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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Crônica: partidas

O amor deveria vir com um tratado, uma lei, uma constituição de uma única linha: "vou te amar, te fazer feliz e nunca te fazer sofrer". simples assim. Quem descobre esse sentimento já tatua no coração essas três frases, sem demora, sem pensar. Mas se amar é sofrer, todos seriam presos pelo melhor crime ao qual o homem e a mulher não conseguem escapar.

De pé do lado de fora do ônibus, ele aperta o namorado pela ultima vez. A sensação é de que junto do amor infinito que corre entre aqueles dois corpos, um tempo tão longo quanto os aguarda até o próximo encontro. Um não quer soltar o outro, mas a partida tem hora marcada. Tem destino definido. Tem uma dor que incomoda. 

A fila na porta do carro vai diminuindo. Já não da mais pra esperar o último passageiro embarcar. Agora o último está ali, nos braços desesperados de outro. Braços que não querem soltar dada a certeza das próximas horas de aperto no peito. Não tem mais como adiar. Os corpos se descolam, um último carinho entre lábios tentam esconder o que o rosto nega vir do coração.

Ele caminha até a porta. Entrega a passagem. Um último olhar com os pés no mesmo chão do namorado. Sobe. Anda pelo corredor apertado desviando a mochila do encosto das outras poltronas e encontra seu assento. 

De pé do lado de fora do ônibus, ele aperta seu coração. Não vou chorar, promete pra si mesmo. Vou ser forte, são só alguns dias, logo vou vê-lo mais uma vez. Convencer um coração que ama de verdade é tarefa árdua, complicada, impossível.

No banco, o namorado olha seu amor de pé, parado, desviando o olhar como se tentasse disfarçar algo. Coloca a mão no vidro e sussurra um "te amo". Recebe as mesmas palavras de volta, mas sem som. Malditos ônibus com ar condicionado que não deixam as janelas abrirem para um último contato.

A porta fecha. O motor liga. O coração acelera, dolorido. Não tem mais jeito, o ônibus engata a marcha ré e começa a se mover. O choro é inevitável. Um choro de dor, uma dor que não cabe no peito e chega a sumir com qualquer chão e o faz cair sem parar. Não fossem seus músculos e o mínimo de razão que ainda sobra naquele corpo vazio, tudo viria abaixo e ele se encolheria para chorar inconsolável.

As alternativas são aceitar, que dói mais, ou atravessar a rodoviária correndo em prantos e se atirar na frente do ônibus para fazê-lo parar, abrir a porta, tirar o namorado de dentro pelo braço e fugir pro Haiti.

Amar sem sofrer a dor de uma partida seria uma fantasia. Maldita realidade que insiste em afastar quem ama.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Catalogada uma nova espécie: os folgados



No reino animal existe uma espécie de mamífero muito curiosa: os folgados. Eles geralmente fazem parte da espécie humana e se proliferam de forma muito rápida, especialmente quando estão na universidade e em época de avaliações de cursos. São de ambos os sexos, apesar que neste ambiente sempre haver seres de sexo praticamente indefinido que confundem a percepção dos observadores ao misturar estrutura física de um sexo e voz e trejeitos de outro. Além disso, as idades destes seres também variam, porém a origem é sempre a mesma: “cultural”.

Estes seres tão curiosos estão acostumados desde a primeira amamentação a receberem tudo pronto em suas bocas. Enquanto outros humanos logo se desgarraram do peito materno e procuraram com suas próprias mãos seus próximos alimentos, os folgados continuaram a depender do conforto e comodidade maternos para receberem todos os alimentos bem mastigados e triturados com o tempero único que só a figura da mãe sabe fazer depois de horas de birra do folgado em idade infantil. 

