Ontem o Comitê de Política Monetária resolveu elevar a Selic em 0,50 ponto percentural e eleva a taxa para 12,75% ao ano.
Nota do Banco Central enviada à imprensa sobre a 189ª reunião:
Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 12,75% a.a., sem viés.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Alexandre Antonio Tombini (Presidente), Aldo Luiz Mendes, Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Luiz Awazu Pereira da Silva, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques.
Repercussão nos jornais:
* Estado de S. Paulo
Na capa:
E no caderno de Economia e Negócios:
Outros destaques do Estado de S. Paulo:
"Em manifesto, indústria e sindicatos se unem por mudanças na economia", na primeira página do caderno de Economia e Negócios (p. B1)
Entidades patronais e sindicais se uniram para preparar o documento "Manifesto da Coalizão Capital-Trabalho para a Competitividade e o Desenvolvimento". Ao todo, 39 entidades, entre elas Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical e Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) assinam o manifesto que será entregue à Presidência da República, ao Congresso e aos governadores.
Trecho da notícia: "'Indústria destruída'. O documento cobra medidas para ajudar a indústria. 'A competitividade da indústria de transformação nacional está sendo destruída', dizem as entidades, que listam quatro eixos para o ataque: os juros elevados (que continuam aumentando), o câmbio ainda valorizado, a carga tributária que também está em elevação pelo governo e a cumulatividade de impostos."
A notícia ainda comenta que houve aumento de impostos sobre o crédito ao consumidor e sobre o combustível em janeiro, elevamento dos tributos sobre o faturamento das empresas e "industriais e sindicalistas apontam o dedo, de forma indireta, para a proposta de apertar benefícios trabalhistas, como o seguro-desemprego".
Questões:
> A notícia não cita o porquê da união entre sindicatos e patrões. A lógica manda dizer que seria porque a situação brasileira está difícil para os dois lados e que os aumentos para a indústria poderia gerar cortes de vagas de emprego. Porém, também seria questionável o quanto esses sindicatos são "patronais" no Brasil e esta seria uma clara amostra de como eles andam de mãos dadas por aqui.
> Outro ponto seria o propósito dos aumentos das variáveis citadas como os impostos, juros e câmbio. O real desvalorizado beneficia o setor exportador, isso foi pauta de vários noticiários televisivos na quarta-feira (vi a notícia pelo menos na TV Cultura, SBT e Band), então a questão do emprego não seria um problema nestes setores, seria? Outra questão são os impostos, estão sendo elevados para os patrões, em especial. Sendo assim, por que eles estão sendo elevados? Seria para garantir os programas sociais em detrimento do lucro dessa classe?
Outra notícia, logo abaixo deste destaque da primeira página: "Produção industrial registra aumento de 2% em janeiro". A informação foi dada ontem, quarta-feira, pelo IBGE referente as diferenças de produção entre dezembro de 2014 e janeiro deste ano. Há uma ressalva na notícia logo no primeiro parágrafo: "Mas o resultado positivo não é suficiente para recuperar as perdas anteriores nem reverte a tendência negativa apresentada pelo setor , observou o" IBGE. A Notícia repercute a fala de um funcionário do IBGE e de mais três economistas de consultorias e agência de seguro. Nenhum deles, no entanto, fala sobre o resultado positivo no setor de máquinas e equipamentos, além da metalurgia. Destacam, sim, que o setor de montadoras de caminhões registrou aumento por conta da volta das férias coletivas nas empresas. Contudo, onde estaria a análise de um aumento nestes setores citados, uma vez que eles são "termômetros" para o restante da economia? No site do Estadão é também possível ler a notícia.
Outras notícias do Estado:
"Petrobrás eleva desemprego no País: Problemas que atingem a estatal após Operação Lava Jato influenciaram 10% dos 81,7 mil empregos perdidos no País em janeiro" (p. B3, também disponível no site do jornal: AQUI)
"Metalúrgicos de estaleiros fazem protesto no Rio" (p. B3)
"Captação da estatal deve ter aval da União" (p. B3)
"Aumento do etanol na gasolina vale a partir de 16 de março: Mistura passará dos atuais 25% para 27%; medida deve significar o consumo extra de 1 bilhão de litros de etanol" (p. B3 e também no site: AQUI)
"Cenário político faz dólar beirar os R$ 3: Embate entre o Senado e o Poder Executivo elevou a moeda americana em 2,06% a R$ 2,979, maior valor desde 19 de agosto de 2004" (p. B5) Essa matéria fornece duas explicações para o aumento do dólar: embora admitam que a moeda norte-americana esteja sendo cotada mais cara em outros países emergentes e até que esteja ganhando valor sobre o euro, a questão política brasileira se sobressaiu. A causa dessa última explicação é que o mercado vê dificuldades para o Poder Executivo impor o pacote de ajuste fiscal, principalmente depois que o presidente do Senado, Renan Calheiros, ter devolvido a medida provisória enviada à casa, na terça-feira. Comentário: pra quê focar no cenário internacional quando bater no governo é tão... saboroso?
"Dólar alto ainda não beneficia exportadores" (p. B5)
"'Estamos num atoleiro fiscal e cambial': Na avaliação de Blanche, diante da volatilidade e do nível de incerteza, é difícil projetar o rumo do câmbio" (p. B5)
"Analistas já preveem inflação a 8%: Por causa dos aumentos extraordinários da tarifa de energia, na casa de 50%, consultorias revisaram para cima projeção do IPCA" (p. B6)
"Comércio e serviços planejam demissões nos próximos meses" (p. B6)
"Governo prepara leilão da folha dos servidores públicos: Equipe econômica também estuda a licitação da administração dos recursos do FPE e do FPM; no total, receitas podem chegar a R$ 5 bi" (p. B7)
"Governo atrasa pagamentos do PAC: Sem recursos, repasses às construtoras são feitos com uma média de 75 dias de atraso, o que está provocando desaceleração nas obras"
Negócios: "Brasil perde para México posto de maior produtor de veículos da América Latina: Produção brasileira recuou 15,3% em 2014, o que fez o País registrar o pior resultado entre os dez principais produtores do mundo; se projeção de queda de 10% nas vendas se confirmar, Brasil pode ceder para a Alemanha a posição de quarto maior mercado" (p. B11)
"Gerdau vai investir 17,4% a menos em 2015: Esse é o terceiro ano consecutivo em que a siderúrgica gaúcha reduz investimentos" (p. B13)
* Folha de S.Paulo
"Incerteza sobre pacote fiscal leva dólar ao patamar de R$ 3: Moeda fecha a R$ 2,978; US$ 3,33 bi deixaram o país no final de fevereiro". (p. B1)
quinta-feira, 5 de março de 2015
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
10 dicas para organização de um trabalho acadêmico
Escrevi essas dicas para minha turma de Ciências Econômicas na Unicamp. Depois de duas monografias (de jornalismo e de economia) feitas e a dissertação a caminho, fui juntando algumas dicas pessoais que pode ajudar algumas pessoas.
Mas, antes de mais nada, a dica ZERO e mais importante: leia "Como se faz uma tese" de Umberto Eco (link para Livraria Cultura). Esse livro é simples e pequeno, mas genial. Embora ele fale de algumas práticas da Itália, tem dicas valiosíssimas para qualquer pessoa que quer escrever uma monografia (por obrigação do curso ou paixão), dissertação ou mesmo uma tese.
