o que aconteceu nas novelas X, Y e Z. há 27 minutos ·

A opinião é um assunto tão complicado que tem telejornais que sequer usam ancoras mais. Na contramão, os jornais da TV Cultura se abstêm de colocar um âncora e levam acadêmicos e estudiosos pra comentar as notícias. É um modelo excelente uma vez que eles colocam quem realmente estuda os assuntos a fundo e têm propriedade pra dar uma opinião concreta. Jornalistas, geralmente, não têm essa capacidade porque saem da graduação tão despreparados quanto um adolescente sai do Ensino Médio e que se vê forçado a escolher uma carreira a todo custo. É preciso anos de estudo, de profissão e de profissionalismo pra emitir uma opinião concreta e sólida. E acima disso, é preciso inteligência e discernimento para pensar na reação que as palavras terão junto ao público.

A opinião da jornalista representa, de certa forma, uma parte da população: a “classe média que sofre”. São aquelas pessoas que só enxergam problemas no Brasil e não conseguem ver que nossos problemas sociais e econômicos são causados, também, por nós mesmos quando nos abstemos de lutar por um país com menor desigualdade. O governo pode até ter criado os “usurpadores”, como meu contato se referiu aos beneficiários de programas sociais, quando fez o Bolsa Família e as infinitas bolsas. Todo sistema tem suas falhas, mas de que outra forma seria possível reduzir a pobreza e diminuir a distribuição de renda que existe no país? O Bolsa Família, por exemplo, tem uma contrapartida na educação. A educação, infelizmente, ainda está engatinhando depois dos tombos que levou por conta das reformas passadas. Mas vai ser só por meio dela que vamos conseguir sair da condição que estamos e tentar caminhar com passos um pouco mais largos.

Aí é que entram os jogos de interesse. Qual o interesse que os mais ricos têm de dar educação para a população? Pra quê fazer a massa pensar e raciocinar e abrir mão da política do pão e circo que está aí há séculos, desde que Portugal resolveu trazer as caravelas e despejar o instinto contra o trabalho e disseminar esse paternalismo exacerbado que só enxerga os interesses políticos com o custo de um jeitinho abrasileirado? É uma herança que temos e uma condição do capitalismo que ainda marca essa injustiça social. Karl Marx em O Capital, livro 1, já retratou a falta de interesse em fornecer educação para a população e mostrou como os trabalhadores daquela época eram explorados pelos capitalistas. O que mudou desde então quando o tema é educação?

Agora, sobre o caso do "marginalzinho", quem prova que ele tinha feito algo realmente? Se fez, quem tem o direito de tomar o poder nas mãos e prender o indivíduo num poste com a trava de bicicletas? É realmente um ato desumano o que fizeram com ele. Nesse sentido, porque as palavra dela não foram em defesa da educação nesse país ou de melhora no sistema carcerário? Fornecer ensino nos presídios e programas de capacitação no lugar de deixar mil presos numa cela pequena aprendendo ainda mais a como ser um bandido pode ser uma solução e uma causa para a campanha lançada no telejornal "Adote um bandido e dê a ele a oportunidade de estudar e tentar ser alguém". Ai entram os defensores da “classe média sofre” e pensam no dinheiro público gasto com “marginais”. Contudo se esquecem que esse problema não é do indivíduo, mas sim da sociedade.


As palavras da jornalista, no entanto, foram carregadas de preconceito, esse preconceito "classe média sofre" porque um marginalzinho na rua vai roubar o iPhone dela para comprar drogas, uma vez que foi excluído da sociedade e da possibilidade de estudar e conseguir dinheiro por meios legais e dignos. As drogas e a violência é um problema social com uma solução a conta gotas, ficar propagando o preconceito e discriminação de classes da forma como ela e o SBT fizeram não vai ajudar em nada.

Entrevista da Sheherazade quando entrou no SBT (indicada por Rodrigo Cezarin em comentários no Facbook)

Vídeo da jornalista sobre Justin Bieber e sobre o "Marginalzinho preso ao poste"

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Enade: uma questão de mercado?


A Unicamp aderiu ao Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) e este ano o Instituto de Economia e os cursos de Gestão da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), também da Unicamp, em Limeira, passarão pela avaliação. Alunos concluintes, com um Coeficiente de Progressão (CP) acima de 0,8, ou seja, alunos que devem se formar este ano ou no primeiro semestre de 2013, deverão fazer a avaliação.

O assunto gerou algumas discussões interessantes entre professores e alunos. O primeiro fato a ser considerado é que a partir deste ano todos os alunos concluintes deverão ser avaliados e os alunos ingressantes só serão inscritos no exame, sem passar pela prova. O principal ponto positivo deste grupo mais amplo de avaliados é que as faculdades particulares não poderão mais selecionar os melhores alunos de cada curso para fazerem a prova. Portanto, ponto positivo para o Ministério da Educação.

Os boatos sobre o que ocorria com alunos de instituições de ensino superior particulares é revoltante. O mais recorrente é que algumas faculdades reprovavam alunos medianos ou ruins para impedi-los de ir para o último semestre e assim deixá-los de fora da avaliação. Vale ressaltar que são "boatos" e vou me basear neles para fazer minha crítica aos alunos das escolas públicas mais a frente. Além dessa reprovação, o que é ainda mais inaceitável é o fato de faculdades darem cursos preparatório para alunos que farão a prova e ainda garantir pontos extras nas médias finais de outras disciplinas.