Essa característica marcante não muda com o passar dos anos. Acostumados com os mimos dos pais, os folgados continuam sua vida até chegar à Universidade e sempre encontram lá figuras que projetam a imagem e boa vontade de seus pais. Ao escolherem suas vítimas, os folgados e folgadas, os importunam em horas estratégicas e esperam receber o que precisam de forma totalmente mastigada e de fácil digestão. Porém, não procuram mais alimentos, mas sim cadernos com boas anotações, exercícios resolvidos, colas e resumo de fórmulas para as provas e grupos de estudantes que coloquem seu nome nos trabalhos acadêmicos sem que eles tenham se dedicado como era necessário.

Geralmente os folgados são confundidos com estudantes. Devem receber, no máximo, a denominação aluno, nome genérico dado a todos aqueles que são matriculados em qualquer tipo de curso. Estudantes, por outro lado, realmente estudam, anotam alunas, prestam atenção nas explicações, resolvem exercícios em dia e fazem os trabalhos acadêmicos e avaliações com a intenção de verificar o quanto conseguiram aprender durante as aulas.

Mais uma vez no lado oposto, folgados não avaliam seus conhecimentos. O único e principal objetivo desta espécie é obter notas para serem aprovados com, pelo menos, a nota mínima naquele semestre. É característico desses alunos a pergunta ao professor: “Você vai explicar, mas cai na prova?” ou “Temos que ler, mas cai na prova?”. O desejo pelo conhecimento e o pleno entendimento dos elementos que compõe o assunto discutido não é o objetivo na formação acadêmica destes folgados. Os textos são lidos apenas em busca de pontos chaves e palavras importantes para serem decoradas e usadas na hora da prova.

Há estudantes e folgados que convivem em harmonia. Pode haver estudantes que perdem aulas e pedem cadernos emprestados para manterem o caderno em dia e se manterem informados sobre o andar da disciplina; mas nunca haverá um folgado que perdeu a aula e se preocupa com o conteúdo, apenas com o que será cobrado nas avaliações. Podem haver compreensão entre estudantes e folgados. Também pode haver submissão por parte daqueles estudantes que perdem dias de estudos particulares para aguentar um folgado tirando dúvidas ridículas sobre temas básicos que era pressuposto que todos soubessem. E por fim, pode haver intolerância entre essas duas espécies, afinal, ninguém é obrigado a fazer anotações sobre as aulas no caderno e nas épocas próximas à prova dá-las de graça aqueles que sequer se lembram da última matéria dada no curso.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A balada das ideias


O encontro era inevitável, mais cedo ou mais tarde os dois se encontraríam e dali poderia sair uma relação de amor ou ódio. Mesmo que na balada agitada de autores e conceitos, o contato superficial é mais que suficiente para se entender um pouco o que se passava dentro da sua cabeça. Por mais que a aparência física dele não seja das mais agradáveis e sua idade também não corresponda com as preferências das garotas, ele é uma das figuras mais ilustres, se não for a mais ilustre, desse evento de ideias e ideologias.

Em uma conversa regada de termos antigos mas nem por isso incompreensíveis, uma mentalidade ou uma visão de mundo pode ser transformada de maneira radical, porém não deixará de ser uma visão hoje em dia, nada além disso. Como fundo musical um remix bate estaca de Geraldo Vandré, essa conversa superficial rende várias reflexões que ficam no papel, ou nos blogs, na rede.

Marx realmente desperta sentimentos antagônicos. Ou o estudante de economia, no meio dessa balada agitada que é sua graduação, passa a adorá-lo ou o odeia e se agarra às pernas do capitalismo com toda a força possível, exalta o mercado e tatua uma gigante letra K nas costas seja contornado por tribais ou no estilo maori.

Apesar da grande barba e pelo simples detalhe de ser do século XIX, esse alemão muito famoso com certeza despertaria enormes paixões naquelas menininhas cults ou faria boas amizades com o pessoal que gosta de uma boa discussão filosófica. Aqueles que estão esperando um empurrão para se revoltar contra o sistema que domina o ocidente cego pelo lucro e pelo dinheiro, Marx dá, com suas palavras, a ferramenta perfeita: a indignação.

