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quinta-feira, 25 de maio de 2017

[Folheando] Quatro cinco um - a revista dos livros! [SEM FALAS!]



A revista "Quatro cinco um" é nova no mercado e chegou com tudo! A proposta, ao que parece, é ser extremamente segmentada, seu tema: LIVROS! Dê uma espiada nessa nova revista junto com a gente! =)

Ansioso pelos próximos números da revista, mas desde já um pouco desapontado com o caráter marketeiro, ao menos das duas únicas matérias sobre poesia. Não sou o maior fã de poesias, mas com a disciplina de Introdução ao Estudo Literário I, ministrada por Roberto Zular no curso de Letras da USP, não tive como reconhecer toda a engenhosidade, complexidade e beleza de um poema.

Aos poucos fui percebendo que tudo aquilo que aprendemos na escola não faz nenhum sentido. Poesia é muito mais que um verso, um conjunto de rimas bonitinhas ou algo escrito de um jeito diferente de uma prosa. É perfeitamente compreensível como as pessoas não gostam e não apreciam poesia, afinal, entrar nela é um trabalho árduo. Passar da leitura linear de "Em minha terra tem palmeiras | Onde canta o sabiá" para uma leitura ritmada e cheia de imagens, infelizmente, não é simples. Entender os lás e os cás, a mistura do leite com o sangue, o olhar de um antinarciso e seja lá o que mais a poesia nos possibilita é algo quase único. Quase, afinal, muita prosa com sabor de poesia prova que a classificação em gênero é tão complexa quanto entender as particularidades de cada um para além da simples diferença entre "verso" e "prosa".

Cenário composto e voltando aos textos sobre poesia da "Quatro cinco um", eles se propõe única e exclusivamente a nos dizer quem são os poetas. Um homem e uma mulher; New York e Canadá; um coração no bolso e apagamentos de si mesmo. São informações ou impressões? O que vale mais na poesia, baseado no que aprendi até então, não é tanto quem a fez, mas os sentidos e imagens que ela possibilita ao leitor, ou não? Sendo assim, ver textos sobre poesia que se limitam a repetir o que a Wikipedia provavelmente já fez com os poetas, me pareceu algo muito... estranho. Mas também como fazer diferente? Aqui me dou licença poética e estúpida de quem está nos primeiros passos: não sei.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Uma crítica sobre a TAG Livros, de um assinante de primeira viagem

A proposta da TAG Livros é genial. A cada mês a equipe seleciona um curador e solicita a ele a indicação de um livro. O associado não sabe o que vai receber e aqui o fator confiança nos curadores e, acima disso, na capacidade da equipe da empresa em selecioná-los, é que faz a diferença. Além disso, o serviço também aposta na elaboração de seu kit: além do livro, em capa dura com um box colecionável e um "mimo" relacionado com o tema do mês, o associado recebe uma revistinha com informações sobre o curador, a obra e outros dados adicionais que, em tese, ajudam na leitura.

Curioso com o livro do kit de maio, indicado por Mario Vargas Llosa, resolvi assinar. O vídeo aqui no YouTube fala de minhas primeiras impressões como um novo assinante e há críticas! A principal é quanto à revista, pois eu esperava muito mais dela.

Apesar da diagramação maravilhosa, a revista da TAG falha nas informações. A pequena biografia de Vargas Llosa são suficientes para entendermos o valor que ele, como curador, tem para o clube de associados. Porém, as coisas param por aí. Em um determinado momento do texto sobre Llosa é citado que o escritor se distanciou do socialismo por conta de sua decepção com a experiência em Cuba. Ok. Pra mim essa é a informação mais relevante do texto e que deveria ter total ligação com a indicação do livro feita por ele!!!! Afinal, Llosa teria lido "O Leopardo", o livro que indicou, antes ou depois dessa indignação? Isso faz toda a diferença para entender o valor que a obra tem para o curador. Se foi antes, a leitura do livro e a inevitável ligação com Llosa seria uma, principalmente por conta da revolução sobre a qual o livro se propõe a tratar e a transformação de uma sociedade alicerçada na igraja e na monarquia; se foi depois, a leitura muda de figura e os ideais liberais do livro saltam aos olhos de maneira mais evidente.

A única resposta que temos sobre o assunto é dada em uma frase: Llosa diz que "O Leopardo" é uma obra genial. Só isso???? Genial por que? por onde? por quando? por sei lá o que mais? Essa falha, pra mim, foi gravíssima porque esperava entrar de cabeça na leitura guiado por um curador ganhador de um prêmio Nobel. A falha, a meu ver, parece ser dos editores da revista que não questionaram Llosa sobre a indicação ou se contentaram apenas com uma frase qualquer ou não conseguiram acesso direto ao escritor e estão usando uma indicação dele para aumentar a visibilidade do grupo.