Agora as demais dicas:
1) Não deixe para última hora! "Um dia sem escrever sua mono/dissert/tese, resulta em trabalho triplo no futuro", segundo Marcelo Knobel, professor da Unicamp. Nem que seja para fichar uma página de um livro num dia, outra no outro, mas façam alguma coisa;
2) Post-its coloridos ajudam muito. Aqueles que têm formato de seta são ótimos para marcar mais de um assunto em um livro. Na primeira página, cole um de cada cor e escreva temas específicos que precisa pesquisar ou os nomes dos seus capítulos. Ao longo do livro vá colando esses post-its e fazendo pequenas anotações. Quando tiver vários livros fichados fica mais fácil de relacionar os temas entre autores diferentes;
3) Não deixe de conversar com seu orientador!!! Mesmo que ele não marque reuniões com frequência, COBRE os encontros porque eles são importantes para mantê-lo em dia e também para te "forçar" a apresentar algo com certa periodicidade (além de não deixar tudo para última hora);
4) Nem tente planejar escrever um ou mais capítulos nas férias (no caso de monografias que se dividem em disciplinas de dois semestres). Todo plano de férias fracassa, a não ser que você tenha uma disciplina militar. Prefira manter sua produção em dia ao longo do período letivo, assim dá para descansar de verdade em julho e preparar para a reta final;
5) Use o cronograma apresentado no projeto da monografia/TCC, dissertação, tese e etc. Imprima ele e cole na sua escrivaninha, no local de trabalho, contra-capa do caderno ou em qualquer lugar onde você frequenta muito e costuma estudar. Esse cronograma é essencial para que tudo saia no período certo;
6) Não faça um cronograma muito apertado. Se ainda tiver muitas disciplinas para cursar, seja realista e distribua a produção ao longo dos dois semestres. Leve em conta também os períodos de prova, horas que precisa estudar para essas outras disciplinas e não esqueça de um tempo para descansar!;
7.a) No caso específico da graduação em Ciências Econômicas da Unicamp, no meio do semestre há uma REUNIÃO DE AVALIAÇÃO com a coordenação. Esse esquema pode mudar em 2015, mas até ano passado essa reunião não passava de uma conversa com os membros da coordenação e da comissão de graduação. Eles vão ver o relatório que seu orientador preencheu e a nota parcial registrada ali e conversar para ver se você dará conta de fazer todo o trabalho naquele semestre e se já produziu algo. Até ano passado não era preciso apresentar nada nessas reuniões parciais e elas ocorrem no meio do primeiro e do segundo semestre;
7.b) Em todos os casos, é importante verificar quais são suas obrigações com a instituição de ensino ou com a instituição que te fornece bolsa de estudos (Fapesp em SP, por exemplo). No caso do mestrado, tive que fazer o exame de qualificação. Obviamente que não foi tão simples quanto o item anterior. Mas a dica importante aqui é: conheça suas obrigações, quando deve (e se deverá) apresentar algo, entregar relatórios e etc...
8) Para organizar a redação da monografia, crie uma pasta e alguns arquivos de texto: um para a introdução, um para cada capítulo do trabalho e outro para as referências. Fica mais fácil ir apresentando sua produção para seu orientador (isso se ele não impor alguma regra diferente);
9) Mantenha as Referências sempre atualizadas. Não deixe para incluir uma obra "depois" porque o depois nunca chega e o arquivo final fica sem ela. E acreditem: tem professor que olha toda a referência e vai conferir suas citações nela;
10) Não é só Jesus que salva, GDrive e Dropbox também salvam e também estão nas nuvens. Esses dois recursos têm opção de criar uma pasta no computador que mantém sua HD online atualizada. Crie as pastas da monografia nessa área e salve os arquivos todos ali. Claro que manter uma cópia de segurança num pendrive ou num outro HD ajuda, mas se seu computador pifar ou você tiver um tempo na faculdade, pode acessar seu trabalho pela internet e continuar trabalhando tranquilamente.
É isso.... espero que tenha ajudado alguém. Se sim, deixe um comentário aqui ;)
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Dica mais que útil: caracteres para encontrar e substituir informações no Word
Esse post não é nem sobre Economia e nem sobre Jornalismo e Mídia, mas é MUITO útil!
Finalizando minha monografia da Economia tive vários problemas ao transformar tabelas enormes do Excel em textos do Word por conta do espaçamento e diversos errinhos que precisava corrigir. Ao pesquisar como solucionar esse problema no google achei várias dicas, mas a melhor delas foi do site da Microsoft mesmo.
Quando copiei a tabela do Excel para o word com 350 células, ao converter em texto fiquei com várias linhas em branco entre um texto e outro. Além disso, eu havia colocado numeração nas tabelas, mas resolvi tirar eles depois porque precisei cortar algumas informações e a numeração ficaria toda bagunçada.
Para o primeiro problema, o dos espaços, entrei em "Substituir" e mandei encontrar três linhas brancas usando "^l^l^l" e substitui por uma só "^l"
Para o segundo problema, foi o seguinte:
Com esse dois passos eu tirei as linhas em branco e as numerações que haviam antes de cada parágrafo! Mais prático que isso, impossível!
Espero que essa dica seja útil a mais alguém. Para tanto, segue o texto que copiei do site da Microsoft (link disponível aqui):
Observação: O caractere de interpolação (^) nas tabelas a seguir deve ser digitado. O circunflexo é criado, pressionando SHIFT + 6 na maioria dos teclados. (Não confunda esse caractere com a tecla CTRL.)
Finalizando minha monografia da Economia tive vários problemas ao transformar tabelas enormes do Excel em textos do Word por conta do espaçamento e diversos errinhos que precisava corrigir. Ao pesquisar como solucionar esse problema no google achei várias dicas, mas a melhor delas foi do site da Microsoft mesmo.
Quando copiei a tabela do Excel para o word com 350 células, ao converter em texto fiquei com várias linhas em branco entre um texto e outro. Além disso, eu havia colocado numeração nas tabelas, mas resolvi tirar eles depois porque precisei cortar algumas informações e a numeração ficaria toda bagunçada.
Para o primeiro problema, o dos espaços, entrei em "Substituir" e mandei encontrar três linhas brancas usando "^l^l^l" e substitui por uma só "^l"
Para o segundo problema, foi o seguinte:
Com esse dois passos eu tirei as linhas em branco e as numerações que haviam antes de cada parágrafo! Mais prático que isso, impossível!
Espero que essa dica seja útil a mais alguém. Para tanto, segue o texto que copiei do site da Microsoft (link disponível aqui):
Observação: O caractere de interpolação (^) nas tabelas a seguir deve ser digitado. O circunflexo é criado, pressionando SHIFT + 6 na maioria dos teclados. (Não confunda esse caractere com a tecla CTRL.)
Somente na caixa "Localizar"
Os seguintes caracteres só podem ser usados na caixa Localizar . Outros caracteres que ser usado na caixa localizar o que estão listados na seção "Ambos 'Localizar' e 'Substituir por' caixas" deste artigo.| Caractere | Cadeia de caracteres |
|---|---|
| ^ 1 ou ^ g | Imagem (somente imagens embutidas) |
| ^ 2 ^ f (rodapé), ou ^ e (nota) | Referenciado automaticamente as notas de rodapé ou notas de fim |
| ^ 5 ou ^ um | Marca de anotação/comentário |
| ^ 19 ou ^ d | Abertura de campo (usar somente quando você está exibindo códigos de campo.) (Selecionar campo inteiro, não apenas a chave de abertura). |
| ^ 21 ou ^ d | Fechamento de campo (usar somente quando você está exibindo códigos de campo.)(Selecionar campo inteiro, não apenas a chave de fechamento). |
| ^? | Qualquer caractere único |
| ^# | Qualquer dígito |
| ^$ | Qualquer letra |
| ^ u8195 | Pesquisa por valor caracteres Unicode em espaço |
| ^ u8194 | Pesquisa por valor caracteres Unicode en espaço |
| ^ b | Quebra de seção |
| ^ w | Espaço em branco (espaço, o espaço não-separável, guia) |
| ^ unnnn | Pesquisa de caractere Unicode do Word 2000, onde "n" é um número decimal que corresponde ao valor de caractere Unicode |
Somente na caixa "Substituir"
Os seguintes caracteres só podem ser usados na caixa Substituir por . Outros caracteres que ser usada na caixa Substituir porlistados na seção "Ambos 'Localizar' e 'Substituir por' caixas" deste artigo.| Caractere | Cadeia de caracteres |
|---|---|
| ^ & | Conteúdo da caixa "Localizar" |
| ^ c | Substitua o conteúdo da área de transferência |
"Localizar o que" e "Substituir" caixas
Os caracteres a seguir podem ser usados nas caixas Localizar e Substituir . Outros caracteres que ser usado nos Localizar caixa ou a caixa Substituir por listados na "'Localizar' caixa somente" e "' Substituir por' caixa somente" seções deste artigo.| Caractere | Cadeia de caracteres |
|---|---|
| ^ 9 ou ^ t | Guia |
| ^ 11 ou ^ l | Nova linha |
| ^ 12 | Quebra de página ou seção (substitui uma quebra de seção com uma quebra de página) |
| ^ 13 ou ^ p | Marca de parágrafo/retorno de carro |
| ^ 14 ou ^ n | Quebra de coluna |
| ? | Ponto de interrogação |
| ^- | Hífen opcional |
| ^~ | Hífen não separável |
| ^^ | Caractere de circunflexo |
| ^+ | Travessão |
| ^= | Traço |
| ^ m | Quebra de página manual |
| ^ s | Espaço não-separável |
| ^ nnn | Onde "n" é um número de caractere ASCII |
| ^ 0nnn | Onde "n" é um número de caracteres ANSI |
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Prototype | Channel 4
Não é nem jornalismo e nem economia, mas merece espaço aqui. O vídeo fala por si só.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Nem sempre os conselhos funcionam... BIRD e seus relatórios
Os dois textos abaixo são resenhas feitas para a disciplina de Desenvolvimento Econômico Contemporâneo do Instituto de Economia da Unicamp. A proposta em uma parte do curso foi comparar como o discurso de algumas instituições mudaram ao longo do tempo. Começo publicando dois textos que fiz com base nos Relatórios sobre o Desenvolvimento Mundial do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), do Banco Mundial.