Ok, vamos parar e refletir: o que é um curso superior? Qual o sentido de se ter um diploma? Cursos superiores viraram um verdadeiro mercado de diplomas! E o pior é que essas vendas são descaradas e muitas vezes essas faculdades não despejam profissionais realmente qualificados no mercado de trabalho! É uma ilusão vendida aos alunos, muitos deles de classe média ou baixa que trabalham duramente para conseguir pagar a faculdade com a promessa de ascensão social no final do curso. Além disso, preparam os alunos para uma rotina puramente prática sem desenvolver neles um sentimento crítico para com o mundo.

Afinal, quem foi que nunca ouviu a famosa frase de que um diploma pode mudar a vida de uma pessoa? Nada contra faculdades particulares, afinal minha primeira formação foi em uma, mas o problema é quando elas enxergam apenas o dinheiro dos alunos, veem em seus rostos um belo cifrão e não dedicam nenhuma porcentagem desses valores para a melhora da qualidade dos alunos.

Com o Isca Faculdades, onde me formei, foi exatamente assim. O ano que terminei minha graduação (2008) ficou marcado por um severo corte de gastos, ou seja, corte de doutores do quadro de docentes. No lugar deles contrataram profissionais que tinham apenas graduação ou especialização para dar aula aos alunos. É um absurdo a forma como a educação (até a educação superior) é tratada neste mundo capitalista!

Agora voltando a atenção para os alunos de escola pública. Criou-se um certo receio de que o exame fosse boicotado pelos alunos. Primeiro pelo simples fato de a data inicial da avaliação coincidir com um campeonato esportivo entre faculdades de economia; Segundo por questões políticas dos alunos. O primeiro fato não vou sequer discutir, já o segundo concordei com a opinião de uma professora que estava discutindo o assunto.

Segundo essa professora, os alunos de escolas públicas têm uma grande oportunidade de mostrar a qualidade do ensino público e quebrar de vez com esse mercado de peixes feito pelas faculdades particulares. Infelizmente eles não aproveitam a oportunidade. Ressalto que aqui não se trata de uma briguinha tosca entre instituições públicas e particulares. O assunto vai mais fundo: a luta é contra um mercado de diplomas que ilude uma grande parte da população com promessas de melhora na qualidade de vida e vendem cursos a preço de banana sem a qualidade necessária para realmente incentivar melhoras na educação em geral e melhoras na economia e nos avanços tecnológicos!

Podemos parar e pensar: de que forma é possível revolucionar o mundo com robôs e máquinas que apenas sabem mexer nas calculadoras, mal-gerenciar peões como se fossem capachos e tratar o ser humano com um nível de educação inferior com desprezo? Como é possível pensar o mundo de uma forma crítica se essa leva de profissionais que são vomitados no mercado de trabalho não conseguem enxergar além do seu próprio nariz e através do seu instrumental de trabalho? Falta, e muito, senso crítico para o mundo e começar quebrando o monopólio dessas instituições de ensino particulares é um bom começo para mostrar como o dinheiro compra um diploma, mas não garante qualidade crítica para pensar o papel social de um profissional com ensino superior.

PS: O Enade pode ter todos os seus problemas de formulação e avaliação, mas este não foi o foco deste texto!

domingo, 29 de julho de 2012

Desprazer do trabalho e os professores



Na economia política clássica, o trabalho é um desprazer para o trabalhador. Basta olhar para a cara de algumas vendedoras de shopping ou mesmo reparar na cara de algum colega de trabalho que essa afirmação daqueles teóricos fisiocratas e de outros que o seguiram fica realmente claro. O salário de um trabalhador era medido pela quantidade de desprazer que ele tinha que despender - essa era a medida para o trabalhador. Logo ficou provado que o trabalhador não tem voz nenhuma e quem realmente decide o quanto um assalariado vai receber é o capitalista e suas decisões de gasto.

Da economia clássica para os nossos dias, como já foi dito, essa definição de desprazer com o trabalho é mais que evidente ainda. Apesar se ser um fato, mesmo que ainda tentem dizer que "o trabalho dignifica o homem", esse visão 'desprazerosa' do trabalho acaba sendo um grande problema em algumas profissões, principalmente a de professor.

Não vou entrar na discussão sobre salário, até porque acho que o professor deve ser o profissional mais bem pago (mais a maioria dos políticos pelo menos) e dessa ideia não abro mão. Mas a questão é sobre o prazer que um professor deve sentir ao entrar numa sala de aula. A maioria das pessoas quer sempre ter um salário maior para simplesmente melhorar ou manter seu "padrão de vida". Na minha opinião, pessoas que pensam no seu padrão de vida antes de pensar na qualidade do ensino que é capaz de proporcionar aos seus alunos simplesmente não serve para ser professor.

Ser professor não deve ser uma atividade que se cobre pela quantidade de desprazer à qual a pessoa está subordinada. Uma pessoa que enxerga o valor da profissão apenas no holerite que chega todo começo de mês se esquece da dignidade da sua função social e a importância que ele ou ela tem na vida de cada um dos 20, 35, 60 ou 120 alunos por onde passa diariamente.

Querer sempre uma cifra maior na conta corrente no começo de cada mês faz alguns professores abusarem de sua própria capacidade física e intelectual e eles são "obrigados" a assumirem aulas em pelo menos dois períodos numa mesma escola ou as vezes em escolas a quilômetros de distância uma da outra. O que parece que eles não percebem é que é o próprio capitalismo que coloca uma arma na nuca desses professores e os obrigam a não perder status na sua sociedade medíocre e acabam comprometendo a qualidade do ensino em prol única e exclusivamente da manutenção de seu "padrão de vida".

