quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"O enfrentamento do capital financeiro é possível se houver vontade política e mobilização social", afirma Luciana Genro

Fonte: Fanpage da candidata no Facebook

Sem visibilidade na grande mídia, especificamente na maior emissora de televisão (TV Globo) e em grandes jornais impressos (como Estadão e Folha), a candidata à presidência do PSOL, Luciana Genro, vem tentando apresentar seu programa de governo. Em entrevista feita por e-mail para o Blog Opinião Alex Contin, Luciana Genro destaca quais são os entraves ao desenvolvimento brasileiro e sua visão da cobertura da mídia das Eleições 2014.

Perfil
Luciana Genro define como o início de sua carreira política seus 14 anos. "Lambro até hoje do meu primeiro discurso, no dia 8 de março de 1985, Dia Internacional da Mulher. Eu subi numa cadeirinha em frente ao colégio e mandei ver. Não me lembro de nada do que eu disse, mas me lembro da emoção de ter feito um discurso na frente da escola" (Fonte: perfil da candidata).

Advogada e professora de inglês, foi eleita Deputada Estadual pelo Rio Grande do Sul em 1994 e reeleita em 1998, as duas candidaturas pelo PT. Em 2002, eleita Deputada Estadual pelo mesmo estado e partido. Contudo, foi expulsa do partido em 2003 por votar contra a Reforma da Previdência do governo Lula. Fora do partido, ajudou a fundar o PSOL em 2005 junto de Heloísa Helena e outros políticos.

Luta Política
Com pouco tempo na propaganda obrigatória e participações em debates e entrevistas televisionadas por outras emissoras que não a Globo, a candidata enxerga como principal oponente do desenvolvimento brasileiro o capital financeiro e sua ligação íntima com a Dívida Pública.

Em diversas entrevistas e em seu programa de governo, Luciana Genro (PSOL) destaca o problema da obscuridade da Dívida Pública brasileira.  Uma de suas propostas é realizar uma auditoria pública dessa dívida a fim de reduzir o valor pago pelo governo e destinar parte da verba a investimentos sociais, como educação e saúde. Para entender melhor do que se trata este tema, segue uma explicação breve sobre a dívida antes da entrevista.

A questão da Dívida
A Dívida Pública brasileira é "a dívida contraída pelo Tesouro Nacional para financiar o déficit orçamentário do Governo Federal, nele incluído o refinanciamento da própria dívida, bem como para realizar operações com finalidades específicas definidas em lei", de acordo com o Tesouro Nacional (acessado em 24 set. 2014). Ou seja, de uma forma simples é possível visualizar a dívida pensando da seguinte forma: quando a quantidade de impostos arrecadados pelo governo é insuficiente para cobrir os gastos e as obrigações do governo, ele emite títulos públicos para captar dinheiro de investidores. Quando isso ocorre, o Tesouro Nacional se torna "devedor" destes atores, ou seja, ele deve pagar a estes compradores os juros que os títulos prometem.


Detentores da DPF  - Junho de 2014
Fonte: Tesouro Nacional (Acessado em 24 set. 2014)

A expressão máxima do combate de Luciana Genro são os bancos. Segundo ela, grande parte da arrecadação que o governo faz é para o pagamento da dívida, outro ponto chave em seu programa. Sendo assim, além de o governo se endividar com o Sistema Financeiro, ele também destina parte de sua verba para o pagamento dos juros da dívida a estes atores. Como representado no gráfico acima, os maiores detentores da Dívida Pública são as Instituições Financeiras (que detém 29,6% dos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional) e os Fundos de Investimentos (20,7%).

O problema desta lógica está no fato de a Dívida Pública ser "ilegítima", como define Luciana Genro. Como grande parte desta dívida foi contraída durante a Ditadura Militar (1964-1985) e esse endividamento não se deu de forma clara, a candidata defende uma auditoria para averiguar qual seria o valor real devido pelo Brasil. A partir deste processo, caso seja eleita, seu governo teria condições de investir mais nas áreas sociais.

Entrevista
Alex Contin: Em várias entrevistas e também no programa de governo da candidata é citado o capital financeiro como um elemento que impede o desenvolvimento do Brasil por conta do pagamento dos juros. Como a candidata vê o Brasil se desenvolvendo sem a intermediação forte do capital financeiro como hoje?

Luciana Genro: Atualmente, o governo federal destina mais de 40% do orçamento para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, que tem como principais beneficiários os grandes bancos e investidores, ou seja, o grande capital financeiro. Enquanto isso, áreas sociais fundamentais como a saúde e educação recebem cerca de 4% dos recursos federais.

É importante ressaltar que esta dívida está repleta de graves indícios de ilegalidades, razão pela qual é necessário fazer uma ampla e profunda auditoria sobre ela. A auditoria da dívida está prevista na Constituição de 1988, porém, jamais foi realizada.

Por isso, enfrentar o problema da dívida é pré-condição para o crescimento significativo dos gastos sociais e para o desenvolvimento do país. Para maiores detalhes sobre este tema, vejam o seguinte artigo:

Outra consequência da supremacia do capital financeiro é a altíssima taxa de juros para financiamentos às pessoas e empresas. Conforme mostram os dados do Banco Central, atualmente a taxa média dos empréstimos dos bancos para pessoas físicas é de 43,2% ao ano, e para pessoas jurídicas, de 23,1% ao ano, taxas estas ainda superiores à taxa Selic, atualmente de 11% ao ano. Isto significa que os bancos apenas se interessam em emprestar a pessoas e empresas a juros altíssimos, pois possuem rendimentos garantidos emprestando ao governo.

Com a revisão da política de endividamento público, os bancos se verão na obrigação de emprestar ao setor produtivo e às pessoas a juros baixos.

A.C.: Uma das críticas à situação do Brasil hoje é o fato de o país não estar inserido na cadeia mundial de produção. A candidata enxerga esse fato como positivo ou negativo? Se estar fora da cadeia mundial é positivo, de que forma o Brasil pode melhorar sua balança comercial e depender menos do agronegócio? E se for negativo, qual seria o caminho que a candidata vê para que possamos superar esse atraso?

L.G.: Atualmente, o Brasil se insere na economia mundial basicamente como fornecedor de matéria prima, e importador de produtos industriais, o que é negativo, pois desta forma o país gera renda e empregos lá fora e corta empregos e renda aqui dentro. Isto ocorre pois o setor primário-exportador não agrega valor aos produtos, gera pouco emprego e concentra fortemente a renda, além de impactar o meio-ambiente.

Um dos fatores que contribuem para este processo é o câmbio, que se valorizou nos últimos 8 anos, barateando as importações e encarecendo as exportações. Isto ocorre devido às altas taxas de juros brasileiras, que estimulam investidores do mundo inteiro a trazerem seus dólares ao Brasil, para ganhar dinheiro fácil por meio do endividamento público “interno”. Com excesso de moeda estrangeira aqui dentro, o preço do dólar cai. Para resolver esta situação, é necessário reduzir as taxas de juros e estabelecer controles sobre o fluxo de capitais, conforme já fazem vários países, com sucesso.

É preciso também um investimento pesado em educação, além de fomentar a Ciência e Tecnologia, que hoje recebe apenas 0,38% do orçamento federal.



Fonte: Fanpage da candidata no Facebook

A.C.: A história do Brasil é marcada pelo domínio político e econômico de uma elite agrária. Vendo o Balanço de Pagamentos atual é visível esse fato dada nossa pauta exportadora. Além dos bancos e do capital financeiro, a especialização em produtos primários no Brasil é vista pela candidata como algo negativo?

L.G.: Sim. Conforme colocado na questão anterior, o Brasil se insere na economia mundial basicamente como fornecedor de matéria prima, e importador de produtos industriais, o que é negativo, pois desta forma o país gera renda e empregos lá fora e corta empregos e renda aqui dentro. Isto ocorre pois o setor primário-exportador não agrega valor aos produtos, gera pouco emprego e concentra fortemente a renda, além de impactar o meio-ambiente.

É preciso reorientar o sistema agrícola brasileiro, priorizando a agricultura familiar, que produz a maior parte dos alimentos consumidos no Brasil, e gera a maior parte dos empregos no campo, apesar de responder pela menor parcela das terras e financiamentos agropecuários.


A.C.: Temos o potencial de nos desligarmos de uma pauta exportadora que dependa tanto de commodities e começarmos a produzir e exportar produtos de tecnologia? Se sim, de que forma?

L.G.: Em primeiro lugar, é preciso mudar a política cambial, que promove a invasão de produtos industriais, principalmente da China. Em segundo lugar, conforme também já colocado, é preciso investir pesadamente em educação, mas parece que esta não é a agenda do governo, visto que recentemente o Plano Nacional de Educação foi desfigurado em sua meta de investir 10% do PIB na Educação Pública. A base do governo no Congresso – em total sintonia com o PSDB – aceitou a contabilização (para fins da apuração dos 10% do PIB) dos recursos públicos destinados à educação privada, o que, na prática, significa a redução dos recursos para a área de educação. Além disso, é notório que o ensino superior privado no Brasil não se interessa em investir em pesquisa científica, deixando esta função essencialmente para o ensino superior público.