Neste último caso, sobre usar a imagem de Llosa, a impressão que me fica é que houve o seguinte diálogo (que pode ou não ter sido diretamente com o escritor):
- Sr. Llosa, somos da TAG e gostaríamos que o senhor indicasse um livro para nossos associados?
- Qualquer livro?
- Qualquer um!
- Ah, então coloque "O Leopardo" aí.
- Por que esse?
- Tenho que justificar?
- Seria bom...
- Ah, escreve que ele é uma daquelas obras literárias que aparecem de tempos em tempos e que nos deslubram...
- Obrigado, Sr. Llosa!

Senti falta de uma explicação mais apurada simplesmente porque foi Llosa quem indicou o livro! Por ser ganhador de um prêmio Nobel, a possibilidade de ler algo que ele leu e que tenha influenciado em sua produção realmente é um diferencial que a TAG poderia propagar por toda internet. Contudo, acredito que ficarei sem a resposta às questões que surgiram ao assinar e ao ler a revista.

O segundo ponto que me decepcionou foi a parte "Ecos". A proposta é fornecer informações complementares que ajudam na leitura do livro. Nesta seção, os editores da revista colocaram um mapa (belíssimo, como toda diagramação) com as divisões dos reinos da Itália antes da sua união na nação italiana. Ok, relevante? Sim, afinal o personagem menciona e tramsita por essas regiões. Contudo, a meu ver, a questão da transição do feudalismo para o capitalismo seria mais crucial para o leitor se situar na obra. Um processo conturbado na história, dada a emergência do capitalismo, essa transição é objeto de diversos estudiosos como Dobb, Sweezy e Hobsbawn. Os dois primeiros se debruçam sobre o tema e o terceiro tem uma obra apenas para tratar sobre a formação dos estados nacionais. Imagino que talvez seja demais tratar tudo isso em duas páginas de uma revistinha, contudo, se a proposta é dar informações aos leitores, por que não investir num trabalho mais apurado e de maior valor?

Por fim, mas não menos importante, a revistinha da TAG pareceu ser tão machista quanto o Príncipe, personagem principal do livro "O Leopardo". Por quê? Simplesmente porque o mimo enviado no kit, uma "bandeira" de algodão com fotos de ganhadores do prêmio Nobel de Literatura, mostra que a primeira pessoa latino-americana a ganhar o prêmio foi Gabriela Mistral, escritora chilena, em 1945. UMA MULHER, antes de qualquer outro homem! E mais: em uma área dominada (SIM) por homens até pouco tempo atrás! Ao invés de falar sobre ela, a revista optou apenas por tratar do boom de escritores latino-americanos (TODOS HOMENS) das décadas de 1960 e 1970! Estou exagerando ao criticar a opção da revista por não dar toda a atenção possível à Mistral????? Acho que não.

Conclusão: o primeiro kit me decepcionou um pouco. Estou ansioso para receber o kit de março, que veio com o livro "A Câmara Sangrenta" e mais ainda para o do próximo mês, que virá com uma obra situada na Rússia e nos Estados Unidos. Vamos ver se essa primeira impressão ruim se dissipa ao comparar a revista de maio com as demais.

Vale reforçar: o vídeo feito para o YouTube NÃO É propaganda para o serviço! Eu (Alex) e nós do Canal Marca Páginas não recebemos os kits de forma gratúita.

Para quem quiser mais informações sobre a TAG: https://www.taglivros.com/


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O beijo e a dificuldade de aceitar o velho

A cena de beijo entre os personagens Felix e Nico no último episódio da novela “Amor a vida” da Globo foi sim uma conquista. Soa estranho dizer “conquista” em 2014, tão estranho quanto seria dizer “em pleno século XXI”, mas essa deve ser a palavra que mais se encaixa na situação.

As redes sociais, como não podia ser diferente, se encheram de manifestações alegres e violentamente preconceituosas. É justamente por conta dessa forte oposição que a palavra conquista se manifesta com uma força inigualável. Alguns viram como “pouca vergonha”, outros como “nogento” (sic) e, pelo visto, muitos como uma afronta à moral e aos bons costumes. Contudo, quais são esses bons costumes e essa moral tão defendida por aqueles que se ofenderam com uma cena de beijo gay em rede nacional, no horário nobre, no canal de maior audiência do Brasil?

