terça-feira, 6 de maio de 2014

Você sabe o que é taxa de câmbio real, nominal e Paridade do Poder de Compra?

Fazendo minha monografia para a conclusão da graduação em economia, resolvi escrever um pouco mais sobre alguns conceitos. Esta é a parte que falo sobre taxa de câmbio (ainda não revisada pela minha orientadora) e que vou usar para o próximo vídeo do vlog "Vou ter que desenhar?". Segue o texto:


A taxa de câmbio, no Brasil, pode ser definida como o preços da moeda estrangeira medido em valores da moeda nacional, representado pelo quociente moeda local/moeda estrangeira – R$/US$ em nosso caso (Carvalho et al:  2007, p. 340). Um aumento dessa taxa significa que a moeda estrangeira ficou mais cara, portanto, uma depreciação da moeda nacional ou uma desvalorização nominal na taxa de câmbio, afinal é necessário mais moeda nacional para comprar uma estrangeira. Quando a moeda estrangeira fica mais barata há uma queda na taxa de câmbio, portanto uma apreciação nominal da taxa e uma valorização da moeda nacional.

A importância desses movimentos dos preços das moedas nacional e estrangeira é fundamentalmente sentida pelos setores da economia que mantêm relações com o mercado internacional de bens e serviços e também no mercado financeiro internacional. De forma geral, valorizações da moeda estrangeira (apreciação da taxa de câmbio) estimulam as exportações e desestimulam as importações, quando consideramos tudo mais constante (coeteris paribus). Um exportador recebe mais reais ao converter o dólar em nossa moeda e o importador vai precisar de mais moeda nacional para adquirir um produto precificado nessa moeda estrangeira. O contrário é verdadeiro: desvalorização da moeda estrangeira (depreciação da taxa) desestimulam as exportações e estimulam as importações. A taxa de câmbio é, portanto, o parâmetro que permite realizar as conversões entre as moedas nacional e estrangeiras (quando consideramos também operações em euro, peso e outras moedas).

Essas considerações são feitas utilizando a taxa de câmbio nominal. O cálculo para a taxa real de câmbio (E) é feita por uma equação que considera a taxa nominal (e) que multiplica o quociente entre os índices de preços (inflações) do país estrangeiro (P*) e o índice de preços nacional (P). A inflação interna encarece os produtos de exportação, já a externa encarece os produtos importados e estimula as exportações. 



Outra forma de defini-la é apresentada por  Mankiw (2009, p. 686): “A taxa de câmbio real é a taxa à qual uma pessoa pode trocar os bens e serviços de um país pelos bens e serviços de outro país”.  De acordo com este autor, a taxa real de câmbio é um “determinante-chave” das exportações líquidas, uma vez que a sua depreciação indica que os bens nacionais se tornam mais baratos em relação ao estrangeiro e, com isso, as exportações daquele país aumentam, o que incentiva produção e gera renda.

Contudo, há outros fatores a serem considerados na taxa real de câmbio. Entre eles está o “grau de abertura da economia, a preferência dos consumidores e os ganhos de produtividades no setor exportador (...) [além disso] a inflação é um cálculo médio que inclui uma série de bens e serviços, muitos dos quais não são comercializados no mercado internacional” (Paulani & Braga: 2007, p. 154).


Por conta dessa arbitrariedade do cálculo da taxa real de câmbio, é preciso considerar também outras formas de calcular as relações entre moedas nacional e estrangeira. Uma delas é a Paridade do Poder de Compra (PPC). A teoria da PPC parte da chamada “lei do preço único, de acordo com a qual produtos homogêneos devem ter o mesmo custo nos diferentes mercados, quando expressos na mesma moeda” (Lopes & Casconcelos: 2011, p. 241. O produto comumente usado é o Big Mac, lanche padrão da rede McDonalds. Sendo assim, o preço do lanche no Brasil, em reais, deve ser o mesmo nos Estados Unidos (em dólar) multiplicado pela taxa de câmbio (R$/US$). 

Existe aqui o pressuposto da eficiência do mercado: neste caso não existem custos de transação e, caso o preço em um país seja menor ou maior que no outro, a demanda seria deslocada para o local de menor preço até que ele aumente e o equilíbrio seja restabelecido. As críticas à essa teoria começam pelo custo de transação. É irreal supor que os consumidores se deslocariam de um país para o outro para consumir um determinado bem. Além disso, o custo de deslocamento acaba tornando o bem ou serviço mais caro naquele país que registra menor preço. Portanto, existem bens que não induzem fluxos comerciais independente de seu preço, são eles os bens e serviços não transacionáveis (non-tradeables). Outra crítica é que as cestas de consumo nos diferentes país não são as mesmas.

Bibliografia usada:

BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 4. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
CARVALHO, Fernando Cardim de et al. Economia monetária e financeira.: teoria e política. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
LOPES, Luiz Martins; VASCONCELOS, M. A. S. de. (org.) Manual de macroeconomia: nível básico e nível intermediário. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2011.
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2009.
PAULANI, Leda Maria. A nova contabilidade social: uma introdução à macroeconomia. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2007.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Você sabe como se calcula a inflação?