A.C.: Qual é a posição que as universidades públicas e suas pesquisas têm no programa da candidata?

L.G.: As universidades públicas têm um papel fundamental no desenvolvimento do país, porém, os governos têm destinado uma fatia ínfima do orçamento federal (cerca de 4%) para a área de educação. As universidades públicas são as principais produtoras de pesquisa científica. Portanto, para que possamos nos tornar independentes tecnologicamente, é necessário enfrentar o capital financeiro e mudarmos a política econômica, por meio de uma profunda e ampla auditoria da dívida pública, que atualmente consome cerca de 10 vezes mais recursos que a educação.

A.C.: A grande mídia aborda constantemente um "pessimismo" dos industriais e investidores brasileiros. A candidata concorda que haja mesmo esse pessimismo em relação à economia brasileira? Se sim, de que forma é possível conquistar a confiança novamente?

L.G.: Conforme colocado anteriormente, é preciso mudar a política cambial e reduzir os juros, para que a indústria nacional possa sobreviver. Porém, quando eu falo na indústria, estou me referindo prioritariamente aos trabalhadores, que estão sendo demitidos, por exemplo, no setor automobilístico, apesar deste setor ter obtido imensas desonerações de tributos recentemente.

É preciso, além de reduzir os juros e os tributos sobre o consumo, impedir as demissões e proteger os trabalhadores. Do contrário, os ganhos da indústria irão se traduzir somente em aumento nos lucros dos empresários, e não na melhoria de vida do povo. 

A.C.: Em uma entrevista à Folha de S. Paulo, a candidata foi questionada sobre o fato de a mídia dar visão apenas para os três "principais" candidatos. Além de dar visibilidade apenas a eles, qual outra crítica a candidata tem sobre a cobertura da mídia nas eleições deste ano?

L.G.: Geralmente, a grande imprensa costuma omitir os principais problemas do país, como, por exemplo, a dívida pública. Em qual telejornal foi mencionado que mais 40% do orçamento federal é destinado ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública? Nenhum. Esta informação apenas foi transmitida à população nos debates dos presidenciáveis. Desta forma, a grande imprensa reproduz o discurso dominante, feito por comentaristas quase sempre alinhados com o pensamento do capital financeiro, que sempre costumam elogiar quando, por exemplo, o país faz o chamado “superávit primário”, sem dizer que isso significa, em bom português, o corte de gastos sociais para o pagamento de uma dívida ilegítima.


A.C.: Ainda falando sobre a mídia, é nítido o envolvimento direto entre bancos (capital financeiro) e a grande mídia. A queda da Selic em 2012 para 7,5% provocou um ataque ao governo usando a mídia como porta-voz deste sistema financeiro. Caso a candidata seja eleita, como será possível enfrentar o capitalismo financeiro sendo que ele tem a mídia como aliado? Neste caso, a mídia é um componente considerável nesta batalha?

L.G.: Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que, ao mesmo tempo em que o governo reduzia a Taxa Selic em 2012 para 7,25% ao ano, o mesmo governo passou a emitir títulos a taxas de juros superiores à Selic, de modo que o custo médio da dívida federal acumulado nos 12 meses terminados em dez/2012 era, simplesmente, de 11,55% ao ano. Portanto, o “mercado” gosta de reclamar de barriga cheia.

Para, de fato, vencer a dominação do capital financeiro, é preciso fazer uma ampla e profunda auditoria sobre esta questionável dívida. Claro que a grande imprensa irá tentar desqualificar esta iniciativa, chamando-a de “calote”, e tentando dizer que isto provocaria uma grande crise econômica.

Porém, é interessante citarmos um grande precedente histórico que tivemos no Equador, que realizou em 2007/2008 uma auditoria oficial de sua dívida, com a participação da sociedade civil. Houve vontade política para abrir os arquivos, e foram encontradas inúmeras e graves ilegalidades na dívida, tais como dívidas sem contrato, imposições absurdas do FMI, dívidas autorizadas por pessoas sem poder para tal, juros flutuantes, aplicação de “juros sobre juros” (anatocismo), dentre várias outras irregularidades.

De posse destas informações, o Presidente da República Rafael Correa fez uma ampla e didática divulgação destas ilegalidades flagrantes descobertas pela auditoria, divulgando-as inclusive em cadeia semanal de rádio, de modo a mostrar que aquela dívida já havia sido paga, e era ilegítima. Resultado: os bancos aceitaram prontamente a redução de 70% no valor da dívida mobiliária (em títulos) externa equatoriana, um endividamento que é bastante semelhante ao brasileiro.

Isto mostra que é plenamente possível derrotar o capital financeiro, se houver vontade política e mobilização social.


*****

Minha opinião
Esta entrevista aconteceu por conta de uma atividade proposta por um professor do Instituto de Economia da Unicamp. Na disciplina de Desenvolvimento Econômico Brasileiro nos foi sugerido fazer apresentações rápidas sobre quais eram os posicionamentos dos candidatos à presidência da República sobre o tema que dá nome à matéria. Por conta da agenda da candidata não consegui apresentar as respostas, aqui publicadas, na sala de aula. Contudo, todas as afirmações da candidata aqui expressas estão em seu programa de governo, com exceção a parte sobre a cobertura da mídia, e acho que consegui transmiti-las aos meus colegas de curso.

Acompanhando mais de perto o desempenho da candidata em entrevistas e debates, vejo um esforço enorme para "aparecer". Não no sentido negativo da palavra, mas sim no sentido negativo da democracia brasileira. Como disse na introdução da entrevista, o tempo do PSOL na propaganda eleitoral obrigatória é muito curto. Se não bastasse a divisão desigual neste quesito, a mídia ainda só divulga informações sobre três dos onze candidatos à presidência: Dilma (PT), Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB). Além disso -- como mostrei em artigo recente publicado aqui e no Observatório da Imprensa --, quando a mídia dá espaço a essa "minoria", ainda faz questão de desmoralizar a candidata perante a opinião pública.

Me identifico com as propostas apresentadas pela Luciana Genro. Este ano concluo o curso de Ciências Econômicas na Unicamp e durante os quatro anos de estudo vi a forma como o capitalismo, e seu braço, o capitalismo financeiro, atuam na periferia do sistema, ou seja, nos países subdesenvolvidos. Quer seja em aulas de política, de micro ou macroeconomia, contabilidade nacional ou história econômica geral e do Brasil, a visão que obtive e reforcei é que vivemos em um sistema que privilegia os ricos, a elite burguesa, classe dominante, ou qualquer outro termo que seja adequado.

Muitos criticam Karl Marx e seus estudiosos usando um argumento superficial: ele é antiquado. Será? Uma leitura atenta do Capital mostra que o que foi escrito no século XIX se mantém vivo até hoje. A questão é que toda a exploração dos trabalhadores hoje é mascarada pelo discurso da modernidade. Hoje não, há algum tempo já. Nos é imposto que é preciso subir na vida, poupar, abrir seu próprio negócio e ser um empreendedor para ser feliz. Primeiro que empreendedorismo pode ser (e é) considerado como um dom. Nem todo mundo tem capacidade e talento para isso. Segundo que a ilusão da poupança é uma máscara usada pela mídia para inserir a crença, quase religiosa, de que é possível ter a mesma condição social de um personagem de novela, basta abrir uma poupança no seu banco de confiança e esperar.

Sendo assim, quando estudei estes temas aqui elencados, ficou claro que o "sucesso" é para poucos nas condições em que vivemos. E quem geralmente não enxerga isso vê no Bolsa Família, por exemplo, um programa que cria "vagabundos". Vê que não é necessário distribuir renda, e mais: que é um absurdo ter uma parte de seu rendimento revertido em assistencialismo.

No fundo, identifiquei as propostas da Luciana Genro com a teoria e a crítica dos quatro anos de graduação em Economia. É sim preciso: distribuir renda; mudar nosso sistema tributário para amenizar a carga sobre os pobres e aumentar sobre os ricos (isso é, deixar de ter uma tributação regressiva e troná-la progressiva); fazer uma reforma agrária; e, mais importante de tudo isso, rever a Dívida Pública brasileira para acabar com o enriquecimento dos bancos e outros agentes do mercado financeiro que se dá às custas do povo.

Penso que seria ótimo se todos pudessem ter a oportunidade que tive de estudar Economia. Como não é um curso desejado por todos, seria ótimo se todos pudessem dedicar uma ou duas horas, antes do primeiro turno das eleições, para avaliar seriamente as propostas dos candidatos. Ler e se informar evita que as propagandas sujas que são feitas nas redes sociais e na internet consigam o que se propõe: desmoralizações de candidatos, desinformação e manipulação eleitoral.

