sábado, 27 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
"O enfrentamento do capital financeiro é possível se houver vontade política e mobilização social", afirma Luciana Genro
Fonte: Fanpage da candidata no Facebook
Sem visibilidade na grande mídia, especificamente na maior emissora de televisão (TV Globo) e em grandes jornais impressos (como Estadão e Folha), a candidata à presidência do PSOL, Luciana Genro, vem tentando apresentar seu programa de governo. Em entrevista feita por e-mail para o Blog Opinião Alex Contin, Luciana Genro destaca quais são os entraves ao desenvolvimento brasileiro e sua visão da cobertura da mídia das Eleições 2014.
Perfil
Luciana Genro define como o início de sua carreira política seus 14 anos. "Lambro até hoje do meu primeiro discurso, no dia 8 de março de 1985, Dia Internacional da Mulher. Eu subi numa cadeirinha em frente ao colégio e mandei ver. Não me lembro de nada do que eu disse, mas me lembro da emoção de ter feito um discurso na frente da escola" (Fonte: perfil da candidata).
Advogada e professora de inglês, foi eleita Deputada Estadual pelo Rio Grande do Sul em 1994 e reeleita em 1998, as duas candidaturas pelo PT. Em 2002, eleita Deputada Estadual pelo mesmo estado e partido. Contudo, foi expulsa do partido em 2003 por votar contra a Reforma da Previdência do governo Lula. Fora do partido, ajudou a fundar o PSOL em 2005 junto de Heloísa Helena e outros políticos.
Luta Política
Com pouco tempo na propaganda obrigatória e participações em debates e entrevistas televisionadas por outras emissoras que não a Globo, a candidata enxerga como principal oponente do desenvolvimento brasileiro o capital financeiro e sua ligação íntima com a Dívida Pública.
Em diversas entrevistas e em seu programa de governo, Luciana Genro (PSOL) destaca o problema da obscuridade da Dívida Pública brasileira. Uma de suas propostas é realizar uma auditoria pública dessa dívida a fim de reduzir o valor pago pelo governo e destinar parte da verba a investimentos sociais, como educação e saúde. Para entender melhor do que se trata este tema, segue uma explicação breve sobre a dívida antes da entrevista.
A questão da Dívida
A Dívida Pública brasileira é "a dívida contraída pelo Tesouro Nacional para financiar o déficit orçamentário do Governo Federal, nele incluído o refinanciamento da própria dívida, bem como para realizar operações com finalidades específicas definidas em lei", de acordo com o Tesouro Nacional (acessado em 24 set. 2014). Ou seja, de uma forma simples é possível visualizar a dívida pensando da seguinte forma: quando a quantidade de impostos arrecadados pelo governo é insuficiente para cobrir os gastos e as obrigações do governo, ele emite títulos públicos para captar dinheiro de investidores. Quando isso ocorre, o Tesouro Nacional se torna "devedor" destes atores, ou seja, ele deve pagar a estes compradores os juros que os títulos prometem.
Detentores da DPF - Junho de 2014
Fonte: Tesouro Nacional (Acessado em 24 set. 2014)
A expressão máxima do combate de Luciana Genro são os bancos. Segundo ela, grande parte da arrecadação que o governo faz é para o pagamento da dívida, outro ponto chave em seu programa. Sendo assim, além de o governo se endividar com o Sistema Financeiro, ele também destina parte de sua verba para o pagamento dos juros da dívida a estes atores. Como representado no gráfico acima, os maiores detentores da Dívida Pública são as Instituições Financeiras (que detém 29,6% dos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional) e os Fundos de Investimentos (20,7%).
O problema desta lógica está no fato de a Dívida Pública ser "ilegítima", como define Luciana Genro. Como grande parte desta dívida foi contraída durante a Ditadura Militar (1964-1985) e esse endividamento não se deu de forma clara, a candidata defende uma auditoria para averiguar qual seria o valor real devido pelo Brasil. A partir deste processo, caso seja eleita, seu governo teria condições de investir mais nas áreas sociais.
Entrevista
Alex Contin: Em várias entrevistas e também no programa de governo da candidata é citado o capital financeiro como um elemento que impede o desenvolvimento do Brasil por conta do pagamento dos juros. Como a candidata vê o Brasil se desenvolvendo sem a intermediação forte do capital financeiro como hoje?
Luciana Genro: Atualmente, o governo
federal destina mais de 40% do orçamento para o pagamento de juros e
amortizações da dívida pública, que tem como principais beneficiários os
grandes bancos e investidores, ou seja, o grande capital financeiro. Enquanto
isso, áreas sociais fundamentais como a saúde e educação recebem cerca de 4%
dos recursos federais.
É importante ressaltar que
esta dívida está repleta de graves indícios de ilegalidades, razão pela qual é
necessário fazer uma ampla e profunda auditoria sobre ela. A auditoria da
dívida está prevista na Constituição de 1988, porém, jamais foi realizada.
Por isso, enfrentar o
problema da dívida é pré-condição para o crescimento significativo dos gastos
sociais e para o desenvolvimento do país. Para maiores detalhes sobre este
tema, vejam o seguinte artigo:
Outra consequência da
supremacia do capital financeiro é a altíssima taxa de juros para
financiamentos às pessoas e empresas. Conforme mostram os dados do Banco
Central, atualmente a taxa média dos empréstimos dos bancos para pessoas
físicas é de 43,2% ao ano, e para pessoas jurídicas, de 23,1% ao ano, taxas
estas ainda superiores à taxa Selic, atualmente de 11% ao ano. Isto significa
que os bancos apenas se interessam em emprestar a pessoas e empresas a juros
altíssimos, pois possuem rendimentos garantidos emprestando ao governo.
Com a revisão da política de
endividamento público, os bancos se verão na obrigação de emprestar ao setor
produtivo e às pessoas a juros baixos.
A.C.: Uma das críticas à situação do Brasil hoje é o fato de o país não estar
inserido na cadeia mundial de produção. A candidata enxerga esse fato como
positivo ou negativo? Se estar fora da cadeia mundial é positivo, de que forma
o Brasil pode melhorar sua balança comercial e depender menos do agronegócio? E
se for negativo, qual seria o caminho que a candidata vê para que possamos
superar esse atraso?
L.G.: Atualmente, o Brasil se
insere na economia mundial basicamente como fornecedor de matéria prima, e
importador de produtos industriais, o que é negativo, pois desta forma o país
gera renda e empregos lá fora e corta empregos e renda aqui dentro. Isto ocorre
pois o setor primário-exportador não agrega valor aos produtos, gera pouco
emprego e concentra fortemente a renda, além de impactar o meio-ambiente.
Um dos fatores que
contribuem para este processo é o câmbio, que se valorizou nos últimos 8 anos,
barateando as importações e encarecendo as exportações. Isto ocorre devido às
altas taxas de juros brasileiras, que estimulam investidores do mundo inteiro a
trazerem seus dólares ao Brasil, para ganhar dinheiro fácil por meio do
endividamento público “interno”. Com excesso de moeda estrangeira aqui dentro,
o preço do dólar cai. Para resolver esta situação, é necessário reduzir as
taxas de juros e estabelecer controles sobre o fluxo de capitais, conforme já
fazem vários países, com sucesso.
É preciso também um
investimento pesado em educação, além de fomentar a Ciência e Tecnologia, que
hoje recebe apenas 0,38% do orçamento federal.
Fonte: Fanpage da candidata no Facebook
L.G.: Sim. Conforme colocado na
questão anterior, o Brasil se insere na economia mundial basicamente como
fornecedor de matéria prima, e importador de produtos industriais, o que é
negativo, pois desta forma o país gera renda e empregos lá fora e corta
empregos e renda aqui dentro. Isto ocorre pois o setor primário-exportador não
agrega valor aos produtos, gera pouco emprego e concentra fortemente a renda,
além de impactar o meio-ambiente.
É preciso reorientar o
sistema agrícola brasileiro, priorizando a agricultura familiar, que produz a
maior parte dos alimentos consumidos no Brasil, e gera a maior parte dos
empregos no campo, apesar de responder pela menor parcela das terras e
financiamentos agropecuários.
A.C.: Temos o potencial de nos desligarmos de uma pauta exportadora que dependa tanto de commodities e começarmos a produzir e exportar produtos de tecnologia? Se sim, de que forma?