Vale a pena refletir um pouco sobre o que essas pessoas querem? E se colocar no lugar delas? Ouvi a seguinte frase de uma amiga nas últimas semanas: “Vocês (gays) podem parar de dizer que são a minoria”. Em conversa com a mãe de uma outra amiga ouvi: “Eu vejo que no futuro a maioria vai ser sim homem com homem e mulher com mulher”. Se este é realmente uma tendência ou um movimento natural não sei, mas o que deveria começar a ficar claro na cabeça da maioria é que os tempos estão mudando e mais rápido que eles conseguem ou querem assimilar.

Pensar na vida de um homossexual nas décadas de 1970 ou 1980 é um exercício não muito difícil, basta ver o grau de machismo daqueles nascidos nestes mesmos anos ou anteriores. São raras as pessoas daquela época que conseguem sustentar uma conversa sem nenhum tipo de preconceito quando se entra em pontos como as novas formações familiares e a capacidade de um casal de homens criar uma criança. Tive a infelicidade de entrar numa discussão dessas com duas pessoas, uma nascida antes de 1960 e outra depois de 1990. Os dois homens, com suas cabeças muito bem formadas sobre o assunto eram extremamente fechados para argumentos contrários à sua opinião e é justamente neste ponto que mora o perigo e vive a realidade da nossa sociedade hoje.

Uma opinião deveria ser formada a partir da análise e da reflexão de diversos pontos, favoráveis e contrários à visão daquele que busca se informar e se formar. É uma lição básica do jornalismo dar todas as versões do fato e voz às diferentes opiniões sobre o assunto em pauta. Contudo, nem jornalistas e muito menos o público se interessa por buscar informações diferentes e amplas. Ouvir e ler aquilo que agrada os olhos e massageia a “inteligência” é suficiente.

O perigo neste fato e neste caso (o beijo gay) é a sobrevivência do machismo e do preconceito.  O beijo deveria ser, para toda a sociedade, o momento ideal para refletir que não há volta: existe sim homossexual, existe sim famílias sendo formadas por dois pais ou duas mães e isso não será algo distante da realidade de ninguém logo mais. Deveria ser uma oportunidade para mostrar para a criança sentada no chão da sala que dois homens se beijarem é normal. O amor é normal e existe entre seres do mesmo sexo. E na resistência da aceitação basta dizer: “Por que um homem e uma mulher podem se beijar todo o tempo na TV e dois homens não?”

Porém, apesar da oportunidade dada e da “conquista” alcançada, ainda vai existir pessoas e famílias que ficaram horrorizadas com o fato. A essas pessoas volta a pergunta: “Por que eles podem e nós não?” ou “Por que ser gay é ser anormal?” e para colocar em cheque “Você vai continuar dizendo que isso é anormal e direta ou indiretamente incentivar uma visão preconceituosa que pode se materializar em violência contra um homossexual?”

Recentemente senti mais de perto esse “estranhamento” de um casal gay. Ando de mãos dadas com meu namorado em lugares públicos e os olhares são constantes. Há quem vire a cabeça, logo após cruzar nosso caminho, para observar as mãos dadas. A grande maioria primeiro olha para os dedos entrelaçados e só então sobem o olhar para nossos rostos. A feição de raiva ou algum sentimento próximo disso também se manifesta  em alguns homens (na maioria) e mulheres. Por quê? Se parasse para consultar essas pessoas provavelmente ouviria os mesmos comentários feitos nos textos que defenderam o beijo gay da novela: “não sou obrigado(a) a fazer meus filhos verem esse tipo de cena”, saem em defesa da família os pais conservadores; “isso é anormal”, diriam os religiosos fervorosos; “aqui não é lugar”, exclamariam os defensores dos bons costumes. Mas de que valeria ouvir se essas pessoas apenas têm bocas e não ouvidos?


Colocando-me no lugar delas entendo que ninguém é obrigado a “aceitar” e a palavra é livre para todos, contudo, a não aceitação de que um beijo ou duas mãos dadas são normais e a palavra dita de maneira impensada se transformam em violência. É violento dizer que um beijo é nojento e vai ser violento quando uma criança que ouve isso dos pais ofender um colega de classe que desde cedo manifesta comportamentos femininos. Crianças são cruéis quando querem e podem gerar adultos inseguros e infelizes. Sendo assim, por que não plantar uma “semente de normalidade” nessa nova geração e, acima de tudo, ensinar que cada um deve se preocupar com sua única e exclusiva felicidade antes de julgar, criticar e violentar a felicidade alheia?