“A burguesia, onde conquistou o poder, destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou sem compunção todos os diversos laços feudais que prendiam o homem aos seus ‘superiores naturais’ e não deixou entre homem e homem outro vínculo que não o frio interesse, o do insensível ‘pagamento em dinheiro’. Afogou a sagrada reverëncia da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco, da melancolia sentimental do burguês filisteu nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e, no lugar de um sem-número de liberdades legítmas e duramente conquistadas, colocou a liberdade única, sem escrúpulos do comércio. Numa palavra, no lugar da exploração velada por ilusões políticas e religiosas, colocou a exploração seca, direta, despudorada, aberta”

Para não deixar o receptor indignado só com a burguesia, símbolo máximo do capitalismo nas suas palavras no Manifesto do Partido Comunista, Marx coloca outro integrante desse conflito como sujeito da oração: “O proletário torna-se um mero acessório da máquina, e dele se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono e mais fácil de aprender”. Mesmo numa balada seria impossível não relacionar as palavras de Marx escritas há pouco mais de 160 anos com a realidade de hoje. Qualquer semelhança é mera coincidência... as máquinas mudaram, mas parece que a forma de exploração do proletariado é ainda a mesma. Sem uma chave de fenda nas mãos, o proletário, em seu Tempos modernos, agora só pressiona os atalhos CTRL+C e CTRL+V infinitamente...

Mas uma coisa é fato, até mesmo os estudantes que não vão abraçar o capitalismo como único e melhor sistema econômico e se identificam completamente com as ideias de Marx devem acabar se frustrando em algum passo do caminho... Pode até ser que esse estudante ainda espere a revolução final do capitalismo, quando a propriedade burguesa for abolida e, por meio da política, os proletários usem a corda dada pelos burgueses e enforquem essa classe exploradora.

Ok, ok... enquanto as luzes vermelhas piscam incessantemente, o globo de espelhos gira, uma travesti vestida de Tia Sam faz caricatura dos hegemônicos e alguns pensadores convencem, são convencidos, indagam e indignam, a balada do curso continua. Provavelmente veremos Marx numa have mais profunda, de horas e horas de leitura e questionamentos. Até lá vale usar o básico e questionar o que realmente pensamos sobre capitalismo e comunismo.

sábado, 10 de abril de 2010

A Sanfona e Seu Danilo



Fim de tarde, a luz do sol só é visível no topo dos telhados e nas construções mais altas do bairro Vila Glória. Naquela rua, as trabalhadoras de uma fábrica de tecelagem começam a se despedir e seguem seus caminhos para a casa. O ônibus passa cheio de trabalhadores e o movimento dos carros é incessante. Enquanto o barulho da movimentação de pessoas está no seu agito mor, Seu Danilo arruma sua cadeira na varanda. A luz branca é perfeita para enxergar as notas mais altas ou baixas das partituras que seus dedos lêem. O varal para os papéis com as notações musicais já está pronto e nenhum vento naquele dia calmo pode atrapalhar a compreensão dos compassos e ele se entrega à música.

Apesar de as condições ajudarem, algo ainda o atrapalha. Hora com as pernas cruzadas, hora com os pés bem apoiados no chão, sua sanfona se movimenta para os lados e transforma notações em músicas, muitas vezes sertanejas. O problema são suas costas. Frente às outras limitações que ele comenta em conversas simples e calmas, este é o menor dos males. Essa dor só o impede de tocar seu instrumento em pé nas festas e igrejas onde costuma fazer parte da animação musical. Em casa ensaia sentado, aguenta o peso e a prática já reza a posição menos incômoda para o treino.

Tocar é sua paixão. O amor que sente pela música é o que não o deixa desistir e se entregar aos anos de dificuldade que já se passaram. Enquanto algumas pessoas reclamam da vida ou da monotonia da aposentadoria, Seu Danilo está sempre arranjando defeitos para consertar em sua casa e nos momentos em que não está se dedicando ao lar, senta e toca.