A comparação dos dois textos fica clara como nem todo conselho é o melhor quando não se considera que existe uma realidade além do "ceteris paribus" (expressão usada em economia para manter "tudo o mais constante"). Com isso quero tentar mostrar que, como concluímos em algumas aulas da disciplina mencionada acima, é preciso considerar muitos outros fatores além do estrito crescimento econômico. Um desses fatores é a realidade política e a integração de cada país na geopolítica internacional.
Essa questão do "conselho" fica clara quando os dois relatórios falam das privatizações. Em uma era amplamente recomendado tanto quanto aspirina. No segundo há o reconhecimento de que essa parte do receituário pode não ter sido um bom conselho como se acreditava.
Seguem as resenhas:
A comparação dos dois textos fica clara como nem todo conselho é o melhor quando não se considera que existe uma realidade além do "ceteris paribus" (expressão usada em economia para manter "tudo o mais constante"). Com isso quero tentar mostrar que, como concluímos em algumas aulas da disciplina mencionada acima, é preciso considerar muitos outros fatores além do estrito crescimento econômico. Um desses fatores é a realidade política e a integração de cada país na geopolítica internacional.
Essa questão do "conselho" fica clara quando os dois relatórios falam das privatizações. Em uma era amplamente recomendado tanto quanto aspirina. No segundo há o reconhecimento de que essa parte do receituário pode não ter sido um bom conselho como se acreditava.
Seguem as resenhas:
Fichamento: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial
1991: o desafio do desenvolvimento. RJ: FGV; Banco Mundial, 1991. Visão
geral.
Este relatório do Banco Internacional de Reconstrução e
Desenvolvimento (BIRD), do Banco Mundial, é o segundo de uma série de três que
tratam da pobreza e do meio ambiente publicados entre 1990 e 1992. Também é o
14º documento do Banco Mundial e se compromete a dar uma “ampla visão geral da
agenda desenvolvimentista” (BIRD: 1991 p. iii). No prefácio da publicação, o
então presidente da instituição, Barber B. Conable diz que a década de 1990 se
inicia com drásticas mudanças, se referindo a “ambiciosas reformas nos sistemas
econômicos e políticos” (ibid.) Tendo em vista essa transição, Conable diz que
o relatório busca fazer debates históricos que levaram os formuladores de
políticas a tomarem suas decisões no passado.
Uma das lições mais valiosas refere-se à interação do
Estado e do mercado no estímulo ao desenvolvimento. A experiência mostra haver
mais probabilidade de êxito na promoção do desenvolvimento econômico e na
redução da pobreza quando os governos complementam os mercados; conflitos entre
uns e outros geram fracassos dramáticos. O Relatório descreve uma abordagem
favorável aos mercados, cujo bom funcionamento é permitido pelos governos, que
por sua vez concentram suas intervenções em áreas onde os mercados se mostram
inadequados. (Ibid.)
Quatro aspectos principais do relacionamento entre governo e
mercado são listados por Conable (In: BIRD: 1991) e discutidos ao longo do
relatório:
Primeiro, o
investimento na população requer atuação pública eficiente. Em geral, os
mercados não são capazes, por si sós, de garantir que as pessoas, especialmente
as mais pobres, disponham adequadamente de educação, atendimento médico,
nutrição e acesso ao planejamento familiar. Segundo, é essencial ao êxito das empresas um contexto que lhes seja favorável
– no qual se incluam concorrência, boa infra-estrutura e instituições.
Concorrência estimula inovação, difusão de tecnologia e uso eficiente de
recursos. Terceiro, para o desenvolvimento econômico ter sucesso, os países precisam estar integrados à
economia global. A abertura aos intercâmbios internacionais de bens,
serviços , capital, mão-de-obra, tecnologia e ideias estimula o crescimento
econômico. Quarto, uma base
macroeconômica estável é essencial ao progresso sustentado. Restaurar a
confiança do setor privado é hoje um grande desafio para vários países com um
longo histórico de instabilidade macroeconômica. (BIRD: 1991, p. iii) (grifos
nossos)
A perspectiva para um desenvolvimento rápido nos primeiros
anos da década de 1990 se fundamentava em um cenário internacional favorável a
todas as economias. Como explica Conable (In: BIRD: 1991), as políticas
desenvolvimentistas de países desenvolvidos se beneficia amplamente com a
abertura de países em desenvolvimento tornando o mundo “cada vez mais
interdependente” (p. iii). Contudo,
(...) o Relatório acentua, principalmente, que o futuro
dos países em desenvolvimento a eles próprios compete. Está nas políticas e
instituições nacionais a possibilidade de um desenvolvimento bem-sucedido. Se
houver reformas firmes e sustentadas no nível nacional, conclui o Relatório, o
ritmo do desenvolvimento pode ser bem mais acelerado – e no fim da década
milhões de pessoas não viverão em condições de pobreza. (BIRD: 1991, p. iii)
Nas “Definições e notas sobre os dados” o relatório faz algumas
observações sobre as classificações adotadas aos grupos de países:
·
Economias
de baixa renda são aquelas com PNB per
capta igual ou inferior a US$580 em 1989.
·
Economias
de renda média são aquelas com PNB per
capta superior a U$580, mas inferior a US$6,000 em 1989. Este grupo
divide-se ainda em economias de renda média baixa e economias de renda média
alta, a um PNB per capta de US$2,335 em 1989.
·
Economias
de alta renda são aquelas com PNB per
capta igual ou superior a US$6,00 em
1989. (BIRD: 1991, p. x)
Os dois primeiros grupos são considerados as “economias em
desenvolvimento”. Contudo, o relatório ressalta que “a classificação por renda
não reflete necessariamente o nível de desenvolvimento” (BIRD: 1991, p. x).
Além destas classificações o relatório também trabalha com grupos analíticos.