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O PIB cresceu pouco, ok, mas e a contextualização?

Não é raro ver algumas críticas ao noticiário econômico e muitas delas são recorrentes e mesmo assim a linguagem dessas editorias continuam na mesma armadilha do economês. Acabei de ler uma notícia no site do Estadão e no final da leitura, algumas perguntas básicas ficaram sem resposta nenhuma.

A notícia é sobre o PIB: PIB foi afetado por investimento baixo e indústria fraca, dizem economistas e estava em destaque na página de Economia do Estadão à meia noite deste sábado. Primeira pergunta que vem logo do lead: quem informou o PIB? É uma informação básica e todos sabem? A resposta é não, o leitor leigo não é obrigado a saber quem divulga e mede o PIB - esta é uma informação que não tomaria mais que uma linha. Uma notícia publicada antes dava essa informação na linhafina: "Segundo o IBGE, o PIB brasileiro foi de R$ 1,1 trilhão no segundo trimestre, com destaque para o setor agropecuário". Porém a crítica: a notícia anterior é a anterior, certo? Escrever cinco palavras e uma sigla completaria a informação e poderia até ser colocado um link para a tal notícia anterior.

 Segundo ponto é sobre a contextualização com os acontecimentos recentes. O foco da matéia era o efeito do baixo investimento e da indústria fraca. Antes de mais nada, baixo investimento privado ou público? Além disso, onde foi parar a informação da baixa na taxa Selic feito esta semana e a política fiscal do governo, ou seja, os cortes do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) que foram anunciados também recentemente? Também são informações relevantes e que têm total ligação com a indústria e com o consumo das famílias, mas que sequer foi mencionado em parágrafo algum.

E além do problema da falta de explicação e da contextualização, vem o economês. Uma coisa que é facilmente observável é o fato de os repórteres reproduzirem as falas dos economistas sem sequer interpretar a informação e deixá-la mais clara para o leitor leigo. É um jogo de copia e cola. Em dois parágrafos há jargões e expressões típicas de economistas que podem prejudicar o bom entendimento do leitor, como os listados abaixos:

1) "Segundo o economista e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, o lado da demanda dentro do PIB está sendo minado pela baixa Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que caiu 0,7% na comparação com o primeiro trimestre deste ano e 3,7% perante o segundo trimestre de 2011."

Primeiro: o que é o lado da demanda? Segundo: o que é a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF)? Terceiro: o que representa essa queda de 0,7%, o que aconteceu, por que, quem é o responsável?

2) "Pelo lado da oferta, diz Rochlin, o PIB no período continuou sendo prejudicado pela anemia do setor industrial, que deu uma contribuição negativa para a conta do período, con retração de 2,5% perante os primeiros três meses deste ano. Na mesma base comparativa, o recorte da indústria de transformação apontou um tombo de 5,3%. Na avaliação do professor, o resultado ruim no setor continua sendo justificado pelo câmbio desfavorável, especialmente nos segmentos exportadores."

Primeiro: con? Segundo: o que é o lado da oferta? Terceiro: essa "anemia do setor industrial" continuou prejudicando; desde quando ela prejudica e por quê? E quarto: por que o câmbio desfavorável prejudica a economia?

Coloco minhas mãos para o alto para a arma que podem me apontar: ok, se forem explicar tudo, expressão por expressão, frase por frase, a notícia vira um livro. Será que isso aconteceria mesmo? Algumas informações podem ser resumidas com poucas palavras e deixariam a notícia tão mais clara e de fácil entendimento. O problema nisso é: a quem essa mensagem é escrita? Por que não ensinar um milésimo de economia no jornalismo e mostrar à população qual o sintoma da "anemia" que afeta o PIB também? Afinal, anemia do setor e indústria fraca é a mesma coisa mesmo?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Tomas Morus, política e atualidade


O que mais me surpreende ao ler algumas obras consideradas clássicas é a atualidade delas. A Utopia de Tomás Morus, por exemplo, é uma delas. Publicada em 1516 - e eu espero estar lendo uma tradução fiel ao conteúdo original - o livro "descreve um Estado imaginário sem propriedade privada nem dinheiro, preocupado com a felicidade coletiva e a organização da produção", segundo a descrição do livro na contra-capa.

O livro é curto. A edição de bolso que estou lendo não tem mais que 170 páginas. Terminei de ler hoje a primeira parte, ou o "livro primeiro", na qual Morus descreve sua conversa com Rafael, uma pessoa que morou durante um tempo num país chamado Utopia. No próximo livro esse personagem irá descrever a Utopia, mas já na primeira parte ele apresentou alguns elementos bem interessante e que valem a pena serem transcritos.