L.G.: Em primeiro lugar, é preciso
mudar a política cambial, que promove a invasão de produtos industriais,
principalmente da China. Em segundo lugar, conforme também já colocado, é
preciso investir pesadamente em educação, mas parece que esta não é a agenda do
governo, visto que recentemente o Plano Nacional de Educação foi desfigurado em
sua meta de investir 10% do PIB na Educação Pública. A base do governo no
Congresso – em total sintonia com o PSDB – aceitou a contabilização (para fins
da apuração dos 10% do PIB) dos recursos públicos destinados à educação
privada, o que, na prática, significa a redução dos recursos para a área de
educação. Além disso, é notório que o ensino superior privado no Brasil não se
interessa em investir em pesquisa científica, deixando esta função
essencialmente para o ensino superior público.
A.C.: Qual é a posição que as universidades públicas e suas pesquisas têm no programa da candidata?
L.G.: As universidades públicas
têm um papel fundamental no desenvolvimento do país, porém, os governos têm
destinado uma fatia ínfima do orçamento federal (cerca de 4%) para a área de
educação. As universidades públicas são as principais produtoras de pesquisa
científica. Portanto, para que possamos nos tornar independentes
tecnologicamente, é necessário enfrentar o capital financeiro e mudarmos a
política econômica, por meio de uma profunda e ampla auditoria da dívida
pública, que atualmente consome cerca de 10 vezes mais recursos que a educação.
A.C.: A grande mídia aborda constantemente um "pessimismo" dos industriais
e investidores brasileiros. A candidata concorda que haja mesmo esse pessimismo
em relação à economia brasileira? Se sim, de que forma é possível conquistar a
confiança novamente?
L.G.: Conforme colocado
anteriormente, é preciso mudar a política cambial e reduzir os juros, para que
a indústria nacional possa sobreviver. Porém, quando eu falo na indústria,
estou me referindo prioritariamente aos trabalhadores, que estão sendo
demitidos, por exemplo, no setor automobilístico, apesar deste setor ter obtido
imensas desonerações de tributos recentemente.
É preciso, além de reduzir
os juros e os tributos sobre o consumo, impedir as demissões e proteger os
trabalhadores. Do contrário, os ganhos da indústria irão se traduzir somente em
aumento nos lucros dos empresários, e não na melhoria de vida do povo.
A.C.: Em uma entrevista à Folha de S. Paulo,
a candidata foi questionada sobre o fato de a mídia dar visão apenas para os
três "principais" candidatos. Além de dar visibilidade apenas a eles,
qual outra crítica a candidata tem sobre a cobertura da mídia nas eleições
deste ano?
L.G.: Geralmente, a grande
imprensa costuma omitir os principais problemas do país, como, por exemplo, a
dívida pública. Em qual telejornal foi mencionado que mais 40% do orçamento
federal é destinado ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública?
Nenhum. Esta informação apenas foi transmitida à população nos debates dos
presidenciáveis. Desta forma, a grande imprensa reproduz o discurso dominante,
feito por comentaristas quase sempre alinhados com o pensamento do capital
financeiro, que sempre costumam elogiar quando, por exemplo, o país faz o
chamado “superávit primário”, sem dizer que isso significa, em bom português, o
corte de gastos sociais para o pagamento de uma dívida ilegítima.
A.C.: Ainda falando sobre a mídia, é nítido o envolvimento direto entre bancos
(capital financeiro) e a grande mídia. A queda da Selic em 2012 para 7,5% provocou
um ataque ao governo usando a mídia como porta-voz deste sistema financeiro.
Caso a candidata seja eleita, como será possível enfrentar o capitalismo
financeiro sendo que ele tem a mídia como aliado? Neste caso, a mídia é um
componente considerável nesta batalha?
L.G.: Em primeiro lugar, é preciso
esclarecer que, ao mesmo tempo em que o governo reduzia a Taxa Selic em 2012
para 7,25% ao ano, o mesmo governo passou a emitir títulos a taxas de juros
superiores à Selic, de modo que o custo médio da dívida federal acumulado nos
12 meses terminados em dez/2012 era, simplesmente, de 11,55% ao ano. Portanto,
o “mercado” gosta de reclamar de barriga cheia.
Para, de fato, vencer a
dominação do capital financeiro, é preciso fazer uma ampla e profunda auditoria
sobre esta questionável dívida. Claro que a grande imprensa irá tentar
desqualificar esta iniciativa, chamando-a de “calote”, e tentando dizer que
isto provocaria uma grande crise econômica.
Porém, é interessante
citarmos um grande precedente histórico que tivemos no Equador, que realizou em
2007/2008 uma auditoria oficial de sua dívida, com a participação da sociedade
civil. Houve vontade política para abrir os arquivos, e foram encontradas
inúmeras e graves ilegalidades na dívida, tais como dívidas sem contrato,
imposições absurdas do FMI, dívidas autorizadas por pessoas sem poder para tal,
juros flutuantes, aplicação de “juros sobre juros” (anatocismo), dentre várias
outras irregularidades.
De posse destas informações,
o Presidente da República Rafael Correa fez uma ampla e didática divulgação
destas ilegalidades flagrantes descobertas pela auditoria, divulgando-as
inclusive em cadeia semanal de rádio, de modo a mostrar que aquela dívida já
havia sido paga, e era ilegítima. Resultado: os bancos aceitaram prontamente a
redução de 70% no valor da dívida mobiliária (em títulos) externa equatoriana,
um endividamento que é bastante semelhante ao brasileiro.
Isto mostra que é plenamente
possível derrotar o capital financeiro, se houver vontade política e
mobilização social.
Esta entrevista aconteceu por conta de uma atividade proposta por um professor do Instituto de Economia da Unicamp. Na disciplina de Desenvolvimento Econômico Brasileiro nos foi sugerido fazer apresentações rápidas sobre quais eram os posicionamentos dos candidatos à presidência da República sobre o tema que dá nome à matéria. Por conta da agenda da candidata não consegui apresentar as respostas, aqui publicadas, na sala de aula. Contudo, todas as afirmações da candidata aqui expressas estão em seu programa de governo, com exceção a parte sobre a cobertura da mídia, e acho que consegui transmiti-las aos meus colegas de curso.
Acompanhando mais de perto o desempenho da candidata em entrevistas e debates, vejo um esforço enorme para "aparecer". Não no sentido negativo da palavra, mas sim no sentido negativo da democracia brasileira. Como disse na introdução da entrevista, o tempo do PSOL na propaganda eleitoral obrigatória é muito curto. Se não bastasse a divisão desigual neste quesito, a mídia ainda só divulga informações sobre três dos onze candidatos à presidência: Dilma (PT), Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB). Além disso -- como mostrei em artigo recente publicado aqui e no Observatório da Imprensa --, quando a mídia dá espaço a essa "minoria", ainda faz questão de desmoralizar a candidata perante a opinião pública.
Me identifico com as propostas apresentadas pela Luciana Genro. Este ano concluo o curso de Ciências Econômicas na Unicamp e durante os quatro anos de estudo vi a forma como o capitalismo, e seu braço, o capitalismo financeiro, atuam na periferia do sistema, ou seja, nos países subdesenvolvidos. Quer seja em aulas de política, de micro ou macroeconomia, contabilidade nacional ou história econômica geral e do Brasil, a visão que obtive e reforcei é que vivemos em um sistema que privilegia os ricos, a elite burguesa, classe dominante, ou qualquer outro termo que seja adequado.
Muitos criticam Karl Marx e seus estudiosos usando um argumento superficial: ele é antiquado. Será? Uma leitura atenta do Capital mostra que o que foi escrito no século XIX se mantém vivo até hoje. A questão é que toda a exploração dos trabalhadores hoje é mascarada pelo discurso da modernidade. Hoje não, há algum tempo já. Nos é imposto que é preciso subir na vida, poupar, abrir seu próprio negócio e ser um empreendedor para ser feliz. Primeiro que empreendedorismo pode ser (e é) considerado como um dom. Nem todo mundo tem capacidade e talento para isso. Segundo que a ilusão da poupança é uma máscara usada pela mídia para inserir a crença, quase religiosa, de que é possível ter a mesma condição social de um personagem de novela, basta abrir uma poupança no seu banco de confiança e esperar.
Sendo assim, quando estudei estes temas aqui elencados, ficou claro que o "sucesso" é para poucos nas condições em que vivemos. E quem geralmente não enxerga isso vê no Bolsa Família, por exemplo, um programa que cria "vagabundos". Vê que não é necessário distribuir renda, e mais: que é um absurdo ter uma parte de seu rendimento revertido em assistencialismo.
No fundo, identifiquei as propostas da Luciana Genro com a teoria e a crítica dos quatro anos de graduação em Economia. É sim preciso: distribuir renda; mudar nosso sistema tributário para amenizar a carga sobre os pobres e aumentar sobre os ricos (isso é, deixar de ter uma tributação regressiva e troná-la progressiva); fazer uma reforma agrária; e, mais importante de tudo isso, rever a Dívida Pública brasileira para acabar com o enriquecimento dos bancos e outros agentes do mercado financeiro que se dá às custas do povo.