São eles: Exportadores de petróleo
(como Argélia, Angola, Catar, Iraque, Nigéria, entre outros); membros da Organização Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE); e o terceiro grupo são os
Países de renda média muito endividados (abreviado para
“muito endividados” anos Indicadores do Desenvolvimento Mundial) são os 20
países que tiveram sérias dificuldades com o serviço da dívida. São países em
que três dos quatro coeficientes-chave estão acima de níveis críticos: dívida/PNB
(50%), dívida/exportações de bem e serviços (275%), serviço acumulado da
dívida/exportações (30%) e juros acumulados/exportações (20%). (BIRD: 1991, p.
xi)
É neste grupo no qual o Brasil pertencia naquele momento
junto da Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México,
Nicarágua, Peru, Uruguai, Venezuela e outros países africanos, europeus e
asiáticos. Ou seja, dos mais de 100 países que entraram nas análises do
relatório do BIRD, quase todos os países latino-americanos e poucos países dos
demais continentes estão neste grupo.
A “Visão geral” do relatório aponta que mais de 1 bilhão de
pessoas ainda não vivia com a renda diária de um dólar naquela época. Embora
alguns países já haviam melhorados seus indicadores, a pobreza continuava a ser
o problema. Contudo, o desenvolvimento é acreditado pelo relatório uma vez que
“mais de 95% do aumento do contingente mundial de mão-de-obra nos próximos 25
anos ocorrerão no mundo em desenvolvimento” (BIRD: 1991, p. 1).
Experiências anteriores são a base para compreender o
desenvolvimento econômico. Além disso, a
equipe do relatório afirma que
(...) a história nos mostra que as políticas econômicas e
as instituições são de importância crucial – o que é animador, pois implica que
os países que não prosperaram podem vir a ter melhor desempenho. Mas é também
um desafio, pois obriga os governos de todo o mundo (e não somente dos países
em desenvolvimento), bem como as agências multilaterais, a levarem em conta os
fatores que têm promovido o desenvolvimento e coloca-los em ação. (BIRD: 1991,
p. 1)
Neste trecho já fica evidente a importância que o Banco
Mundial dá para as instituições além da ênfase para a necessidade de outras
economias compartilharem de experiências de sucesso na história.
Estado x laissez-faire
Mercados competitivos garantem organização da produção e a
distribuição de bens e serviços. Além disso, a competitividade incentiva o
espírito empresarial e o progresso tecnológico. Contudo, o relatório afirma que
mercados devem coexistir com o Estado. “E, em muitas outras tarefas, os
mercados às vezes resultam inadequados ou fracassem completamente. É por isso
que os governos devem, por exemplo, investir em infra-estrutura e oferecer
serviços essenciais à população pobre” (BIRD: 1991, p. 1).
Quando os mercados podem funcionar bem e têm a liberdade
de fazê-lo, o progresso econômico tende a ser substancial. Quando os mercados
fracassam e os governos intervêm cautelosa e judiciosamente, ocorre um
progresso adicional. Mas quando os dois se unem, os fatos indicam que o todo é
mais que a soma das partes. Quando o estado e o mercado funcionam de mãos
dadas, os resultados têm sido espetaculares; mas, quando trabalham em oposição,
os resultados têm sido desastrosos. (BIRD: 1991, p. 2)
A economia mundial em
transição
Nas décadas anteriores a 1990, o progresso tecnológico
melhorou o padrão de vida em alguns países como a China e outros países
asiáticos. Além disso, a mortalidade infantil diminuiu e a expectativa de vida
aumentou graças a tecnologia média, saneamento ambiental, melhor alimentação e
educação neste período. No entanto, o desenvolvimento necessita de paz. Como
ressalta o relatório: “a causa mais importante da fome em países em
desenvolvimento em anos recentes foi, sem dúvida, o conflito militar, e não a
pobreza ou insuficiência de produção agrícola” (BIRD: 1991, p. 3).
Quanto ao comércio mundial, o BIRD afirma que ele cresceu a
uma taxa de 6% ao ano de 1950 até aquele momento. Este crescimento foi 50% mais
rápido que o da produção. Por conta destes números o relatório aponta a
necessidade de um aumento geral da integração econômica entre os países.
As projeções do banco Mundial para os anos 1990 era de um
crescimento na renda per capta de
cerca de 2,5% ao ano nos países industrializados, contando com um cenário sem
grandes choques externos adversos e se as políticas adotadas forem boas. Para
que isso seja possível seria necessário uma inflação entre 3% e 4% e taxas
reais de juros de cerca de 3%. Caso a expansão do comércio mundial ultrapassar
5% o crescimento da renda per capta
pode ser de 3%. Quanto aos países em desenvolvimento, se forem adotadas
“reformas mais vigorosas e abrangentes, a renda (...) pode, a longo prazo,
aumentar em outros 1,5-2 pontos percentuais – em média, cerca do dobro do
aumento provocado por melhores condições internas” (BIRD: 1991, p. 3).
Os caminhos do
desenvolvimento
Desenvolvimento é melhorar a qualidade de vida. “Abrange,
como fins em si mesmos, a melhoria da educação, padrões mais elevados de saúde
e nutrição, menos pobreza, um meio ambiente mais limpo, maior igualdade de
oportunidades, maior liberdade individual e uma vida cultural mais rica” (BIRD:
1991, p. 4).
O relatório também cita as estratégias adotadas nas décadas
anteriores como substituição de importações e a tributação da agricultura para
financiar o investimento industrial. Contudo, o Banco Mundial faz uma ressalva
sobre este assunto:
Essas ideias não resistiram à prova do tempo. Hoje, há
indícios mais claros, tanto em países industrializados quanto em países em
desenvolvimento, de que é melhor não se pedir aos governos que dirijam o
desenvolvimento. Quase sempre, os impostor discriminatórios contra a
agricultura constituem impostos sobre o crescimento econômico. O isolamento
econômico por trás de barreiras comerciais tem-se mostrado oneroso. Retardar a
concorrência ou interferir nos preços, deliberada ou acidentalmente, é quase
sempre contraproducente. (BIRD: 1991, p. 4)
Embora desacredite a capacidade de os Estados de conduzirem
o desenvolvimento, o relatório aponta algumas atribuições aos Estados que
constituem o cerne do desenvolvimento. São elas: definir e proteger os direitos
de propriedade; oferecer sistemas jurídicos, judiciais e normativos eficazes;
aumentar a eficiência dos serviços públicos; e proteger o meio ambiente.
O aumento na produção é, de acordo com o relatório, a soma
de aumento de capital e mão-de-obra e das variações da produtividade destes
dois insumos. Nos países em desenvolvimento essa variação foi muito lenta ao
longo do tempo. Sendo assim, o Banco Mundial atribui ao aumento da
produtividade, considerado como o motor do desenvolvimento, a diferença entre
os crescimentos da produção nos diferentes países analisados. A produtividade,
por sua vez está em função do progresso tecnológico que é influenciado pela
“história, educação, instituições e políticas de abertura nos países em
desenvolvimento e industrializados” (BIRD: 1991, p. 5). Além disso, a
tecnologia é difundida pela investimento no capital físico e humano através do
comércio. Sendo assim, um ambiente favorável a estes investimentos é necessário
para o progresso e o relatório aponta que economias com sistemas de preços
não-distorcidos é, em geral, mais propícia ao desenvolvimento.
Intervenções menores no mercado também é um ponto tratado
pelo relatório. O documento analisa três pontos relacionado às economias que
adotaram mais intervenção na década de 1980, como a China, Índia e Coreia:
intervenções disciplinadas pela concorrência externa e interna; intervenções
que não distorcessem indevidamente os preços relativos; intervenção mais
moderada que em outros países em desenvolvimento. Além dos pontos embasados na experiência
dos países citados, o relatório também cita outros três pontos com base na
experiência de outros países e na teoria econômica:
1. Intervir relutantemente: deixar que os
mercados funcionem por si mesmos. “(...) geralmente é um erro o Estado engajar-se
na produção física ou proteger a produção interna de um bem que pode ser
importado a preço mais baixo e cuja produção local traz poucos benefícios
secundários” (BIRD: 1991. p. 6);
2. Aplicar controles e contramedidas:
colocar a intervenção em função da disciplina dos mercados interno e
internacional;
3. Intervir abertamente: tornar a
intervenção simples e transparente, além de sujeita a normas.