O diálogo entre Morus e Rafael (tem um terceiro elemento também...) entra no campo da política e a importância de um príncipe ser um filósofo e os conflitos de interesse dos governantes e a impossibilidade de um sábio ou um filósofo de fazer parte da política:

"Tal é exatamente o resultado que eu obteria nos conselhos dos príncipes. Ou eu pensaria diferentemente deles, e seria o mesmo que simplesmente não pensar; ou pensaria como eles, o que seria, como diz Misião de Terêncio, fazer-me o promotor de sua demência. (...) Enfim, não se apresentará uma ocasião em que você possa ser útil, já que estará envolvido por colegas mais capazes de corromper o melhor homem do mundo do que se deixar corrigir por ele. Você irá se corromper ao contato de homens depravados ou então, conservando sua integridade, terá de compactuar com uma perversidade, uma estupidez da qual é inocente. (...) É por isso que Platão, numa comparação muito bela, convida com razão os sábios a se absterem de toda atividade política"

Outra passagem bem interessante é sobre a propriedade privada:

"Parece-me que onde existe a propriedade privada, onde todo o mundo avalia as coisas em relação ao dinheiro, dificilmente é possível estabelecer nos assuntos públicos um regime que seja ao mesmo tempo justo e próspero; a menos que você considere justo que as melhores coisas caibam às piores pessoas, ou que julgue bom que todos os bens sejam partilhados por uns poucos, e mesmo sem que estes estejam inteiramente satisfeitos, enquanto todos os demais vivem na pior miséria"

Outros conceitos aparecem nessa primeira parte do livro: monopólio, cercamento de terras, lei dos vagabundos, trabalho forçado e riqueza da população, por exemplo. É uma leitura que vale a pena, principalmente para ser comparada a outros textos ou para ser estudada e descobrir quais autores foram influenciados pelas ideias da Utopia (meu próximo passo quando finalizar a leitura).



Observação particular 

Ademais, vale uma observação... li em algum lugar que existe uma estátua de Morus na Russia e que suas ideias influenciaram as revoluções socialistas para a formação de um estado do proletariado. Escolhi A Utopia por curiosidade, pois era mais um dos livros que estavam parados na minha estante, e ele se encaixou no conjunto de leituras que fiz essas últimas semanas. Depois de ler Trótski para a matéria de Desenvolvimento Econômico, me interessei pelo assunto e li, na sequência, "A revolução dos bixos", de George Orwell, e "Os dez dias que abalaram o mundo", de John Reed.

Acho que se fosse começar do zero inverteria a ordem das leituras para elas se complementarem umas às outras iniciando por "A República", de Platão (que ainda vou ler), depois Morus, Reed e finalmente Orwell. São todos livros que dão para perceber claramente ligações temática ou ideológica entre si e valem a pena serem lidos para ter contato com ideias diferentes de política e também de economia.

Além do que, como já disse outras mil vezes, ver como autores do passado constataram características da sociedade que estão presentes até hoje! Há uma outra passagem de Morus que fala sobre pessoas ricas estarem no poder no lugar de pessoas competentes que é muito atual, afinal, qual a porcentagem de cargos de chefia que são ocupados por profissionais realmente capazes e especialistas? Uma política numa Secretaria Municipal de Saúde, por exemplo, não faria nada além de distribuir rosas no dia das mulheres...


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Alunos públicos em escolas públicas - esse é o caminho justo!


O número de estudantes de escolas públicas do ensino médio matriculados nos cursos de graduação da Unicamp aumentou de 2010 para 2011. Tudo bem, está um pouco tarde para falar sobre estatísticas e o crescimento é até pequeno, mas algumas pesquisas informais feitas recentemente dão algumas informações bem interessantes sobre o fato. Porém enquanto tentamos influenciar alguém a pensar na graduação como um futuro vantajoso, alguns adolescentes só pensam naquilo!
Uma das pesquisas foi feita no começo do semestre, em agosto, quando começamos o curso de Ciências Sociais para Economia na graduação de Ciências Econômicas na Unicamp. Como é de praxe com alguns professores, o primeiro dia de aula teve uma apresentação rápida dos alunos. O fato mais interessante é que de toda a sala, que devia estar com cerca de 40 alunos aquele dia, a grande maioria disse que estudou em escolas públicas no ensino médio.