Penso que seria ótimo se todos pudessem ter a oportunidade que tive de estudar Economia. Como não é um curso desejado por todos, seria ótimo se todos pudessem dedicar uma ou duas horas, antes do primeiro turno das eleições, para avaliar seriamente as propostas dos candidatos. Ler e se informar evita que as propagandas sujas que são feitas nas redes sociais e na internet consigam o que se propõe: desmoralizações de candidatos, desinformação e manipulação eleitoral.
Dia 5 de outubro, portanto, voto 50.
domingo, 14 de setembro de 2014
Eleições, jogo sujo e a venda casada para a classe média
Minha opinião não deve ser surpresa para ninguém: há nas eleições
basicamente quatro atores. Elas são dominadas por poucos partidos, disputadas
por tantos outros considerados “nanicos”, influenciadas pela grande mídia que
exacerba seus interesses em manchetes e coberturas enviesadas e “decidida”
(entre aspas mesmo) pelos eleitores.
Acompanhando mais de perto um dos candidatos à presidência
da República deste ano, a crítica à imprensa foi um argumento muito utilizado
pela candidata do PSol, Luciana Genro. Em mais de uma entrevista ela criticou a
falta de espaço que seu partido tem na cobertura da grande mídia. Em semanas
não lembro de ter visto seu nome ou de qualquer outro candidato que não seja os
três “principais” nas folhas do Estado de S. Paulo ou na tela Globo, por
exemplo. Isso é fato.
Desconsiderando por hora alguns interesses vou me ater à uma
entrevista da candidata citada para a TV Folha. A entrevista ocorreu na
sexta-feira , dia 12 de setembro, foi transmitida ao vivo e está disponível no
site do jornal hoje. Minha intenção não é fazer propaganda política, mas não há
como fazer a crítica ao jornal sem analisar o todo da entrevista e como ela foi
veiculada.
Quem procura o vídeo de Luciana Genro (PSol) no site da
folha vai se deparar com o seguinte título: “Luciana Genro defende invasão de
imóveis para moradia; veja entrevista”. No total o vídeo disponibilizado pela
Folha tem pouco mais de 46 minutos e não está completo, vide que ele foi
cortado antes de a candidata responder uma das perguntas de leitores do
veículo.
Analisando do ponto de vista da informação, o título foi
fruto de uma declaração da candidata durante uma discussão das ações do Movimento
dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). O
jornalista que a entrevistava questionou qual a posição da candidata quanto às
“invasões” de terrenos pelo MTST para fins de moradias sociais. Em sua resposta
a candidata faz uma correção: invasão, para ela, é um erro de semântica uma vez
que este termo se refere à tomada de um imóvel ocupado; ela usa então o termo
ocupação. Genro continua defendendo as ocupações usando como argumento os
preços dos aluguéis e a ação de grandes empreiteiras que teriam, na fala dela,
comprado grandes conjuntos de terra e “tomado conta do Minha Casa, Minha Vida e
hoje quem determina a política habitacional no Brasil são as empreiteiras
através do programa” do governo.
Então o jornalista lança o que eu encarei como uma
“armadilha”: “A senhora destacou a questão semântica entre invasão e ocupação
que não é uma invasão porque o terreno não está ocupado. No caso de um imóvel,
de um apartamento, uma família que tenha oito apartamentos, ela tem três
apartamentos vazios, não quer alugar, etc., o apartamento não está alugado. A
senhora defende a ocupação destes imóveis também?”
A candidata alega que “este não é o método do MTST” e é
interrompida pelo jornalista que volta a questionar: “Eu estou perguntando se a
senhora defenderia. Se a semântica vale para terreno poderia valer para isso
também, ou não?”. Se a candidata é pega ou não na armadilha é questionável.
Porém, para o que o jornalista estava em mente a armadilha capturou o urso
perfeitamente. É um exemplo claro daquelas perguntas que induzem à resposta que
o jornalista quer ouvir para usar como manchete de sua reportagem.
Ao assistir a entrevista completa e levando em conta o
programa da candidata e sua atuação no horário político e nos debates aos quais
ela é convidada, há três possíveis razões para o que eu enxergo como uma falta
de ética e estigmatização da candidata. O primeiro ponto, ligado ao seu
programa de governo, leva em consideração sua campanha contra o capitalismo
financeiro. Em vários pronunciamentos e entrevistas, Genro atribui aos bancos e
ao mercado financeiro o papel de inibidor de uma política mais social uma vez
que essas instituições mantém seus lucros enquanto o trabalhador se mantém
endividado. Neste ponto questiona-se quais os interesses da imprensa e sua
conexão com o sistema financeiro. Durante as ações do Banco Central e do
governo Dilma (PT) na derrubada da Selic entre 2011 e 2012 os jornais se
colocaram contrários os juros baixos defendendo o interesse do sistema que
beneficia especuladores.
A segunda causa possível para o jornalista lançar esta
armadilha foi o ataque direto que a candidata do PSol fez à grande mídia e à
Folha de S. Paulo. Quando questionada na mesma entrevista à TV Folha sobre a
possibilidade de seu governo controlar a mídia, Luciana Genro indagou que a
liberdade de imprensa é praticamente uma falácia, uma vez que são os donos dos
jornais que determinam o que é ou não veiculado. Além desta acusação, a
candidata também apontou a cobertura da grande mídia sobre a corrida
presidencial deste ano.
Segundo ela, os grandes jornais e emissoras de televisão só
dão espaço para três candidatos “viáveis”, na definição dela, para se votar e
complementa: “inclusive a própria Folha que cobre fundamentalmente os três
candidatos e ignora os demais. Isso não é democracia". Estava o jornalista
ofendido ou não por ter tido seu “patrão” acusado de antidemocrático, é uma
questão a ser avaliada. Se sim, lhe faltou profissionalismo; se não, esta
hipótese está descartada.
Já a terceira, é o fato de o jornalista ter sido corrigido,
ao vivo, na questão semântica da palavra invasão. Aí o argumento é o mesmo
anterior: falta de profissionalismo ou a hipótese derrubada. A avaliação destes
dois primeiros pontos deve considerar a postura dos dois jornalistas durante a
entrevista.
Independente de qualquer uma das alternativas, ao analisar a
entrevista da candidata e suas propostas para seu possível governo, o título
poderia ser diferente. Ela defendeu imposto sobre as grandes fortunas,
portanto, um título possível seria: “Luciana Genro defende taxação sobre
grandes fortunas para investir em educação”; ou então sobre o casamento civil
igualitário; a descriminalização da maconha; o fato de ela querer consultar o
povo sobre a reeleição de ocupantes de cargos políticos; entre outros.
O que a Folha fez faz parte de uma estratégia de
desmoralização desta candidata, o que não necessariamente isenta outros
candidatos de passarem pelo mesmo. Sendo um jornal lido pela classe média, o
editor que escolheu o título apelou para o imaginário popular ao usar “defende
invasão de imóveis para moradia”. Em primeiro lugar, o jornalista foi corrigido
no uso da palavra invasão, para Luciana Genro seria ocupação.
Em segundo, há um preconceito contra qualquer movimento que
fira o “direito da propriedade privada” no mundo liberal em que vivemos. Quando
a candidata foi questionada sobre a possibilidade de ocupação de “imóveis”,
leia-se “apartamentos que não estão habitados”, o jornalista resgatou do
imaginário popular o temor de que o grupo MTST começasse a “invadir”
apartamentos em São Paulo para garantirem moradias sociais. Esta estratégia não
é nova, há antecedentes na política como na eleição de Lula (PT) em 2002 quando
o petista precisou fazer uma carta para sossegar o mercado financeiro alegando
que não haveria grandes revoluções na política brasileira.
O que é visível aqui é uma candidata de esquerda sendo
colocada à margem do debate eleitoral e mais, ganhando um papel que não lhe
cabe. Recorrer ao imaginário dos leitores da Folha para que eles associassem
Luciana Genro ao MTST e sua defesa de ocupações de terrenos desocupados é um
jogo sujo. O título induz o leitor, ou neste caso, internauta a esperar pelo
momento crucial em que a candidata faz a afirmação que casa com o que foi
vendido aos seus olhos.
Trata-se pontando de uma venda casada e uma propaganda
enganosa. Enganosa porque a candidata foi pega numa armadilha, o jornalista
cometeu o “erro de semântica” no título da notícia e o que o título vende não é
necessariamente o que a candidata afirmou. E é uma venda casada porque fornece
aos leitores do jornal um box de manutenção da direita, dos interesses da
classe média e da propriedade privada e de brinde uma mensagem: “não vote nela
ou seu apartamento será invadido”. Agora fica a pergunta ao jornalista da
Folha: há em São Paulo mais proprietários de oito apartamento ou famílias que
destinam grande parte de seu salário ao aluguel?