Elementos de uma
abordagem favorável ao mercado
Dissipar as dúvidas quanto a inflação e educação como
fundamento para disseminação e adoção de novas tecnologias são dois pontos que
são promovidos pelas quatro áreas essenciais, aos olhos do Banco Mundial:
Desenvolvimento humano: este tópico engloba não só a educação e
a renda da população como também o aumento populacional. Estes três pontos são inversamente
proporcionais, ou seja, crescimento na educação e na renda faz declinar o
aumento da população. Nesta seara o relatório aponta como alternativas:
investimento maior na educação básica, no sistema de saúde básica e maior
cuidado para que os programas públicos atinjam seus objetivos.
Economia interna: garantia de leis que protejam a propriedade,
bens públicos de qualidade, investimentos em infra-estrutura, não impor
restrições para abertura e fechamento de firmas, entre outras medidas que
garantam, em essência, a liberdade do mercado são pontos a serem trabalhados
pelas economias.
Economia internacional: “sempre que os fluxos internacionais de
bens, serviços, capital, mão-de-obra e tecnologia aumentaram rapidamente, o
ritmo do progresso econômico também foi rápido” (BIRD: 1991, p. 9). Abertura
comercial implica em novas possibilidades de acesso a tecnologias. Esse fluxo
de tecnologia se dá tanto por educação no exterior, investimento externo,
assistência técnica, entre outros. Para tanto o Banco Mundial aponta necessária
a redução das barreiras não-tarifárias. “Os governos dos países industrializados têm a responsabilidade – senão em relação
ao mundo em desenvolvimento, pelo menos em relação a seus próprios povos – de
permitir que os exportadores dos países em desenvolvimento tenham acesso aos
seus mercados” (BIRD: 1991, p. 9)
Política macroeconômica: no tocante a este ponto o relatório
discrimina gastos demasiados no Estado em função de um cenário macroeconômico
mais favorável ao mercado. Gastos públicos geram dívidas interna e externa e
empréstimos. Neste sentido, a confiança dos empresários deve ser conquistada a
fim de garantir investimentos no país.
O governo pode manter uma política fiscal prudente se
examinar cuidadosamente a divisão de tarefas entre o Estado e o setor privado.
Isso, como afirma o Relatório, é desejável em qualquer caso. Reavaliando suas
prioridades de gastos, implementando reformas fiscais, reformando o setor
financeiro, privatizando as empresas estatais e lançando mão de tarifas para
reaver o custo de certos serviços prestados pelo Estado, os governos podem
alcançar, ao mesmo tempo, os objetivos de eficiência microeconômica e
estabilidade macroeconômica. (BIRD: 1991, p. 10)
Reconsiderando o
Estado
A importância de atenção às políticas ambientais e também a
não-discricionariedade do governo na economia são apontados pelo relatório como
responsabilidades numa revisão do papel do Estado.
Entre os enfoques do desenvolvimento, aquele que parece
mais confiável e promissor sugere uma reavaliação dos respectivos papéis do
mercado e do estado. Em poucas palavras, os governos precisam fazer menos
naquelas áreas em que os mercados funcionam ou podem funcionar razoavelmente
bem. Em muitos países, seria útil privatizar grande número de empresas
estatais. Os governos devem permitir o florescimento da concorrência interna e
internacional. Ao mesmo tempo, devem fazer mais naquelas áreas nas quais não se
pode depender apenas dos mercados. Isso significa, acima de tudo, investir em
educação, saúde, nutrição, planejamento familiar e alívio da pobreza; construir
uma infra-estrutura social, física, administrativa, normativa e jurídica de
melhor qualidade; mobilizar os recursos para financiar as despesas públicas; e
estabelecer uma base macroeconômica estável, sem a qual pouco se consegue
realizar. (BIRD: 1991, p. 10)
Referente à discricionariedade do Estado, o relatório aborda
a diferença entre a economias em sistemas políticos democráticos e
autoritários. Além disso, o documento aborda um “círculo vicioso de
intervenções nocivas que favorecem interesses particulares e levam à busca de
lucros financeiros e à ‘captura’ do Estado” (BIRD: 1991, p. 11).
A reforma deve visar as instituições. O estabelecimento
de um sistema jurídico e judiciário eficaz e um firme sistema de direitos de
propriedade é um complemento essencial às reformas econômicas. A reforma do
setor público é uma prioridade em muitos países – inclusive a reforma do
serviço público, a racionalização dos gastos governamentais, a reforma de
empresas estatais e a privatização. Entre outras reformas econômicas correlatas
estão um melhor fornecimento de bens públicos, supervisão bancária e normas
jurídicas para o desenvolvimento financeiro. O reforço dessas instituições
melhora a qualidade do governo, torna o Estado mais capaz de implementar a
política do desenvolvimento e permite à sociedade estabelecer controles e
contramedidas. (BIRD: 1991, p. 11).
O relatório afirma que a adoção das medidas propostas ali,
se adotadas, contribuiria para uma melhor distribuição de renda a favor dos
mais pobres. Aos países em desenvolvimento, é indicado uma reforma tributária
para tornar o sistema progressivo, reforma agrária na China, Japão e República
da Coreia.
Prioridades de ação
Os países
industrializados devem: eliminar as restrições comerciais e reformar a
política macroeconômica.
Em conjunto, países industrializados e as agências multilaterais
devem: aumentar a ajuda financeira, apoiar reformar econômicas e estimular o
crescimento sustentável.
Já aos países em desenvolvimento: investir nos recursos
humanos, melhorar o clima para o empreendimento, abrir as economias ao comércio
e ao investimento internacionais e corrigir a política macroeconômica.
Fichamento: BIRD. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial
2006. Washington, DC: Banco Mundial, 2006. Visão geral.
O Relatório para o Desenvolvimento Humano de 2006, de forma
geral, foca na equidade e as formas como os governos devem atuar para
alcança-la de maneira plena. A definição do relatório para equidade é ter
oportunidades iguais para as pessoas conseguirem a vida que buscam e serem
poupadas da extrema privação dos resultados.
Para ilustrar de forma mais clara o conceito, o relatório
lança mão de uma narrativa comparando duas crianças nascidas na África do Sul:
uma negra de família pobre e outra branca, rica. O recurso estilístico do
texto, embora usado apenas no começo do documento de forma narrativa, percorre
todo o discurso do BIRD ao fazer inúmeras comparações e ilustrações das
condições de desenvolvimento de pessoas por todo o mundo. Exemplo disso é o
acesso à educação e saúde na África e no sul da Ásia, ou as diferenças de
acesso aos serviços básicos baseados no sexo e nas castas, respectivamente na
China e na Índia. Esses diferentes casos mostra quantas dimensões podem ter as
inequidades nos e entre os países.
Outro conceito que se liga à equidade é o das “armadilhas da
desigualdade”. Estes fenômenos são definidos como “efeitos adversos de
oportunidades e forças políticas desiguais sobre o desenvolvimento são os mais
prejudiciais, pois as desigualdades econômicas, políticas e sociais tendem a
reproduzir-se ao longo do tempo e de geração a geração” (BIRD: 2006, p. 2).
Estas armadilhas são também abordadas ao longo de todo o
documento, principalmente a parte da transmissão das condições e oportunidades
de geração para geração. Por exemplo, neste trecho:
Infelizmente, as circunstâncias predeterminadas (e,
portanto, moralmente irrelevantes) definem muito mais do que apenas os
rendimentos futuros. Educação e saúde têm valor intrínseco e afetam a
capacidade dos indivíduos de se integrarem à vida econômica, social e política.