Inflação não tem segredo: é a variação dos preços. Isso todo mundo sabe e saem notícias na imprensa a todo momento sobre os resultados dos índices de inflação.
A quantidade de índices que medem as variações de preços no Brasil é enorme. Só jogar no Google pra ver. As mais conhecidas são as feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). O índice “oficial” do governo é o da IBGE que faz o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o INPC, e o Índice de Preços ao Consumidor  Amplo, o IPCA. A FGV faz o Índice Geral de Preços, o IGP, e a Fipe o Índice de Preços ao Consumidor, o IPC. Existem algumas variações desses índices, tipo o IPCA-15, o IGP-M, IGP-10, IGP-DI e por ai vai... Como o IPCA e o INPC são de um órgão público (IBGE) e considerado oficial, vou tentar falar um pouco mais sobre ele.
Cada índice tem uma "população-objetivo" diferente:
* INPC – famílias com rendimento familiar entre 1 e 5 salários mínimos.  Ou seja, famílias com rendimento familiar entre R$ 724 e R$ 3620. O critério aqui é para ter as “variações nos grupos mais sensíveis”, segundo o IBGE. Essas famílias consomem todo seu rendimento e têm um nível de renda baixo.
* IPCA – famílias com rendimento entre 1 e 40 salários mínimos. Famílias com rendimento familiar entre 724 e R$ 28.960,00.
Para definir essa população objetivo foi  feita a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) entre julho de 2008 e junho de 2009 em 11 áreas no Brasil. Esta pesquisa também definiu qual é a cesta de consumo de cada família, ou seja, o que elas consomem. O IBGE obteve informações de quanto cada família gasta com quais itens dessa sua cesta. A partir daí agrupou os produtos e serviços consumidos em nove grupos, os itens que vou apresentar aqui fazem parte da tabela do IPCA, divulgada pelo IBGE, será possível ver com mais detalhes nas tabelas mais abaixo: 
  • Alimentação e bebida (batata inglesa, tomate, cafezinho, leite longa-vida, ovo de galinha, cebola, carnes, macarrão, entre outros)
  • Habitação (aluguel, artigos de limpeza, energia elétrica residencial)
  • Artigos de Residência (mobiliário, cama, mesa e banho, tv, som e informática)
  • Vestuário (calçados, roupas, acessórios, tecidos e armarinhos)
  • Transportes (combustíveis, transporte público e veículo próprio)
  • Saúde e Cuidados pessoais (remédios, óculos, médicos, dentistas, plano de saúde e higiene pessoal)
  • Despesas Pessoais (recreação, fumo, fotografia e filmagem)
  • Educação (cursos, leituras, papelaria)
  • Comunicação (tarifas de ligações)
Para obter os preços e calcular os índices, foi feita a Pesquisa de Locais de Compra em 1988 para identificar todos os locais usados por essas famílias para comprar os produtos ou contratar os serviços daquela cesta de produtos. Também fizeram um Cadastro de Domicílios Alugados para obter os valores dos aluguéis. A pesquisa dos preços é feita entre os dias 1º e 30 de cada mês. Dentro desse mês são definidos quatro períodos e para cada um deles um conjunto predeterminado e fixo de estabelecimentos.
O IBGE explica que a partir da coleta há alguns processos de críticas dos valores levantados e etc, mas o que interessa saber é que todo esse processo é feito em algumas regiões metropolitanas.

Mapa da cobertura do SNIPC/IBGE

 Fonte: IBGE - Para compreender o INPC: um texto simplificado (2012)


Cada um desses Estados tem um peso específico para o calculo do INPC. Esse peso é estipulado pela população urbana residente de cada estado e parte das populações não cobertas pelo Sistema Nacional de Índice de Preços ao Consumidor (SNIPC) pertencentes à mesma grande região. A partir daí é feita uma média ponderada índices regionais e se chega ao índice nacional.

Resultados de março

Agora em Março o IBGE divulgou os últimos resultados do IPCA e do INPC. A pesquisa desse índice foi feita em fevereiro. A inflação de março fechou em 0,92%, isso significa que no geral os preços subiram esse número.  No acumulado deste ano os preços já subiram 1,65%, mas em um ano, desde março do ano passado, essa variação foi de 6,21%.
Ok, números, números e mais números.  Isso não é novidade para ninguém. O objetivo desse vídeo na verdade era pesquisar sobre como é feita a pesquisa pelo IBGE, mas não vou deixar de falar sobre os grupos de produtos e serviços que mostrei agora há pouco e como os preços variaram neles.
Como sempre aparece na imprensa, há um vilão. Antes era o tomate, dessa vez foi a batata inglesa. Em março a batata subiu 35,05%! Em fevereiro o preço tinha até caído 0,9%, mas março batata frita nem pensar...
O tomate continua subindo. Em março aumentou 32,85%! Em fevereiro o aumento tinha sido de 10,70%. Portanto, batata com ketchup não dá! Molho de tomate para o macarrão, também não.
Por falar em macarrão, o preço dele aumentou 0,72%. Uma variação pequena até, então dá para fazer um macarrão ao alho e óleo, mas o óleo de soja aumentou 3,23%. Talvez um molho branco então, creme de leite, queijo, cebola e companhia ainda dá pra comprar.
A batata inglesa e o tomate foram os alimentos que mais ficaram caros junto do feijão-carioca que aumentou 11,81%.

Variação dos principais itens do IPCA (mar/2014)


Fonte: Indicadores IBGE: INPC e IPCA de março de 2014

O curioso é ver o acumulado em 12 meses desses preços. Em um ano a batata variou 6,05%, o tomate -6,07% e o feijão -30,97%, ou seja, os dois primeiros estão quase com o mesmo preço de um ano atrás e o feijão está até mais barato... Agora o mais interessante dos resultados de março é o grupo de Artigos de Residência. No geral eles só subiram 0,38% em relação a fevereiro. Mas quando vamos lá na tabela dos itens,  TV e Som tiveram seus preços reduzidos em 0,34%. Bem que poderia ser mais né... mas tá valendo.