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Minha qualificação da dissertação...
Depois de um ano e meio de trabalho, finalmente apresentei
minha qualificação no mês passado. Uma amiga me perguntou quais foram as minhas
impressões deste exame e resolvi escrever este texto para compartilhar com mais
pessoas que passarão por essa experiência/etapa da dissertação.
Desconheço como é o exame de qualificação em outras
universidades e institutos da Unicamp. Apresentei o meu no Laboratório de
Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp), onde faço o curso de Mestrado
em Divulgação Científica e Cultural. O objetivo principal da qualificação é
apresentar o desenvolvimento da dissertação após um ano de trabalho.
Em geral sei que é preciso apresentar ao menos um capítulo
teórico iniciado e um capítulo mais empírico, que apresenta como a pesquisa
está tomando forma. Minha dissertação é uma análise da cobertura das revistas
Veja, Carta Capital, Isto é e Época do processo de privatização durante os dois
governos de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995-2002.
Por conta do projeto, apresentei três capítulos parciais: um
sobre comunicação e economia, outro sobre jornalismo econômico e um terceiro
que é uma análise parcial de quatro edições das revistas Veja e Carta
Capital. Não tem como apresentar três ou
quatro páginas e dizer que está em andamento, óbvio, mas também não é preciso
que os capítulos estejam concluídos já.
Esses capítulos, ou melhor, este texto geral é analisado por
dois professores convidados. Eu escolhi uma ex-professora de Jornalismo (que
tive no Isca Faculdades e hoje dá aulas na Unimep e na PUC Campinas) e um
professor de História Econômica da Unicamp. Entreguei uma cópia do trabalho
impressa para cada um 20 dias antes da banca para que eles tivessem tempo de
ler e analisar o conteúdo.
No dia da apresentação, na minha visão, cometi um erro: quis
apresentar o todo do trabalho para os dois professores convidados e para minha orientadora.
O problema é: eles já leram, então pra quê apresentar tudo de novo? Este foi um
problema a partir do momento que excedi o tempo de 30 minutos de apresentação.
Então fica uma dica: apresente o básico dos capítulos teóricos e foque nas
análises, quando a pesquisa for quantitativa ou qualitativa.
Depois de apresentar veio a arguição dos membros da banca.
Algo que minha orientadora (Graça Caldas) falou desde o começo é: os
professores da banca vão fazer suas críticas ao trabalho, mas cabe a nós dois
aceitar ou não as sugestões deles. E é justamente isso que ocorre. Além de
elogios, os professores fazem sugestões muito importantes para a continuidade
do trabalho.
Um exemplo da participação da banca é a inclusão da teoria
organizacional no meu trabalho. A professora de jornalismo apontou que minha
defesa da manipulação da mídia ficaria vaga se eu não analisasse a organização
das empresas que estão por detrás das revistas. Ou seja, dizer que a imprensa
manipula a informação com base em uma ideologia X ou Y é vago uma vez que
qualquer construção de texto é um processo de manipulação de fontes, palavras e
informações. Sendo assim, não basta analisar o contexto social, econômico e
histórico para enquadrar uma revista como heterodoxa ou ortodoxa. A dica da
professora foi justamente voltar um pouco a atenção para essa teoria do
jornalismo que comentei e outras que podem me dar mais embasamento para afirmar
que a ideologia que está por detrás das
organizações interferem na forma como as notícias são construídas, vendidas e
interpretadas pelos leitores.
O professor de Economia da Unicamp, por sua vez, focou na minha
construção do contexto econômico. A principal crítica dele é que meu trabalho
estava superficial e precisava de uma síntese melhor. Por ser um trabalho
interdisciplinar que engloba comunicação, análise do discurso, jornalismo e
economia, percebo que é impossível aprofundar tanto quanto eu gostaria em todos
estes pontos. Por se tratar de um fenômeno econômico e do jornalismo
especializado nessa área não tem como deixar essa discussão sem uma mínima
atenção.
A arguição do professor foi pelo caminho da análise da
estrutura social que está por detrás dos eventos que ocorreram nos anos 1980 e
1990. Para ele, não basta apenas citar o que aconteceu neste período é preciso
se debruçar sobre a parte sociológica e as relações de poder também. Este
professor dá aulas que seguem exatamente o que ele arguiu na minha qualificação
– justamente por isso que o convidei para o exame. Contudo, há uma delimitação
de tempo e “espaço” para tratar do tema. Mas as colocações que ele fez era
exatamente o que eu queria ouvir e quero tentar incorporar no trabalho.
Enfim, após a arguição de cada um dos professores, tive um
tempo para responder ou me posicionar frente às sugestões e críticas. Foi mais
uma formalidade que um momento de discutir o que será incorporado ou não,
afinal isso só será definido em reunião com minha orientadora e não com os
membros da banca. Portanto, minha impressão é que o exame de qualificação é 30%
protocolo e 70% uma nova visão sobre o trabalho. Destaque para este último
ponto. A ansiedade de saber a opinião de dois novos professores sobre seu
trabalho é muito interessante. Ouvir elogios e mesmo as críticas também.
Espero que tenha sido claro. ;)
Boa sorte para quem vai passar pela qualificação. Logo
escrevo sobre a defesa da dissertação, mas ainda tenho mais um ano para
trabalhar, então let’s go!
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Dica superútil: Scanner Pro (app para IOS e Android)
Andei pesquisando alguns aplicativos para facilitar minhas documentações da dissertação e encontrei um que acho que deva ser o melhor: Scanner Pro. O vídeo abaixo mostra como o aplicativo funciona, mas testei ele pessoalmente esta semana e mais que aprovei.
Para minha dissertação do mestrado preciso escanear várias páginas das revistas Carta Capital, Época e Isto É - infelizmente essas três publicações não têm acervos online como a Veja. Tentei usar o scanner da universidade, mas só consegui digitalizações branco e preto. Além disso, a dinâmica da coisa é muito ruim: ficar virando a revista, segurando a tampa do scanner e tudo mais... Mas usar o iPad para escanear as páginas que preciso foi a solução mais fácil e rápida que encontrei.
Basta abrir a revista na página, focar a câmera, fotografar e deixar o app fazer o resto. Logo após uma fotografia o usuário pode dimensionar as bordas do documento e o app redimensiona no tamanho escolhido (A4, por exemplo). Quando concluir os escaneamentos a série de fotografias é transformada em pdf e pode ser enviada para o iCloud, Dropbox, GoogleDocs, além de outras opções.
O único ponto negativo é fotografar/escanear várias páginas seguidas. Como é preciso ajustar a maior parte das bordas esse trabalho demanda tempo. A solução que eu achei foi fotografar todas as páginas com a câmera e depois, em casa, dimensionar cada uma, anexando elas ao documento.
Para quem trabalha, na academia ou nas redações, com documentos, esse app vale muito a pena!
Para minha dissertação do mestrado preciso escanear várias páginas das revistas Carta Capital, Época e Isto É - infelizmente essas três publicações não têm acervos online como a Veja. Tentei usar o scanner da universidade, mas só consegui digitalizações branco e preto. Além disso, a dinâmica da coisa é muito ruim: ficar virando a revista, segurando a tampa do scanner e tudo mais... Mas usar o iPad para escanear as páginas que preciso foi a solução mais fácil e rápida que encontrei.
Basta abrir a revista na página, focar a câmera, fotografar e deixar o app fazer o resto. Logo após uma fotografia o usuário pode dimensionar as bordas do documento e o app redimensiona no tamanho escolhido (A4, por exemplo). Quando concluir os escaneamentos a série de fotografias é transformada em pdf e pode ser enviada para o iCloud, Dropbox, GoogleDocs, além de outras opções.
O único ponto negativo é fotografar/escanear várias páginas seguidas. Como é preciso ajustar a maior parte das bordas esse trabalho demanda tempo. A solução que eu achei foi fotografar todas as páginas com a câmera e depois, em casa, dimensionar cada uma, anexando elas ao documento.
Para quem trabalha, na academia ou nas redações, com documentos, esse app vale muito a pena!
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Engels e PNUD - o que sobra para os pobres?