Mas as crianças defrontam-se com oportunidades substancialmente diferentes para
aprender e ter vida saudável em quase todas as populações, dependendo de suas
condições financeiras, localização geográfica ou educação dos pais, entre
outros fatores. (BIRD: 2006, p. 4)
Buscar a equidade é também buscar a prosperidade, ou seja,
estes objetivos são complementares. Além disso, o relatório aponta dois grandes
grupos de motivos que são as causas dessa complementaridade: um se refere às muitas
falhas de mercado nos países em desenvolvimento, principalmente nos mercados de
crédito, seguro, terra e capital humano. “Quando os mercados são incompletos ou
imperfeitos, a distribuição de riqueza e de poder afeta a alocação de
oportunidades de investimento” (BIRD: 2006, p. 2). Sendo assim, corrigir essas
falhas deve ser um dos objetivo para melhor equidade.
Outro grupo de motivos que gera equidade com prosperidade é
o fato de instituições econômicas e organizações sociais serem construídas para
privilegiar certos interesses específicos de grupos isolados.
A distribuição de riqueza está diretamente relacionada
com as diferenças sociais que estratificam as pessoas, comunidades e nações nos
grupos que dominam e os que são dominados. Esses padrões de dominação
persistem, porque as diferenças econômicas e sociais são reforçadas pelo uso
manifesto e sutil do poder. As elites protegem seus interesses de formas sutis,
por meio de práticas excludentes em sistemas de casamento e parentesco, por
exemplo, e de formas menos veladas, tais como a manipulação política agressiva
ou o uso explícito da violência. (BIRD: 2006, p. 2).
O relatório faz também três considerações iniciais
importantes para o desenvolvimento do resto do documento:
1) Nem
sempre equidade pode ser medida pela distribuição de renda. Mesmo com processos
mais justos, espera-se ainda diferenças que provém de diferentes talentos,
preferências, esforço e sorte;
2) O
foco das políticas deve ser a distribuição de ativos, oportunidades econômicas
e expressão política e não na desigualdade de rendimentos;
3) O
cálculo do mérito das políticas adotadas para aumentar a equidade e seus
efeitos no longo prazo nem sempre é levado em conta ou são difíceis de
calcular.
Outro questionamento levantado pelo relatório se refere à
importância da equidade para o crescimento. Uma primeira resposta a isso
percorre o caminho das inequidades dentro dos mercados e o comando destes e dos
governos por grupos pequenos, deixando à margem grande parcela da população.
Mercados imperfeitos, por exemplo, geram desigualdades de riqueza e poder e por
conseguinte oportunidades desiguais e alocação ineficiente dos recursos. Este
tema é trabalhado no documento pelo ponto de vista tanto do mercado financeiro,
quanto o de terras e capital humano. O pleno funcionamento de forma
transparente e justa não geraria rendas diferenciadas e diferentes
oportunidades.
Outro ponto que o relatório do BIRD volta a mencionar, assim
como o de 1991 é a importância das instituições. As instituições são
construções históricas, políticas e sociais. Dessa forma, imperfeições de
mercado são reflexos de distribuições inequitativas de poder.
As boas instituições econômicas são equitaveis de uma
maneira fundamental: para prosperar, uma sociedade deve criar incentivos para
que a vasta maioria da população invista e inove. Mas tal grupo de instituições
econômicas só pode surgir quando a distribuição de poder não for extremamente
desigual e em situações nas quais existam restrições ao exercício de poder por
parte de funcionários do governo. (BIRD:
2006, p. 9)
Outro ponto em que as instituições é ressaltada é quando o
relatório afirma que políticas que a equidade aprimora as políticas de redução
da pobreza:
Afirmamos que uma lente de equidade aprimora a agenda de
redução da pobreza. As pessoas de baixa renda geralmente têm menos expressão,
menor renda e menos acesso a serviços do que a maioria das outras pessoas. Quando
as sociedades se tornarem mais igualitárias de modo a conduzir a maiores oportunidades
para todos, as pessoas de baixa renda estarão em condições de aproveitar um “duplo
dividendo”. Primeiramente, a ampliação de oportunidades beneficia os pobres diretamente,
por intermédio da participação no processo de desenvolvimento. Segundo, o processo
de desenvolvimento propriamente dito pode obter mais êxito e tornar-se mais
flexível à medida que a maior equidade produzir melhores instituições, gestão
mais eficaz do conflito e um melhor uso de todos os potenciais recursos da sociedade,
inclusive os recursos das pessoas de baixa renda. Os consequentes aumentos das taxas
de crescimento econômico nos países pobres, por sua vez, contribuirão para a
redução das desigualdades mundiais. (BIRD: 2006, p. 10)
Essa visão de equidade acrescenta três perspectivas à
formulação de políticas de desenvolvimento:
1) As
políticas de diminuição da pobreza podem envolver redistribuições de
influência, vantagem ou subsídios fora dos grupos dominantes;
2) As
compensações das políticas devem ser levadas em conta. Caso altos impostos para
melhorar a educação atinjam seu objetivo no futuro, esse benefício não deve ser
ignorado na elaboração da política;
3) “Em
terceiro lugar, é falsa a dicotomia entre políticas para o crescimento e
políticas voltadas especificamente para a equidade. A distribuição de
oportunidades e o processo de crescimento são determinados em conjunto. As
políticas que afetam um, afetarão o outro” (BIRD: 2006, p. 11).
A partir destas considerações, a Visão Geral do relatório
resume os quatro pontos principais para a ação pública e a formação de
política.
A. Capacidades
Humanas
1) Desenvolvimento na primeira infância: a visão essencial
aqui é reduzir a armadilha da desigualdade, ou seja, fazer com que as condições
do nascimento não sejam fatores decisivos no desenvolvimento cognitivo da
criança. Desta forma as políticas devem atuar para garantir esse
desenvolvimento de forma que a equidade seja garantida desde cedo;
2) Escolaridade: garantia de pelo menos um nível básico a
todas as crianças de forma igual;
3) Saúde: este ponto engloba não só tratamento médico, como
imunização, mas também saneamento básico e água potável.
4) Gestão de risco: garantia de que choques e crises
econômicas não atinjam as classes mais pobres de maneira tão drástica como
usualmente ocorre;
5) Impostos para equidade: “Como os impostos impõem perdas
de eficiência, alterando as escolhas individuais entre trabalho e lazer,
consumo e poupança, a maioria dos países em desenvolvimento tem possibilidade
de ser mais bem servido evitando elevados impostos marginais sobre a renda e
fundamentando-se em uma base mais ampla, especialmente para impostos sobre o
consumo” (BIRD: 2006, p. 13);
B. Justiça, terra e
infraestrutura
1) Criação de sistemas de justiça equitativos: “As instituições
legais podem sustentar os direitos políticos dos cidadãos e restringir o
aprisionamento do Estado pela elite” (BIRD: 2006, p. 14 );
2) Para uma maior equidade no acesso à terra: essa equidade
não precisa necessariamente passar pela questão da propriedade, segundo o
relatório, mas sim por políticas agrícolas e maior segurança de posse aos
grupos de menor renda;
3) Fornecimento equitativo de infraestrutura:
Embora o setor público continue a ser, em muitos casos, a
principal fonte de fundos de investimento em infraestrutura destinados a
ampliar as oportunidades dos menos favorecidos, a eficiência do setor privado
também pode ser aproveitada. Embora as privatizações de empresas de serviços
públicos costumem ser atacadas por seus efeitos desiguais, a evidência indica
uma realidade mais complexa. As privatizações na América Latina geralmente
resultaram em acesso a serviços, especialmente em eletricidade e
telecomunicações. Em outros casos, contudo, no período pós-privatização os
preços aumentam mais do que os ganhos em qualidade e cobertura, levando ao
descontentamento geral da população.