Dia 5 de outubro, portanto, voto 50.

domingo, 14 de setembro de 2014

Eleições, jogo sujo e a venda casada para a classe média



Minha opinião não deve ser surpresa para ninguém: há nas eleições basicamente quatro atores. Elas são dominadas por poucos partidos, disputadas por tantos outros considerados “nanicos”, influenciadas pela grande mídia que exacerba seus interesses em manchetes e coberturas enviesadas e “decidida” (entre aspas mesmo) pelos eleitores.

Acompanhando mais de perto um dos candidatos à presidência da República deste ano, a crítica à imprensa foi um argumento muito utilizado pela candidata do PSol, Luciana Genro. Em mais de uma entrevista ela criticou a falta de espaço que seu partido tem na cobertura da grande mídia. Em semanas não lembro de ter visto seu nome ou de qualquer outro candidato que não seja os três “principais” nas folhas do Estado de S. Paulo ou na tela Globo, por exemplo.  Isso é fato.

Desconsiderando por hora alguns interesses vou me ater à uma entrevista da candidata citada para a TV Folha. A entrevista ocorreu na sexta-feira , dia 12 de setembro, foi transmitida ao vivo e está disponível no site do jornal hoje. Minha intenção não é fazer propaganda política, mas não há como fazer a crítica ao jornal sem analisar o todo da entrevista e como ela foi veiculada.

Quem procura o vídeo de Luciana Genro (PSol) no site da folha vai se deparar com o seguinte título: “Luciana Genro defende invasão de imóveis para moradia; veja entrevista”. No total o vídeo disponibilizado pela Folha tem pouco mais de 46 minutos e não está completo, vide que ele foi cortado antes de a candidata responder uma das perguntas de leitores do veículo.

Analisando do ponto de vista da informação, o título foi fruto de uma declaração da candidata durante uma discussão das ações do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).  O jornalista que a entrevistava questionou qual a posição da candidata quanto às “invasões” de terrenos pelo MTST para fins de moradias sociais. Em sua resposta a candidata faz uma correção: invasão, para ela, é um erro de semântica uma vez que este termo se refere à tomada de um imóvel ocupado; ela usa então o termo ocupação. Genro continua defendendo as ocupações usando como argumento os preços dos aluguéis e a ação de grandes empreiteiras que teriam, na fala dela, comprado grandes conjuntos de terra e “tomado conta do Minha Casa, Minha Vida e hoje quem determina a política habitacional no Brasil são as empreiteiras através do programa” do governo.

Então o jornalista lança o que eu encarei como uma “armadilha”: “A senhora destacou a questão semântica entre invasão e ocupação que não é uma invasão porque o terreno não está ocupado. No caso de um imóvel, de um apartamento, uma família que tenha oito apartamentos, ela tem três apartamentos vazios, não quer alugar, etc., o apartamento não está alugado. A senhora defende a ocupação destes imóveis também?”

A candidata alega que “este não é o método do MTST” e é interrompida pelo jornalista que volta a questionar: “Eu estou perguntando se a senhora defenderia. Se a semântica vale para terreno poderia valer para isso também, ou não?”. Se a candidata é pega ou não na armadilha é questionável. Porém, para o que o jornalista estava em mente a armadilha capturou o urso perfeitamente. É um exemplo claro daquelas perguntas que induzem à resposta que o jornalista quer ouvir para usar como manchete de sua reportagem.

Ao assistir a entrevista completa e levando em conta o programa da candidata e sua atuação no horário político e nos debates aos quais ela é convidada, há três possíveis razões para o que eu enxergo como uma falta de ética e estigmatização da candidata. O primeiro ponto, ligado ao seu programa de governo, leva em consideração sua campanha contra o capitalismo financeiro. Em vários pronunciamentos e entrevistas, Genro atribui aos bancos e ao mercado financeiro o papel de inibidor de uma política mais social uma vez que essas instituições mantém seus lucros enquanto o trabalhador se mantém endividado. Neste ponto questiona-se quais os interesses da imprensa e sua conexão com o sistema financeiro. Durante as ações do Banco Central e do governo Dilma (PT) na derrubada da Selic entre 2011 e 2012 os jornais se colocaram contrários os juros baixos defendendo o interesse do sistema que beneficia especuladores.

A segunda causa possível para o jornalista lançar esta armadilha foi o ataque direto que a candidata do PSol fez à grande mídia e à Folha de S. Paulo. Quando questionada na mesma entrevista à TV Folha sobre a possibilidade de seu governo controlar a mídia, Luciana Genro indagou que a liberdade de imprensa é praticamente uma falácia, uma vez que são os donos dos jornais que determinam o que é ou não veiculado. Além desta acusação, a candidata também apontou a cobertura da grande mídia sobre a corrida presidencial deste ano.

Segundo ela, os grandes jornais e emissoras de televisão só dão espaço para três candidatos “viáveis”, na definição dela, para se votar e complementa: “inclusive a própria Folha que cobre fundamentalmente os três candidatos e ignora os demais. Isso não é democracia". Estava o jornalista ofendido ou não por ter tido seu “patrão” acusado de antidemocrático, é uma questão a ser avaliada. Se sim, lhe faltou profissionalismo; se não, esta hipótese está descartada.

Já a terceira, é o fato de o jornalista ter sido corrigido, ao vivo, na questão semântica da palavra invasão. Aí o argumento é o mesmo anterior: falta de profissionalismo ou a hipótese derrubada. A avaliação destes dois primeiros pontos deve considerar a postura dos dois jornalistas durante a entrevista.

Independente de qualquer uma das alternativas, ao analisar a entrevista da candidata e suas propostas para seu possível governo, o título poderia ser diferente. Ela defendeu imposto sobre as grandes fortunas, portanto, um título possível seria: “Luciana Genro defende taxação sobre grandes fortunas para investir em educação”; ou então sobre o casamento civil igualitário; a descriminalização da maconha; o fato de ela querer consultar o povo sobre a reeleição de ocupantes de cargos políticos; entre outros.

O que a Folha fez faz parte de uma estratégia de desmoralização desta candidata, o que não necessariamente isenta outros candidatos de passarem pelo mesmo. Sendo um jornal lido pela classe média, o editor que escolheu o título apelou para o imaginário popular ao usar “defende invasão de imóveis para moradia”. Em primeiro lugar, o jornalista foi corrigido no uso da palavra invasão, para Luciana Genro seria ocupação.

Em segundo, há um preconceito contra qualquer movimento que fira o “direito da propriedade privada” no mundo liberal em que vivemos. Quando a candidata foi questionada sobre a possibilidade de ocupação de “imóveis”, leia-se “apartamentos que não estão habitados”, o jornalista resgatou do imaginário popular o temor de que o grupo MTST começasse a “invadir” apartamentos em São Paulo para garantirem moradias sociais. Esta estratégia não é nova, há antecedentes na política como na eleição de Lula (PT) em 2002 quando o petista precisou fazer uma carta para sossegar o mercado financeiro alegando que não haveria grandes revoluções na política brasileira.

O que é visível aqui é uma candidata de esquerda sendo colocada à margem do debate eleitoral e mais, ganhando um papel que não lhe cabe. Recorrer ao imaginário dos leitores da Folha para que eles associassem Luciana Genro ao MTST e sua defesa de ocupações de terrenos desocupados é um jogo sujo. O título induz o leitor, ou neste caso, internauta a esperar pelo momento crucial em que a candidata faz a afirmação que casa com o que foi vendido aos seus olhos.


Trata-se pontando de uma venda casada e uma propaganda enganosa. Enganosa porque a candidata foi pega numa armadilha, o jornalista cometeu o “erro de semântica” no título da notícia e o que o título vende não é necessariamente o que a candidata afirmou. E é uma venda casada porque fornece aos leitores do jornal um box de manutenção da direita, dos interesses da classe média e da propriedade privada e de brinde uma mensagem: “não vote nela ou seu apartamento será invadido”. Agora fica a pergunta ao jornalista da Folha: há em São Paulo mais proprietários de oito apartamento ou famílias que destinam grande parte de seu salário ao aluguel?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Minha qualificação da dissertação...

Depois de um ano e meio de trabalho, finalmente apresentei minha qualificação no mês passado. Uma amiga me perguntou quais foram as minhas impressões deste exame e resolvi escrever este texto para compartilhar com mais pessoas que passarão por essa experiência/etapa da dissertação.

Desconheço como é o exame de qualificação em outras universidades e institutos da Unicamp. Apresentei o meu no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp), onde faço o curso de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural. O objetivo principal da qualificação é apresentar o desenvolvimento da dissertação após um ano de trabalho.

Em geral sei que é preciso apresentar ao menos um capítulo teórico iniciado e um capítulo mais empírico, que apresenta como a pesquisa está tomando forma. Minha dissertação é uma análise da cobertura das revistas Veja, Carta Capital, Isto é e Época do processo de privatização durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995-2002.