Lendo o livro "A situação da classe trabalhadora na Inglaterra", de Frederich Engels, escrito em 1845, me deparei com a seguinte passagem:
"Na escala em que, nessa guerra social, as armas de combate são o capital, a propriedade direta ou indireta dos meios de subsistência e dos meios de produção, é óbvio que todos os ônus de uma tal situação recaem sobre o pobre. Ninguém se preocupa com ele: lançado nesse turbilhão caótico, ele deve sobreviver como puder. Se tem a sorte de encontrar trabalho, isto é, se a burguesia lhe faz o favor de enriquecer à sua custa, espera-o um salário apenas suficiente para o manter vivo; se não encontrar trabalho e não temer a polícia, pode roubar, pode ainda morrer de fome, caso em que a polícia tomará cuidado para que a morte seja silenciosa para não chocar a burguesia." (Engels: 2010, p. 69 - edição da editora Boitempo)
Eis que hoje foi divulgado o Relatório de Desenvolvimento Humano 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A notícia no site da PNUD se inicia assim:
"A vulnerabilidade persistente ameaça o desenvolvimento humano. E se não for combatida sistematicamente por políticas e normas sociais, o progresso não será nem equitativo nem sustentável. Esta é a premissa central do Relatório do Desenvolvimento Humano 2014, divulgado hoje pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD).
"Intitulado Sustentar o Progresso Humano: Reduzir as Vulnerabilidades e Reforçar a Resiliência, o relatório fornece uma nova perspectiva sobre a vulnerabilidade e propõe maneiras de fortalecer a resiliência.
"De acordo com as medidas de pobreza com base na renda, 1,2 bilhão de pessoas vivem com US$ 1,25 ou menos por dia. No entanto, as estimativas mais recentes do Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) do PNUD revelam que quase 1,5 bilhão de pessoas em 91 países em desenvolvimento estão vivendo na pobreza, com a sobreposição de privações em saúde, educação e padrão de vida. Embora a pobreza esteja diminuindo em geral, quase 800 milhões de pessoas estão sob o risco de voltar à pobreza caso ocorram contratempos. " (Disponível em: http://www.pnud.org.br/Noticia.aspx?id=3910)
Precisa comentar mais? O que realmente mudou entre 1845 e 2014?
Continuando a citar Engels:
"Morrem de fome, é certo, indivíduos isolados, mas que segurança tem o operário de que amanhã a mesma sorte não o espera? Quem pode garantir-lhe que não perderá o emprego? Quem lhe assegura que amanhã, quando o patrão - com ou sem motivos - o puser na rua, poderá aguentar-se, a si e à sua família, até encontrar outro que 'lhe dê o pão'? Quem garante ao operário que, para arranjar emprego, lhe basta boa vontade para trabalhar, que a honestidade, a diligência, a parcimônia e todas as outras numerosas virtudes que a ajuizada burguesia lhe recomenda são para ele realmente o caminho da felicidade? O operário sabe que, se hoje possui alguma coisa, não depende dele conservá-la amanhã; sabe que o menor suspiro, o mais simples capricho do patrão, qualquer conjuntura comercial desfavorável podem lançá-lo num turbilhão do qual momentaneamente escapou e no qual é difícil, quase impossível, manter-se à tona. Sabe que se hoje tem meios para sobreviver, pode não os ter amanhã." (Engels: 2010, pp. 69-70)
E ai, alguma mudança para os dias de hoje?
"Na escala em que, nessa guerra social, as armas de combate são o capital, a propriedade direta ou indireta dos meios de subsistência e dos meios de produção, é óbvio que todos os ônus de uma tal situação recaem sobre o pobre. Ninguém se preocupa com ele: lançado nesse turbilhão caótico, ele deve sobreviver como puder. Se tem a sorte de encontrar trabalho, isto é, se a burguesia lhe faz o favor de enriquecer à sua custa, espera-o um salário apenas suficiente para o manter vivo; se não encontrar trabalho e não temer a polícia, pode roubar, pode ainda morrer de fome, caso em que a polícia tomará cuidado para que a morte seja silenciosa para não chocar a burguesia." (Engels: 2010, p. 69 - edição da editora Boitempo)
Eis que hoje foi divulgado o Relatório de Desenvolvimento Humano 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A notícia no site da PNUD se inicia assim:
"A vulnerabilidade persistente ameaça o desenvolvimento humano. E se não for combatida sistematicamente por políticas e normas sociais, o progresso não será nem equitativo nem sustentável. Esta é a premissa central do Relatório do Desenvolvimento Humano 2014, divulgado hoje pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD).
"Intitulado Sustentar o Progresso Humano: Reduzir as Vulnerabilidades e Reforçar a Resiliência, o relatório fornece uma nova perspectiva sobre a vulnerabilidade e propõe maneiras de fortalecer a resiliência.
"De acordo com as medidas de pobreza com base na renda, 1,2 bilhão de pessoas vivem com US$ 1,25 ou menos por dia. No entanto, as estimativas mais recentes do Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) do PNUD revelam que quase 1,5 bilhão de pessoas em 91 países em desenvolvimento estão vivendo na pobreza, com a sobreposição de privações em saúde, educação e padrão de vida. Embora a pobreza esteja diminuindo em geral, quase 800 milhões de pessoas estão sob o risco de voltar à pobreza caso ocorram contratempos. " (Disponível em: http://www.pnud.org.br/Noticia.aspx?id=3910)
Precisa comentar mais? O que realmente mudou entre 1845 e 2014?
Continuando a citar Engels:
"Morrem de fome, é certo, indivíduos isolados, mas que segurança tem o operário de que amanhã a mesma sorte não o espera? Quem pode garantir-lhe que não perderá o emprego? Quem lhe assegura que amanhã, quando o patrão - com ou sem motivos - o puser na rua, poderá aguentar-se, a si e à sua família, até encontrar outro que 'lhe dê o pão'? Quem garante ao operário que, para arranjar emprego, lhe basta boa vontade para trabalhar, que a honestidade, a diligência, a parcimônia e todas as outras numerosas virtudes que a ajuizada burguesia lhe recomenda são para ele realmente o caminho da felicidade? O operário sabe que, se hoje possui alguma coisa, não depende dele conservá-la amanhã; sabe que o menor suspiro, o mais simples capricho do patrão, qualquer conjuntura comercial desfavorável podem lançá-lo num turbilhão do qual momentaneamente escapou e no qual é difícil, quase impossível, manter-se à tona. Sabe que se hoje tem meios para sobreviver, pode não os ter amanhã." (Engels: 2010, pp. 69-70)
E ai, alguma mudança para os dias de hoje?
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Série experiências acadêmicas. Texto 3: Graduação em Economia na Unicamp
Eu sou muito suspeito para falar desse curso por que eu
simplesmente AMO, apesar de DETESTAR algumas partes (nada é perfeito). Quando
terminei a graduação em Jornalismo e fui efetivado em um jornal diário em
Limeira comecei a ter mais contato com matérias sobre economia. Até o final da
primeira graduação nunca tinha pensado em fazer outra, mas ideia surgiu quando
tentei fazer o processo seletivo para mestrado no Instituto de Economia e não
passei (claro). Isso foi em 2009 e neste ano resolvi traçar um caminho
diferente: entrar na graduação em Economia, enquanto estivesse nela fazer um
mestrado em Jornalismo e quando concluísse os dois cursar o doutorado em
Economia. Estou na metade desse caminho...
Bom... sobre o curso agora. Eu sempre costumo parafrasear
uma economista chamada Maria Conceição Tavares: “Economia é matemática,
história e política” e quem quer ganhar dinheiro no mercado financeiro vá
cursar estatística ou matemática. Foi mais ou menos isso que ela disse e hoje
eu percebo que ela tem toda a razão (infelizmente).
Minha birra: exatas
Eu, particularmente, detesto a área de exatas do meu curso.
Somos obrigados a fazer disciplinas de cálculo e estatística para chegar em
econometria. O problema não é cursar essas disciplinas, na minha visão o ruim
está na forma como algumas delas são ministradas e avaliadas. Há professores
que sequer se importam se o aluno está entendendo ou não e correm com a matéria
como se quisessem se ver livres daquela tortura todas as aulas. Outros
professores sequer tem a simpatia necessária para lidar com alunos de graduação.
Esses acham que o aluno, por passar no vestibular, está 100% pronto e com uma
memória ímpar para lembrar todas as fórmulas e macetes necessários para resolver
uma conta em meio minuto.
O ruim disso tudo é que algumas avaliações focam mais nesses
macetes: “relembre como resolver essa conta usando log”, ou seno e cosseno ou então,
“seja capaz de olhar para a fórmula e sacar do fundo da sua memória que toda
ela pode ser dividida por um algoritmo e a solução fica muito mais fácil”. Isso
é RIDÍCULO. Não se avalia se o aluno entendeu a matéria e é capaz de mostrar
esse conteúdo com números e fórmulas simples. Os professores parece que fazem
questão de complicar ao máximo para ver se o aluno é esperto ou não (eu não
sou, por isso só me dou mal). Ai vem eles dizendo: façam exercício, o treino
ajuda. Ok, eu até faço os exercícios, mas ai não me sobra tempo para ler as 400
páginas das outras matérias. E ai? Ai que é cada um por si e Deus por todos!