Com essa arma em suas costas, os professores passam a reclamar. Os alunos de hoje são ruins, o salário é ruim, a direção é ruim, o governo é ruim... tudo é ruim, menos a qualidade de seu trabalho. Anualmente vemos vários e vários professores na rua brigando por um aumento salarial "digno" da classe. Já disse que sou a favor de que os professores recebam os melhores salários, MAS quantos daqueles professores das passeatas realmente são dignos desse salário? Sou capaz de contar nos dedos das mãos a quantidade de professores da minha vida de estudante até o Ensino Médio que realmente são merecedores de um salário melhor. Infelizmente a maioria dos professores que eu tive não mereciam estar na frente de uma classe e serem chamados de "professor". Pareciam muito mais profissionais que não quiseram encarar a iniciativa privada e preferiram a pública e um bando de alunos (adjetivo coletivo usado por eles como sinônimo de classe) a um patrão e um cartão de pontos.

O ideal seria mesmo que nossas escolas estivessem povoadas por aqueles profissionais que saem da universidade com uma ansiedade no estômago, loucos para dividirem todo o conhecimento que obtiveram durante os anos de graduação e pós-graduação. Profissionais que realmente se importam com a qualidade do que estão lecionando e não com a manutenção do seu padrão de vida, não com a casa que estão construindo e muito menos com a capacidade de ter dinheiro para poder viajar e comprar sapatos no final do mês. Professores que não se importam tanto com o salário e que não meçam suas horas em sala de aula como o desprazer de trabalhar, mas como o prazer de colocar algo de útil e bom na cabeça de pelo menos metade dos alunos que estava sentado naquelas carteiras.

Mas logo vem as reclamações: os alunos estão impossíveis; os pais delegaram a função de educar seus filhos aos professores; e a pior que já ouvi "quando você começa a fazer alguma coisa, o sistema te desanima". NÃO!!!! Isso não é professor!!!! Um professor de verdade consegue passar por esses problemas. Um professor de verdade não precisa do sistema para conseguir educar de verdade. E por educar de verdade não falo de fazer viagens maravilhosas para museus, promover eventos grandiosos para inglês ver... um professor que não consegue fazer o aluno ter uma viagem maravilhosa através da leitura de um livro não é um professor! Um professor de biologia que não tem a capacidade de usar um documentário sobre o corpo humano e levar os alunos pelas mãos para viajar no meio de células e órgãos, animais e ecossistemas, não é um professor! Ou o mais simples: um professor que não sabe que o Google tem um projeto excelente com viagens pelos principais museus do mundo e não usa isso com seus alunos para uma aula de artes ou de história, NÃO É UM PROFESSOR!!!

Enquanto nossas escolas forem povoadas por profissionais que se preocupem em mantes seu padrão de vida, nossos alunos sairão do Ensino Médio tão preocupados com seu padrão de vida medíocres e com nenhum sentimento que os façam crer serem capazes de mudar pelo menos o mundo daqueles que os rodeiam.

Não seja medíocre, seus alunos não são clientes que te fornecem meios para você manter seu padrão de vida ridículo e fantasioso!


(Este texto ainda não foi revisado)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Educação, educação, educação..."

Como o blog está ficando focado em educação superior, jornalismo e economia, nada mais apropriado que comentar duas notícias publicadas ontem. A primeira, pelo portal da revista Exame, fala sobre a dificuldade de mão de obra capacitada para a área da construção; a segunda que foi pauta do Jornal da Globo é sobre a baixíssima aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. São duas matérias sobre áreas de formação diferentes, mas que se complementam para retratar a realidade da educação superior e a qualificação da mão de obra no país.

A revista Exame trouxe uma reportagem sobre o Exame Fórum, promovido pela publicação para discutir os preparativos do Rio de Janeiro para os eventos de 2014 e 2016. Quem debateu o assunto foi o diretor-presidente da construtora Odebrecht, Marcelo Odebrecht. O setor está aquecido com toda essa agenda de grandes eventos no Brasil e no meio desse assunto com tantas vertentes polêmicas, o empresário ressaltou a importância da educação: "Não tem jeito, a gente vai ter que investir em educação, educação e educação", ao falar sobre a necessidade de mais engenheiros no país.

Por outro lado, o último capítulo de mais uma novela chamada Exame da Ordem. Segundo informações oficiais, apenas 15% dos 121 mil inscritos no exame foram aprovados. Um dado, no mínimo vergonhoso! Os estudantes colocam a culpa nas provas, que exigia "decoreba" na parte objetiva. Lógico que sempre deve haver algo a se culpar, porém, o que é até positivo, um resultado péssimo como este faz com que autoridades se voltem um pouco mais para a qualidade na educação superior no Brasil.

Não é suficiente formar milhares de engenheiros por ano e um terço deles não ter a capacidade de organizar um projeto decente. A mesma coisa com esses dados reais dos bachareis em direito. Uma pesquisa rápida no portal e-MEC do Ministério da Educação, mostra que apenas em São Paulo, há 169 instituições de Ensino Superior que fornecem o curso de direito (apesar de o site não parecer muito confiável, é uma fonte de informação oficial). É de se pensar a qualidade desse mercado de diplomas que se tornou as faculdades particulares.

Um artigo publicado pela revista Ensino Superior da Unicamp fala sobre "fábrica de ignorantes". O artigo é sobre uma pesquisa feita na década de 1910 por Abraham Flexner sobre cursos de medicina fornecidos por universidades norte-americanas e canadenses. A conclusão dele é parecida com o que pode-se concluir aqui no Brasil um século depois em vários outros cursos: péssima qualidade.