Por conta do projeto, apresentei três capítulos parciais: um sobre comunicação e economia, outro sobre jornalismo econômico e um terceiro que é uma análise parcial de quatro edições das revistas Veja e Carta Capital.  Não tem como apresentar três ou quatro páginas e dizer que está em andamento, óbvio, mas também não é preciso que os capítulos estejam concluídos já.

Esses capítulos, ou melhor, este texto geral é analisado por dois professores convidados. Eu escolhi uma ex-professora de Jornalismo (que tive no Isca Faculdades e hoje dá aulas na Unimep e na PUC Campinas) e um professor de História Econômica da Unicamp. Entreguei uma cópia do trabalho impressa para cada um 20 dias antes da banca para que eles tivessem tempo de ler e analisar o conteúdo.

No dia da apresentação, na minha visão, cometi um erro: quis apresentar o todo do trabalho para os dois professores convidados e para minha orientadora. O problema é: eles já leram, então pra quê apresentar tudo de novo? Este foi um problema a partir do momento que excedi o tempo de 30 minutos de apresentação. Então fica uma dica: apresente o básico dos capítulos teóricos e foque nas análises, quando a pesquisa for quantitativa ou qualitativa.

Depois de apresentar veio a arguição dos membros da banca. Algo que minha orientadora (Graça Caldas) falou desde o começo é: os professores da banca vão fazer suas críticas ao trabalho, mas cabe a nós dois aceitar ou não as sugestões deles. E é justamente isso que ocorre. Além de elogios, os professores fazem sugestões muito importantes para a continuidade do trabalho.

Um exemplo da participação da banca é a inclusão da teoria organizacional no meu trabalho. A professora de jornalismo apontou que minha defesa da manipulação da mídia ficaria vaga se eu não analisasse a organização das empresas que estão por detrás das revistas. Ou seja, dizer que a imprensa manipula a informação com base em uma ideologia X ou Y é vago uma vez que qualquer construção de texto é um processo de manipulação de fontes, palavras e informações. Sendo assim, não basta analisar o contexto social, econômico e histórico para enquadrar uma revista como heterodoxa ou ortodoxa. A dica da professora foi justamente voltar um pouco a atenção para essa teoria do jornalismo que comentei e outras que podem me dar mais embasamento para afirmar que a ideologia que está por detrás  das organizações interferem na forma como as notícias são construídas, vendidas e interpretadas pelos leitores.

O professor de Economia da Unicamp, por sua vez, focou na minha construção do contexto econômico. A principal crítica dele é que meu trabalho estava superficial e precisava de uma síntese melhor. Por ser um trabalho interdisciplinar que engloba comunicação, análise do discurso, jornalismo e economia, percebo que é impossível aprofundar tanto quanto eu gostaria em todos estes pontos. Por se tratar de um fenômeno econômico e do jornalismo especializado nessa área não tem como deixar essa discussão sem uma mínima atenção.

A arguição do professor foi pelo caminho da análise da estrutura social que está por detrás dos eventos que ocorreram nos anos 1980 e 1990. Para ele, não basta apenas citar o que aconteceu neste período é preciso se debruçar sobre a parte sociológica e as relações de poder também. Este professor dá aulas que seguem exatamente o que ele arguiu na minha qualificação – justamente por isso que o convidei para o exame. Contudo, há uma delimitação de tempo e “espaço” para tratar do tema. Mas as colocações que ele fez era exatamente o que eu queria ouvir e quero tentar incorporar no trabalho.

Enfim, após a arguição de cada um dos professores, tive um tempo para responder ou me posicionar frente às sugestões e críticas. Foi mais uma formalidade que um momento de discutir o que será incorporado ou não, afinal isso só será definido em reunião com minha orientadora e não com os membros da banca. Portanto, minha impressão é que o exame de qualificação é 30% protocolo e 70% uma nova visão sobre o trabalho. Destaque para este último ponto. A ansiedade de saber a opinião de dois novos professores sobre seu trabalho é muito interessante. Ouvir elogios e mesmo as críticas também.

Espero que tenha sido claro. ;)


Boa sorte para quem vai passar pela qualificação. Logo escrevo sobre a defesa da dissertação, mas ainda tenho mais um ano para trabalhar, então let’s go!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dica superútil: Scanner Pro (app para IOS e Android)

Andei pesquisando alguns aplicativos para facilitar minhas documentações da dissertação e encontrei um que acho que deva ser o melhor: Scanner Pro. O vídeo abaixo mostra como o aplicativo funciona, mas testei ele pessoalmente esta semana e mais que aprovei.

Para minha dissertação do mestrado preciso escanear várias páginas das revistas Carta Capital, Época e Isto É - infelizmente essas três publicações não têm acervos online como a Veja. Tentei usar o scanner da universidade, mas só consegui digitalizações branco e preto. Além disso, a dinâmica da coisa é muito ruim: ficar virando a revista, segurando a tampa do scanner e tudo mais... Mas usar o iPad para escanear as páginas que preciso foi a solução mais fácil e rápida que encontrei.

Basta abrir a revista na página, focar a câmera, fotografar e deixar o app fazer o resto. Logo após uma fotografia o usuário pode dimensionar as bordas do documento e o app redimensiona no tamanho escolhido (A4, por exemplo). Quando concluir os escaneamentos a série de fotografias é transformada em pdf e pode ser enviada para o iCloud, Dropbox, GoogleDocs, além de outras opções.

O único ponto negativo é fotografar/escanear várias páginas seguidas. Como é preciso ajustar a maior parte das bordas esse trabalho demanda tempo. A solução que eu achei foi fotografar todas as páginas com a câmera e depois, em casa, dimensionar cada uma, anexando elas ao documento.

Para quem trabalha, na academia ou nas redações, com documentos, esse app vale muito a pena!


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Engels e PNUD - o que sobra para os pobres?

Lendo o livro "A situação da classe trabalhadora na Inglaterra", de Frederich Engels, escrito em 1845, me deparei com a seguinte passagem:

"Na escala em que, nessa guerra social, as armas de combate são o capital, a propriedade direta ou indireta dos meios de subsistência e dos meios de produção, é óbvio que todos os ônus de uma tal situação recaem sobre o pobre. Ninguém se preocupa com ele: lançado nesse turbilhão caótico, ele deve sobreviver como puder. Se tem a sorte de encontrar trabalho, isto é, se a burguesia lhe faz o favor de enriquecer à sua custa, espera-o um salário apenas suficiente para o manter vivo; se não encontrar trabalho e não temer a polícia, pode roubar, pode ainda morrer de fome, caso em que a polícia tomará cuidado para que a morte seja silenciosa para não chocar a burguesia." (Engels: 2010, p. 69 - edição da editora Boitempo)

Eis que hoje foi divulgado o Relatório de Desenvolvimento Humano 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A notícia no site da PNUD se inicia assim:

"A vulnerabilidade persistente ameaça o desenvolvimento humano. E se não for combatida sistematicamente por políticas e normas sociais, o progresso não será nem equitativo nem sustentável. Esta é a premissa central do Relatório do Desenvolvimento Humano 2014, divulgado hoje pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD).

"Intitulado Sustentar o Progresso Humano: Reduzir as Vulnerabilidades e Reforçar a Resiliência, o relatório fornece uma nova perspectiva sobre a vulnerabilidade e propõe maneiras de fortalecer a resiliência. 

"De acordo com as medidas de pobreza com base na renda, 1,2 bilhão de pessoas vivem com US$ 1,25 ou menos por dia. No entanto, as estimativas mais recentes do Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) do PNUD revelam que quase 1,5 bilhão de pessoas em 91 países em desenvolvimento estão vivendo na pobreza, com a sobreposição de privações em saúde, educação e padrão de vida. Embora a pobreza esteja diminuindo em geral, quase 800 milhões de pessoas estão sob o risco de voltar à pobreza caso ocorram contratempos. " (Disponível em: http://www.pnud.org.br/Noticia.aspx?id=3910)

Precisa comentar mais? O que realmente mudou entre 1845 e 2014?

Continuando a citar Engels:

"Morrem de fome, é certo, indivíduos isolados, mas que segurança tem o operário de que amanhã a mesma sorte não o espera? Quem pode garantir-lhe que não perderá o emprego? Quem lhe assegura que amanhã, quando o patrão - com ou sem motivos - o puser na rua, poderá aguentar-se, a si e à sua família, até encontrar outro que 'lhe dê o pão'? Quem garante ao operário que, para arranjar emprego, lhe basta boa vontade para trabalhar, que a honestidade, a diligência, a parcimônia e todas as outras numerosas virtudes que a ajuizada burguesia lhe recomenda são para ele realmente o caminho da felicidade? O operário sabe que, se hoje possui alguma coisa, não depende dele conservá-la amanhã; sabe que o menor suspiro, o mais simples capricho do patrão, qualquer conjuntura comercial desfavorável podem lançá-lo num turbilhão do qual momentaneamente escapou e no qual é difícil, quase impossível, manter-se à tona. Sabe que se hoje tem meios para sobreviver, pode não os ter amanhã." (Engels: 2010, pp. 69-70)

E ai, alguma mudança para os dias de hoje?