Minha paixão: humanas
Já a parte de humanas dificilmente tenho reclamações a
fazer. As leituras e discussões propostas pelos professores de História e
política são ótimas. Elas abrem a cabeça para te fazer entender não só o porque
que nossa economia é como é, mas também ajuda olhar para como a sociedade se
constrói a partir das relações econômicas e das heranças colonizadoras, no caso
do Brasil. O problema disso é que eu acho que o nível de criticismo aumenta, e
muito. Ver alguns posts no facebook, por exemplo, podem ser torturantes.
Afinal, não é apenas criticar político X ou Y, a política X ou Y adotada aqui
ou acola... a história que existe por detrás disso tudo é tão importante quanto
a ação tomada no presente. O interessante, contudo, é quando você tenta
argumentar com alguma pessoa extremista: você quebra todos os argumentos dela
usando a história e ela foge pela tangente.
Agora sobre esse ponto acho que dá para afirmar que a visão
da Unicamp é quase totalmente de esquerda. Isso daria um post enorme que eu
acho que não estou sequer preparado para defender e explicar, mas não basta
apenas cortar gastos, salários e aumentar os juros. Medidas que parecem tão
simples podem afetar tanto o desenvolvimento econômico e social de um país e a
ala da direita sequer parece parar para pensar na sociedade antes de bradar
para todos os cantos suas teorias e soluções para o mundo.
Uma decepção: alguns
professores
Já teci alguns comentários sobre os professores de exatas.
Uma ressalva: não são todos de exatas que são assim. Tive uma professora que
foi excelente tanto na didática quanto nas avaliações. Foi justa. Contudo, não
é regra. Como também não é regra que só professores de exatas são ruins, existe
professor de humanas PÉSSIMO também. Já ouvi esse argumento várias vezes e
tendo a aceita-lo cada dia mais: há professores que se interessam apenas por
suas pesquisas e pouco se importam com as aulas na graduação. A pesquisa
acadêmica é vista por eles como o que realmente lhes dá status e reconhecimento
nesse meio. Por conta disso alguns professores até se recusam em assumir
disciplinas na graduação, o que é lamentável.
Em citar nomes, alguns exemplos são professores que não se
preocupam com o conteúdo que estão passando para os alunos, simplesmente usam a
pesquisa que desenvolvem para ficar discutindo os autores em sala. Ou então
ministram algumas aulas com total desleixo e sem a preocupação se o aluno vai
aprender o proposto pela disciplina ou não. Cheguei a presenciar um professor
no começo da graduação que sequer sabia a matéria que estava ensinando! Quando
ele era questionado sobre a resolução do exercício, não respondia e ainda
ficava bravo por receber os questionamentos. Mas... nada é perfeito, porém, eu
acredito fielmente que o problema disso é a estabilidade que os professores
têm. Sem essa estabilidade e com a possibilidade de serem demitidos a qualquer
momento por não cumprirem com seus deveres, acho que a qualidade aumentaria
muito.
Outra decepção: sem
solução para esses professores
Professor ruim exite aqui, ali e lá. Lá você pode reclamar e
pode ser que o professor seja até demitido por não estar cumprindo com o seu
papel de professor. Ali o aluno pode reclamar e ser simplesmente ignorado
porque há um nível de coleguismo entre os professores tão grande que pouco
importa a visão da ralé acadêmica. Aqui, no Instituto de Economia, existe o
canal de reclamações dos professores (uma avaliação semestral), ela é levada em
consideração pela Coordenação do curso mas, mesmo após conversa com o
professor, essa coordenação fica de mãos atadas por que não têm nenhum
mecanismo legal ao qual possa recorrer para obrigar que o professor mude sua
atitude. Dentro da sala de aula o professor é soberano (e alguns acreditam que
ditador também), portanto eles têm plena autonomia. A autonomia e soberania,
contudo, é tão grande que a maior parte dos alunos tem medo (isso mesmo, medo)
de reclamar de algum professor e ser prejudicado por ele nas avaliações.
PÉSSIMO.
Conclusão
Professor e profissional ruim tem em todos os lugares, mas
mesmo assim meu gosto pela Economia da Unicamp não diminui. A única coisa que
tiro de bom desses pontos negativos é a experiência que eu não quero segui
quando (e se) eu for um desses professores.
Série experiências acadêmicas. Texto 2: Trabalhar e estudar, vale a pena?
Uma outra forma de arcar com as despesas pessoais durante a
graduação é o estágio. Contudo, eu acho que é preciso ter cuidado na hora de
decidir estagiar. Infelizmente nem todos têm condições de continuar estudando
sem trabalhar e ter as despesas bancadas pelos pais. Essa realidade é enxergada
pela universidade que disponibiliza cursos noturnos em algumas áreas –
Economia, Biologia, Educação Física, algumas Engenharias, por exemplo.
Contudo, ter que
trabalhar é realmente uma pena por que o tempo para se dedicar aos estudos fica
realmente escasso – falo isso pela minha
experiência na graduação em Economia. A quantidade de textos e de exercícios de
extas que um estudante precisa estudar é realmente grande. Algumas disciplinas
indicam páginas e páginas de leituras obrigatórias e complementares. Meu sonho
sempre foi poder ler todos os textos indicados e alguns mais. Consequência
disso é que tenho mais livros que tempo para lê-los...
Nos primeiros semestre tive que trabalhar em uma multinacional
para me bancar. Era um contrato de 44 horas semanais e uma empresa que sugava
minha alma – tanto que passei o Reveillon de 2011 para 2012 trabalhando até 4h
da manhã! Por conta disso tive que ficar várias madrugadas acordado para dar
conta de ler todos os textos e estudar todo o conteúdo que precisava. Imagino
que alguns cursos possam ser mais fáceis ou “administráveis”. Além disso, uma
boa administração do tempo e a elaboração de uma boa agenda ajuda muito quando
só estudar não é uma opção. E neste caso vale muito a pena dedicar algumas
horas pesquisando e lendo livros que ajudem na organização dos estudos. A
própria Unicamp oferece algumas disciplinas e palestras para os alunos para
ensinar como fazer isso – são muito úteis.
Vale citar aqui um professor desse semestre que disse algo
que eu concordo plenamente: “o aluno não deveria trabalhar. Ele esta sendo
financiado pelo governo para estudar e trabalhar acaba tirando o tempo de
estudo dele”. Isso é pura verdade, mas não condiz com a realidade de muitos.
Contudo, eu acho que vale mais uma crítica: universidade pública te oferece
curso de graça com dinheiro do povo. Vale muito ter isso em mente antes de
resolver fazer um curso para benefício próprio – focar no seu enriquecimento,
querer apenas o diploma para ter um bom salário e se dar bem na vida, como,
infelizmente, muitos que estão lá dentro fazem e pensam. Não é tão simples
assim, mas é uma questão de consciência. Conseguir uma vaga numa universidade pública e sair dela colando
em todas as provas, se enganando e achar que está enganando os professores, pra
mim, é ridículo. Enfim... vai da cabeça de cada um.
Agora sobre estágios, aqueles dentro da Unicamp realmente só
servem para ter uma renda e não para aprender algo útil para sua carreira. Fiz
estágio em uma faculdade e trabalhava no setor de compras. O conhecimento que
adquiri para minha carreira foi mínimo. Costumava falar, enquanto trabalhava
lá, que “pelo menos se nada der certo eu posso mandar currículo para empresas
para trabalhar no setor de compras”, como se fosse fácil assim... E essa
constatação não é só minha, vários colegas de sala, ao descreverem seus
estágios dentro da Unicamp me deixavam com a certeza de que estágio lá dentro é
exploração de mão de obra barata e qualificada. O valor da bolsa não tem
revisão há um bom tempo. Porém, é uma opção se o foco é estudar e trabalhar é
uma necessidade por que a carga horária é pequena e geralmente flexível o que
permite fazer disciplinas durante a manhã ou final da tarde.
Sobre estágio em outros lugares na área de economia não
posso falar nada, não fiz, não me arrisco. Contudo, se forem iguais aos
estágios que fiz em jornalismo, eu recomendaria na hora! Quando cursei
jornalismo fiz estágio em uma assessoria de imprensa e em um jornal diário.
Foram os lugares que realmente aprendi a profissão e que também me deram a
certeza de querer carreira acadêmica, dado que a instabilidade de um chefe
bipolar é péssima.