O fato foi bem curioso e surpreendente até para o professor. Um certo consenso (com um quê de preconceituoso) nos faria pensar que em uma turma de futuros economistas só deveria haver alunos das melhores escolas particulares de Campinas e região (pensamento seguido por aquele olhar de desdém). Porém, o perfil dos alunos do curso de economia do período noturno é em si interessante. No vestibular de 2011 foram aprovados 35 alunos para esse período (ao todo 105 alunos ingressaram no curso de Ciências Econômicas na Unicamp: 70 no diurno e 35 no noturno).

Dos futuros economistas, uma parte considerável já está na sua segunda graduação. Ali tem formados em Jornalismo (eu), Imagem e Som, Relações Internacionais, História, Tecnólogo em Mecatrônica e Direito, além de outros alunos que já tinham cursado de um a três anos outra graduação na Unicamp ou em outras universidades públicas. Essa era uma informação que tínhamos desde o começo do curso, março, mas a quantidade de alunos vindos de escolas públicas foi algo novo.

NÚMEROS

Voltando à participação dos alunos de escolas públicas nas matrículas da graduação da Unicamp, alguns dados da Comissão Permanente para o Vestibular (Comvest) da Unicamp mostram valores consideráveis. A pesquisa está disponível no site da Comvest (WWW.comvest.unicamp.br) e os dados fornecidos são baseados nas informações que os vestibulandos fornecem durante o processo seletivo.

Foquei minha pesquisa na participação de alunos vindos do ensino médio das escolas públicas. Em 2010, dos 3.536 inscritos nas graduações da universidade, 1.030 (29,1%) informaram terem cursado o Ensino Médio em escola pública; em 2011, foram 1.148 (31,9%) dos 3.601 inscritos. Um aumento de 118 pessoas ou 2,2 pontos percentuais.

O crescimento parece pequeno, mas uma notícia divulgada pela Comvest mostra que a participação desses alunos foi recorde na Unicamp. A porcentagem mostra o impacto positivo do Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social promovido pela universidade, está entre as maiores dos últimos anos e reverte a tendência de queda verificada desde 2009.

Este fato deve ser estímulo para quem pensa que é impossível ser aprovado em um vestibular como o da Unicamp – e eu sei que existe adolescentes e mães que pensam assim, infelizmente. E mais...

Estatística dos matriculados em 2010

Estatística dos matriculados em 2011
Fonte: Comvest - Unicamp

COMPORTAMENTO

Essa informação se encaixa com os comentários que ouvi sobre o Unicamp de Portas Abertas (o famoso UPA) que ocorreu na última semana, nos dias 2 e 3 de setembro. Uma pessoa com quem conversei disse ter reparado o desdém de alguns alunos e o grande interesse de outros. O que me surpreendeu também foi quais alunos pertenciam aos dois grupos mencionados.

“Apelidamos o UPA de Unicamp de Pernas Abertas, o evento parecia uma micareta de carnaval, em todos os lugares tinha adolescente se beijando”, disse essa pessoa. Uma situação que deve ter sido vergonhosa de se presenciar em um ambiente acadêmico como a Unicamp. Depois de ter comentado que infelizmente os alunos de ensino médio de hoje em dia não têm mais interesse em cursar uma graduação e entrar para a vida acadêmica, essa fonte comentou que diferente do que pensávamos, os alunos de escola pública eram os mais interessados nas palestras e eventos do UPA, enquanto que quem se comportava como se estivesse em uma micareta eram os alunos de escolas particulares. “Só vão ao UPA os alunos de escola pública que estão realmente interessados em cursar algo na Unicamp até porque muitos não têm dinheiro para pagar a viagem até lá e por isso eles ficam bem interessados, fazem perguntas e participam de várias palestras”, disse.

Não podemos generalizar, mas é estimulante saber que alunos de escola pública estão tão interessados em ter uma graduação de qualidade e pública. É difícil se deparar com notícias que relatem eventos nas escolas de Ensino Médio do Estado que incentivem os alunos a escolherem uma graduação e os ajudem a entender melhor as profissões que pretendem seguir. Um dos professores do cursinho pré-vestibular que fiz no ano passado criticava as ONGs justamente por conta da inexistência de programas com essa finalidade para adolescentes e comunidades carentes.

A arte e o esporte têm seu valor de inclusão e proteção desses jovens contra a violência das ruas, mas nenhuma ONG ou escola parece se preocuparem com o que será dos estudos desses alunos depois do jogo de futebol ou da aula de capoeira. Na verdade o que falta ai é vontade de mudar a vida de alguém. Acredito que não seja difícil reunir uma vez por mês ou durante um dia todo profissionais das mais diversas áreas e/ou alunos de graduações diferentes para conversarem com esses jovens carentes sobre o que é ser um jornalista, um economista, um dentista, um físico nuclear ou qualquer outra profissão que passe pelos bancos das universidades. O que falta para esses jovens é perspectiva.