Apesar de nascer em uma fazenda, ser descendente de italianos e ter a pele morena queimada pelo sol, Seu Danilo tem os olhos parecidos com os de um japonês. Quando observa algo, a pouca abertura e o tamanho de seus olhos por detrás dos óculos de lentes grossas podem enganar aquele que tente dizer sua origem. Se eles sempre foram assim ou se fecharam com o tempo devido ao esforço para enxergar os números das máquinas registradoras do banco ou mesmo as notas pequenas das partituras, é difícil dizer com poucas conversas e um convívio distante. Outros cronistas poderiam interrogar sua família, mas a pausa na escrita delimita o fluxo da criatividade e das lembranças.

Com já foi comentado, há um problema que atrapalha Seu Danilo em seus dons musicais e não são os olhos pequenos ou as dores nas costas. Em casa ele não consegue mais se dedicar sozinho ao teclado. Mesmo fazendo aulas semanais com um professor particular, esse segundo instrumento que aprecia dedilhar entre os movimentos da sanfona e os afazeres de casa é hoje um desafio para sua cabeça. Seu aniversário de setenta anos já passou há algum tempo. Não que a idade seja problema para seu lado musical. Ele consegue praticar sanfona e tocá-la em festas com seus amigos sem muitos erros, e se diverte com isso. Porém, quando se senta no banco do teclado as articulações dos dedos se enrijecem. A cadência e a harmonia entre a escala musical desaparecem e uma partitura que seria executada em simples horas na sanfona, se torna um martírio para sua teimosia em fazer a música perfeita no instrumento eletrônico.

Seu principal argumento é a falta de cooperação de sua cabeça, sua depressão ou a falta de jeito com o teclado que fica sobre a mesa e a consequente preferência pela sanfona e sua mobilidade. Quando Seu Danilo se aposentou do banco público em que trabalhava, uma depressão acompanhou a rescisão e os benefícios que teve ao se desligar da empresa. Na época, com a globalização em alta e os computadores dominando toda e qualquer operação bancária, a adaptação não foi fácil. Para quem nasceu na fazenda, fez um curso de pedreiro para construir sozinho a casa de sua mãe e entrou em uma instituição financeira fazendo serviços gerais, uma CPU, com números na tela preta, comandos e atalhos diversos e acima disso a cobrança dos superiores por resultados com aquele novo equipamento foi o estopim para uma depressão. A queda só não foi maior por conta da música e é nela que Seu Danilo se apóia até hoje para seguir em frente depois de criar os cinco filhos e aproveitar o justo momento de descanso mental.

(incompleto)

domingo, 22 de março de 2009

Di?

é incrível como podemos nos apegar a um animal qualquer. Sentado aqui no meu quarto, em frente ao computador, minha cachorra Diana me faz companhia. Nunca deixei ela entrar no meu quarto porque ela solta pelos demais e minha rinite se ataca com isso.

Dessa vez é diferente. Ela não está andando por todo o quarto e esbarrando o rabo pelos móveis e na minha cama. Ela passou alguns centímetros da porta e se sentou. Seu olhar fica parado durante um bom tempo num mesmo lugar e a respiração sempre ofegante.

O nome dela é Diana, em homenagem à deusa romana da caça. A força que está ligada a esse nome, ultimamente, ela usa para conseguir levantar. Depois de longos minutos parada num mesmo canto, com a ponta da língua pra fora e seus olhos sem se mexerem para nenhum dos lados, ela ela resolve mudar um pouco e andar para um outro canto onde vai ficar por mais algum tempo.

Nessas horas a gente lembra do primeiro dia que a família ganhou mais um integrante. Ela entrou em casa 10 anos atrás. Perninhas curtinhas, focinho pequeno. Parecia uma bolinha de pelo preto e caramelo que ainda estava aprendendo a latir e a brincar.