Série experiências acadêmicas. Texto 1: Estudar em uma universidade pública
Como não escrevo há muito tempo no blog, resolvi contar algumas experiências acadêmicas que podem ser uteis para outras. Será, inicialmente, uma série de quatro textos a começar por este sobre “estudar em uma universidade pública”.
Hoje estou no sétimo semestre da graduação em Economia e no terceiro do mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor, ambos da Unicamp e sobre os quais vou escrever depois. Durante três anos e meio pude presenciar algumas coisas interessantes que resolvi elencar e comentar aqui.
1) Vida acadêmica
A Unicamp é praticamente uma cidade universitária. Ela está dentro dessa cidade e é essa cidade ao mesmo tempo. No começo do curso eu tinha uma visão maravilhada de toda a estrutura da universidade e confesso que até hoje me sinto bem quando ando pelas ruas e institutos de lá. Para quem estudou numa faculdade privada restrita a um complexo de seis prédios interligados (onde cursei minha primeira graduação), ver faculdades e institutos, cada um em seu quarteirão ou quarteirões é muito interessante.
A impressão que eu tinha no começo era de que estava sempre passando por um “portal do conhecimento” quando entrava na Unicamp. Ainda mais como jornalista formado não tinha como não ficar entusiasmado de passar ao lado dos prédios que abrigam especialistas de tantas diferentes áreas do conhecimento. Chegava a pensar que o conhecimento nasce ali, o que não deixa de ser uma verdade, embora tenda a achar hoje que o conhecimento se transforma ali dentro e não nasça.
2) Oportunidades
Algo que eu sempre ressalto quando defendo que todos deveriam ao menos tentar fazer o vestibular da Unicamp (e acho que de outras universidades públicas também) é o ponto das oportunidades. A Unicamp chega a financiar alunos de baixa renda para garantir que eles consigam estudar. Se você foi capaz de passar no vestibular da universidade, mas não tem dinheiro para se arcar com os gastos de morar longe de sua cidade, o Serviço de Apoio ao Estudante concede alimentação, moradia, vale transporte e outros benefícios para que os alunos consigam se manter. Comparado com a lógica privada de ensino, isso é sensacional.
3) Corpo discente
Algo que me arrependo de não ter participado até agora é do Centro Acadêmico do meu curso. Um CA, geralmente, é um grupo de estudantes que discutem a vida acadêmica dentro de seu curso (essa é uma definição bem simplista). Contudo, até hoje não me senti atraído pelos grupos de estudantes que passaram pelo CA do meu curso, dado que a discussão que eles fazem me incomoda um pouco... contudo, acho que é válido todo estudante ao menos se informar sobre o CA do curso que pretende cursar para participar um pouco das discussões acadêmicas (se elas existirem lá).
segunda-feira, 16 de junho de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Você sabe o que é taxa de câmbio real, nominal e Paridade do Poder de Compra?
Fazendo minha monografia para a conclusão da graduação em economia, resolvi escrever um pouco mais sobre alguns conceitos. Esta é a parte que falo sobre taxa de câmbio (ainda não revisada pela minha orientadora) e que vou usar para o próximo vídeo do vlog "Vou ter que desenhar?". Segue o texto:
A taxa de câmbio, no Brasil, pode ser definida como o preços da moeda
estrangeira medido em valores da moeda nacional, representado pelo quociente
moeda local/moeda estrangeira – R$/US$ em nosso caso (Carvalho et al: 2007, p. 340). Um aumento dessa taxa significa
que a moeda estrangeira ficou mais cara, portanto, uma depreciação da moeda nacional
ou uma desvalorização nominal na taxa de câmbio, afinal é necessário mais moeda
nacional para comprar uma estrangeira. Quando a moeda estrangeira fica mais
barata há uma queda na taxa de câmbio, portanto uma apreciação nominal da taxa
e uma valorização da moeda nacional.
A importância desses movimentos dos preços das moedas nacional e
estrangeira é fundamentalmente sentida pelos setores da economia que mantêm
relações com o mercado internacional de bens e serviços e também no mercado
financeiro internacional. De forma geral, valorizações da moeda estrangeira (apreciação
da taxa de câmbio) estimulam as exportações e desestimulam as importações,
quando consideramos tudo mais constante (coeteris
paribus). Um exportador recebe mais reais ao converter o dólar em nossa
moeda e o importador vai precisar de mais moeda nacional para adquirir um produto
precificado nessa moeda estrangeira. O contrário é verdadeiro: desvalorização
da moeda estrangeira (depreciação da taxa) desestimulam as exportações e
estimulam as importações. A taxa de câmbio é, portanto, o parâmetro que permite
realizar as conversões entre as moedas nacional e estrangeiras (quando
consideramos também operações em euro, peso e outras moedas).
Essas considerações são feitas utilizando a taxa de câmbio nominal. O
cálculo para a taxa real de câmbio (E) é feita por uma equação que considera a taxa
nominal (e) que multiplica o quociente entre os índices de preços (inflações)
do país estrangeiro (P*) e o índice de preços nacional (P). A inflação interna encarece
os produtos de exportação, já a externa encarece os produtos importados e estimula
as exportações.
Outra forma de defini-la é apresentada por Mankiw (2009, p. 686): “A taxa de câmbio real é a taxa à qual uma pessoa pode trocar os bens
e serviços de um país pelos bens e serviços de outro país”. De acordo com este autor, a taxa real de
câmbio é um “determinante-chave” das exportações líquidas, uma vez que a sua
depreciação indica que os bens nacionais se tornam mais baratos em relação ao
estrangeiro e, com isso, as exportações daquele país aumentam, o que incentiva
produção e gera renda.
Contudo, há outros fatores a serem considerados na taxa real de câmbio.
Entre eles está o “grau de abertura da economia, a preferência dos consumidores
e os ganhos de produtividades no setor exportador (...) [além disso] a inflação
é um cálculo médio que inclui uma série de bens e serviços, muitos dos quais
não são comercializados no mercado internacional” (Paulani & Braga: 2007,
p. 154).
Por conta dessa arbitrariedade do cálculo da taxa real de câmbio, é
preciso considerar também outras formas de calcular as relações entre moedas
nacional e estrangeira. Uma delas é a Paridade do Poder de Compra (PPC). A
teoria da PPC parte da chamada “lei do preço único, de acordo com a qual
produtos homogêneos devem ter o mesmo custo nos diferentes mercados, quando
expressos na mesma moeda” (Lopes & Casconcelos: 2011, p. 241. O produto
comumente usado é o Big Mac, lanche padrão da rede McDonalds. Sendo assim, o
preço do lanche no Brasil, em reais, deve ser o mesmo nos Estados Unidos (em
dólar) multiplicado pela taxa de câmbio (R$/US$).
Existe aqui o pressuposto da
eficiência do mercado: neste caso não existem custos de transação e, caso o
preço em um país seja menor ou maior que no outro, a demanda seria deslocada
para o local de menor preço até que ele aumente e o equilíbrio seja restabelecido.
As críticas à essa teoria começam pelo custo de transação. É irreal supor que
os consumidores se deslocariam de um país para o outro para consumir um
determinado bem. Além disso, o custo de deslocamento acaba tornando o bem ou
serviço mais caro naquele país que registra menor preço. Portanto, existem bens
que não induzem fluxos comerciais independente de seu preço, são eles os bens e
serviços não transacionáveis (non-tradeables).
Outra crítica é que as cestas de consumo nos diferentes país não são as mesmas.
Bibliografia usada:
BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia.
4. ed. São
Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
CARVALHO, Fernando
Cardim de et al. Economia monetária e
financeira.: teoria e política. 2.
ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
LOPES, Luiz Martins; VASCONCELOS, M. A. S. de. (org.) Manual de macroeconomia: nível básico e
nível intermediário. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2011.
MANKIW, N. Gregory. Introdução
à economia. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2009.
PAULANI, Leda Maria. A
nova contabilidade social: uma introdução à macroeconomia. 3. ed. São
Paulo: Saraiva, 2007.
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segunda-feira, 28 de abril de 2014
Você sabe como se calcula a inflação?
Inflação não tem segredo: é a variação dos preços. Isso todo mundo sabe e saem notícias na imprensa a todo momento sobre os resultados dos índices de inflação.
A quantidade de índices que medem as variações de preços no Brasil é enorme. Só jogar no Google pra ver. As mais conhecidas são as feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). O índice “oficial” do governo é o da IBGE que faz o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o INPC, e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA. A FGV faz o Índice Geral de Preços, o IGP, e a Fipe o Índice de Preços ao Consumidor, o IPC. Existem algumas variações desses índices, tipo o IPCA-15, o IGP-M, IGP-10, IGP-DI e por ai vai... Como o IPCA e o INPC são de um órgão público (IBGE) e considerado oficial, vou tentar falar um pouco mais sobre ele.