Minha opinião e um pouco de "economês"

Vale dizer que o relatório do IBGE aponta que as variações grandes nos preços dos alimentos se deu por conta da seca que atingiu as lavoiras de alguns estados do Brasil. O clima este ano estava realmente pesado. Um calor enorme aqui, chuvas enormes ali... gente passando frio no sul e outras torrando no sol do Nordeste.  Contra o clima não tem o que fazer, mas isso não importa muito para a imprensa e para a política né. Em alguns artigos que saíram num jornal de grande circulação o autor só faltou apontar o dedo para a presidente e dizer que ela é culpada por não chover no nordeste!
O tema da inflação também desperta outro ponto no noticiário: sobre o teto da meta de inflação. Em 1999 o Brasil adotou um Regime Monetário de Metas de Inflação. Ou seja, a política econômica estabeleceu uma meta para a inflação para manter a estabilidade dos preços. A meta que temos hoje é de uma inflação de 4,5%, mas há bandas de 2% para mais ou para menos. Isso significa que a política do governo pode trabalhar com inflações entre 2,5% e 6,5%. O acumulado de 12 meses já está em 6,21% e há previsões de que o governo feche este ano acima dessa meta de 6,5%.
O problema que eu vejo  e que eu aprendi é que a inflação e a má condução dela atrapalha as empresas e investidores, o que chamamos de agentes econômicos, de terem uma visão clara do futuro e estipularem estratégias para sua produção. Esses agentes trabalham com expectativas. Eles têm expectativas de que a inflação continue subindo ou comece a cair. Essas expectativas estão muitas vezes  nos jornais... há algumas pesquisas que mostram o que os empresários estão esperando da inflação e de outras variáveis para o futuro. Em ano eleitoral então, jornal contra o governo adora levantar essa bandeira e chega a ser entediante a forma como eles noticiam as variações de preços. Ninguém dá soluções ou reflete sobre o tema, só sabem criticar, critica e criticar. Claro, por que vão fazer diferente se não é o partido que eles apoiam que está no poder?
Enfim, inflação descontrolada pode ser realmente um problema para empresários. Além disso, ela corrói o nosso poder de compra. Esse termo também está sempre nos jornais. Ele significa que podemos comprar menos com nossos salários a medida que a inflação aumenta. Se o nosso salário é de R$ 1000 hoje, podemos gastar R$ 1000 em produtos e serviços. Se em dez anos a inflação é de 10%, isso significa que perdemos R$ 100 e nosso poder de compra passou para R$ 900. Os salários são reajustados apenas anualmente, enquanto o reajuste não vem, vamos perdendo poder de compra até que na data base a correção é feita, mas mesmo assim os preços do próximo mês já vão ter variado. Isso é um problema... por isso, também, que seria ideal manter a inflação baixa.

Fontes:

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Resposta ao comentário: o caso da laranja

Recebi um comentário no vídeo sobre Balanço de Pagamentos do Brasil no vlog "Vou ter que desenhar?".

Luiz Rodrigues disse:

" Estava indo tão bem... Escorregou na laranja. E feio. Brasil não exporta laranja e sim suco de laranja! Erro trivial? Não! Invalida toda a argumentação. FCOJ, o suco, é commodity. Tomador de preço no mercado. Já a laranja "in natura" pode ser algo especial. O Brasil importa laranjas especiais de Israel, Espanha e Uruguai. (uia! tapuia!). Por fim, os EUA são grandes exportadores de suco de laranja. Raramente importam do Brasil. Concorrem conosco nos grandes mercados. Especialmente na Europa."

Antes de mais nada obrigado pelo comentário! Ainda dando meus primeiros passos é importante receber um alerta como este para ficar mais atento nos próximos vídeos.

A questão da laranja

Acredito que realmente eu tenha "escorregado na laranja", como o Luiz disse. Contudo, não acho que isso invalide minha argumentação. O Brasil é sim grande exportador de commodities e, apesar de isso ter seu aspecto positivo para a nossa economia, a crítica coloca esse fato mais para o lado oposto. Como disse no vídeo, exportar commodities e não bens industrializados é um ponto de nossa economia que deveria ser superada. "Perdemos o bonde da indústria química e da microeletrônica", como acho que mencionei nos comentários finais e até hoje parece que não recuperamos.

Os dados comprovam. Segundo os dados consolidados de 2013 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, dentre os principais itens exportados pelo Brasil estão minério, complexo de soja, carnes, açúcar e etanol, papel e celulose, café, entre outros. Há também material de transporte químicos, maquinas e equipamentos e equipamentos elétricos, mas basta comparar com as importações para ver seus pesos.


Acredito que a tabela abaixo seja autoexplicativa para a comparação que eu quero fazer, mas vale citar que importamos equipamentos mecânicos, equipamentos elétricos e eletrônicos, automóveis e partes, farmacêuticos e etc.


Agora focando exclusivamente na laranja, vou usar dados do Ministério da Agricultura:

"Setor altamente organizado e competitivo, a citricultura é uma das mais destacadas agroindústrias brasileira. Responsável por 60% da produção mundial de suco de laranja, o Brasil é também o campeão de exportações do produto. (...) São colhidas, anualmente no País, mais de 18 milhões de toneladas de laranja ou cerca de 30% da safra mundial da fruta." (Fonte: Ministério da Agricultura > Vegetal > Culturas > Citrus)
"Cerca de 50% da produção mundial de laranja e 80% da brasileira resultam em sucos industrializados. O principal comprador da bebida brasileira é a União Européia que aumenta significativamente o percentual de importação anualmente. A maior parte das importações mundiais, 85%, é absorvida por apenas três mercados: Estados Unidos, União Europeia e Canadá." (Fonte: Ministério da Agricultura)

As informações acima mostram a validade do comentário do Luis e dão mais algumas informações úteis.

Gostaria, então, de me desculpar pelo equívoco no vídeo e reforçar que meu argumento era para dizer que, como está colocado lá, não fazemos parte da cadeia global de produção e nos limitamos a exportar muito mais commodities que produtos industrializados, o que nos traria mais vantagens no comércio internacional.