Afinal, quem já não ouviu dizer que se você deixar cair o RG na frente de determinada faculdade você estará automaticamente matriculado? Ou pagou levou o diploma de brinde? É preciso se planejar a educação desde o ensino básico, afinal, má qualidade parece ser uma bola de neve que só aumenta com o passar dos anos e resulta em notícias como essas publicadas na mídia...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Manual do estudante vagabundo

Nestes primeiros meses de graduação na Unicamp pude observar alguns tipos muito peculiares e, infelizmente, corriqueiros de alunos durante os cursos. O que segue aqui são constatações ridículas referentes a alguns deles - que na verdade não se pode chamar de estudantes, nem universitários - da Unicamp. Esses tipos não existem apenas aqui na Unicamp, eles estão espalhados por todas as universidades, faculdades e escolas de qualquer nível, infelizmente. Porém, apesar de adaptáveis a outras instituições, as dicas abaixo se encaixam no dia a dia da Unicamp de Campinas e, acredito que na de Limeira também por terem a mesma política.

Você, aluno vagabundo, pode encarar a lista como um manual para ser um aluno totalmente cool, ridículo e descompromissado, que não dá valor nenhum ao dinheiro que é empreendido na sua educação.

- Mesmo que você NÃO trabalhe só leia os textos propostos para a prova;

- Escolha as matérias pela fama do professor, principalmente se ele é "coxa", gíria para professores que não fazem nenhum tipo de cobrança e aprovam grande parte da turma por falta de vontade, empenho ou incompetência. Essa é a melhor forma de conseguir créditos rápidos;

- Não anote nada durante as aulas, mas repare em quem anota - você vai precisar pedir as anotações dele ou dela para tirar xérox;

- Se inscreva em todos os grupos de e-mails e grupos nas redes sociais para obter informações de festas e também para ter acesso fácil aos alunos que estudam. Assim como no caso acima, você vai precisar pedir a esses alunos para disponibilizarem as listas de exercícios ou revisão para prova devidamente preenchidos;

- É importante parecer simpático com os colegas de sala, principalmente se eles não estiverem com o mesmo coeficiente de progressão que você, ou seja, forem bichos/novatos. O fato de você estar com uma porcentagem maior que o resto te dá o falso direito de avaliar as disciplinas e indicar àqueles que querem seguir seu caminho quais são os cursos mais fáceis de se conseguir aprovação;

- Faça comentários bestas e tente discutir com o professor em algum assunto que, por milagre, você saiba discursar com o mínimo de argumentos só para mostrar participação e conseguir pontos extras com professores que ainda contam com a participação da sala como era feito na sétima série e a leitura do livro "Meu pé de laranja lima";

- Seja político, se aproxime de professores que tenham bons contatos ou uma posição importante no instituto. Exemplo é aquele professor que esteja ligado ao centro de intercâmbio da Unicamp: defenda-o, elogie-o e seja amigo dele mesmo que a qualidade desse docente seja totalmente questionável;

- Se interesse muito pelas decisões políticas do instituto ou faculdade que você estuda e fique atento a qual dos lados esse seu professor está ligado; no mundo atual, em alguns casos, importa muito mais quem vai te indicar do que sua capacidade intelectual;

- Coeficiente de Rendimento (CR) na Unicamp é algo importante para todos os alunos que tenham interesses em intercâmbio e até em vagas de estágio em algumas empresas, por exemplo. Se você não consegue indicações, precisa manter um bom CR. Como já foi dito, a melhor forma de melhorar esse número é conseguir disciplinas que sejam de fácil aprovação e sem muitas exigências ao longo do semestre; Se você é novato, contatos com os veteranos é uma ótima forma de descobrir quais são as matérias mais fáceis de conseguir boas notas.

- Se você NÃO precisa trabalhar para viver, é filho de economista e tem uma bela mesada (20 anos de idade com mesada é tremendamente ridículo), um carro na garagem disponível a qualquer momento e pode dormir todas as horas que seu corpo exige para uma boa noite (ou tarde) de descanso, aproveite suas regalias para satirizar quem não tem essas condições e atrapalhe a aula saindo no meio de explicações importantes ou, como dito anteriormente, tomando um grande tempo com uma discussão sem nenhum sentido. Quanto mais você atrapalhar o desenvolvimento da aula, mais o professor não poderá seguir o cronograma e menos os outros alunos vão aprender o que devem. Viva o liberalismo e a concorrência capitalista! Esmague seus oponentes da melhor forma!

- Todas essas características isso te dá um coeficiente informal dentro dessa vidinha de universitário vagabundo: Coeficiente de Mal Caráter (CMC);

Agora... se mesmo você fazendo tudo isso, se matricular em um curso e não conseguir dar conta do recado porque as exigências estão além do que te falaram e todo o tempo disponível que você tem não é suficiente para resolver seus próprios exercícios e estudar sozinho, parabéns! Sendo o CMC um valor de 0 a 1, o seu passou de 1 faz tempo!!

Por favor, não atrapalhe quem quer aprender. A universidade é um período de desenvolvimento intelectual ou de amadurecimento intelectual para aqueles que estão ingressando. É um momento único (a não ser que você precise refazer a matéria porque não conseguiu média para ser aprovado) de trazer os conceitos desenvolvidos por autores clássicos para sua vida pessoal e profissional, de entender a dinâmica da sociedade e da história do homem e se aperfeiçoar cada vez mais na área que você escolheu.

Um texto não serve apenas para decorar conceitos e aplicá-los na prova ou na resenha exigida, assim como uma discussão em sala não é um momento de exibição gratuita. A formação acadêmica tem um propósito nobre formar profissionais qualificados que tenham a capacidade de pensar nossa sociedade de uma forma crítica e propor à ela soluções que melhorem o relacionamento entre pessoas e não apenas entre cifras e valores monetários.