As escolas de ensino médio e fundamental têm um papel muito importante na formação profissional e pessoal dessas crianças e adolescentes a meu ver. Se os professores (quando há bons professores e motivados) deveriam estimular desde cedo a pesquisa sobre as diferentes profissões, mostrar às crianças as possibilidades de estudo e de trabalho que cada área apresenta e trabalhar os estudos desses estudantes com um foco direcionado à educação superior e à melhora da qualidade de vida que uma graduação pode proporcionar.

Fica aqui minhas constatações e uma sugestão simples de ser adotadas por professores e escolas estaduais: levem estudantes e profissionais para conversar com os alunos; estimulem os alunos que têm vontade de cresces e estudar; estimulem os pais desses alunos a enxergarem as possibilidades e benefícios que uma graduação pública pode fornecer aos alunos. Uma frase que um professor me disse uma vez se encaixa nessa hora: o bom mestre é aquele que faz o aprendiz superá-lo. Alguém pensa nisso hoje em dia?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Vinícius de Moraes e seu crocodilo - atual e verdadeiro

Estudando literatura encontrei esse poema de Vinícius de Moraes:

O crocodilo



O crocodilo que do Nilo
Ainda apavora a cristandade
Pode ser dócil como o filho
Que chora ao ver-se desamado.

Mas nunca como ele injusto
Que se ergue hediondo de manhã
E vai e espeta um grampo justo
No umbigo de sua própria mãe.

O crocodilo espreita a garça
Sim, mas por fome, e se restringe
Mas e o filho, que à pobre ave
Acompanha no Y do estilingue?

A lama pode ser um berço
Para um crocodiliano
No entanto o filho come o esterco
Apenas porque a mãe diz não.

Tem o crocodilo um amigo
Num pássaro que lhe palita
Os dentes e o alerta ao perigo:
Mas no filho, quem acredita?

O filho sai e esquece a mãe
E insulta o outro e o outro o insulta
É ver o simples caimão
Que nunca diz: filho da puta!

O crocodilo tem um sestro
De cio: guia-se pelo olfato
Mas o filho pratica o incesto
Absolutamente ipso-facto.

Chamam ao pequeno crocodilo
Paleosuchus palpebrosus
Porém o que me admira é o filho
Que vive em pálpebras de ócio.

O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.


in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Los Angeles"



Espero não ter fieto uma interpretação errada - afinal literatura é muito subjetivo -, mas esse texto me fez lembrar muito aqueles filhinhos de mamãe descontrolados e extremamente mimados que não conhecem limites para conseguirem o que querem. Aqueles playboyzinhos que estão acostumados com tudo servido na bandeja e nada conquistado com esforço e que de tão acostumados com essa facilidade de berço, não sabem se relacionar em sociedade e usam seus meios para se sobrepor àqueles que dizem não. Hoje não comem mais esse esterco que Vinícius disse, usam carros e violência para protestar contra um não dos pais, da namorada ou de qualquer um que ouse enfrentar sua "superioridade mental".

Se a criança é o futuro de amanhã, como viveremos com um mundo dominado por crianças tão mimadas e sem respeito aos mais velhos????? Dá medo!!!!!!!!!!!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma cidade “inacabada”

Há alguns dias venho observando minha cidade natal com um olhar mais crítico. Limeira parece pra mim uma cidade inacabada. Tudo aqui ou demora para ser concluído ou é aberto ao público de forma totalmente inacabada e desleixada – o famosos “feito nas coxas”. Uma excessão que vale a pena ressaltar é o novo supermercado Covabra. Como bom limeirense que não tem mais nada para fazer além de passear em supermercados, fui algumas vezes à nova loja e gostei muito do resultado.

Voltando ao assunto principal: a falta de arte-final na cidade. Se fosse comparar a um desenho, Limeira não recebeu nem cores, nem contornos com nanquim. Parece que está sempre nos rabiscos com grafite, mal apagados e ainda por cima com linhas tortas. No começo de dezembro foi inaugurada a nova área de alimentação do shopping Pátio Limeira. A expectativa era grande, afinal aquele “shopping” é num dos únicos lugares para entretenimento que a cidade oferece. Conversando com uma amiga proprietária de uma das lojas de alimentação do estabeleimento, recebi algumas fotos sobre como estava ficando a obra. As imagens que ela enviou eram muito bonitas. Mesmo com todo o ar de obra inacabada, a foto feita alguns dias antes da inauguração pasava um ar arrojado do projeto que estava quase concluido.