Fontes:
Balança Comercial com dados agregados de 2013 - Secretaria de Comércio Exterior / Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

vlog: "Vou ter que desenhar?" - Balança Comercial de Março

Balança Comercial brasileira de março


Já no acumulado do ano, as vendas para o exterior totalizam pouco mais que 49 bilhões de dólares, mas esse número é 4,1% menor que o registrado no primeiro trimestre do ano passado (US$ 847,3 milhões)  quando considera-se a média diária. (em 2014 foi de US$ 812,9 milhões). As importações também diminuíram em relação à comparação da média diária nos dois anos, uma queda de 2,2% (US$ 912,5 milhões em 2014 e US$ 933,2 milhões em 2013). Ainda considerando o acumulado do ano, compramos  US$ 55,660 bilhões, o que nos dá um resultado negativo.

O bem que mais pesa nas compras do Brasil é ainda o petróleo e seus derivados. A conta desse bem representa 75% do saldo negativo do primeiro trimestre de 2014. Contudo, especialistas do governo esperam que essa conta melhore com o aumento da produção de petróleo no Brasil, especialmente com o pré-sal.

Outros dados: o trimestre teve recorde na venda de soja em grão, de carne bovina in natura e de couro e peles. Esses três grupos tiveram crescimento de, respectivamente, 84,4%, 14,7% e 27,3% em relação ao ano passado, 2013. Vale uma observação nesse ponto: dá para reparar o que há de comum entre ele? São todos produtos não industrializados, certo? Ou seja, exportamos commodities, produtos que não passam pela indústria brasileira, mas sim são vendidos para outros países processarem e transformar esses produtos e vender com valor maior para o mercado nacional e internacional. 

Há quem ache que o país deveria se especializar apenas nesses produtos, mas existe um problema aí. Focar nos produtos da agricultura e pecuária não gera tanto emprego quanto uma indústria. Sendo assim, o Brasil precisa focar no seu setor produtivo e incentivar a instalação e criação de empresas nacionais que consigam produzir bens industrializados para exportar. O que falta para isso? Vontade? Disposição política? Quebra do comprometimento com os interesses dessa grande classe capitalista agropecuária? Difícil hein...

Mais um dado sobre nosso comércio internacional: os principais países compradores de nossos produtos são China, Estados Unidos, Argentina, Países Baixos e Japão. Contudo, as perspectivas para o comércio internacional não são boas. A Argentina passa por uma situação difícil de sua economia. Inflação alta e as mobilizações populares mostram um forte descontentamento com a condução da política econômica. O Brasil até tem tentado negociar incentivos para o comércio com o vizinho, mas a situação ainda parece complicada. 

Já a China, a primeira naquela lista de compradores dos nossos produtos, anunciou semana passada que não deve cumprir com a meta de crescimento desse ano.  A meta deles é de 7,5%, mas o governo anunciou que o crescimento pode ser um pouco maior ou menor que esse número. As exportações chinesas caíram 6,6% em março e as importações recuaram 11,3%. Essa desaceleração da China deve contribuir para manter em queda o preço das commodities nos próximos dois anos, segundo o FMI. Com tudo isso, o FMI ainda prevê dificuldades para a América Latina, que deve continuar na marcha lenta.



Mais dados:

O trimestre teve recorde nos embarques de soja em grão (US$ 4,551 bilhões, e aumento de 84,4% em relação ao mesmo período de 2013); de carne bovina in natura (US$ 1,345 bilhão; crescimento de 14,7%) e de couros e peles (US$ 700 milhões; crescimento de 27,3%), entre outros. 

Os principais países de destino das exportações, no acumulado do ano, foram China (US$ 9,6 bilhões); Estados Unidos (US$ 5,8 bilhões); Argentina (US$ 3,6 bilhões); Países Baixos (US$ 2,9 bilhões); e Japão (US$ 1,5 bilhão). E os principais países de origem das importações brasileiras foram: China (US$ 9,7 bilhões); Estados Unidos (US$ 8,8 bilhões); Alemanha (US$ 3,5 bilhões); Argentina (US$ 3,3 bilhões) e Coreia do Sul (US$ 2,4 bilhões).

Fontes:
"Balança comercial de março tem superávit de US$ 112 milhões" - Portal Brasileiro de Comércio Exterior

domingo, 13 de abril de 2014

Vou ter que desenhar?

Como sempre, tentando fazer algo diferente. Tive que fazer um vídeo para a disciplina de Economia Brasileira Contemporânea 2 na graduação em Economia. Aproveitei para fazer algo que curto muito em vlogs, o estilo "draw my life". Vou tentar fazer outros vídeos no futuro, especialmente se este tiver boa aceitação.



quarta-feira, 12 de março de 2014

Obras raras do século XVIII

Ontem tive a oportunidade de participar de um treinamento oferecido pela Capes sobre uma base de dados com obras raras. O nome dela é Eighteen Century Collections Online (Ecco), mas apesar da riqueza de conteúdo a base parece estar disponível para acesso apenas para acesso na rede da Unicamp ou em redes de universidades assinantes da base. O site reúne mais de 180 mil títulos de livros e imagens produzidas no século XVIII no Reino Unido e em outros países da Europa. Todas elas estão digitalizadas e o melhor: é possível fazer download de todas as obras!!!

Se já não bastasse a quantidade de títulos, o site ainda tem uma organização surpreendente. Todas as obras estão divididas em sete diferentes áreas: Literatura e Linguagem; História e Geografia; Religião e Filosofia; Ciências Sociais e Artes; Medicina, Ciência e Tecnologia; Direito; e Referências Gerais. Além disso, cada obra tem um índice e uma tabela de ilustrações (quando disponível) que direciona o leitor direto para a parte que ele quiser, sem a necessidade de ficar folheando o livro todo.

Dentro do menu Research Tools há opções de navegação interessantes. Além da divisão de acordo com as sete áreas mencionadas acima, reunidas no link Key Documents, nesta área é possível verificar as palavras mais pesquisadas pelos usuários (em Most Popular Search) ou então acessar a galeria de imagens (Image Gallery) que disponibiliza algumas pinturas, diagramas e caricaturas feitas naquela época - a quantidade de imagens, contudo, é ainda pequena porque a equipe ainda está colocando essas obras no site, segundo o instrutor do treinamento. As imagens ainda vem com informações sobre a técnica utilizada na pintura, por exemplo.