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Série experiências acadêmicas. Texto 3: Graduação em Economia na Unicamp

Eu sou muito suspeito para falar desse curso por que eu simplesmente AMO, apesar de DETESTAR algumas partes (nada é perfeito). Quando terminei a graduação em Jornalismo e fui efetivado em um jornal diário em Limeira comecei a ter mais contato com matérias sobre economia. Até o final da primeira graduação nunca tinha pensado em fazer outra, mas ideia surgiu quando tentei fazer o processo seletivo para mestrado no Instituto de Economia e não passei (claro). Isso foi em 2009 e neste ano resolvi traçar um caminho diferente: entrar na graduação em Economia, enquanto estivesse nela fazer um mestrado em Jornalismo e quando concluísse os dois cursar o doutorado em Economia. Estou na metade desse caminho...

Bom... sobre o curso agora. Eu sempre costumo parafrasear uma economista chamada Maria Conceição Tavares: “Economia é matemática, história e política” e quem quer ganhar dinheiro no mercado financeiro vá cursar estatística ou matemática. Foi mais ou menos isso que ela disse e hoje eu percebo que ela tem toda a razão (infelizmente).

Minha birra: exatas

Eu, particularmente, detesto a área de exatas do meu curso. Somos obrigados a fazer disciplinas de cálculo e estatística para chegar em econometria. O problema não é cursar essas disciplinas, na minha visão o ruim está na forma como algumas delas são ministradas e avaliadas. Há professores que sequer se importam se o aluno está entendendo ou não e correm com a matéria como se quisessem se ver livres daquela tortura todas as aulas. Outros professores sequer tem a simpatia necessária para lidar com alunos de graduação. Esses acham que o aluno, por passar no vestibular, está 100% pronto e com uma memória ímpar para lembrar todas as fórmulas e macetes necessários para resolver uma conta em meio minuto.

O ruim disso tudo é que algumas avaliações focam mais nesses macetes: “relembre como resolver essa conta usando log”, ou seno e cosseno ou então, “seja capaz de olhar para a fórmula e sacar do fundo da sua memória que toda ela pode ser dividida por um algoritmo e a solução fica muito mais fácil”. Isso é RIDÍCULO. Não se avalia se o aluno entendeu a matéria e é capaz de mostrar esse conteúdo com números e fórmulas simples. Os professores parece que fazem questão de complicar ao máximo para ver se o aluno é esperto ou não (eu não sou, por isso só me dou mal). Ai vem eles dizendo: façam exercício, o treino ajuda. Ok, eu até faço os exercícios, mas ai não me sobra tempo para ler as 400 páginas das outras matérias. E ai? Ai que é cada um por si e Deus por todos!

Minha paixão: humanas

Já a parte de humanas dificilmente tenho reclamações a fazer. As leituras e discussões propostas pelos professores de História e política são ótimas. Elas abrem a cabeça para te fazer entender não só o porque que nossa economia é como é, mas também ajuda olhar para como a sociedade se constrói a partir das relações econômicas e das heranças colonizadoras, no caso do Brasil. O problema disso é que eu acho que o nível de criticismo aumenta, e muito. Ver alguns posts no facebook, por exemplo, podem ser torturantes. Afinal, não é apenas criticar político X ou Y, a política X ou Y adotada aqui ou acola... a história que existe por detrás disso tudo é tão importante quanto a ação tomada no presente. O interessante, contudo, é quando você tenta argumentar com alguma pessoa extremista: você quebra todos os argumentos dela usando a história e ela foge pela tangente.

Agora sobre esse ponto acho que dá para afirmar que a visão da Unicamp é quase totalmente de esquerda. Isso daria um post enorme que eu acho que não estou sequer preparado para defender e explicar, mas não basta apenas cortar gastos, salários e aumentar os juros. Medidas que parecem tão simples podem afetar tanto o desenvolvimento econômico e social de um país e a ala da direita sequer parece parar para pensar na sociedade antes de bradar para todos os cantos suas teorias e soluções para o mundo.

Uma decepção: alguns professores

Já teci alguns comentários sobre os professores de exatas. Uma ressalva: não são todos de exatas que são assim. Tive uma professora que foi excelente tanto na didática quanto nas avaliações. Foi justa. Contudo, não é regra. Como também não é regra que só professores de exatas são ruins, existe professor de humanas PÉSSIMO também. Já ouvi esse argumento várias vezes e tendo a aceita-lo cada dia mais: há professores que se interessam apenas por suas pesquisas e pouco se importam com as aulas na graduação. A pesquisa acadêmica é vista por eles como o que realmente lhes dá status e reconhecimento nesse meio. Por conta disso alguns professores até se recusam em assumir disciplinas na graduação, o que é lamentável.

Em citar nomes, alguns exemplos são professores que não se preocupam com o conteúdo que estão passando para os alunos, simplesmente usam a pesquisa que desenvolvem para ficar discutindo os autores em sala. Ou então ministram algumas aulas com total desleixo e sem a preocupação se o aluno vai aprender o proposto pela disciplina ou não. Cheguei a presenciar um professor no começo da graduação que sequer sabia a matéria que estava ensinando! Quando ele era questionado sobre a resolução do exercício, não respondia e ainda ficava bravo por receber os questionamentos. Mas... nada é perfeito, porém, eu acredito fielmente que o problema disso é a estabilidade que os professores têm. Sem essa estabilidade e com a possibilidade de serem demitidos a qualquer momento por não cumprirem com seus deveres, acho que a qualidade aumentaria muito.

Outra decepção: sem solução para esses professores

Professor ruim exite aqui, ali e lá. Lá você pode reclamar e pode ser que o professor seja até demitido por não estar cumprindo com o seu papel de professor. Ali o aluno pode reclamar e ser simplesmente ignorado porque há um nível de coleguismo entre os professores tão grande que pouco importa a visão da ralé acadêmica. Aqui, no Instituto de Economia, existe o canal de reclamações dos professores (uma avaliação semestral), ela é levada em consideração pela Coordenação do curso mas, mesmo após conversa com o professor, essa coordenação fica de mãos atadas por que não têm nenhum mecanismo legal ao qual possa recorrer para obrigar que o professor mude sua atitude. Dentro da sala de aula o professor é soberano (e alguns acreditam que ditador também), portanto eles têm plena autonomia. A autonomia e soberania, contudo, é tão grande que a maior parte dos alunos tem medo (isso mesmo, medo) de reclamar de algum professor e ser prejudicado por ele nas avaliações. PÉSSIMO.

Conclusão

Professor e profissional ruim tem em todos os lugares, mas mesmo assim meu gosto pela Economia da Unicamp não diminui. A única coisa que tiro de bom desses pontos negativos é a experiência que eu não quero segui quando (e se) eu for um desses professores.



Série experiências acadêmicas. Texto 2: Trabalhar e estudar, vale a pena?

 Uma outra forma de arcar com as despesas pessoais durante a graduação é o estágio. Contudo, eu acho que é preciso ter cuidado na hora de decidir estagiar. Infelizmente nem todos têm condições de continuar estudando sem trabalhar e ter as despesas bancadas pelos pais. Essa realidade é enxergada pela universidade que disponibiliza cursos noturnos em algumas áreas – Economia, Biologia, Educação Física, algumas Engenharias, por exemplo.

Contudo, ter que trabalhar é realmente uma pena por que o tempo para se dedicar aos estudos fica realmente escasso – falo  isso pela minha experiência na graduação em Economia. A quantidade de textos e de exercícios de extas que um estudante precisa estudar é realmente grande. Algumas disciplinas indicam páginas e páginas de leituras obrigatórias e complementares. Meu sonho sempre foi poder ler todos os textos indicados e alguns mais. Consequência disso é que tenho mais livros que tempo para lê-los...

Nos primeiros semestre tive que trabalhar em uma multinacional para me bancar. Era um contrato de 44 horas semanais e uma empresa que sugava minha alma – tanto que passei o Reveillon de 2011 para 2012 trabalhando até 4h da manhã! Por conta disso tive que ficar várias madrugadas acordado para dar conta de ler todos os textos e estudar todo o conteúdo que precisava. Imagino que alguns cursos possam ser mais fáceis ou “administráveis”. Além disso, uma boa administração do tempo e a elaboração de uma boa agenda ajuda muito quando só estudar não é uma opção. E neste caso vale muito a pena dedicar algumas horas pesquisando e lendo livros que ajudem na organização dos estudos. A própria Unicamp oferece algumas disciplinas e palestras para os alunos para ensinar como fazer isso – são muito úteis.