As privatizações são, portanto, um caso clássico de
política que pode ou não dar certo, dependendo do contexto local. Se o sistema
público for altamente corrupto ou ineficaz e estiver prevista uma capacidade
normativa adequada na pós-privatização, a privatização pode ser considerada um
bom recurso. Em outros casos, há privatizações mal programadas que transferem
ativos públicos a preços excessivamente baixos para mãos privadas. (BIRD: 2006,
p. 15)
C. Os mercados e a
macroeconomia
1) Mercados financeiros: a questão perpassa o maior acesso
de firmas que geralmente não têm acesso ao mercado financeiro e a empréstimos;
2) Mercados globais: aplicação universal das leis do trabalho
e segurança para os trabalhadores como seguro desemprego e proteção/incentivo
de minorias como mulheres e jovens inexperientes;
3) Mercado de produtos:
Geralmente há também fortes interações com qualificações
no mercado de trabalho. Em muitos países, a abertura ao comércio (geralmente
coincidindo com a abertura ao investimento estrangeiro direto) tem sido
associada a um aumento da desigualdade salarial nas duas últimas décadas. Isso
ocorre especialmente nos países de renda média, notavelmente na América Latina.
A abertura ao comércio geralmente incentiva o prêmio por aptidões à medida que
as firmas modernizam seus processos de produção (mudança técnica com base em
aptidões, no jargão dos economistas). Isso pode ser prejudicial para a equidade
se o contexto institucional restringir a capacidade dos trabalhadores de
mudarem para um novo trabalho – ou limitar o acesso da população à educação.
(BIRD: 2006, p. 17)
4) Estabilidade macroeconômica: o relatório defende que á
relação entre instituições injustas e crises macroeconômicas que, geralmente,
acabam por penalizar as classes com menor renda. Os governos devem, portanto,
criar políticas fiscais anticíclicas e criar redes de segurança antes de
crises;
D. A arena global
O documento reconhece que há inequidades no mercado mundial.
Contudo, propõe algumas medidas que visem melhorar este cenário como: migrações
para países membros da OCDE; aumentar substancialmente a liberalização
comercial; permitir que os países pobres usem medicamentos genéricos; e desenvolver
normas financeiras mais apropriadas aos países em desenvolvimento.
A conclusão desta visão geral do relatório traz a ideia de
que equidade, além de gerar melhores oportunidades, também atrai investimentos
Ao assegurar que instituições reforcem direitos pessoais,
políticos e de propriedade para todos, incluindo os atualmente excluídos, os
países poderão contar com um número maior de investidores e inovadores e ser
muito mais eficazes na prestação de serviços para todos os cidadãos. Uma maior
equidade pode, no longo prazo, sustentar um crescimento mais rápido. Esse
crescimento pode ser incentivado por uma maior imparcialidade na arena global, pelo
menos por meio das promessas feitas na reunião da comunidade internacional
realizada em Monterrey. O crescimento rápido e o desenvolvimento humano nos
países mais pobres são fundamentais para a redução da desigualdade global e
para o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio. (BIRD: 2006, p. 19)
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Desigualdade de renda, condições e vida. Alguns trechos do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2006 do Banco Mundial
Certa vez, num grupo de economia
no Facebook, entre em uma discussão sobre os benefícios do livre mercado e a
não intervenção do governo. A maior parte daqueles que estavam discutindo, acho
que posso dizer, eram conservadores ou liberais. A conversa foi feita em um
post sobre a transformação da Argentina em uma economia socialista (por conta
de regulações colocadas por Christina Kirchner às empresas nacionais).
Em certo ponto da discussão
surgiu o tema da liberdade de escolha e as oportunidades iguais a todos. Este
assunto veio à tona principalmente depois que comentamos sobre as propostas da
candidata à presidência Luciana Genro ter como projeto a taxação de grandes
riquezas no Brasil. Como estava no meio de vários liberais, a proposta foi
vista como ruim e alguns dos economistas que lá debatiam não viam lógica em distribuir
renda mesmo que o dono de uma grande riqueza fosse alguém que, embora pobre,
tivesse uma grande ideia e enriquecesse com base em seu esforço. Meritocracia
pura.
Dada essa primeira historinha,
vou colocar abaixo uma outra que li no Relatório sobre o Desenvolvimento
Mundial de 2006 do Banco Mundial. Confesso que fiquei surpreso de ler uma
narrativa tão instigante num documento de uma das instituições máximas da
economia mundial, acho que posso definir assim.
Segue, portanto, o texto (a imagem é meramente ilustrativa e não faz parte do relatório):
Imaginemos duas
crianças sul-africanas nascidas no mesmo dia do ano de 2000. Nthabiseng é negra,
filha de família pobre da zona rural da província de Eastern Cape, a cerca de
700 quilômetros da Cidade do Cabo. Sua mãe não recebeu educação formal. Pieter
é branco, filho de família próspera da Cidade do Cabo. Sua mãe completou o
terceiro grau na respeitada Stellenbosch University, próxima de casa.
No dia de seu
nascimento, Nthabiseng e Pieter não podiam, a rigor, ser responsabilizados pelas
condições de suas famílias: suas etnias, nível de renda e de educação de seus
pais, sua localização urbana ou rural ou até mesmo seu sexo. Mas as
estatísticas sugerem que essas variáveis históricas pré-determinadas farão grande
diferença em sua vida. Nthabiseng tem 7,2% de possibilidade de morrer no
primeiro ano de vida, mais do dobro dos 3% de Pieter. Pieter pode esperar viver
até os 68 anos. Nthabiseng, até os 50. Pieter pode esperar completar 12 anos de
educação formal. Nthabiseng, menos de 1 ano. Nthabiseng provavelmente será
significativamente mais pobre do que Pieter durante toda a vida. Quando
crescer, ela provavelmente terá menos acesso à água limpa e saneamento ou a
boas escolas. Portanto as oportunidades com que essas duas crianças se deparam
para alcançar todo o seu potencial humano são extremamente diferentes desde o
início, sem que elas próprias tenham culpa disto.
Essas
disparidades de oportunidades refletem-se em diferentes capacidades de contribuir
para o desenvolvimento da África do Sul. Talvez as condições de saúde de
Nthabiseng ao nascer fossem piores, devido à pior nutrição de sua mãe durante a
gravidez. Devido à socialização de seus gêneros, localização geográfica e
acesso a escolas, Pieter tem muito mais possibilidade de adquirir uma educação que
o permita utilizar integralmente seus talentos naturais. Mesmo que aos 25 anos,
e apesar das dificuldades, Nthabiseng consiga ter uma excelente idéia acerca de
negócios (como uma inovação para aumentar a produção agrícola), ela terá muito
mais dificuldade em convencer um banco a emprestar-lhe dinheiro a uma taxa de
juros razoável. Se Pieter tiver uma idéia igualmente interessante (como o
projeto de uma versão avançada de um software promissor) terá mais facilidade
em obter crédito tendo tanto um diploma universitário, quanto muito provavelmente
algum colateral. Com a transição para a democracia na África do Sul, Nthabiseng
pode votar e, dessa forma, indiretamente moldar a política de seu governo, algo
que era negado aos negros durante o apartheid. Mas o legado da desigualdade de
oportunidades e da força política do apartheid ainda permanecerão por alguns
anos. Há um longo caminho a percorrer entre essa (fundamental) mudança política
e as mudanças de condições econômicas e sociais.
Por mais
surpreendentes que sejam as diferenças de oportunidades durante a vida entre
Pieter e Nthabiseng na África do Sul, elas são minimizadas pelas disparidades
entre os sul-africanos médios e os cidadãos de países mais desenvolvidos.
Consideremos as chances de Sven – nascido no mesmo dia em uma família típica da
Suécia. Sua possibilidade de morrer no primeiro ano de vida é muito pequena
(0,3%) e ele pode esperar viver até os 80 anos, 12 anos mais do que Pieter e 30
mais que Nthabiseng. Ele provavelmente completará 11,4 anos de educação – 5
anos mais do que o sul-africano médio. Essas diferenças de tempo de
escolaridade são agravadas pelas diferenças de qualidade: na oitava série, Sven
terá expectativa de marcar 500 pontos em um teste comparativo internacional em
matemática, enquanto o estudante sul-africano médio obterá uma pontuação de
apenas 264 – mais de dois desvios padrão abaixo da média da Organização para a Cooperação
Econômica e Desenvolvimento (OECD). Nthabiseng muito provavelmente nunca
chegará à oitava série e, portanto, não fará o teste. Essas diferenças de
oportunidades de vida entre nacionalidades, etnias, gêneros e grupos sociais
chocarão muitos leitores como fundamentalmente injustas. Elas podem também levar
à perda de potencial humano e, portanto, à perda de oportunidades de
desenvolvimento. É por isso que o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2006
analisa a relação entre eqüidade e desenvolvimento.