Abaixo está um exemplo. Esta é uma caricatura de James Gillary na década de 1790 que retrata Thomas Paine tirando as medidas da coroa britânica.


Observação: quando fui salvar essa imagem, ela não veio automaticamente no formato jpeg, portanto é necessário incluir a extensão ao salvar.

Resolvi compartilhar as informações desse treinamento por que achei um trabalho fascinante e muito útil para quem gosta de história e de obras raras. Como brincou o instrutor do treinamento, qualquer um pode levar para casa uma obra original de Sir. Isaac Newton, por exemplo, só fazendo o download no site. =)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Crônica: partidas

O amor deveria vir com um tratado, uma lei, uma constituição de uma única linha: "vou te amar, te fazer feliz e nunca te fazer sofrer". simples assim. Quem descobre esse sentimento já tatua no coração essas três frases, sem demora, sem pensar. Mas se amar é sofrer, todos seriam presos pelo melhor crime ao qual o homem e a mulher não conseguem escapar.

De pé do lado de fora do ônibus, ele aperta o namorado pela ultima vez. A sensação é de que junto do amor infinito que corre entre aqueles dois corpos, um tempo tão longo quanto os aguarda até o próximo encontro. Um não quer soltar o outro, mas a partida tem hora marcada. Tem destino definido. Tem uma dor que incomoda. 

A fila na porta do carro vai diminuindo. Já não da mais pra esperar o último passageiro embarcar. Agora o último está ali, nos braços desesperados de outro. Braços que não querem soltar dada a certeza das próximas horas de aperto no peito. Não tem mais como adiar. Os corpos se descolam, um último carinho entre lábios tentam esconder o que o rosto nega vir do coração.

Ele caminha até a porta. Entrega a passagem. Um último olhar com os pés no mesmo chão do namorado. Sobe. Anda pelo corredor apertado desviando a mochila do encosto das outras poltronas e encontra seu assento. 

De pé do lado de fora do ônibus, ele aperta seu coração. Não vou chorar, promete pra si mesmo. Vou ser forte, são só alguns dias, logo vou vê-lo mais uma vez. Convencer um coração que ama de verdade é tarefa árdua, complicada, impossível.

No banco, o namorado olha seu amor de pé, parado, desviando o olhar como se tentasse disfarçar algo. Coloca a mão no vidro e sussurra um "te amo". Recebe as mesmas palavras de volta, mas sem som. Malditos ônibus com ar condicionado que não deixam as janelas abrirem para um último contato.

A porta fecha. O motor liga. O coração acelera, dolorido. Não tem mais jeito, o ônibus engata a marcha ré e começa a se mover. O choro é inevitável. Um choro de dor, uma dor que não cabe no peito e chega a sumir com qualquer chão e o faz cair sem parar. Não fossem seus músculos e o mínimo de razão que ainda sobra naquele corpo vazio, tudo viria abaixo e ele se encolheria para chorar inconsolável.

As alternativas são aceitar, que dói mais, ou atravessar a rodoviária correndo em prantos e se atirar na frente do ônibus para fazê-lo parar, abrir a porta, tirar o namorado de dentro pelo braço e fugir pro Haiti.

Amar sem sofrer a dor de uma partida seria uma fantasia. Maldita realidade que insiste em afastar quem ama.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Rachel e a liberdade de opinião exacerbada

A discussão surgiu de uma postagem no Facebook sobre o caso da âncora do jornal do SBT, Rachel Sheherazade e a opinião emitida por ela a respeito do “marginalzinho amarrado ao poste” e os justiceiros que fizeram tal ato. Há uma petição on-line contra a jornalista e foi justamente a partir do compartilhamento dessa petição que a discussão se iniciou.

Um dos meus contatos estava indignado pela reação contra a jornalista lembrando que na época das manifestações de junho de 2013 ela tinha sido aplaudida de pé por ter se mostrado “muito guerreira, destemida e corajosa, por falar abertamente da realidade pobre da política brasileira”, segundo ele. A indignação dele era vê-la sendo “achincalhada” por ter cometido um erro.

O problema dela, contudo, é que não foi um único erro. As opiniões dela vêm incomodando há um certo tempo já. A opinião é livre, mas na posição que a jornalista está essa liberdade é carregada por uma responsabilidade enorme, ainda mais com o público que o jornal do SBT atinge. Muita gente ainda confere aos jornalistas a voz da verdade e da sabedoria, principalmente aquelas pessoas que não tem tanto estudo pra enxergar os interesses e o jogo de poder que estão por de trás dessas manifestações que a Rachel emite. O texto pode nem ser dela, tornando-a um bode expiatório dos editores do jornal, mas quando ela abre a boca toma a autoria da fala pra si e parece não pensar nem um pouco nas consequências que essas palavras podem ter para os telespectadores. Este é, pra mim, o real problema.

A liberdade de opinião as vezes da uma dessas: “as pessoas são tão expostas como são, e se acham cada vez mais no direito de julgar e conjugar os verbos”, como esse contato disse. No fundo eu acho que o problema é a falta de consideração sobre o que se está falando. A maioria esquece que tem dois ouvidos e uma boca e, infelizmente, cada vez mais estão perdendo a capacidade de pensar e refletir sobre o mundo. E quer exemplo mais claro disso que as próprias palavras da jornalista: “ficha mais suja que pau de galinheiro”? Além do péssimo gosto para metáforas, o uso do conhecimento popular mostra que a linguagem está direcionada para um público específico. É justamente aí que mora o perigo nessa história da Rachel. Imagina uma mãe de família que, por uma injustiça social, não conseguiu terminar nem o Ensino Fundamental ouvindo essa mulher falar. Assim como o BBB, no dia seguinte o assunto da rodinha de amigas vai ser as palavras da Rachel, quem saiu do reality e o que aconteceu nas novelas X, Y e Z. há 27 minutos ·

A opinião é um assunto tão complicado que tem telejornais que sequer usam ancoras mais. Na contramão, os jornais da TV Cultura se abstêm de colocar um âncora e levam acadêmicos e estudiosos pra comentar as notícias. É um modelo excelente uma vez que eles colocam quem realmente estuda os assuntos a fundo e têm propriedade pra dar uma opinião concreta. Jornalistas, geralmente, não têm essa capacidade porque saem da graduação tão despreparados quanto um adolescente sai do Ensino Médio e que se vê forçado a escolher uma carreira a todo custo. É preciso anos de estudo, de profissão e de profissionalismo pra emitir uma opinião concreta e sólida. E acima disso, é preciso inteligência e discernimento para pensar na reação que as palavras terão junto ao público.