Se formam economistas, engenheiros, professores para fazerem a diferença e inovarem em suas áreas de atuação e criar mecanismos que possibilitem um melhor desenvolvimento das forças produtivas, aumente os empregos, a renda dos trabalhadores, que possibilite mais qualificação a todos.

Encare essas horas que você precisa ficar na cadeira da faculdade/universidade como os melhores momentos da sua vida. Não os coloque no topo apenas porque haverá festas diárias ou um churrasco em plena segunda-feira na república do seu amigo. Estes são os melhores momentos porque, para muitos, serão os únicos nos quais poderão ter contato com professores e pesquisadores realmente inteligentes e que conseguem transmitir todo o conhecimento em prol da formação de estudantes com os quais não têm nenhum vínculo senão aquele que envolve o comprometimento louvável de mestres que acreditam que a educação é o melhor caminho para diminuir as injustiças sociais!

Diga-se de passagem àquele aluno que segue o manual do aluno vagabundo: injustiças sociais que você ajuda a acentuar quando pensa apenas no dinheiro como fim de interesses privados e não como meio para mudar algo na vida de alguém (mesmo que seja numa empresa extremamente capitalista) e principalmente quando perde a civilidade e o respeito por quem não encara essa lista com risos e identificações pessoais (falando de forma mais clara: aqueles que não vestem a carapuça deste texto).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Alunos públicos em escolas públicas - esse é o caminho justo!


O número de estudantes de escolas públicas do ensino médio matriculados nos cursos de graduação da Unicamp aumentou de 2010 para 2011. Tudo bem, está um pouco tarde para falar sobre estatísticas e o crescimento é até pequeno, mas algumas pesquisas informais feitas recentemente dão algumas informações bem interessantes sobre o fato. Porém enquanto tentamos influenciar alguém a pensar na graduação como um futuro vantajoso, alguns adolescentes só pensam naquilo!
Uma das pesquisas foi feita no começo do semestre, em agosto, quando começamos o curso de Ciências Sociais para Economia na graduação de Ciências Econômicas na Unicamp. Como é de praxe com alguns professores, o primeiro dia de aula teve uma apresentação rápida dos alunos. O fato mais interessante é que de toda a sala, que devia estar com cerca de 40 alunos aquele dia, a grande maioria disse que estudou em escolas públicas no ensino médio.

O fato foi bem curioso e surpreendente até para o professor. Um certo consenso (com um quê de preconceituoso) nos faria pensar que em uma turma de futuros economistas só deveria haver alunos das melhores escolas particulares de Campinas e região (pensamento seguido por aquele olhar de desdém). Porém, o perfil dos alunos do curso de economia do período noturno é em si interessante. No vestibular de 2011 foram aprovados 35 alunos para esse período (ao todo 105 alunos ingressaram no curso de Ciências Econômicas na Unicamp: 70 no diurno e 35 no noturno).

Dos futuros economistas, uma parte considerável já está na sua segunda graduação. Ali tem formados em Jornalismo (eu), Imagem e Som, Relações Internacionais, História, Tecnólogo em Mecatrônica e Direito, além de outros alunos que já tinham cursado de um a três anos outra graduação na Unicamp ou em outras universidades públicas. Essa era uma informação que tínhamos desde o começo do curso, março, mas a quantidade de alunos vindos de escolas públicas foi algo novo.

NÚMEROS

Voltando à participação dos alunos de escolas públicas nas matrículas da graduação da Unicamp, alguns dados da Comissão Permanente para o Vestibular (Comvest) da Unicamp mostram valores consideráveis. A pesquisa está disponível no site da Comvest (WWW.comvest.unicamp.br) e os dados fornecidos são baseados nas informações que os vestibulandos fornecem durante o processo seletivo.

Foquei minha pesquisa na participação de alunos vindos do ensino médio das escolas públicas. Em 2010, dos 3.536 inscritos nas graduações da universidade, 1.030 (29,1%) informaram terem cursado o Ensino Médio em escola pública; em 2011, foram 1.148 (31,9%) dos 3.601 inscritos. Um aumento de 118 pessoas ou 2,2 pontos percentuais.

O crescimento parece pequeno, mas uma notícia divulgada pela Comvest mostra que a participação desses alunos foi recorde na Unicamp. A porcentagem mostra o impacto positivo do Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social promovido pela universidade, está entre as maiores dos últimos anos e reverte a tendência de queda verificada desde 2009.

Este fato deve ser estímulo para quem pensa que é impossível ser aprovado em um vestibular como o da Unicamp – e eu sei que existe adolescentes e mães que pensam assim, infelizmente. E mais...

Estatística dos matriculados em 2010

Estatística dos matriculados em 2011
Fonte: Comvest - Unicamp

COMPORTAMENTO

Essa informação se encaixa com os comentários que ouvi sobre o Unicamp de Portas Abertas (o famoso UPA) que ocorreu na última semana, nos dias 2 e 3 de setembro. Uma pessoa com quem conversei disse ter reparado o desdém de alguns alunos e o grande interesse de outros. O que me surpreendeu também foi quais alunos pertenciam aos dois grupos mencionados.

“Apelidamos o UPA de Unicamp de Pernas Abertas, o evento parecia uma micareta de carnaval, em todos os lugares tinha adolescente se beijando”, disse essa pessoa. Uma situação que deve ter sido vergonhosa de se presenciar em um ambiente acadêmico como a Unicamp. Depois de ter comentado que infelizmente os alunos de ensino médio de hoje em dia não têm mais interesse em cursar uma graduação e entrar para a vida acadêmica, essa fonte comentou que diferente do que pensávamos, os alunos de escola pública eram os mais interessados nas palestras e eventos do UPA, enquanto que quem se comportava como se estivesse em uma micareta eram os alunos de escolas particulares. “Só vão ao UPA os alunos de escola pública que estão realmente interessados em cursar algo na Unicamp até porque muitos não têm dinheiro para pagar a viagem até lá e por isso eles ficam bem interessados, fazem perguntas e participam de várias palestras”, disse.