Cada índice tem uma "população-objetivo" diferente:
* INPC – famílias com rendimento familiar entre 1 e 5 salários mínimos. Ou seja, famílias com rendimento familiar entre R$ 724 e R$ 3620. O critério aqui é para ter as “variações nos grupos mais sensíveis”, segundo o IBGE. Essas famílias consomem todo seu rendimento e têm um nível de renda baixo.
* IPCA – famílias com rendimento entre 1 e 40 salários mínimos. Famílias com rendimento familiar entre 724 e R$ 28.960,00.
Para definir essa população objetivo foi feita a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) entre julho de 2008 e junho de 2009 em 11 áreas no Brasil. Esta pesquisa também definiu qual é a cesta de consumo de cada família, ou seja, o que elas consomem. O IBGE obteve informações de quanto cada família gasta com quais itens dessa sua cesta. A partir daí agrupou os produtos e serviços consumidos em nove grupos, os itens que vou apresentar aqui fazem parte da tabela do IPCA, divulgada pelo IBGE, será possível ver com mais detalhes nas tabelas mais abaixo:
- Alimentação e bebida (batata inglesa, tomate, cafezinho, leite longa-vida, ovo de galinha, cebola, carnes, macarrão, entre outros)
- Habitação (aluguel, artigos de limpeza, energia elétrica residencial)
- Artigos de Residência (mobiliário, cama, mesa e banho, tv, som e informática)
- Vestuário (calçados, roupas, acessórios, tecidos e armarinhos)
- Transportes (combustíveis, transporte público e veículo próprio)
- Saúde e Cuidados pessoais (remédios, óculos, médicos, dentistas, plano de saúde e higiene pessoal)
- Despesas Pessoais (recreação, fumo, fotografia e filmagem)
- Educação (cursos, leituras, papelaria)
- Comunicação (tarifas de ligações)
Para obter os preços e calcular os índices, foi feita a Pesquisa de Locais de Compra em 1988 para identificar todos os locais usados por essas famílias para comprar os produtos ou contratar os serviços daquela cesta de produtos. Também fizeram um Cadastro de Domicílios Alugados para obter os valores dos aluguéis. A pesquisa dos preços é feita entre os dias 1º e 30 de cada mês. Dentro desse mês são definidos quatro períodos e para cada um deles um conjunto predeterminado e fixo de estabelecimentos.
O IBGE explica que a partir da coleta há alguns processos de críticas dos valores levantados e etc, mas o que interessa saber é que todo esse processo é feito em algumas regiões metropolitanas.
Mapa da cobertura do SNIPC/IBGE
Fonte: IBGE - Para compreender o INPC: um texto simplificado (2012)
Cada um desses Estados tem um peso específico para o calculo do INPC. Esse peso é estipulado pela população urbana residente de cada estado e parte das populações não cobertas pelo Sistema Nacional de Índice de Preços ao Consumidor (SNIPC) pertencentes à mesma grande região. A partir daí é feita uma média ponderada índices regionais e se chega ao índice nacional.
Resultados de março
Agora em Março o IBGE divulgou os últimos resultados do IPCA e do INPC. A pesquisa desse índice foi feita em fevereiro. A inflação de março fechou em 0,92%, isso significa que no geral os preços subiram esse número. No acumulado deste ano os preços já subiram 1,65%, mas em um ano, desde março do ano passado, essa variação foi de 6,21%.
Ok, números, números e mais números. Isso não é novidade para ninguém. O objetivo desse vídeo na verdade era pesquisar sobre como é feita a pesquisa pelo IBGE, mas não vou deixar de falar sobre os grupos de produtos e serviços que mostrei agora há pouco e como os preços variaram neles.
Como sempre aparece na imprensa, há um vilão. Antes era o tomate, dessa vez foi a batata inglesa. Em março a batata subiu 35,05%! Em fevereiro o preço tinha até caído 0,9%, mas março batata frita nem pensar...
O tomate continua subindo. Em março aumentou 32,85%! Em fevereiro o aumento tinha sido de 10,70%. Portanto, batata com ketchup não dá! Molho de tomate para o macarrão, também não.
Por falar em macarrão, o preço dele aumentou 0,72%. Uma variação pequena até, então dá para fazer um macarrão ao alho e óleo, mas o óleo de soja aumentou 3,23%. Talvez um molho branco então, creme de leite, queijo, cebola e companhia ainda dá pra comprar.
A batata inglesa e o tomate foram os alimentos que mais ficaram caros junto do feijão-carioca que aumentou 11,81%.
Variação dos principais itens do IPCA (mar/2014)
Fonte: Indicadores IBGE: INPC e IPCA de março de 2014
O curioso é ver o acumulado em 12 meses desses preços. Em um ano a batata variou 6,05%, o tomate -6,07% e o feijão -30,97%, ou seja, os dois primeiros estão quase com o mesmo preço de um ano atrás e o feijão está até mais barato... Agora o mais interessante dos resultados de março é o grupo de Artigos de Residência. No geral eles só subiram 0,38% em relação a fevereiro. Mas quando vamos lá na tabela dos itens, TV e Som tiveram seus preços reduzidos em 0,34%. Bem que poderia ser mais né... mas tá valendo.
Minha opinião e um pouco de "economês"
Vale dizer que o relatório do IBGE aponta que as variações grandes nos preços dos alimentos se deu por conta da seca que atingiu as lavoiras de alguns estados do Brasil. O clima este ano estava realmente pesado. Um calor enorme aqui, chuvas enormes ali... gente passando frio no sul e outras torrando no sol do Nordeste. Contra o clima não tem o que fazer, mas isso não importa muito para a imprensa e para a política né. Em alguns artigos que saíram num jornal de grande circulação o autor só faltou apontar o dedo para a presidente e dizer que ela é culpada por não chover no nordeste!
O tema da inflação também desperta outro ponto no noticiário: sobre o teto da meta de inflação. Em 1999 o Brasil adotou um Regime Monetário de Metas de Inflação. Ou seja, a política econômica estabeleceu uma meta para a inflação para manter a estabilidade dos preços. A meta que temos hoje é de uma inflação de 4,5%, mas há bandas de 2% para mais ou para menos. Isso significa que a política do governo pode trabalhar com inflações entre 2,5% e 6,5%. O acumulado de 12 meses já está em 6,21% e há previsões de que o governo feche este ano acima dessa meta de 6,5%.
O problema que eu vejo e que eu aprendi é que a inflação e a má condução dela atrapalha as empresas e investidores, o que chamamos de agentes econômicos, de terem uma visão clara do futuro e estipularem estratégias para sua produção. Esses agentes trabalham com expectativas. Eles têm expectativas de que a inflação continue subindo ou comece a cair. Essas expectativas estão muitas vezes nos jornais... há algumas pesquisas que mostram o que os empresários estão esperando da inflação e de outras variáveis para o futuro. Em ano eleitoral então, jornal contra o governo adora levantar essa bandeira e chega a ser entediante a forma como eles noticiam as variações de preços. Ninguém dá soluções ou reflete sobre o tema, só sabem criticar, critica e criticar. Claro, por que vão fazer diferente se não é o partido que eles apoiam que está no poder?
Enfim, inflação descontrolada pode ser realmente um problema para empresários. Além disso, ela corrói o nosso poder de compra. Esse termo também está sempre nos jornais. Ele significa que podemos comprar menos com nossos salários a medida que a inflação aumenta. Se o nosso salário é de R$ 1000 hoje, podemos gastar R$ 1000 em produtos e serviços. Se em dez anos a inflação é de 10%, isso significa que perdemos R$ 100 e nosso poder de compra passou para R$ 900. Os salários são reajustados apenas anualmente, enquanto o reajuste não vem, vamos perdendo poder de compra até que na data base a correção é feita, mas mesmo assim os preços do próximo mês já vão ter variado. Isso é um problema... por isso, também, que seria ideal manter a inflação baixa.
Fontes:
IBGE - Para compreender o INPC: um texto simplificado (2012). IBGE - Indicadores: INPC e IPCA de março de 2014.
Mais algumas:
IBGE: IPCA-15 de abril fica em 0,78%Estadão: Mercado projeta inflação em 2014 no teto da meta do governo Estadão: IPCA vai romper teto da meta em junho, avaliam analistas Estadão: Com alta dos alimentos, inflação oficial acelera 0,92% em março Estadão: Batata e tomate têm alta de mais de 30% em março Brasil Econômico: Em alta, IGP-10 registra inflação de 1,29% em março Brasil Econômico: Inflação medida pelo IPC-S avança em quatro capitais na primeira semana de março Brasil Econômico: Prévia da inflação registra taxa de 0,73% em março
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