A opinião da jornalista representa, de certa forma, uma parte da população: a “classe média que sofre”. São aquelas pessoas que só enxergam problemas no Brasil e não conseguem ver que nossos problemas sociais e econômicos são causados, também, por nós mesmos quando nos abstemos de lutar por um país com menor desigualdade. O governo pode até ter criado os “usurpadores”, como meu contato se referiu aos beneficiários de programas sociais, quando fez o Bolsa Família e as infinitas bolsas. Todo sistema tem suas falhas, mas de que outra forma seria possível reduzir a pobreza e diminuir a distribuição de renda que existe no país? O Bolsa Família, por exemplo, tem uma contrapartida na educação. A educação, infelizmente, ainda está engatinhando depois dos tombos que levou por conta das reformas passadas. Mas vai ser só por meio dela que vamos conseguir sair da condição que estamos e tentar caminhar com passos um pouco mais largos.

Aí é que entram os jogos de interesse. Qual o interesse que os mais ricos têm de dar educação para a população? Pra quê fazer a massa pensar e raciocinar e abrir mão da política do pão e circo que está aí há séculos, desde que Portugal resolveu trazer as caravelas e despejar o instinto contra o trabalho e disseminar esse paternalismo exacerbado que só enxerga os interesses políticos com o custo de um jeitinho abrasileirado? É uma herança que temos e uma condição do capitalismo que ainda marca essa injustiça social. Karl Marx em O Capital, livro 1, já retratou a falta de interesse em fornecer educação para a população e mostrou como os trabalhadores daquela época eram explorados pelos capitalistas. O que mudou desde então quando o tema é educação?

Agora, sobre o caso do "marginalzinho", quem prova que ele tinha feito algo realmente? Se fez, quem tem o direito de tomar o poder nas mãos e prender o indivíduo num poste com a trava de bicicletas? É realmente um ato desumano o que fizeram com ele. Nesse sentido, porque as palavra dela não foram em defesa da educação nesse país ou de melhora no sistema carcerário? Fornecer ensino nos presídios e programas de capacitação no lugar de deixar mil presos numa cela pequena aprendendo ainda mais a como ser um bandido pode ser uma solução e uma causa para a campanha lançada no telejornal "Adote um bandido e dê a ele a oportunidade de estudar e tentar ser alguém". Ai entram os defensores da “classe média sofre” e pensam no dinheiro público gasto com “marginais”. Contudo se esquecem que esse problema não é do indivíduo, mas sim da sociedade.


As palavras da jornalista, no entanto, foram carregadas de preconceito, esse preconceito "classe média sofre" porque um marginalzinho na rua vai roubar o iPhone dela para comprar drogas, uma vez que foi excluído da sociedade e da possibilidade de estudar e conseguir dinheiro por meios legais e dignos. As drogas e a violência é um problema social com uma solução a conta gotas, ficar propagando o preconceito e discriminação de classes da forma como ela e o SBT fizeram não vai ajudar em nada.

Entrevista da Sheherazade quando entrou no SBT (indicada por Rodrigo Cezarin em comentários no Facbook)

Vídeo da jornalista sobre Justin Bieber e sobre o "Marginalzinho preso ao poste"

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O beijo e a dificuldade de aceitar o velho

A cena de beijo entre os personagens Felix e Nico no último episódio da novela “Amor a vida” da Globo foi sim uma conquista. Soa estranho dizer “conquista” em 2014, tão estranho quanto seria dizer “em pleno século XXI”, mas essa deve ser a palavra que mais se encaixa na situação.

As redes sociais, como não podia ser diferente, se encheram de manifestações alegres e violentamente preconceituosas. É justamente por conta dessa forte oposição que a palavra conquista se manifesta com uma força inigualável. Alguns viram como “pouca vergonha”, outros como “nogento” (sic) e, pelo visto, muitos como uma afronta à moral e aos bons costumes. Contudo, quais são esses bons costumes e essa moral tão defendida por aqueles que se ofenderam com uma cena de beijo gay em rede nacional, no horário nobre, no canal de maior audiência do Brasil?

Vale a pena refletir um pouco sobre o que essas pessoas querem? E se colocar no lugar delas? Ouvi a seguinte frase de uma amiga nas últimas semanas: “Vocês (gays) podem parar de dizer que são a minoria”. Em conversa com a mãe de uma outra amiga ouvi: “Eu vejo que no futuro a maioria vai ser sim homem com homem e mulher com mulher”. Se este é realmente uma tendência ou um movimento natural não sei, mas o que deveria começar a ficar claro na cabeça da maioria é que os tempos estão mudando e mais rápido que eles conseguem ou querem assimilar.

Pensar na vida de um homossexual nas décadas de 1970 ou 1980 é um exercício não muito difícil, basta ver o grau de machismo daqueles nascidos nestes mesmos anos ou anteriores. São raras as pessoas daquela época que conseguem sustentar uma conversa sem nenhum tipo de preconceito quando se entra em pontos como as novas formações familiares e a capacidade de um casal de homens criar uma criança. Tive a infelicidade de entrar numa discussão dessas com duas pessoas, uma nascida antes de 1960 e outra depois de 1990. Os dois homens, com suas cabeças muito bem formadas sobre o assunto eram extremamente fechados para argumentos contrários à sua opinião e é justamente neste ponto que mora o perigo e vive a realidade da nossa sociedade hoje.