Não podemos generalizar, mas é estimulante saber que alunos de escola pública estão tão interessados em ter uma graduação de qualidade e pública. É difícil se deparar com notícias que relatem eventos nas escolas de Ensino Médio do Estado que incentivem os alunos a escolherem uma graduação e os ajudem a entender melhor as profissões que pretendem seguir. Um dos professores do cursinho pré-vestibular que fiz no ano passado criticava as ONGs justamente por conta da inexistência de programas com essa finalidade para adolescentes e comunidades carentes.

A arte e o esporte têm seu valor de inclusão e proteção desses jovens contra a violência das ruas, mas nenhuma ONG ou escola parece se preocuparem com o que será dos estudos desses alunos depois do jogo de futebol ou da aula de capoeira. Na verdade o que falta ai é vontade de mudar a vida de alguém. Acredito que não seja difícil reunir uma vez por mês ou durante um dia todo profissionais das mais diversas áreas e/ou alunos de graduações diferentes para conversarem com esses jovens carentes sobre o que é ser um jornalista, um economista, um dentista, um físico nuclear ou qualquer outra profissão que passe pelos bancos das universidades. O que falta para esses jovens é perspectiva.

As escolas de ensino médio e fundamental têm um papel muito importante na formação profissional e pessoal dessas crianças e adolescentes a meu ver. Se os professores (quando há bons professores e motivados) deveriam estimular desde cedo a pesquisa sobre as diferentes profissões, mostrar às crianças as possibilidades de estudo e de trabalho que cada área apresenta e trabalhar os estudos desses estudantes com um foco direcionado à educação superior e à melhora da qualidade de vida que uma graduação pode proporcionar.

Fica aqui minhas constatações e uma sugestão simples de ser adotadas por professores e escolas estaduais: levem estudantes e profissionais para conversar com os alunos; estimulem os alunos que têm vontade de cresces e estudar; estimulem os pais desses alunos a enxergarem as possibilidades e benefícios que uma graduação pública pode fornecer aos alunos. Uma frase que um professor me disse uma vez se encaixa nessa hora: o bom mestre é aquele que faz o aprendiz superá-lo. Alguém pensa nisso hoje em dia?

terça-feira, 5 de julho de 2011

O lado oposto do ranking

No meu último post aqui no blog escrevi sobre um texto publicado pela revista Ensino Superior Unicamp sobre um estudo feito no início do século passado por Flexner nos Estados Unidos e Canadá sobre as escolas de medicina (Relatório Flexner). Além desse artigo, a edição da revista tem um artigo de uma pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Dublin, Ellen Hazelkorn, sobre os Rankis e a excelência das universidades em todo o mundo. Eis que esta semana a Ordem dos Advogados do Brasil divulga uma nota falando do péssimo desempenho de bacharéis em Direto no Exame da Ordem.

O jornal on-line Estadão trouxe uma noticiou hoje a lista de universidades que não teve nenhum aluno aprovado no exame. Dos 116 mil inscritos, só 9,7% foram aprovados segundo o jornal. (Confir a lista aqui e a notícia aqui). Essa informação, apesar de ser vergonhosa, veio em boa hora para ilustrar como ainda há essas "Fábricas de ignorantea". Imagino se todas as profissões requisitassem exames parecidos... ai sim seria um festival de rankings negativos e divulgação dessas fábricas de ignorantes interessados apenas no dinheiro dos alunos.

É decepcionante... =/

domingo, 3 de julho de 2011

Fábricas de ignorantes


Lendo algumas publicações sobre o Ensino Superior, encontrei um documento superinteressante. A fonte é a revista Ensino Superior Unicamp e na sua primeira edição, de abril de 2010, a publicação trouxe a introdução de um estudo feito pela Fundação Carnegie (dos Estados Unidos), elaborado por Abraham Flexner. O objeto do estudo era as escolas de medicina dos Estados Unidos e Canadá no início do século XX. O estudo foi publicado em 1910 com o título "Factors for the making of ignorant doctors" (Máquina de médicos ignorantes") e foi escolhido pela equioe da revista por conta da situação das escolas de medicina brasileiras - além de ter completado 100 anos desde sua primeira publicação.

Na revista da Unicamp foi publicado apenas a introdução do estudo escrita por Henry Smith Pritchett. Para apresentar essa introdução, a revista ainda passa algumas informações que justificam a escolha do texto: no Brasil, entre 1996 e 2010 o número de escolas de medicina subiu de 82 para 161. Além disso informam que em 2009 o MEC fechou 570 vagas de nove cursos.

Apesar de o texto ser sobre os cursos de medicina nos Estados Unidos e Canadá, com um claro paralelo dos cursos brasileiros, escolhi uma parte do texto que pode ser claramente aplicado a qualquer universidade e qualquer curso(e até às escolas estaduais de ensinos médio e fundamental, uma vez que parece ser inútil criticá-las e ver que a qualidade só piora). Ontem mesmo estava conversando com uma prima, Franciane Boriolo, sobre como os cursos superiores viraram mercadorias e as instituições de ensino superior grandes comerciantes em busca de dinheiro e não de alunos com qualidade!