Infelizmente a impressão não foi a mesma quando visitei pela primeira vez o novo piso. Além de lojas ainda fechadas (os proprietários tiveram uma semana para fazer a mudança de piso – as obras das lojas tiveram mais tempo) e o pior: chão sujo de tinta, espelhos com marcas de mão e pilares ainda inacabados cobertos com TNT. Uma volta naquele local era revoltante. O que os administradores pensam de Limeira. Quem mora aqui não merece um pouquinho mais de cuidado com os empreendimentos? Uma área mal acabada está de bom tamanho para o nível dos consumidores? Achei revoltante e ridículo a administração do shopping permitir uma inauguração tão pobre e uma obra tão mal acabada.

No segundo piso por enquanto há só lojas de alimentação. Uma grande parte desse andar está fechada com cartazes anunciando duas grandes lojas. Mas pra quando? Tudo parece abrir antes da hora na sede de recuperar o dinheiro perdido ou de mostrar resultado logo para seus clientes. E lembrei daquela frase: “Sou pobre mas sou limpinho”. Adaptando ela, “sou limeirense, mas sou civilizado”. Não preciso conviver com um shopping sujo e mal feito.

Para piorar essa má impressão do estabelecimento, no último sábado chegar até aquele local foi um inferno. Neste final de semana minhas alunas da Hard Dance foram se apresentar no “Natal das Nações” da Prefeitura (outro fiasco que comento logo abaixo). Depois de sair do local, com fome, eu e dois amigos decidimos comer um lanche no subway no shopping. Se arrependimento mata eu ainda não descobri, mas garanto que estressa. Uma das principais ruas de acesso ao shopping, a rua Farmaceutico Jacob Faneli (acho que é este o nome) estava intransitável. O desrespeito de alguns motoristas era tanto que tumultuava ainda mais o trânsito enlouquecido no meio de chuva. Motorista furando fila para entrar na rua Carlos Gomes; uma fila enorme de carros nas proximidades do clube Gran São João; motorista lerdo para atravessar um cruzamento; sem contar uma fila enorme para entrar no estacionamento do shopping. Eu e meus dois amigos fomos em dois carros para o shopping. Ao ver aquela fila terrível, já parei na rua mesmo. Consequência: tive que esperar 30 minutos pelos dois amigos... não achavam vaga! Péssimo!

É uma cidade sem nenhum planejamento. Parece qu só planejam certinho como será feito o contrato da merenda das escolas... o resto, vai empurrando com a barriga que tudo se acerta. O problema da rua Carlos Gomes já foi discutido na prefeitura em reunião com polícia militar, guarda civil e representantes do shopping, mas nada é feito. Quando não são os adolescentes atrapalhando o trânsito, é o próprio trânsito de carros, motos e ônibus entrando num caos incrível e intransitável.

Inacabáveis

Outros problemas limeirenses:

- Terminal Urbano rodoviário não fica pronto nunca. A passos de um idoso com osteoporose em estado avançado, cada mês é um avanço tão pequeno que não parece ter fim nunca. A região ainda ganhou um belo lago em dias de chuva. Na frente do senac forma uma poça gigante quando chove. Não tem nenhum bueiro ali? Não parei para observar ainda...

- Museu e Palacete. O primeiro está há meses em obras e também não acaba nunca. Já o segundo os tapumes estão atrapalhando o trânsito de pedestres na rua Boa Morte. Ou carros ou pedestres ali. Esses dias vi dois operários jogarem um balde de água em um homem bêbado que caminhava tropeçando na rua, perto da obra... falta de respeito né?

- Shopping Popular. Alguma novidade? Ao lado da Central de Ambulâncias e em frente ao covabra o prefeito Silvio Félix tinha prometido a construção de um shopping popular...

-“Natal das Nações”. Se não me engano a festa “tradicional” teve outro nome este ano, mas foi um fiasco. Num lugar superescondido, ao lado do Ceprosom, o famoso Natal das Nações mais parecia uma feirinha de escola municipal. Tirando a estrutura de som montada para as apresentações musicais e de dança, as barraquinhas de comida eram péssimas. Como bancadas foram usadas carteiras escolares. Me lembrei na hora das festas juninas improvisadas na escola onde estudei durante o ensino Fundamental!

Custa um pouco mais de planejamento e carinho para com os eventos e obras na cidade? É possível fazer eventos de qualidade com baixos gastos, basta só ter vontade de fazer a diferença e criatividade...