Uma opinião deveria ser formada a partir da análise e da reflexão de diversos pontos, favoráveis e contrários à visão daquele que busca se informar e se formar. É uma lição básica do jornalismo dar todas as versões do fato e voz às diferentes opiniões sobre o assunto em pauta. Contudo, nem jornalistas e muito menos o público se interessa por buscar informações diferentes e amplas. Ouvir e ler aquilo que agrada os olhos e massageia a “inteligência” é suficiente.

O perigo neste fato e neste caso (o beijo gay) é a sobrevivência do machismo e do preconceito.  O beijo deveria ser, para toda a sociedade, o momento ideal para refletir que não há volta: existe sim homossexual, existe sim famílias sendo formadas por dois pais ou duas mães e isso não será algo distante da realidade de ninguém logo mais. Deveria ser uma oportunidade para mostrar para a criança sentada no chão da sala que dois homens se beijarem é normal. O amor é normal e existe entre seres do mesmo sexo. E na resistência da aceitação basta dizer: “Por que um homem e uma mulher podem se beijar todo o tempo na TV e dois homens não?”

Porém, apesar da oportunidade dada e da “conquista” alcançada, ainda vai existir pessoas e famílias que ficaram horrorizadas com o fato. A essas pessoas volta a pergunta: “Por que eles podem e nós não?” ou “Por que ser gay é ser anormal?” e para colocar em cheque “Você vai continuar dizendo que isso é anormal e direta ou indiretamente incentivar uma visão preconceituosa que pode se materializar em violência contra um homossexual?”

Recentemente senti mais de perto esse “estranhamento” de um casal gay. Ando de mãos dadas com meu namorado em lugares públicos e os olhares são constantes. Há quem vire a cabeça, logo após cruzar nosso caminho, para observar as mãos dadas. A grande maioria primeiro olha para os dedos entrelaçados e só então sobem o olhar para nossos rostos. A feição de raiva ou algum sentimento próximo disso também se manifesta  em alguns homens (na maioria) e mulheres. Por quê? Se parasse para consultar essas pessoas provavelmente ouviria os mesmos comentários feitos nos textos que defenderam o beijo gay da novela: “não sou obrigado(a) a fazer meus filhos verem esse tipo de cena”, saem em defesa da família os pais conservadores; “isso é anormal”, diriam os religiosos fervorosos; “aqui não é lugar”, exclamariam os defensores dos bons costumes. Mas de que valeria ouvir se essas pessoas apenas têm bocas e não ouvidos?


Colocando-me no lugar delas entendo que ninguém é obrigado a “aceitar” e a palavra é livre para todos, contudo, a não aceitação de que um beijo ou duas mãos dadas são normais e a palavra dita de maneira impensada se transformam em violência. É violento dizer que um beijo é nojento e vai ser violento quando uma criança que ouve isso dos pais ofender um colega de classe que desde cedo manifesta comportamentos femininos. Crianças são cruéis quando querem e podem gerar adultos inseguros e infelizes. Sendo assim, por que não plantar uma “semente de normalidade” nessa nova geração e, acima de tudo, ensinar que cada um deve se preocupar com sua única e exclusiva felicidade antes de julgar, criticar e violentar a felicidade alheia?

domingo, 12 de janeiro de 2014

Amar é...

Quem é capaz de definir o amor? Um sociólogo que transforma sentimento em água para explicar que o a falta que aperta o peito quando a distância entre dois corpos se torna insuportável? Um biólogo que tenta mostrar que as descargas de hormônios que fazem os olhos se encherem de lágrimas quando percebemos que o tempo é injusto com o amor por forçar que um dia um de nós dê um último suspiro deixando o outro segurando uma mão já sem vida? Um psicólogo que tenta provar por um motivo desencadeado por outro no passado foi o responsável por explicar o porquê desse conforto que acomoda a alma com a chegada da certeza de que pertencer é um verbo que se conjuga com dois sujeitos que se amam?

Cada um se abraça na definição que mais lhe convém naquele momento. Contudo, amar é sentir que não se é mais dono de si. É sentir que toda partida é um buraco no peito sem cura. É segurar a mão de quem você ama e sentir que o para sempre poderia chegar naquele momento. Amar alguém é terminar um beijo demorado e querer que o tempo congele quando os olhares se cruzam, no exato momento entre o êxtase do último contato dos lábios e o esboço de um sorriso cheio de felicidade.

Amar é planejar o futuro e não querer que haja passado por que um dia vivido é um dia a menos sem seu amor. É pensar que no último fechar de olhos os sentimentos que vão imperar são o da saudade e da tristeza. Tristeza por saber que o último segundo se foi e a tarefa de fazer a pessoa feliz pra sempre não foi cumprida e saudade de quem te preenchia. E mais: será fechar os olhos e saber que o um só coração se desfez mais uma vez e fica a incerteza do reencontro imperar sobre as próximas vidas - se elas existirem há mais uma chance, se não, acabou.

Um sentimento que é difícil de expressar. Começa com um "gosto", que ganha um "muito". Passa para "te adoro", seguido de um "muito". Até chega no "eu te amo", para ser completado por um "muito", mas nenhuma palavra ou frase consegue definir ou dimensionar o aperto no peito que não desaparece mesmo quando um coração consegue ouvir o outro num abraço apertado.

Cada um deve ter uma forma de sentir e tentar descobrir mil maneiras de expressar, mas é definir, quem consegue?