Como encontrei mais algumas citações interessantes no
mesmo documento, resolvi coloca-las logo abaixo. Os números em parênteses correspondem
à página de onde copiei o trecho. Os grifos em negrito foram feitos por mim.
A quantificação direta da desigualdade de oportunidades é difícil, mas
uma análise do Brasil serve de exemplo. A desigualdade
de renda em 1996 foi dividida no seguinte: uma parcela atribuída a quatro circunstâncias
predeterminadas que fogem ao controle das pessoas – etnia, região de nascimento,
nível de escolaridade dos pais e ocupação dos pais no nascimento – e uma parcela
residual. Essas quatro circunstâncias são responsáveis por cerca de um quarto
de todas as diferenças de renda entre os trabalhadores. Pode-se argumentar que
outros determinantes das oportunidades também são predeterminados ao
nascimento, mas não foram incluídos neste conjunto – por exemplo, gênero,
condição financeira da família ou a qualidade da educação básica. Como essas variáveis
não estão incluídas na “decomposição” da desigualdade, esses resultados podem
ser considerados como estimativas de um limite inferior da desigualdade de
oportunidade no Brasil. (p. 4)
Infelizmente, as circunstâncias
predeterminadas (e, portanto, moralmente irrelevantes) definem muito mais
do que apenas os rendimentos futuros. Educação
e saúde têm valor intrínseco e
afetam a capacidade dos indivíduos de se integrarem à vida econômica, social e
política. Mas as crianças defrontam-se com oportunidades substancialmente diferentes
para aprender e ter vida saudável em quase todas as populações, dependendo de suas
condições financeiras, localização geográfica ou educação dos pais, entre
outros fatores. (p. 4-5)
Significativas diferenças de
gênero também persistem em muitas regiões do mundo. Em partes do Leste e
Sul da Ásia, especialmente em áreas rurais da China e noroeste da Índia, a oportunidade
de simplesmente viver pode depender de uma única característica predeterminada:
sexo. Essas regiões têm um número consideravelmente maior de meninos do que
meninas devido, em parte, ao aborto seletivo e à diferença de cuidados após o nascimento.
E em muitas (nem todas) partes do mundo, mais meninos do que meninas frequentam
a escola. (p. 5)
Um cidadão comum nascido entre 1975 e 1979 na África subsaariana tem
apenas 5,4 anos de escolaridade. No
Sul da Ásia, esse número sobe para 6,3 anos; nos países da OEDC é de 13,4 anos.
(p. 6)
A média dos gastos anuais com
consumo varia desde US$279 em Paridade do Poder de Compra (PPP) na Nigéria
até US$17,232 em PPP em Luxemburgo. Isso significa que o cidadão médio em
Luxemburgo dispõe de recursos monetários 62 vezes superior do que o nigeriano
médio. (p. 6-7)
A surpreendente evidência do impacto da criação de estereótipos no desempenho vem de um recente experimento
na Índia. Pediu-se a crianças de diferentes castas que fizessem exercícios
simples, tais como resolver labirintos, com incentivos em dinheiro condicionados
ao desempenho. O resultado mais importante do experimento é que as crianças de
castas inferiores têm desempenho igual às das castas superiores quando sua
casta não é anunciada publicamente pelo condutor do experimento, mas desempenho
significativamente inferior quando a casta é divulgada. (p. 9)
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Wake Up Call: End the Nightmare of Consumption
Fonte: Films for Action
Hidden beneath sleek, space-age screens and shining metal, the true cost of our gadgets lurks unseen… Have you ever felt like we're living through a nightmare of consumption? That you wish you could un-hook yourself and reconnect with a life that is somehow more real and vivid? Then perhaps you're ready to heed Earth's Wake Up Call.
Today we live in a time when there is little to no understanding of how the goods we consume and take for granted came into being. Without this we lack the knowledge to understand the true costs of our consumption, and the power to take action. As a result we have become disconnected from Earth - the origin of our health, wealth and all of the 'things' we depend on.
Wake Up Call takes us on a fast-paced, animated glimpse of the true costs behind some of our most prized possessions - our electronic gadgets. Joining the dots between the stages of extraction, production, consumption and disposal, it reveals that, although our gadgets appear sleek and shiny, their appearance is misleading.
Today we live in a time when there is little to no understanding of how the goods we consume and take for granted came into being. Without this we lack the knowledge to understand the true costs of our consumption, and the power to take action. As a result we have become disconnected from Earth - the origin of our health, wealth and all of the 'things' we depend on.
Wake Up Call takes us on a fast-paced, animated glimpse of the true costs behind some of our most prized possessions - our electronic gadgets. Joining the dots between the stages of extraction, production, consumption and disposal, it reveals that, although our gadgets appear sleek and shiny, their appearance is misleading.
This new short film for the Gaia Foundation was made by Steve Cutts, the animator who produced this great film.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Qual a diferença entre a esmola e a manipulação?
Este vídeo é belíssimo sobre a questão da divisão do Brasil para separar os estados do Nordeste e os do Sul e Sudeste. Este tema ridículo está muito em voga depois das eleições de 2014 com a reeleição da Dilma Roussef (PT). Compartilho o vídeo e o comentário que deixei nele aqui.
Comentário:
Admitamos que os beneficiados com o Bolsa Família sejam mesmo vagabundos, reprodutores e sem capacidade nenhuma para discernir uma política de compra de votos da situação econômica do Brasil. Eles só votam porque recebem esmola e estão com a barriga cheia. Certo? Vamos partir então dessa crítica que foi tão veiculada por parte da população descontente com o governo PT para analisar o outro lado.
De um lado esse povo vota de barriga cheia e do outro? Votam os conscientes, os inteligentes, aqueles que planejam sua família e só fazem dois filhos na vida. Estes são mesmo os inteligentes? Será? Na minha visão não. Se partirmos do pressuposto no parágrafo anterior temos que admitir os defeitos do outro lado também, certo? Afinal, sejamos justos, somos inteligentes aqui. Afinal, quem é o outro lado e como ele vota?
Esse outro lado, além de disseminar um preconceito fora de moda, são tão burros quanto aqueles que votam de barriga cheia. Por que burros? Por que votam com base naquilo que veem na televisão, leem no jornal ou na gloriosa revista Veja. São burros porque não têm a inteligencia suficiente para ler mais de uma fonte de informação e não são capazes de pensar fora da caixinha. Esse povo é tão burro que não consegue identificar, nas entrelinhas ou nas manchetes, a posição ideológica daqueles veículos de comunicação que usam como fonte primária de informação. O que quer a Veja, o Estadão e a Globo? Quem são estes veículos e quais suas histórias? Da teoria organizacional para a prática: o que eles defendem hoje? Que tipo de informação eles propagam? São informações "imparciais, objetivas e confiáveis"? Quem responde sim é muito burro!
Não é possível confiar sua inteligência a nenhum veículo de comunicação, nem na Veja e nem na Carta Capital. Ai perguntam: então em quem vou confiar? Vão confiar na sua capacidade de formação de opinião. Alguém que não contrapõe informações (de esquerda e de direita) e não vai pesquisar na fonte a realidade dos fatos não consegue formar uma opinião própria. Sendo assim, reforço: esse povo que critica o Bolsa Família e atacam o governo petista com argumentos furados são sim BURROS. Sequer se dedicaram ao estudo da história econômica do Brasil e/ou algum estudo sobre a origem da pobreza e da realidade nordestina para começar a propagar as asneiras que vêm falando aos sete ventos.
E aí? Quem vota com a burrice? Aqueles que estão recebendo esmolas do governo ou aqueles que votam com base em informações manipuladas da imprensa? Fica a questão...
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