Vale citar aqui um professor desse semestre que disse algo que eu concordo plenamente: “o aluno não deveria trabalhar. Ele esta sendo financiado pelo governo para estudar e trabalhar acaba tirando o tempo de estudo dele”. Isso é pura verdade, mas não condiz com a realidade de muitos. Contudo, eu acho que vale mais uma crítica: universidade pública te oferece curso de graça com dinheiro do povo. Vale muito ter isso em mente antes de resolver fazer um curso para benefício próprio – focar no seu enriquecimento, querer apenas o diploma para ter um bom salário e se dar bem na vida, como, infelizmente, muitos que estão lá dentro fazem e pensam. Não é tão simples assim, mas é uma questão de consciência. Conseguir uma vaga  numa universidade pública e sair dela colando em todas as provas, se enganando e achar que está enganando os professores, pra mim, é ridículo. Enfim... vai da cabeça de cada um.

Agora sobre estágios, aqueles dentro da Unicamp realmente só servem para ter uma renda e não para aprender algo útil para sua carreira. Fiz estágio em uma faculdade e trabalhava no setor de compras. O conhecimento que adquiri para minha carreira foi mínimo. Costumava falar, enquanto trabalhava lá, que “pelo menos se nada der certo eu posso mandar currículo para empresas para trabalhar no setor de compras”, como se fosse fácil assim... E essa constatação não é só minha, vários colegas de sala, ao descreverem seus estágios dentro da Unicamp me deixavam com a certeza de que estágio lá dentro é exploração de mão de obra barata e qualificada. O valor da bolsa não tem revisão há um bom tempo. Porém, é uma opção se o foco é estudar e trabalhar é uma necessidade por que a carga horária é pequena e geralmente flexível o que permite fazer disciplinas durante a manhã ou final da tarde.

Sobre estágio em outros lugares na área de economia não posso falar nada, não fiz, não me arrisco. Contudo, se forem iguais aos estágios que fiz em jornalismo, eu recomendaria na hora! Quando cursei jornalismo fiz estágio em uma assessoria de imprensa e em um jornal diário. Foram os lugares que realmente aprendi a profissão e que também me deram a certeza de querer carreira acadêmica, dado que a instabilidade de um chefe bipolar é péssima.


Série experiências acadêmicas. Texto 1: Estudar em uma universidade pública

Como não escrevo há muito tempo no blog, resolvi contar algumas experiências acadêmicas que podem ser uteis para outras. Será, inicialmente, uma série de quatro textos a começar por este sobre “estudar em uma universidade pública”.

Hoje estou no sétimo semestre da graduação em Economia e no terceiro do mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor, ambos da Unicamp e sobre os quais vou escrever depois. Durante três anos e meio pude presenciar algumas coisas interessantes que resolvi elencar e comentar aqui.

1) Vida acadêmica

A Unicamp é praticamente uma cidade universitária. Ela está dentro dessa cidade e é essa cidade ao mesmo tempo. No começo do curso eu tinha uma visão maravilhada de toda a estrutura da universidade e confesso que até hoje me sinto bem quando ando pelas ruas e institutos de lá. Para quem estudou numa faculdade privada restrita a um complexo de seis prédios interligados (onde cursei minha primeira graduação), ver faculdades e institutos, cada um em seu quarteirão ou quarteirões é muito interessante.

A impressão que eu tinha no começo era de que estava sempre passando por um “portal do conhecimento” quando entrava na Unicamp. Ainda mais como jornalista formado não tinha como não ficar entusiasmado de passar ao lado dos prédios que abrigam especialistas de tantas diferentes áreas do conhecimento. Chegava a pensar que o conhecimento nasce ali, o que não deixa de ser uma verdade, embora tenda a achar hoje que o conhecimento se transforma ali dentro e não nasça. 

2) Oportunidades

Algo que eu sempre ressalto quando defendo que todos deveriam ao menos tentar fazer o vestibular da Unicamp (e acho que de outras universidades públicas também) é o ponto das oportunidades. A Unicamp chega a financiar alunos de baixa renda para garantir que eles consigam estudar. Se você foi capaz de passar no vestibular da universidade, mas não tem dinheiro para se arcar com os gastos de morar longe de sua cidade, o Serviço de Apoio ao Estudante concede alimentação, moradia, vale transporte e outros benefícios para que os alunos consigam se manter. Comparado com a lógica privada de ensino, isso é sensacional.

3) Corpo discente

Algo que me arrependo de não ter participado até agora é do Centro Acadêmico do meu curso. Um CA, geralmente, é um grupo de estudantes que discutem a vida acadêmica dentro de seu curso (essa é uma definição bem simplista). Contudo, até hoje não me senti atraído pelos grupos de estudantes que passaram pelo CA do meu curso, dado que a discussão que eles fazem me incomoda um pouco... contudo, acho que é válido todo estudante ao menos se informar sobre o CA do curso que pretende cursar para participar um pouco das discussões acadêmicas (se elas existirem lá).

terça-feira, 6 de maio de 2014

Você sabe o que é taxa de câmbio real, nominal e Paridade do Poder de Compra?

Fazendo minha monografia para a conclusão da graduação em economia, resolvi escrever um pouco mais sobre alguns conceitos. Esta é a parte que falo sobre taxa de câmbio (ainda não revisada pela minha orientadora) e que vou usar para o próximo vídeo do vlog "Vou ter que desenhar?". Segue o texto:


A taxa de câmbio, no Brasil, pode ser definida como o preços da moeda estrangeira medido em valores da moeda nacional, representado pelo quociente moeda local/moeda estrangeira – R$/US$ em nosso caso (Carvalho et al:  2007, p. 340). Um aumento dessa taxa significa que a moeda estrangeira ficou mais cara, portanto, uma depreciação da moeda nacional ou uma desvalorização nominal na taxa de câmbio, afinal é necessário mais moeda nacional para comprar uma estrangeira. Quando a moeda estrangeira fica mais barata há uma queda na taxa de câmbio, portanto uma apreciação nominal da taxa e uma valorização da moeda nacional.

A importância desses movimentos dos preços das moedas nacional e estrangeira é fundamentalmente sentida pelos setores da economia que mantêm relações com o mercado internacional de bens e serviços e também no mercado financeiro internacional. De forma geral, valorizações da moeda estrangeira (apreciação da taxa de câmbio) estimulam as exportações e desestimulam as importações, quando consideramos tudo mais constante (coeteris paribus). Um exportador recebe mais reais ao converter o dólar em nossa moeda e o importador vai precisar de mais moeda nacional para adquirir um produto precificado nessa moeda estrangeira. O contrário é verdadeiro: desvalorização da moeda estrangeira (depreciação da taxa) desestimulam as exportações e estimulam as importações. A taxa de câmbio é, portanto, o parâmetro que permite realizar as conversões entre as moedas nacional e estrangeiras (quando consideramos também operações em euro, peso e outras moedas).

Essas considerações são feitas utilizando a taxa de câmbio nominal. O cálculo para a taxa real de câmbio (E) é feita por uma equação que considera a taxa nominal (e) que multiplica o quociente entre os índices de preços (inflações) do país estrangeiro (P*) e o índice de preços nacional (P). A inflação interna encarece os produtos de exportação, já a externa encarece os produtos importados e estimula as exportações. 



Outra forma de defini-la é apresentada por  Mankiw (2009, p. 686): “A taxa de câmbio real é a taxa à qual uma pessoa pode trocar os bens e serviços de um país pelos bens e serviços de outro país”.  De acordo com este autor, a taxa real de câmbio é um “determinante-chave” das exportações líquidas, uma vez que a sua depreciação indica que os bens nacionais se tornam mais baratos em relação ao estrangeiro e, com isso, as exportações daquele país aumentam, o que incentiva produção e gera renda.

Contudo, há outros fatores a serem considerados na taxa real de câmbio. Entre eles está o “grau de abertura da economia, a preferência dos consumidores e os ganhos de produtividades no setor exportador (...) [além disso] a inflação é um cálculo médio que inclui uma série de bens e serviços, muitos dos quais não são comercializados no mercado internacional” (Paulani & Braga: 2007, p. 154).


Por conta dessa arbitrariedade do cálculo da taxa real de câmbio, é preciso considerar também outras formas de calcular as relações entre moedas nacional e estrangeira. Uma delas é a Paridade do Poder de Compra (PPC). A teoria da PPC parte da chamada “lei do preço único, de acordo com a qual produtos homogêneos devem ter o mesmo custo nos diferentes mercados, quando expressos na mesma moeda” (Lopes & Casconcelos: 2011, p. 241. O produto comumente usado é o Big Mac, lanche padrão da rede McDonalds. Sendo assim, o preço do lanche no Brasil, em reais, deve ser o mesmo nos Estados Unidos (em dólar) multiplicado pela taxa de câmbio (R$/US$). 