As noites em que ela passava latindo, aquele sonzinho ainda ardido e solitário. Era tudo novo mais uma vez em casa. Ela foi a quarta cachorra que tivemos, a segunda dessa raça.

Nos últimos meses, a Diana não parava nunca. Latia no portão, acompanhava os cachorros da vizinha na sinfonia do latido, seguia minha mãe para todos os cantos da casa. Além, é claro, de ficar cutucando o braço dela com o focinho para pedir um pedaço de pão na hora do café da manhã, almoço ou antes de dormir.

Escrever algumas palavras dessas, espero, seja um equivoco e não uma antecipação de uma despedida. Dias atrás chamamos um veterinário e de forma bem superficial ele a examinou e informou que seriam problemas da sua idade avançada - que causa complicações em algumas juntas, na coluna e até na visão.

Apesar de ser "só" uma cachorra, é inevitável sentir um aperto no coração ao vê-la num estado como esse. Sem brincadeiras, sem correria, e até seus latidos, que antes perturbavam, agora fazem falta.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Foi meu psicólogo quem disse

Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Seria injusto eu dizer que a culpa é do noticiário da TV com o caso da Isabela. Afinal morávamos num barraco em um assentamento sem terra, me jogar da janela ali, no máximo me deixaria com o joelho ralado ao chegar no chão de terra batida.

No fundo, no fundo eu acho que é medo de lobisomens. Essa sua barba mal feita e o jeito que pega na enxada quando diz que vai defender uma nova terra em algum canto desse país me dá a clara sensação de que é capaz de matar qualquer um, mesmo sem ter caninos afiados.

Além disso, passei noites ouvindo seus suspiros e uivos prolongados e a mamãe sempre soltando alguns sons que davam a impressão de estar sendo devorada. Meus irmãozinhos me perguntavam o que estava acontecendo. Sempre estava muito escuro dentro do barraco que você fez para a gente dormir, mas dava para perceber que eles falavam assustados.

Ninguém nunca perguntou nada com medo de também ficar tão cansado e com uma cara tão feia como a mamãe ficava de manhã. O mau-humor dela também nos assustava, mas ela sempre nos bateu com um chinelo e não com fio de cobre. Mamãe sempre foi mais carinhosa. Agora que cresci entendo que meus pensamentos não estavam tão errados assim quando a ela ser “devorada”.

Compreendo que será difícil ler essas palavras, por isso estou tentando escrever da forma mais fácil possível. Se não fosse por mamãe e pelo incentivo dos meus doze irmãos, não teria chegado hoje na polícia militar. Estou começando no posto mais baixo. As garagens e as viaturas são numerosas e lavar todas me deixa com dores nas costas e a pele queimada do sol. O delegado desse distrito resolveu me ajudar quando viu que eu estava pedindo dinheiro na esquina do supermercado. Ele disse que meus olhos azuis e minha pele clara não deveriam estar ali daquele jeito.

Pode parecer que esse um ano que sai de casa é uma eternidade, mas para mim passou bem rápido. O caso da Isabela ainda nem foi resolvido, olha só como a saudade não pode ser tão grande assim.

Continuo meus estudos sempre. Hoje consigo pegar bastante livros na biblioteca que tem na escola onde vou. Não perco de vista o objetivo de chegar a comandar o esquadrão que vai enfrentar aquela enxada que você levanta para assustar quem entra na terra que nem sua é.

Me desculpe, papai, o psicólogo do batalhão me disse que esse medo é raiva reprimida e me sugeriu expressá-la escrevendo essa carta. Se você tivesse me dado aquela boneca Barbie quando eu tinha sete anos de idade e não tivesse me batido tanto quando me viu passando nos lábios o único batom de mamãe, não teria esse destino de hoje. Pelo menos evolui. Hoje moro em um abrigo e durmo em um colchão macio. Aqui eles me dão aparelho de barba para raspar os pelos que já começaram a crescer. Assim eu não vou assustar ninguém na rua. Mande lembranças para mamãe e diga a ela que ela não precisa mais sofrer, estou bem.