Segue o trecho selecionado para reflexão:

"Nesse sentido, talvez seja desejável acrescentar mais uma palavra. As instituições de ensino, particularmente as vinculadas a um college ou uma universidade, são peculiarmente sensíveis a críticas externas; em especial a qualquer depoimento sobre circunstâncias de sua conduta ou de seu equipamento que lhes pareça desfavorável em comparação às de outras instituições. Como regra geral, o único conhecimento que o público tem de uma instituição de ensino é proveniente de depoimentos da própria instituição – informação que, mesmo nas melhores circunstâncias, é colorida por esperanças, ambições e pontos de vista locais. Um número considerável de colleges e universidades assume a lamentável posição de, por serem instituições privadas, considerarem direito do público conhecer apenas as operações que elas decidam comunicar.

(...)

"A atitude da Fundação é que todos os colleges e universidades, não importa se sustentados por impostos ou doações privadas, são na verdade corporações de serviço público, e que o público tem o direito de conhecer os fatos ligados à sua administração e a seu desenvolvimento, sejam eles relacionados ao aspecto financeiro ou ao educacional.
"

Para quem tiver interesse, o texto completo está disponível na página da revista Ensino Superior Unicamp (clique aqui).

sábado, 8 de janeiro de 2011

Vinícius de Moraes e seu crocodilo - atual e verdadeiro

Estudando literatura encontrei esse poema de Vinícius de Moraes:

O crocodilo



O crocodilo que do Nilo
Ainda apavora a cristandade
Pode ser dócil como o filho
Que chora ao ver-se desamado.

Mas nunca como ele injusto
Que se ergue hediondo de manhã
E vai e espeta um grampo justo
No umbigo de sua própria mãe.

O crocodilo espreita a garça
Sim, mas por fome, e se restringe
Mas e o filho, que à pobre ave
Acompanha no Y do estilingue?

A lama pode ser um berço
Para um crocodiliano
No entanto o filho come o esterco
Apenas porque a mãe diz não.

Tem o crocodilo um amigo
Num pássaro que lhe palita
Os dentes e o alerta ao perigo:
Mas no filho, quem acredita?

O filho sai e esquece a mãe
E insulta o outro e o outro o insulta
É ver o simples caimão
Que nunca diz: filho da puta!

O crocodilo tem um sestro
De cio: guia-se pelo olfato
Mas o filho pratica o incesto
Absolutamente ipso-facto.

Chamam ao pequeno crocodilo
Paleosuchus palpebrosus
Porém o que me admira é o filho
Que vive em pálpebras de ócio.

O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.


in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Los Angeles"



Espero não ter fieto uma interpretação errada - afinal literatura é muito subjetivo -, mas esse texto me fez lembrar muito aqueles filhinhos de mamãe descontrolados e extremamente mimados que não conhecem limites para conseguirem o que querem. Aqueles playboyzinhos que estão acostumados com tudo servido na bandeja e nada conquistado com esforço e que de tão acostumados com essa facilidade de berço, não sabem se relacionar em sociedade e usam seus meios para se sobrepor àqueles que dizem não. Hoje não comem mais esse esterco que Vinícius disse, usam carros e violência para protestar contra um não dos pais, da namorada ou de qualquer um que ouse enfrentar sua "superioridade mental".

Se a criança é o futuro de amanhã, como viveremos com um mundo dominado por crianças tão mimadas e sem respeito aos mais velhos????? Dá medo!!!!!!!!!!!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Vida Universitária: do batismo ao diploma

Texto feito para a Revista VU (www.vidauniversitaria.com.br)em fevereiro de 2010

Tudo começa com algumas brincadeiras de criança ou uns meses antes da inscrição no vestibular. Algumas pessoas já sabem o diploma que querem pregar na parede desde pequenas, enquanto outras dividem seus pensamentos entre duas ou mais opções, mas todos que se matriculam num curso do Ensino Superior sabem que estão entrando em uma nova fase: a vida universitária. São trabalhos, livros, resumos, professores, prazos de entrega, provas, testes, xérox, biblioteca, grupos de estudo e responsabilidades de um lado e festas, azaração, vida independente, república, balada, cerveja, paqueras, saídas, ficadas, gargalhadas, fofocas, roncos e diversão do outro.

A Vida Universitária une o melhor de dois mundos em uma idade na qual a maioria dos estudantes está com hormônios e agitação à flor da pele. Apesar de um momento em que tudo se torna novo de novo, a responsabilidade dos estudos se funde com o sentimento único que um universitário sente durante quatro ou cinco anos. Sentimento de mudança que engloba muita correria, pouco dinheiro, novas amizades, contatos profissionais, visão de mercado, perspectiva de futuro e uma quase estratégia de guerra para se dar bem na carreira escolhida.



Hoje fiosioterapeuta formado pela Faculdade Anhanguera e estudante de uma especialização na Unicamp em Campinas, Rogério Bernardo, de 31 anos, já passou pela experiência. A estudante de Gestão de Agronegócios da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp em Limeira, Lucinéia Aparecida Vicelli, 22, está no segundo ano dessa vida. E a bixete do curso de Administração do Isca Faculdades, Franciele Fernandes, 19, acabou de conhecer alguns dos professores e colegas dos próximos oito semestres de estudos. Apesar de estarem em níveis de experiência diferentes, os três fazem coro quando definem a vida universitária como um momento de independência, amadurecimento e preparação. Resumindo nas palavras de Bernardo: “Uma das melhores fases da vida, que vale qualquer esforço”.