Existe aqui o pressuposto da eficiência do mercado: neste caso não existem custos de transação e, caso o preço em um país seja menor ou maior que no outro, a demanda seria deslocada para o local de menor preço até que ele aumente e o equilíbrio seja restabelecido. As críticas à essa teoria começam pelo custo de transação. É irreal supor que os consumidores se deslocariam de um país para o outro para consumir um determinado bem. Além disso, o custo de deslocamento acaba tornando o bem ou serviço mais caro naquele país que registra menor preço. Portanto, existem bens que não induzem fluxos comerciais independente de seu preço, são eles os bens e serviços não transacionáveis (non-tradeables). Outra crítica é que as cestas de consumo nos diferentes país não são as mesmas.

Bibliografia usada:

BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 4. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.
CARVALHO, Fernando Cardim de et al. Economia monetária e financeira.: teoria e política. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
LOPES, Luiz Martins; VASCONCELOS, M. A. S. de. (org.) Manual de macroeconomia: nível básico e nível intermediário. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2011.
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. 3. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2009.
PAULANI, Leda Maria. A nova contabilidade social: uma introdução à macroeconomia. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2007.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Você sabe como se calcula a inflação?




Inflação não tem segredo: é a variação dos preços. Isso todo mundo sabe e saem notícias na imprensa a todo momento sobre os resultados dos índices de inflação.
A quantidade de índices que medem as variações de preços no Brasil é enorme. Só jogar no Google pra ver. As mais conhecidas são as feitas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). O índice “oficial” do governo é o da IBGE que faz o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o INPC, e o Índice de Preços ao Consumidor  Amplo, o IPCA. A FGV faz o Índice Geral de Preços, o IGP, e a Fipe o Índice de Preços ao Consumidor, o IPC. Existem algumas variações desses índices, tipo o IPCA-15, o IGP-M, IGP-10, IGP-DI e por ai vai... Como o IPCA e o INPC são de um órgão público (IBGE) e considerado oficial, vou tentar falar um pouco mais sobre ele.
Cada índice tem uma "população-objetivo" diferente:
* INPC – famílias com rendimento familiar entre 1 e 5 salários mínimos.  Ou seja, famílias com rendimento familiar entre R$ 724 e R$ 3620. O critério aqui é para ter as “variações nos grupos mais sensíveis”, segundo o IBGE. Essas famílias consomem todo seu rendimento e têm um nível de renda baixo.
* IPCA – famílias com rendimento entre 1 e 40 salários mínimos. Famílias com rendimento familiar entre 724 e R$ 28.960,00.
Para definir essa população objetivo foi  feita a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) entre julho de 2008 e junho de 2009 em 11 áreas no Brasil. Esta pesquisa também definiu qual é a cesta de consumo de cada família, ou seja, o que elas consomem. O IBGE obteve informações de quanto cada família gasta com quais itens dessa sua cesta. A partir daí agrupou os produtos e serviços consumidos em nove grupos, os itens que vou apresentar aqui fazem parte da tabela do IPCA, divulgada pelo IBGE, será possível ver com mais detalhes nas tabelas mais abaixo: 
  • Alimentação e bebida (batata inglesa, tomate, cafezinho, leite longa-vida, ovo de galinha, cebola, carnes, macarrão, entre outros)
  • Habitação (aluguel, artigos de limpeza, energia elétrica residencial)
  • Artigos de Residência (mobiliário, cama, mesa e banho, tv, som e informática)
  • Vestuário (calçados, roupas, acessórios, tecidos e armarinhos)
  • Transportes (combustíveis, transporte público e veículo próprio)
  • Saúde e Cuidados pessoais (remédios, óculos, médicos, dentistas, plano de saúde e higiene pessoal)
  • Despesas Pessoais (recreação, fumo, fotografia e filmagem)
  • Educação (cursos, leituras, papelaria)
  • Comunicação (tarifas de ligações)
Para obter os preços e calcular os índices, foi feita a Pesquisa de Locais de Compra em 1988 para identificar todos os locais usados por essas famílias para comprar os produtos ou contratar os serviços daquela cesta de produtos. Também fizeram um Cadastro de Domicílios Alugados para obter os valores dos aluguéis. A pesquisa dos preços é feita entre os dias 1º e 30 de cada mês. Dentro desse mês são definidos quatro períodos e para cada um deles um conjunto predeterminado e fixo de estabelecimentos.
O IBGE explica que a partir da coleta há alguns processos de críticas dos valores levantados e etc, mas o que interessa saber é que todo esse processo é feito em algumas regiões metropolitanas.

Mapa da cobertura do SNIPC/IBGE

 Fonte: IBGE - Para compreender o INPC: um texto simplificado (2012)


Cada um desses Estados tem um peso específico para o calculo do INPC. Esse peso é estipulado pela população urbana residente de cada estado e parte das populações não cobertas pelo Sistema Nacional de Índice de Preços ao Consumidor (SNIPC) pertencentes à mesma grande região. A partir daí é feita uma média ponderada índices regionais e se chega ao índice nacional.

Resultados de março

Agora em Março o IBGE divulgou os últimos resultados do IPCA e do INPC. A pesquisa desse índice foi feita em fevereiro. A inflação de março fechou em 0,92%, isso significa que no geral os preços subiram esse número.  No acumulado deste ano os preços já subiram 1,65%, mas em um ano, desde março do ano passado, essa variação foi de 6,21%.
Ok, números, números e mais números.  Isso não é novidade para ninguém. O objetivo desse vídeo na verdade era pesquisar sobre como é feita a pesquisa pelo IBGE, mas não vou deixar de falar sobre os grupos de produtos e serviços que mostrei agora há pouco e como os preços variaram neles.
Como sempre aparece na imprensa, há um vilão. Antes era o tomate, dessa vez foi a batata inglesa. Em março a batata subiu 35,05%! Em fevereiro o preço tinha até caído 0,9%, mas março batata frita nem pensar...
O tomate continua subindo. Em março aumentou 32,85%! Em fevereiro o aumento tinha sido de 10,70%. Portanto, batata com ketchup não dá! Molho de tomate para o macarrão, também não.
Por falar em macarrão, o preço dele aumentou 0,72%. Uma variação pequena até, então dá para fazer um macarrão ao alho e óleo, mas o óleo de soja aumentou 3,23%. Talvez um molho branco então, creme de leite, queijo, cebola e companhia ainda dá pra comprar.
A batata inglesa e o tomate foram os alimentos que mais ficaram caros junto do feijão-carioca que aumentou 11,81%.

Variação dos principais itens do IPCA (mar/2014)


Fonte: Indicadores IBGE: INPC e IPCA de março de 2014

O curioso é ver o acumulado em 12 meses desses preços. Em um ano a batata variou 6,05%, o tomate -6,07% e o feijão -30,97%, ou seja, os dois primeiros estão quase com o mesmo preço de um ano atrás e o feijão está até mais barato... Agora o mais interessante dos resultados de março é o grupo de Artigos de Residência. No geral eles só subiram 0,38% em relação a fevereiro. Mas quando vamos lá na tabela dos itens,  TV e Som tiveram seus preços reduzidos em 0,34%. Bem que poderia ser mais né... mas tá valendo.

Minha opinião e um pouco de "economês"

Vale dizer que o relatório do IBGE aponta que as variações grandes nos preços dos alimentos se deu por conta da seca que atingiu as lavoiras de alguns estados do Brasil. O clima este ano estava realmente pesado. Um calor enorme aqui, chuvas enormes ali... gente passando frio no sul e outras torrando no sol do Nordeste.  Contra o clima não tem o que fazer, mas isso não importa muito para a imprensa e para a política né. Em alguns artigos que saíram num jornal de grande circulação o autor só faltou apontar o dedo para a presidente e dizer que ela é culpada por não chover no nordeste!
O tema da inflação também desperta outro ponto no noticiário: sobre o teto da meta de inflação. Em 1999 o Brasil adotou um Regime Monetário de Metas de Inflação. Ou seja, a política econômica estabeleceu uma meta para a inflação para manter a estabilidade dos preços. A meta que temos hoje é de uma inflação de 4,5%, mas há bandas de 2% para mais ou para menos. Isso significa que a política do governo pode trabalhar com inflações entre 2,5% e 6,5%. O acumulado de 12 meses já está em 6,21% e há previsões de que o governo feche este ano acima dessa meta de 6,5%.
O problema que eu vejo  e que eu aprendi é que a inflação e a má condução dela atrapalha as empresas e investidores, o que chamamos de agentes econômicos, de terem uma visão clara do futuro e estipularem estratégias para sua produção. Esses agentes trabalham com expectativas. Eles têm expectativas de que a inflação continue subindo ou comece a cair. Essas expectativas estão muitas vezes  nos jornais... há algumas pesquisas que mostram o que os empresários estão esperando da inflação e de outras variáveis para o futuro. Em ano eleitoral então, jornal contra o governo adora levantar essa bandeira e chega a ser entediante a forma como eles noticiam as variações de preços. Ninguém dá soluções ou reflete sobre o tema, só sabem criticar, critica e criticar. Claro, por que vão fazer diferente se não é o partido que eles apoiam que está no poder?
Enfim, inflação descontrolada pode ser realmente um problema para empresários. Além disso, ela corrói o nosso poder de compra. Esse termo também está sempre nos jornais. Ele significa que podemos comprar menos com nossos salários a medida que a inflação aumenta. Se o nosso salário é de R$ 1000 hoje, podemos gastar R$ 1000 em produtos e serviços. Se em dez anos a inflação é de 10%, isso significa que perdemos R$ 100 e nosso poder de compra passou para R$ 900. Os salários são reajustados apenas anualmente, enquanto o reajuste não vem, vamos perdendo poder de compra até que na data base a correção é feita, mas mesmo assim os preços do próximo mês já vão ter variado. Isso é um problema... por isso, também, que seria ideal manter a inflação baixa.