Em poucos dias acho que vou ir fazer uma visita. Não vou falar quando. Prefiro não te ver em casa. Peço também que não me procure. Ainda estou muito chateado com tudo o que fez e com a forma como fomos criados. Queria tanto ter uma casa para pintar de rosa e nesses 13 anos sempre morei no meio das galinhas. Quantas vezes ouvi que “agora nós vamos conseguir nosso terreno”?

Sabe pai, é injusto ver tanta criança por ai jogando vídeo-game e a gente não ter nem uma tomada em casa. Nosso vizinho sempre disse que a culpa era do governo. Hoje sei que aquela casa que você tem no condomínio fechado não é culpa do governo. Só acho que eu poderia ter sido criado num lugar melhor.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Na rotina da festa, olhinhos descobridores



Todos ali já passaram, no mínimo, por dez viradas de ano juntos. A rotina de festas de fim de ano já até condicionou os atos de cada um que chega àquela casa. É tudo sempre a mesma coisa. Uma das tias leva sua famosa maionese, a outra o pudim esperado durante todo o ano para ser deliciado no final da ceia, o mesmo acontece com a lazanha da terceira tia. Só uma das primas que, com toda a boa vontade, leva a única receita de doce que sabe - que sobra sempre um pedaço para o dia seguinte, todos comem por falta de opção de algo açucarado na última noite do ano.

A mesa pode até mudar a cor ou os desenhos da toalha. Papais Noéis continuam enfeitando os cômodos da casa e com o mesmo capricho da decoração do lar, as chefes de família usam de alfaces, abacaxis, cerejas e pêssegos para dar um colorido especial às tradicionais carnes festivas. O pernil, o chester, o tender e o peru embelezam a mesa com suas pernas amarradas por barbantes, farofas cozidas aliadas ao arroz e a um dos pratos que ali, não pode faltar, a lentilha - e ainda deve ser comido com os pés longe do chão para garantir o sucesso financeiro para o ano novo.
Como sempre, os olhos das cozinheiras brilham ao ver uma mesa tão farta. É uma vez por ano, por isso toda a dedicação para fazer do último jantar da família algo para ser comentado durante todo o próximo ano novo.

E comentários é o que não faltam ao redor da mesa e na grande roda que todas as cadeiras formam no rancho da casa. São talvez as únicas novidades que se fazem presente no recinto. Um primo que está trabalhando em um novo lugar, a outra prima que comprou o apartamento e viajou para o exterior trazendo um doce natalino muito consumido no local. "Eles compram de caixas essa bala", diz a prima com sua voz sempre doce e baixa. Com um gosto indefinido (a embalagem diz que é de menta) e pouco marcante, as balas à qual a prima se refere são chamados popularmente por aqui de bengalinhas. Essas, porém, não são aquelas de plástico colocadas nas árvores, são reais, doces e ruins. Os comentários continuam, as novidades não interessam tanto.

Todos participam da mesma brincadeira que há anos se repetem, o amigo da onça - espécie de amigo secreto, ou oculto, onde as pessoas podem 'roubar' o presente de quem já escolheu o seu na mesa cheia deles. No final da brincadeira, a ceia, ou jantar - ceia tem muito cara de Natal. Enquanto ainda a maioria está com o prato cheio, a TV já exibe a situação nas grandes praias brasileiras. O coração por uma hora se transporta para uma delas...