O batismo dessa vida parece ser o famoso trote, época em que as papelarias devem vender ainda mais as tintas guaches. Franciele, que passou pela mãos dos veteranos de seu curso achou a sensação maravilhosa. “É estranho porque a atenção parece que é toda para você. Fiquei supersuja de tinta mais foi muito divertido e saudável, além disso é um jeito fácil de ter contatos com pessoas que ainda não conhecemos”, conta a bixete. Contatos esses que devem durar pelo menos 48 meses. Além de todo o esforço para acompanhar as aulas e estudar em horários antes inimagináveis, a vida em um curso superior é um dos momentos para se fazer grandes amizades. “Acredito que pelo fato que você vai passar no mínimo quatro anos na faculdade, as amizades que você faz tem um peso maior, tanto com professores como com os amigos de classe”, opina. “É possível fazer amizades verdadeiras e que mesmo a distância e os compromissos da vida moderna serão sempre lembradas”, completa Lucinéia.

Além dos amigos das salas de aula, outros universitários ainda encontram a independência que tanto sonharam: a república. Uma nova casa, mobiliada ao gosto dos habitantes, convivência com gente que nunca se viu antes, compras, limpeza e arrumação. Algumas vezes a fórmula universitário mais universitário parece resultar em festa. Apesar de estudantes enxergarem a vida universitária como um momento de pura diversão, as responsabilidades que a matrícula em uma instituição de ensino superior traz exige cautela na hora de “encher o pote”. Bernardo, que entrou na faculdade aos 26 anos, já não era mais atraído pela vida boêmia que acompanham essa vida. “Quando entrei na faculdade estava muito focado em estudar e poder aprender o máximo possível, já possuía maturidade para separar o que realmente precisava e podia esperar, além disso festas e bares já não me atraíam mais”, relembra.

O foco do fisioterapeuta o levou para dois congressos e a um simpósio em apenas dois anos. Aproveitando esses anos nos quais são permitidos erros, elogiados os acertos e incentivadas as experimentações dentro da faculdade, Bernardo entrou para o projeto de iniciação científica da faculdade. Em 2007 participou do Congresso Internacional de Iniciação Científica (Conic) em Sorocaba, e em 2008 da nova edição do mesmo evento, em Botucatu e no Simpósio Internacional de Iniciação Científica da Universidade de São Paulo. Andando por qualquer faculdade, seja ela pública ou particular, os quadros de aviso sempre exibem umas cartas ou outro de prêmios e concursos. São apenas quatro anos para experimentar o leque de possibilidades de cada profissão e as notas no final de cada semestre servem como medida para a coragem de inovar ou a inércia de esperar o papel chamado diploma. Fazer um curso superior não é uma folha de sulfite com dois lados e totalmente descartável depois de se rabiscar todo o espaço branco. Vida universitária pode ser um rolo enorme de papel pronto para ser trabalhado e depois guardado na gaveta chamada aprendizado.


Conselho de quem já passou pela vida universitária:

“Use sua consciência, seja racional; é como comprar um carro, o carro do seu sonho que você demorou quatro anos juntando dinheiro e trabalhando muito e na hora que você vai buscar ele está riscado. Você levaria assim mesmo? Você pode ir à festas, mas depois das aulas, se vai programar nunca marque perto de provas principalmente, e não se engane: quatro ou cinco anos passa voando na faculdade quando você perceber estará acabando.” Rogério Bernardo, fisioterapeuta



Luxo ou privilégio?




Rogério Bernardo esperou um bom tempo para conseguir realizar o sonho de fazer um curso superior. Depois de acabar o Ensino Médio, ele precisou trabalhar para conseguir dinheiro e finalmente se matricular na faculdade. “Na época estava com 26 anos, meus pais são pessoas humildes que sempre valorizaram o trabalho e princípios de honestidade, mas não possuíam recursos para me ajudar nos estudos”, conta. Então Bernardo começou a trabalhar no comércio de Limeira para conseguir ajudar em casa e só depois começou “seu sonho”.

Assim como ele, várias pessoas se matriculam em um curso de ensino superior anualmente. Olhando para as faculdades no primeiro semestre de cada ano, a maioria dos estudantes são jovens recém-saídos do terceiro ano do Ensino Médio que não dão nenhuma pausa na considerada “vida escolar”. De acordo com o Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) o número de estudantes que ingressaram na chamada “vida universitária” em 2008 – data do último balanço disponível no site do Ministério da Educação (MEC) – foi de 1.505.819.

Apesar de o número parecer ser grande, ele não corresponde ao total de vagas disponíveis naquele ano. Há dois anos, as instituições de ensino superior do Brasil ofereceram 2.985.137 vagas. A conta entre ingressos e vagas disponíveis mostra que a quantidade de vagas ociosas, ou seja, aquelas que não foram ocupadas pelos estudantes foi de 1.479.318, quase metade da oferta. Ainda seguindo os cálculos que as estatísticas do Inep disponibiliza, 5.534.689 pessoas se inscreveram em vestibulares nas instituições brasileiras. O censo do Inep considera nesses números as graduações presenciais e a distância de faculdades públicas e privadas.

Ainda de acordo com os dados da instituição, o número de estudantes do Ensino Superior em 2008 era de 5.080.056. E um dado curioso que o censo apresenta é que de todos os estudante que iniciam essa “vida universitária”, somente 57,3% concluem o curso. Os dados sobre 2009 começaram a ser colhidos junto das instituições de ensino em janeiro e o resultado ainda não estava disponível no site do Inep. Os números mostram que, apesar de as faculdades existirem aparentemente “aos montes”, o número de estudantes que tentaram e não conseguirem entrar em algum curso superior naquele ano é grande e tende a aumentar. Com tudo isso vai a pergunta: curso superior é luxo ou privilégio? Como você encara ele? Conte para nós no portal da Revista VU acessando www.vidauniversitaria.com.br


Números



2.985.137 foi o número de vagas oferecidas nos vestibulares para 2008

5.534.689 pessoas concorreram essas vagas

1.505.819 conseguiram passar e ingressaram em alguma graduação

1.479.318 vagas ficaram ociosas