Fontes:

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Resposta ao comentário: o caso da laranja

Recebi um comentário no vídeo sobre Balanço de Pagamentos do Brasil no vlog "Vou ter que desenhar?".

Luiz Rodrigues disse:

" Estava indo tão bem... Escorregou na laranja. E feio. Brasil não exporta laranja e sim suco de laranja! Erro trivial? Não! Invalida toda a argumentação. FCOJ, o suco, é commodity. Tomador de preço no mercado. Já a laranja "in natura" pode ser algo especial. O Brasil importa laranjas especiais de Israel, Espanha e Uruguai. (uia! tapuia!). Por fim, os EUA são grandes exportadores de suco de laranja. Raramente importam do Brasil. Concorrem conosco nos grandes mercados. Especialmente na Europa."

Antes de mais nada obrigado pelo comentário! Ainda dando meus primeiros passos é importante receber um alerta como este para ficar mais atento nos próximos vídeos.

A questão da laranja

Acredito que realmente eu tenha "escorregado na laranja", como o Luiz disse. Contudo, não acho que isso invalide minha argumentação. O Brasil é sim grande exportador de commodities e, apesar de isso ter seu aspecto positivo para a nossa economia, a crítica coloca esse fato mais para o lado oposto. Como disse no vídeo, exportar commodities e não bens industrializados é um ponto de nossa economia que deveria ser superada. "Perdemos o bonde da indústria química e da microeletrônica", como acho que mencionei nos comentários finais e até hoje parece que não recuperamos.

Os dados comprovam. Segundo os dados consolidados de 2013 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, dentre os principais itens exportados pelo Brasil estão minério, complexo de soja, carnes, açúcar e etanol, papel e celulose, café, entre outros. Há também material de transporte químicos, maquinas e equipamentos e equipamentos elétricos, mas basta comparar com as importações para ver seus pesos.


Acredito que a tabela abaixo seja autoexplicativa para a comparação que eu quero fazer, mas vale citar que importamos equipamentos mecânicos, equipamentos elétricos e eletrônicos, automóveis e partes, farmacêuticos e etc.


Agora focando exclusivamente na laranja, vou usar dados do Ministério da Agricultura:

"Setor altamente organizado e competitivo, a citricultura é uma das mais destacadas agroindústrias brasileira. Responsável por 60% da produção mundial de suco de laranja, o Brasil é também o campeão de exportações do produto. (...) São colhidas, anualmente no País, mais de 18 milhões de toneladas de laranja ou cerca de 30% da safra mundial da fruta." (Fonte: Ministério da Agricultura > Vegetal > Culturas > Citrus)
"Cerca de 50% da produção mundial de laranja e 80% da brasileira resultam em sucos industrializados. O principal comprador da bebida brasileira é a União Européia que aumenta significativamente o percentual de importação anualmente. A maior parte das importações mundiais, 85%, é absorvida por apenas três mercados: Estados Unidos, União Europeia e Canadá." (Fonte: Ministério da Agricultura)

As informações acima mostram a validade do comentário do Luis e dão mais algumas informações úteis.

Gostaria, então, de me desculpar pelo equívoco no vídeo e reforçar que meu argumento era para dizer que, como está colocado lá, não fazemos parte da cadeia global de produção e nos limitamos a exportar muito mais commodities que produtos industrializados, o que nos traria mais vantagens no comércio internacional.

Fontes:
Balança Comercial com dados agregados de 2013 - Secretaria de Comércio Exterior / Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

vlog: "Vou ter que desenhar?" - Balança Comercial de Março

Balança Comercial brasileira de março


Já no acumulado do ano, as vendas para o exterior totalizam pouco mais que 49 bilhões de dólares, mas esse número é 4,1% menor que o registrado no primeiro trimestre do ano passado (US$ 847,3 milhões)  quando considera-se a média diária. (em 2014 foi de US$ 812,9 milhões). As importações também diminuíram em relação à comparação da média diária nos dois anos, uma queda de 2,2% (US$ 912,5 milhões em 2014 e US$ 933,2 milhões em 2013). Ainda considerando o acumulado do ano, compramos  US$ 55,660 bilhões, o que nos dá um resultado negativo.

O bem que mais pesa nas compras do Brasil é ainda o petróleo e seus derivados. A conta desse bem representa 75% do saldo negativo do primeiro trimestre de 2014. Contudo, especialistas do governo esperam que essa conta melhore com o aumento da produção de petróleo no Brasil, especialmente com o pré-sal.

Outros dados: o trimestre teve recorde na venda de soja em grão, de carne bovina in natura e de couro e peles. Esses três grupos tiveram crescimento de, respectivamente, 84,4%, 14,7% e 27,3% em relação ao ano passado, 2013. Vale uma observação nesse ponto: dá para reparar o que há de comum entre ele? São todos produtos não industrializados, certo? Ou seja, exportamos commodities, produtos que não passam pela indústria brasileira, mas sim são vendidos para outros países processarem e transformar esses produtos e vender com valor maior para o mercado nacional e internacional. 

Há quem ache que o país deveria se especializar apenas nesses produtos, mas existe um problema aí. Focar nos produtos da agricultura e pecuária não gera tanto emprego quanto uma indústria. Sendo assim, o Brasil precisa focar no seu setor produtivo e incentivar a instalação e criação de empresas nacionais que consigam produzir bens industrializados para exportar. O que falta para isso? Vontade? Disposição política? Quebra do comprometimento com os interesses dessa grande classe capitalista agropecuária? Difícil hein...

Mais um dado sobre nosso comércio internacional: os principais países compradores de nossos produtos são China, Estados Unidos, Argentina, Países Baixos e Japão. Contudo, as perspectivas para o comércio internacional não são boas. A Argentina passa por uma situação difícil de sua economia. Inflação alta e as mobilizações populares mostram um forte descontentamento com a condução da política econômica. O Brasil até tem tentado negociar incentivos para o comércio com o vizinho, mas a situação ainda parece complicada. 

Já a China, a primeira naquela lista de compradores dos nossos produtos, anunciou semana passada que não deve cumprir com a meta de crescimento desse ano.  A meta deles é de 7,5%, mas o governo anunciou que o crescimento pode ser um pouco maior ou menor que esse número. As exportações chinesas caíram 6,6% em março e as importações recuaram 11,3%. Essa desaceleração da China deve contribuir para manter em queda o preço das commodities nos próximos dois anos, segundo o FMI. Com tudo isso, o FMI ainda prevê dificuldades para a América Latina, que deve continuar na marcha lenta.



Mais dados:

O trimestre teve recorde nos embarques de soja em grão (US$ 4,551 bilhões, e aumento de 84,4% em relação ao mesmo período de 2013); de carne bovina in natura (US$ 1,345 bilhão; crescimento de 14,7%) e de couros e peles (US$ 700 milhões; crescimento de 27,3%), entre outros. 

Os principais países de destino das exportações, no acumulado do ano, foram China (US$ 9,6 bilhões); Estados Unidos (US$ 5,8 bilhões); Argentina (US$ 3,6 bilhões); Países Baixos (US$ 2,9 bilhões); e Japão (US$ 1,5 bilhão). E os principais países de origem das importações brasileiras foram: China (US$ 9,7 bilhões); Estados Unidos (US$ 8,8 bilhões); Alemanha (US$ 3,5 bilhões); Argentina (US$ 3,3 bilhões) e Coreia do Sul (US$ 2,4 bilhões).

Fontes:
"Balança comercial de março tem superávit de US$ 112 milhões" - Portal Brasileiro de Comércio Exterior

domingo, 13 de abril de 2014

Vou ter que desenhar?

Como sempre, tentando fazer algo diferente. Tive que fazer um vídeo para a disciplina de Economia Brasileira Contemporânea 2 na graduação em Economia. Aproveitei para fazer algo que curto muito em vlogs, o estilo "draw my life". Vou tentar fazer outros vídeos no futuro, especialmente se este tiver boa aceitação.