Contagem regressiva. A distração e a fome não permitiu que todos acompanhassem desde o nove. Cinco, quatro, três, dois, um - 2009. Uma discussão boba sobre o horário oficial da mudança de ano atrasa um pouco o início dos cumprimentos - se levassem a sério mesmo a coisa do horário, o ano novo seria comemorado só uma hora da manhã, afinal estamos no horário de verão. Aos poucos as pessoas se levantam e começam os cumprimentos. São exatamente 21 pessoas na casa - o número é baseado na contagem feita para a brincadeira do amigo da onça, da qual todos os presentes participaram.

Uma pessoa, porém, não estava no meio de toda a muvuca. Na verdade três pessoas. São as que fizeram a diferença em todo o marasmo rotineiro da festa. Até o mais novo da família, de três anos, filho de um dos primos, já não é novidade e a graça da criança se apagou frente a novidade no recinto.

No colo de sua mãe, Olavo passa sua primeira passagem de ano. Com o relógio biológico próprio e difícil de regular por quem quer que seja, o bebe de apenas oito meses entrou no novo ano dormindo. Apesar de todos os fogos que de longe se ouviam e coloriam os céus de Limeira, Olavo dormia e não parecia que iria despertar tão cedo. Mesmo com toda a família passando pela sua mãe e desejando felicidades, saúde e sucesso para o ano que se inicia, o bebê todos cumprimentando sua mãe que o carregava, o bebe continua a dormir como se fosse um anjo - metáfora a parte, se os anjos são simbolizados pela inocência das crianças, ali é um belo exemplar da face de um deles.

Se não fosse por Olavo, a festa seria só mais uma para todos que estão ali, condicionados a contar de nove a um, pular com a mudança do calendário, abraçar os demais e assistir a queima de fogos da sacada da casa. Nascido em abril, o menininho deixou a festa no mínimo carinhosa para todos que passavam pela sua frente. Com os olhos negros e grandes em um rosto de bochechas marcantes, Olavo não poupou na distribuição de sorrisos para todos que chamavam seu nome e faziam alguma gracinha. Dizem que o sorriso de um bebê tem efeitos de droga no corpo de qualquer um. É, realmente, de amolecer o coração e fortalecer os instintos paternos ou maternos de qualquer um.

Os sapatinhos que cabem em dedos adultos e as roupas que serviriam, sem nenhum ajuste, em bonecas, são preenchidos pelo membro mais novo da família que observa a tudo e a todos com a curiosidade da primeira infância. São segundos de descobertas e suspiros dos avós, tias e primos-corujas.

Um ano novo inicia de uma forma diferente. Apesar de estarem entretidos com a presença cativante do pequeno Olavo, 2009 começa no meio de crises mundiais, mas com uma presença forte do que é o futuro de tudo que é feito hoje em dia. Em anos anteriores as novidades começavam a ficar velhas - mesmo aquelas que ninguém ainda sabia. Ninguém dava ouvidos por mais que a notícia era uma das melhores a ser contada na roda da família. "Sério? Me conta mais...", dois minutos e o assunto já mudava.

Olavo foi assunto para cada cinco minutos. Comendo, sorrindo, mordendo o aviãozinho verde de borracha, brincando com pelúcias, andando ou girando as bolinhas barulhentas de um de seus brinquedos. É uma pequena lição para todos que estão ali, apesar que quase ninguém tira o devido proveito do que alguém que ainda nem fala pode ensinar. Enxergar as coisas como se fossem a primeira vez é um dom das crianças que descobrem o mundo dia a dia. Essa visão não deveria ser perdida com o passar dos anos e até com a chegada da terceira idade. Ver em cada oportunidade um recomeço, ou o próximo degrau da escada da vida pode ser muito mais bem aproveitado se todos os vissem com os mesmos olhos negros de Olavo. Uma surpresa a cada descoberta, não mais um suspiro a cada repetição. O que descobrir? O que a vida ainda não revelou.