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sorriso bobo



Um sorriso bobo, perdido entre a felicidade, o fim de uma busca e a esperança da eternidade é inspirador. Os olhos quase fechados, dentes a mostra, bochechas salientes e a cabeça tentando se abaixar como se a timidez chegasse apenas naquele momento. Vontade de se entregar a todas as tecnologias possíveis e gravar aquele exato momento, aquele exato sorriso para assistir segundo a segundo e tentar desvendar de onde ele vem, como chega e, principalmente, o que o faz tão especial.

Vontade de tocar esse tesouro de sorriso com a ponta dos dedos com todo cuidado que merece. Sentir com os lábios os músculos que se contraem. Refletir nos olhos a constelação que se forma nas íris dos seus. Sentir esse momento ser imortalizado: o momento que consegui cumprir com uma promessa, a promessa de não te dar a lua, mas sim todas as estrelas possíveis e deixá-las perfeitamente reluzentes no seu olhar.

Então tudo some num abraço e num beijo demorado. Some do campo de visão para se materializar no coração e, quando se aloja no peito já apertado, provoca um suspiro relaxante. Suspiro apaixonado, único, revigorante, que traz a vontade de que o "para sempre" não seja só palavras faladas entre um olhar e outro, entre um beijo e outro, mas sim que seja literal, que seja real, que seja infinito.

E que sejam infinitos os abraços apertados. Que sejam infinitos os olhares sem palavras. Que sejam infinitos os carinhos no rosto e os beijos nos olhos fechados. Que seja infinito esse sentimento de estar vivo, de estar completo, de se sentir parte de alguém especial. Que seja infinita essa inspiração que seu sorriso bobo trás que se espelha no meu rosto e me deixa tão bobo e derretido quanto sua reação ao dizer "sim".

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Quando o concreto não dá conta...



As vezes a resposta está logo ali, do lado de fora, no meio de todo o verde e do aquarelado de cores que a natureza nos trás, mas muito pouco reparamos. O dente-de-leão preso forte ao solo, com raízes pequenas mas que se seguram como se a terra fosse sua única referência de vida, resiste ao vento insistente de um prenúncio de chuva. O sol forte sobre sua frágil coroa branca, a água que vem do céu em gotas nem sempre amigáveis e os pássaros e insetos que se interessam pela sua solidão não o faz desistir de se manter intacto o tempo que o tempo lhe permitir.

Essa planta branca curiosamente tem o nome de amor-de-homem. Nesta tarde vivia sozinha entre as altas temperaturas e a brisa gelada que fazia questão de refrescar troncos, folhas e flores a sua volta, mas distantes. Ali, na ânsia de continuar a ser, se partia pouco a pouco. Sozinho sim, mas também imortal. Uma a uma as plumas brancas de sua coroa se soltam e voam para o infinito. Amor-de-homem que envia para longe uma semente que continuará um ciclo vicioso de acreditar que um gesto, uma palavra, um afago no cabelo ou uma troca de olhares mais demorada são capazes de plantar, no mínimo, uma mensagem única. Mensagem que só se concretiza ao se instalar nos espaços mais pedregosos e ali permanece para todo o sempre deixando uma marca irreparável para uma vida sem fim. Na vida de um amigo, de alguém desconhecido, de alguém especial.

Se não consegue ver a resposta entre concreto, carpete e madeira, uma ótima saída é colocar os pés na grama e se deixar guiar e abraçar pela natureza que foi digna de receber o nome de amor-de-homem, amor que só alguns conhecem, e que está aí, plantado graças a alguém que se desfaz para ser reconstruído dentro do outro.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Uma citação sobre retórica, de Breton (1999)

Há quem diga que não se estuda mais retórica, mas a apresentação que Philippe Breton (A manipulação da palavra. São Paulo: Edições Loyola, 1999) faz do assunto deixa evidente que ou a retórica se impregnou na forma como o discurso é construído ou alguns professores da Unicamp estudam muito retórica para elaborar suas aulas - uns mais, outros menos, afinal, poucos conseguem convencer os alunos.

“O orador, diante dos juízes ou dos cidadãos  reunidos em assembleia política, deve em primeiro lugar, diz-nos um texto antigo, procurar ‘acalmar por meio de palavras insinuantes e lisonjeiras a agitação da assembleia’. Será esse o papel do exórdio. Em seguida, ‘depois de ter obtido a atenção, ele expõe o tema da deliberação, passa à discussão, intercala-a de digressões, que confirmam suas provas; por fim, na recapitulação ou conclusão, resume seus motivos e reúne todas as suas forças para arrebatar um público já abalado’. Essas quatro partes – o exórdio, a apresentação dos fatos, a discussão e, para concluir, a peroração – constituirão, segundo Córax, uma das normas técnicas centrais do discurso retórico” (p. 49) O texto antigo é de Ch. Binoît, de 1846.

Segundo Breton, Córax foi o primeiro professor de retórica que elaborou uma cartilha sobre o assunto. O autor usa Roland Barthes para explicar pelas suas palavras que o nascimento da retórica estava contido num contexto judiciário, por volta de 485 a.C., na Sicília grega.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Novos mapas...



Partir para numa nova rota, provavelmente com uma bússola quebrada ou com um mapa completamente incerto é uma escolha difícil. Complicado é ficar espiando pelas frestas do portão fechado o antigo barco branco partir e se afastar aos poucos, como se ele nunca mais fosse voltar a ancorar naquele porto seguro. Uma dor arrebenta por dentro e a vontade é de passar a chave pela fechadura e correr pela margem do rio gritando para ele voltar, para que incertezas não venham e que nada daquilo que a antiga embarcação tinha mude. Desejo de que o mapa volte a ser o mesmo, de que a bússola volte a apontar para a velha direção, de que o cheiro da madeira molhada e da vela empoeirada hasteada volte com a nostalgia daquele segundo anterior à decisão de atrever-se em uma nova partida. Dói, mas deve passar. E nunca diga que nunca velhos mapas podem trazer um mesmo barco de volta para as rotas navegadas.