A todos um Feliz 2009!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Por favor, posso falar com você um minutinho? Só um minutinho vai? (Vai pra *%*&¨*&¨*)

Tudo começa quando o repórter se prepara para sair à rua. Se tiver um santo padroeiro dos jornalistas que precisam de fontes legais, que apresente logo, certeza que colocarão a maior estátua desse santo na entrada/saída do jornal. Mil missas serão rezadas e todos serão devotos à ele, ou ela. Como ainda não encontraram um, Deus é quem sempre é solicitado para ajudar na caça da fonte perfeita.

Um trabalhador, no meio ou final da tarde começa a subir a rua. A presa é avistada. Avalia-se o ânimo da pessoa. Ombros caídos e cara desanimada, sinal de cançaso. Muito provável que a quarta geração de sua família será xingada pelo repórter, na cabeça do repórter, claro. Ele se aproxima. O repórter sorri, diz boa tarde. Os mais experientes já jogam a pergunta logo de cara para tentar prender a pessoa e barrar seus passos. Se o passo da fonte em potencial estava rápido demais, olhar para cima, para o relógio e distante, a pressa está mais que declarada. Logo vem a frase mais amada por quem precisa de uma fonte: "Agora não posso, estou com pressa!"

"É só um segundinho, não dura nem cinco minutos..." com uma voz já de "por piedade, me ajude", diz o repórter. Tudo tem duas possibilidades, a fonte parar ou repetir a mesma frase. A segunda é a mais desejada, mas festejada e mais aplaudida pelo repórter. Finalmente um colaborador, falará sua opinião e ajudará com o que for preciso (com quase tudo). Mas, dependendo do horário e do local, a primeira opção, repetir que está com pressa, predomina.

É fato: saída do emprego e centro da cidade por volta das 16h30 todos estão com pressa, todos estão voltando para casa, ou têm que se preparar para a faculdade ou sabe-se lá o que. Ouvir essa frase remoe os sentidos por dentro. A face ainda expressa um sorriso, mas é só ver as costas dessa pessoa que os olhos se fecham, a testa franze, a boca entorta e por dentro... por dentro melhor não falar nada. Mas cabe aí uma constatação para toda e qualquer fonte, vale a lei do interesse. As fontes só dizem quando estão com bom humor, tempo e acima de tudo isso quando tem algum interesse na matéria. Exemplo típico são políticos e empresários. Quando o céu está limpo todos saem para ver o sol, mas quando algumas nuvens, de fumaça, começam aparecer, olhando para os lados o repórter pode constatar que está no meio de um deserto, ou em um labirinto. Os caminhos sempre estão fechados, as fontes estão sempre em reunião e a matéria precisa sair amanhã. Para isso há uma solução-vingança: "A tia foi procurada para dar sua opinião sobre o assunto, mas não foi encontrada". Problema de quem?

Ao receber um fora como os que entregadores de panfletos, funcionários de financiadoras e de escolas de informática, a saga continua. O jornal te hora pra fechar, as fotos precisam estar na pasta certa e a matéria já pronta no arquivo exigido. Próximo...! Depois de alguns nãos, a persistência é mais forte. A fonte fala o nome, fala a idade, fala a profissão, fala até a cor da cueca se a matéria for sobre isso. Tudo muito bom, tudo muito bem. Até oralmente a pessoa descobre que o repórter estava há vinte minutos procurando alguém que soltasse a língua.

Nessas horas o ideal é estar acompanhado do fotógrafo. A fonte não tem escapatória é falando que é fotografada. Não tem tempo de pensar. Seu nome? Clic. Concorda com a lei?? Clic, clic. Tudo garantido, pronto. Estando sozinho nem tudo está pronto. Por mais que a fonte tenha dado ótimas declarações, entenda do assunto e contribuirá para uma matéria completa e redonda, uma foto pode estragar tudo. A câmera pode até estar escondida debaixo do caderno. A fonte vê a caneta sendo substituída por um instrumento retangular, pequeno, perigoso. "Nãaaaaaao! Foto não, estou fedido..."

Aaaaaaaaaa.... paciência. Próximo...!